Ao vivo em SP, Edgard Scandurra e Ema Stoned surpreendem com repertório inédito

texto de Alexandre Lopes
fotos de Regis Bezerra

Dava para sentir no ar que havia um componente extra de curiosidade naquela noite. O encontro entre Edgard Scandurra e a banda Ema Stoned, anunciado sem muitas explicações, prometia um repertório inédito e praticamente desconhecido do público. Em vez de recorrer ao vasto catálogo construído por Scandurra ao longo de mais de quatro décadas de carreira, a parceria preferiu apresentar material totalmente novo na Casa Natura Musical, apostando na surpresa como elemento principal da coisa toda.

Ao lado da Ema Stoned, formada por Ale Duarte (guitarra), Elke Lamers (baixo) e Theo Charbel (bateria), Scandurra conduziu uma apresentação predominantemente instrumental, construída sobre texturas e variados desenvolvimentos melódicos. Era menos um show tradicional e mais a sensação de acompanhar in loco o nascimento de novas canções diante da plateia.

As composições nasceram dos encontros entre o guitarrista e o trio, desenvolvidas a partir de experimentações que ganharam forma nos ensaios. No palco, revelavam estruturas que pareciam se desenrolar lentamente ou de forma espontânea, alternando trechos densos e riffs que às vezes lembravam trilhas sonoras de filmes exploitation.

Em dados momentos, também era impossível não imaginar aquelas canções acompanhando longas de diretores como Jim Jarmusch, pois cada faixa construía uma pequena narrativa própria, alternando climas contemplativos e linhas guitarrísticas, sempre sustentada pelo diálogo entre Scandurra e a base construída pela Ema Stoned.

Embora a plateia ainda não conhecesse praticamente nenhuma daquelas composições, a recepção foi de atenção absoluta. Em vez da ansiedade por sucessos, predominava a curiosidade para descobrir os rumos de cada música. Justamente essa ausência de um roteiro do que viria acabou se transformando em um dos principais atrativos da apresentação.

Com títulos como “Tubarão”, “UTI”, “Tapetão”, “Yo La Tengo”, “Muito Além”, “Chefão” e “Valsa para Derribá”, as músicas revelaram diferentes facetas da parceria, enquanto “Cinzas das Horas”, primeiro single do projeto, surgiu como um dos momentos mais delicados da noite graças ao bonito dedilhado de violão executado por Scandurra.

Em uma das composições, o guitarrista utilizou uma guitarra barítona, ampliando o leque de timbres e reforçando as frequências graves. Assim, o show transitava naturalmente entre o rock, a música ambiente e passagens com certo apelo cinematográfico. Também chamou atenção a releitura de “Porque Te Vas”, clássico composto por José Luis Perales (regravado pelo Pato Fu nos anos 1990). Distante da interpretação romântica eternizada pela cantora Jeanette, a versão ganhou novos contornos dentro da proposta do quarteto, preservando apenas a essência melódica da composição.

O bis destoou propositalmente do restante da noite: a escolha de “Imagino”, de Arnaldo Baptista, gravada recentemente para uma coletânea em homenagem ao músico, introduziu vocais em uma apresentação toda instrumental. O dueto entre Scandurra e Elke Lamers, acompanhado por Ale Duarte em um pequeno xilofone infantil, encerrou o espetáculo de maneira delicada.

Por fim, este encontro entre Edgard Scandurra e a Ema Stoned no palco representou o primeiro capítulo de uma parceria que tem bastante coisa interessante a oferecer. As composições têm unidade suficiente para formar um EP ou álbum cheio – e deixam a expectativa de que esse material não permaneça restrito aos seus criadores por muito tempo.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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