texto de Luiz Mazetto
fotos de Fernando Yokota
Após quase vir ao Brasil em 1994, num show que teria ainda Stone Temple Pilots e Ramones e foi cancelado em cima da hora, o Redd Kross finalmente fez sua tão aguardada estreia em solo brasileiro com uma apresentação nada menos que histórica numa noite fria (mas agradável) em São Paulo. E aqui o clichê do “valeu a espera” é mais do que verdadeiro para a banda fundada pelos irmãos Jeff (vocal e guitarra) e Steven McDonald (vocal e baixo) no fim dos anos 1970.
Com alguns minutos de atraso, já perto das 22h, o quarteto da Califórnia, que atualmente também conta em sua formação com o baterista Dale Crover (que também toca no Melvins com Steven) e o guitarrista Jason Shapiro (Celebrity Skin), subiu ao palco com “Huge Wonder”, do seu disco mais conhecido, “Phaseshifter” (1993), que dominou o setlist junto com o primeiro e o último disco da banda, ambos autointitulados.

Trazendo um riff principal altamente hipnótico, com ecos da parte final de “War Pigs”, do Black Sabbath, a faixa é ideal para abrir um show, com uma intensidade crescente que explode ao final com as viradas sem igual e a mão pesada de Crover (recém-anunciado como integrante do Sleep). Dali em diante, pode-se dizer que a noite já estava ganha e os sorrisos eram gerais, tanto no palco quanto na plateia, em uma comunhão verdadeira entre os presentes no Cine Joia.
A noite seguiu com músicas de todas as principais fases e álbuns da carreira do Redd Kross, que sempre passeou com naturalidade por estilos como punk, power pop, rock setentista e grunge (ou rock alternativo), com destaque para “Neurotica” (1987), do álbum de mesmo título, produzido por Tommy Ramone e que virou o trabalho mais cult da banda, “Mess Around”, único som do injustiçado “Show World” (1997) a se fazer presente, “Annie’s Gone”, também única de “Third Eye” (1990) com seu refrão grudento e uma performance especial de Jeff, sem baixo e com um pano no rosto.

Ainda teve tempo para as animadas “Uglier” e “Stay Away from Downtown”, de “Researching the Blues” (2012), disco que marcou a volta da banda após um hiato entre o fim dos 1990 e início dos 2000, e os hits obrigatórios “Lady in the Front Row” e “Jimmy’s Fantasy”, além da pesada “Crazy World”, essas três do já citado “Phaseshifter” e que tiveram seus refrãos cantados de forma empolgada pelo público.
Outro ponto alto foi a presença de nada menos que quatro músicas do mais recente trabalho do Redd Kross, um álbum duplo autointitulado que saiu em 2024 e parece condensar de forma quase perfeita as quase cinco décadas de existência da banda. O público de São Paulo foi agraciado com os singles “Candy Coloured Catastrophe” e “I’ll Take Your Word for It”, além das intensas “Stunt Queen” e “Emanuelle Insane”. Outra boa surpresa foi a dose dupla de Beatles no set list, primeiro com uma versão cadenciada e divertida de “It Won’t Be Long” e, depois, com “I Want You (She’s So Heavy)” surgindo num medley com “Linda Blair” (do álbum “Born Innocent”, de 1982), e encerrando a primeira parte do show.

Mas a banda guardou a principal surpresa para o fim, mais especificamente para o bis, quando tocou na íntegra, ainda que em ordem ligeiramente diferente, o seu primeiro trabalho, o EP autointitulado lançado há mais de 45 anos, quando ainda usavam a grafia Red Cross. Ao longo de seis músicas e cerca de seis minutos, os presentes (incluindo figuras históricas do punk brasileiro como João Gordo, Clemente e Ariel) foram transportados diretamente para 1980, quando os ainda adolescentes Jeff, aos 15 anos, e Steven, com apenas 12, gravaram esse clássico do punk mundial, e puderam gritar a plenos pulmões os refrões de sons como “Clorox Girls”, “Annete’s Got the Hits”, “Cover Band” e “I Hate My School”. Depois, os tradicionais covers de “Crazy Horses”, do Osmonds, e “Deuce”, do Kiss, em ritmo acelerado e intenso para fechar em grande estilo um dos melhores e mais divertidos shows de rock que São Paulo já recebeu. Que a segunda visita não demore tanto quanto a primeira e passe por mais cidades!

– Luiz Mazetto é autor dos livros “Nós Somos a Tempestade – Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA” e “Nós Somos a Tempestade, Vol 2 – Conversas Sobre o Metal Alternativo pelo Mundo”, ambos pela Edições Ideal. Também colabora coma a Vice Brasil, o CVLT Nation e a Loud!
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/
