Ao vivo: Dale Crover exibe faceta acústica em noite inspirada em São Paulo

texto de Alexandre Lopes
fotos de Thais Silvestre

Quando se fala em Dale Crover é quase impossível dissociar sua imagem do peso dos Melvins e de suas contribuições aos primeiros anos do Nirvana – ele gravou as baterias de faixas dos discos “Bleach” e “Incesticide”, além de ter participado de shows e do embrião Fecal Matter (junto com Buzz Osborne). Mas quem passou pelo pequeno Porta, em São Paulo, encontrou um artista disposto a revelar outra faceta de sua trajetória na bateria.

Em formato acústico, sozinho no palco, Crover aproveitou a data anterior ao show com o Redd Kross no Cine Joia para apresentar composições próprias, músicas dos Melvins e até uma homenagem a Neil Young. O músico não se apresentava no Brasil desde 2008, quando veio ao país com os Melvins para participar do Festival Orloff Five, realizado no extinto Via Funchal. Na ocasião, dividiram a programação com nomes como The Hives, Plasticines, Vanguart e DJ Tittsworth.

 

Esta noite, porém, começou com a boa apresentação da banda paulistana Qmar, responsável por preparar o terreno para um espetáculo bastante diferente daquele que muitos imaginavam ao comprar o ingresso. Formado por Paula Rebellato (Rakta, Madrugada) e Cacá Amaral (Rumbo Reverso, ex-Firefriend), com participações pontuais do saxofonista Oscar Cuca Ferreira, o projeto explora a canção, o improviso e texturas eletrônicas. Equilibrando ritmos de bateria, vocais carregados de delays e teclados hipnóticos, o duo chegou a lembrar Portishead em alguns momentos. Vale conhecer o álbum de estreia, “Orações Oferecidas a Estranhos”, lançado este ano.

Em seguida, sem banda de apoio, Crover subiu ao palco apenas com violão e microfone para revisitar seu repertório solo. “I Can’t Help You There”, a chicletuda “Doug Yuletide”, “Rings”, o powerpop “Jane”, “Spoiled Daisies”, “Flamboyant Duck” dos Melvins, a inédita “Get Yer Ba-Ba’s Out”, “I Waited Forever”, “Little Brother” e “Kitten Knife” apareceram em versões despojadas, revelando um músico muito mais melódico do que sua fama como baterista pesado costuma sugerir.

Entre uma música e outra, o norte-americano conversava bastante com o público, contava histórias da carreira, agradecia a recepção brasileira e revelou que era a primeira vez que ocupava a posição de atração principal de uma noite inteira – o que o motivou a ampliar seu repertório. Porém, nem tudo correu perfeitamente; em alguns momentos, conversas altas vindas do fundo da casa competiam com o violão e a voz de Crover, lembrando um problema recorrente em apresentações intimistas realizadas em bares e clubes de São Paulo. Felizmente, o músico preferiu ignorar o incômodo e manteve o bom humor durante toda a noite.

Em um dos momentos mais divertidos, antes de tocar “Harvest Moon”, explicou como acabou participando das filmagens do videoclipe oficial da canção. Segundo Crover, a produção procurava alguém que tivesse alguma semelhança física com Neil Young e ele acabou sendo selecionado e atuou no clipe da canção vestindo sua jaqueta, entre outras coisas: “I had to drive his car. I crashed this car. I had to dance with this wife. I didn’t crashed his wife”, brincou.

A delicada interpretação do clássico (que contou com coro do público) foi imediatamente emendada com “The Bit”, dos Melvins, criando um contraste curioso entre o folk romântico e o peso característico da banda que ajudou a redefinir os rumos do rock pesado desde os anos 1980 – o encontro dessas duas canções já foi lançado como single de apresentação do EP “Get Yer Ba-Ba’s Out”, que ele lança em setembro.

Antes de deixar o palco, agradeceu novamente ao público, elogiou o Qmar pela abertura e afirmou que espera retornar em breve, desta vez com os Melvins. Sem precisar recorrer ao volume ensurdecedor que o transformou em referência para gerações de bateristas, Dale Crover mostrou que também sabe construir apresentações simples com boas canções, histórias sinceras e uma proximidade rara com o público. Ficou a sensação de que o intervalo de dezoito anos entre suas passagens pelo Brasil foi longo demais. Que sua próxima visita aconteça bem antes disso.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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