Entrevista: Shawn James lança “Passage” e fala do novo disco, influências, dark folk, Brasil e assobios

entrevista de Guilherme Lage

A melhor coisa que pode acontecer em uma entrevista é quando o próprio convidado quebra o gelo antes mesmo de o papo começar. Shawn James é um desses caras. Assim que bateu os olhos em mim, já mandou um: “Adorei a camisa, hein? Eu amo o Dillinger Escape Plan!” Pronto, já estamos apresentados e em casa, agora é só trocar ideia. E nisso ele manda muito bem!

O multi-instrumentista, conhecido por seu vozeirão e por empunhar um violão como poucos, estava em uma sessão de entrevistas para falar sobre seu novo disco “Passage” (2026), lançado em junho. O álbum segue o elogiadíssimo “Honor & Vengeance” (2023), que traz algumas de suas melhores músicas, como “I Want More” e “Muerte, Mi Amor”.

“Passage” traz um Shawn James diferente daquele de 2023, que era mais focado na música western e no outlaw country. Neste disco, o músico flerta mais com o rock n’ roll e o folk puro, ou como ele mesmo diz: Americana. As faixas trazem as já costumeiras contemplações sobre vida e morte, sobre como seguir em frente e uma bem-vinda desconstrução do mito de Ícaro. Sabe? Aquele que voou perto demais do sol.

Falar com o cara é uma experiência surpreendente, porque se a obra é introspectiva, sombria e até “funeralesca”, o homem é o exato oposto: extrovertido, com ótimo timing para piadas e com um talento natural para contar histórias.

O músico, um orgulhoso filho de Chicago, ainda contou ótimos casos sobre como foi nascer e ser criado na cidade dos Bulls, além de suas influências na guitarra e no violão, que vêm, em sua grande maioria, do profundo Sul dos Estados Unidos.

E em um trabalho que traz uma obra tão confessional, o artista revela como lida com sentimentos, muitas vezes complicados, que surgem em sua música: é feita para seguir em frente, é minha terapia. Confira!

Algumas músicas do disco novo, como “Headed for the End”, “Peace Of Mind”, “My Juliet”, são muito rock n’ roll, nos riffs e nas letras. “My Juliet” é quase uma balada mesmo. O álbum é extremamente diferente do “Honor & Vengeance”, que era muito mais western. O que te motivou a fazer um disco assim?
O que eu pensei, quando fiz o “Honor & Vengeance”, antes mesmo de começar a compor as músicas, eu já sabia que queria fazer um álbum conceitual western. Então escrevi as músicas com uma certa instrumentação já em mente, sabe? Era pra ser de um jeito, soar de um jeito e foi isso mesmo o que saiu.

Com esse álbum (“Passage”), eu queria meio que voltar atrás e fazer um disco que não é conceitual, mas um álbum em que cada música conta sua própria história. Com isso, muitas possibilidades se abriram.

Posso fazer qualquer coisa que me inspire. Se eu quiser fazer uma música de rock, vou fazer uma música de rock! Se eu quiser fazer uma balada acústica bem triste, é isso que vou fazer. Se quiser experimentar e misturar gêneros, é isso também que vai acontecer.  Sinto que com o “Passage”, exatamente porque fiz algo tão específico da última vez, queria que esse disco fosse muito aberto, me inspirar por tudo que quisesse e não deixá-lo ser uma coisa só o tempo todo.

Outra música que chamou minha atenção foi “Icarus”. Quando você pensa no mito de Ícaro, pensa em alguém voando alto demais e que cair é praticamente inevitável. É algo que você queria confrontar na faixa?
Sabe o que é interessante sobre Ícaro? É que todo mundo associa a história com arrogância, não é? “Posso voar próximo do sol e eu vou ficar bem”, tudo isso. Mas a verdadeira história tem mais a ver com ele e o pai dele. O pai dele era um inventor, um criador e ele havia sido capturado por um rei em uma ilha e o único motivo que o Ícaro usou as asas foi para escapar. Ele era um prisioneiro. Quando você observa desse jeito, a história se torna diferente. Porque ele nunca teria feito aquilo.

Imagina, se fosse um escravo, o que você faria? Tentaria escapar mesmo que envolvesse arriscar sua vida? É melhor ser livre, ter momentos de liberdade de tentar escapar e viver a vida que você quer ou viver como um escravo? Essa é a verdadeira pergunta do mito de Ícaro. E isso era meio o que eu estava tentando captar com a música e com a letra. Por exemplo, o verso “If flying means falling, so be the cost. At least in the rise I found what I lost”. O que ele perdeu, o que ele está falando, é a liberdade.

Então essa era a minha perspectiva e como eu queria mudar a história de Ícaro um pouquinho, porque muitas pessoas não olham para toda a história do porque ele fez aquilo.

Shawn, você é de Chicago, não é?
Sim, senhor. Sim, senhor!

Chicago é uma cidade cosmopolita, o que signifca que as pessoas têm acesso a muitas culturas diferentes, muita gente diferente. Como isso te inspirou como artista e músico? Porque você deve ter tido acesso a muito tipo diferente de música quando era criança, como música negra, música indígena e até música latina mesmo.
Cara, 100%! Essa é uma pergunta ótima e ninguém nunca tinha me perguntado isso, eu amei! Chicago é multicultural. Eu fui criado por um imigrante grego. Meu pai morreu quando eu era bem novo, e minha mãe se casou com ele e fui criado por ele. Então fui criado por um imigrante grego em uma parte pobre de Chicago onde havia muitas culturas. Cultura hispânica, polonesa, pessoas afro-americanas, então havia essa diversidade enorme.  Então tive um gostinho de culturas muito diferentes muito cedo, de ouvir a música, de conhecer as pessoas tudo isso.

E o meu padrasto, o cara grego, também era dono de um restaurante. E eu ficava por ali com ele e ele servia todo mundo, desde pastores a prostitutas, sabe? Ele tinha um ótimo relacionamento com todo mundo. Então tive essa criação meio maluca em que via de tudo. Meus pais iam à igreja e também eram amigos dos cafetões, das prostitutas e dos membros de gangues também, sabe? Era meio maluco e meio que me ensinou que a vida não é tão simples a ponto de só julgar as pessoas pelo o que elas fazem, você precisa olhar para todas as circunstâncias, sabe?

E estar envolvido naquele ambiente me expôs a tantos tipos diferentes de música, desde o gospel ao blues, música latina, country. Tudo! Eu acho que sem essas experiências eu não seria o músico que sou hoje, de verdade.

Outra coisa que queria te perguntar também é sobre seu assobio. Porque quando um cantor assobia em uma música, geralmente está querendo dar mais camadas ao vocal, mas seu método é diferente. Soa como outro instrumento, é quase como um solo de guitarra.
Quando estou compondo uma música, geralmente gosto de estar sozinho, só para processar os pensamentos e não pensar em ninguém a minha volta. E às vezes, com a parte do assobio, eu penso: aah, essa uma parte rítmica, é uma parte instrumental e aí eu assobio uma melodia.  Às vezes eu gosto tanto, que se torna uma parte da música. Às vezes o assobio se torna um solo de guitarra ou um solo de violino, ou algo diferente. Mas às vezes eu só curto como o assobio soa.

É isso que acontece muitas vezes, estou compondo sozinho e coloco algo ali (risos). Por exemplo, “Through The Valley”, eu tinha essa pausa instrumental aberta e pensei vou tentar pensar em algo, vamos ver o que consigo fazer. E foi meio que isso. Mas uma coisa engraçada, vou te contar uma história agora, o meu padrasto era um “assobiador” de primeira. Ele tinha o assobio mais louco, mais forte que eu já ouvi na minha vida.

E quando eu era novinho sempre ficava falando “eu quero aprender a assobiar, quero aprender a assobiar que nem você”. E ele ficava dizendo: tá bem, então você tem que me seguir, tentar imitar o que eu faço. E foi por causa dele que aprendi a assobiar, mas ele me ensinou quando era um pouco mais velho. Aí ele vivia me dizendo “foi a pior coisa que fiz na vida, te ensinar a assobiar, porque você enchia meu saco, me seguindo todo dia, soprando igual um maluquinho, tentando assobiar sem conseguir, era a pior coisa”. (risos).  Mas agora eu consigo assobiar incrivelmente bem por causa daquilo, então foi isso que aconteceu! (risos).

E nos últimos anos, quando se trata de folk, muitos artistas como Matt Elliott ou King Dude, esse tipo de música, que é muito emocional e, no caso do King Dude, meio esotérica, era chamado de dark folk. A sua música também. Essa é uma nomenclatura que você usaria?
Essa é uma pergunta que as pessoas me fazem, tipo: o que você é? (risos). Desde os promotores dos shows, aos donos das casas que vamos tocar, até os fãs mesmo, que me perguntam: como descrevo seu som pros meus amigos? (risos) Acho que o problema é que algumas músicas são um folk mais sombrio ou gothic folk, em que há esse elemento mais sombrio, há esse peso nelas.

Mas também há coisas que me inspiram que vêm do gospel, do blues, de música orquestral, música clássica, até ópera. É como “Muerte Mi Amor”, aquela música é 100% inspirada em ópera. O jeito que eu faço meus vocais é operístico. Então quando as pessoas me perguntam “o que é sua música? O que é você?” Acho que é até meio interessante de dizer que quando você procura por uma definição real, é Americana. Porque Americana, quando você procura a definição, é uma mistura de gospel, blues, soul, folk, rock, é esse gênero.

Tentar colocar um rótulo na música às vezes é difícil, porque se alguém chegar e disser “esse é um artista de dark folk” e sim, há muitas músicas minhas que são isso mesmo, mas quando eles ouvem uma música que não é dark folk, vão ficar meio perdidas “ué, isso não é só dark folk”.  Então eu tento não colocar um rótulo específico em tudo, mas é difícil, porque as pessoas querem ser específicas (risos).

Acho que se você for de música por música, vai ver: é, essa música no “Passage” é uma música de dark folk. Essa música é rock, essa é um blues, então é difícil definir o que é a coisa toda.  Então eu digo que Americana é tecnicamente o termo, mas quando eu digo “Americana”, sabe o que penso? Penso em country. Mas aí já penso “poxa, mas não é lá country” (risos), porque a definição correta de Americana é essa mistura. Então dizer o que eu faço é uma das coisas mais difíceis da minha carreira (risos), é muito difícil dizer o que faço exatamente.

Eu li uma entrevista com o Jerry Cantrell, guitarrista do Alice in Chains, em que ele diz que quando ele compõe, especialmente músicas para o Alice in Chains, que podem ser consideradas bem sombrias e depressivas às vezes, o que ele está tentando fazer é “vou lidar com esses sentimentos com arte, pra me livrar deles de alguma forma”. A sua música, às vezes, também lida com muitas emoções, como “Muerte Mi Amor”, que é sobre morte, também há perda, tentativas de seguir em frente. É isso que você está tentando fazer também? Lidar com esses sentimentos com música?
Com certeza, com certeza! Quero dizer, realisticamente, a música que eu faço é sobre histórias, sabe? Toda música que já fiz, todo meu processo criativo, é uma história.  Mesmo que você não esteja lendo como um livro, sabe? “Ele foi e entrou em uma floresta, ele encontrou isso…” (risos), sabe? Mesmo que não seja sobre uma emoção específica, é uma história.

Pra mim, a música, quando eu estava crescendo, a música me ajudou a canalizar emoções, era uma terapia. Se eu estava passando por algum momento complicado, encontrava uma música que me ajudava e me fazia chorar e me ajudava a liberar essa emoção de uma forma que eu não sabia como fazer antes.  Então comecei a criar a minha própria música. Sabe, não estou tentando criar música única e exclusivamente para este propósito, mas acontece demais, porque essa é a minha terapia, é assim que supero coisas, é assim que deixo as coisas irem, então sim!

Há muitas músicas nesse disco novo, como “It’s Alright”, “Tired of Trying”, “Burn”, “Sometimes”, lidam com emoções bem pesadas, porque era o que eu estava sentido quando as escrevi. Para deixar esses sentimentos para trás, eu tinha que colocar pra fora. Então sim, muitas vezes, com essas músicas, é como terapia, porque elas vêm de um lugar sombrio e difícil.

E muitas vezes essas músicas são as favoritas de muita gente, porque ajuda essas pessoas a fazerem a mesma coisa, então pra mim é uma coisa linda.

Isso me dá um propósito na música muito maior do que eu imaginei que um dia teria. Não é sobre ser “cool” ou ser um rockstar ou escrever algo pra ser popular, fazer um hit. Pra mim o negócio é autenticidade, ser genuíno, ser real e contar uma história com uma lição, um propósito, uma razão, sabe?

E você deve estar cansado de responder perguntas sobre a sua voz, porque você tem mesmo um vozeirão, então vou tentar fazer algo diferente: pode me falar um pouco sobre suas inspirações na guitarra e no violão?
Essa é uma pergunta ótima! Vou ser bem honesto, quando era criança eu estava totalmente focado na minha voz e ser um vocalista, não foi até eu ter uns 25, 26 anos, quando comecei a compor minha própria música, que foi aí que percebi “é, se eu quero compro minhas próprias músicas, preciso aprender a tocar instrumentos”. Então eu aprendi a tocar guitarra pra que eu pudesse escrever minhas próprias histórias e músicas para que eu pudesse cantá-las.

Com o tempo, enquanto eu escrevia essas músicas, eu emulava pessoas que ouvia muito e respeitava demais. Então, uma influência clara pra mim, que acho muito óbvia, mas as pessoas não conectam os pontos, é o Bill Withers. O jeito de tocar do Bill Withers é muito simples, mas muito rítmico. Ele foi uma grande inspiração pra mim quando compus a música “Flow”, vou até te mostrar, só um segundo. (Neste momento, Shawn se levantou para pegar um violão e mostrar como a música é tocada).

Você pega a “Ain’t No Sunshine”, do Bill Withers, que tem três acordes e a “Flow”, é bem simples, porque sou um guitarrista bem básico, virou isso. (Ele mostra a mudança de ordem entre os acordes das duas músicas para mostrar a influência). Hoje eu mando bem, mas acho que existe uma beleza na simplicidade com que eu toco, eu nunca quis detonar na guitarra, nunca quis saber debulhar demais o instrumento, fazer grandes solos.

Eu queria fazer coisas simples em que o baixo ia se encaixar muito bem, pra eu conseguir cantar em cima daquele ritmo. Então o Bill Withers é uma influência gigante, porque ele fez isso. Porque ele era um vocalista complexo, mas um guitarrista simples, e isso é único, é lindo. Então pessoas como ele, muitos músicos de soul, mas em questão de guitarristas, deixa eu pensar… Ray Lamontagne é outro que me inspira. Ele é um cantor e compositor e, de novo, ele não está detonando na guitarra, não está fazendo nada complicado demais, mas é lindo e simples.

Então eu diria Bill Withers, Ray Lamontagne e tenho que dizer os caros antigos do blues quando toco as coisas como slide, mais elétricas, então eu diria Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Robert Johnson, e de novo, não são os guitarristas mais complexos, são simples na música deles.  Então eu diria que essa é minha preferência número 1. Eu nunca quis ser um cara que detona (shredder). Tipo, como eu disse, eu amo música como o Dillinger Escape Plan, eu amo os caras que detonam, eu amo ouvi-los, mas não é exatamente o que quero fazer. Eu adoro os guitarristas mais simples e, recentemente, tenho me interessado cada vez mais no violão clássico espanhol, porque existe uma beleza ali que eu também adoro.

Isso é interessante, porque o Mark Lanegan dizia que aprendeu a tocar um pouco de guitarra e usava a própria voz como guia para as notas, tipo: consigo cantar em cima disso.
Pra mim esse é o segredo! E é um bom argumento também, porque se eu estivesse fazendo coisas muito complicadas no violão, não conseguiria entrar na música com meu vocal do jeito que faço, que é o que eu amo. As pessoas se conectam tanto com a voz, que eu quero montar uma boa fundação pra cantar por cima.  E esse é um ótimo ponto, eu nunca tinha ouvido esse ponto de vista antes, muito obrigado por me contar e dizer isso, gostei demais!

E o que você lembra das suas vindas ao Brasil e das coisas que fez por aqui? Acho que no último estava chovendo bastante.
Sim, demais! A energia acabou por um tempão (risos). Mas de verdade, desde a primeira vez que fomos ao Brasil, acho que foi em 2023, até as últimas vezes, em que toquei em um espaço maior, a coisa que vou sempre me lembrar é o quanto o público é apaixonado e se conecta com o momento.

A primeira vez foi em uma casa pra 200 pessoas, da última vez que fui toquei pra umas mil pessoas, agora é ainda mais. Às vezes, em alguns lugares, tocamos um show em que parece que estamos só tocando pras pessoas e elas estão só assistindo, aí no fim de uma música eles aplaudem. Aí no fim do show alguém vem pra mim e diz: foi o melhor show que eu já vi! E eu fico: sério mesmo? Porque não senti que você estava curtindo assim, não senti essa energia de você (risos).

Aí você vai pro Brasil. No instante em que as portas se abrem você consegue sentir a energia, consegue sentir as pessoas cantando juntas, consegue sentir o movimento, tem muita paixão e e emoção.  As pessoas são ativamente parte do show, não estão apenas assistindo ao show, eles são parte do show, o que torna os melhores shows pra nós. Aí entramos de cabeça, porque quando sentimos isso, muda o jeito que nos sentimos no palco, nos torna mais apaixonados, mais emocionais, é o melhor de dois mundos.

Essa é a coisa que mais me move e mais me surpreende, é como vocês nos fazem sentir e se conectam com a música. Fora isso, conseguir explorar um pouco da cultura também é incrível. A comida, a feijoada, eu amo feijoada! Essa é uma das minhas coisas favoritas também. Conhecer pessoas, ouvir as histórias, a natureza.  Essa é outra coisa que eu amo, viajar entre as cidades. As cidades são lindas, mas ver a natureza, as montanhas, as florestas, as praias, tudo diferente é lindo.

E legal ter vindo quando estava sol e também pegou uma chuva, porque acho que sua música combina com os dois climas.
É o reflexo da minha vida, totalmente. Alguns dias são bonitos, outros são o oposto, então acho que combina bastante! (risos).

– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!

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