entrevista de Guilherme Lage
Nas últimas décadas podemos contar nos dedos quantas bandas que fazem um metal um pouco mais difícil de digerir conseguiram sair das sombras e ser abraçadas por um público mais amplo. No Brasil temos um bom exemplo, com a Crypta rasgando o véu do underground, alçando voos bem mais altos em festivais internacionais e dividindo o palco com grandes nomes do gênero (e de outros) mundo afora.
Também é impossível não citar o Blood Incantation, com seu incrível “Absolute Elsewhere”, que fez até a conservadoríssima Time Magazine se curvar e elegê-lo como um dos melhores álbuns do ano de 2024. Esses nomes fazem parte do submundo do death metal, mas para além da morte, uma banda inglesa tem se destacado como poucas ou quase nenhuma, o Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs (sim, é porco pra caralho!).
A banda tem ótimos riffs, tem fumaça e tem veneno, mas extrapola em muito o stoner rock e o doom metal a que foi associada durante os primeiros anos de atividade. Nos dois últimos discos, “Land Of Sleeper” (2023) e “Death Hilarious” (2025), o grupo mostra sua versatilidade: no primeiro um som que evoca o rock psicodélico e um stoner metal quase ritualístico. No segundo, uma banda furiosa, que parece estar tocando aí mesmo na sala da sua casa, flertando até com o hardcore punk e o sludge.
Talvez, por toda essa gana, a banda de Newcastle tenha sido escolhida para fechar a edição 2026 do Massarifest, que acontece no dia 3 de julho, no Fabrique Club, em São Paulo, ao lado de Macaco Bong e Firefriend (ingressos aqui). Esta será a primeira vez dos ingleses no Brasil e o guitarrista Adam Ian Sykes espera corresponder às expectativas do público. “Vocês têm uma reputação e tanto, mal podemos esperar!”, revela, sobre o conhecido afã das plateias brasucas.
Adam conversou também sobre como rádios independentes podem impulsionar a carreira de artistas underground, o que inspira a banda para além do som e como foi trocar uma ideia com uma das figuras mais polarizadoras (pra não dizer meio irritantes) da sétima arte: Pauly Shore. Confira!
“Death Hilarious” é um disco ótimo que tem uma proposta muito diferente do “Land Of Sleeper”, que é mais atmosférico e ritualístico. O “Death Hilarious” parece mais uma banda tocando ao vivo. Vocês queriam mesmo dar essa pegada ao álbum?
Sim, quando fazemos um álbum, antes mesmo de compor qualquer coisa, já temos uma ideia de que ele deve soar diferente do antecessor de alguma forma. Não estamos nos vangloriando por pensar fora da caixa e nem nada disso, mas é importante tentar dar uma identidade nova e deixar o álbum interessante, então é preciso deixar ele um pouco diferente do anterior. O Sam (Grant, guitarrista) produz todos os nossos discos, então ele conhece o nosso processo e sabe, pelo menos em termos de som, como queremos que o álbum soe. Então eu diria que sim, há sempre um cuidado com isso, antes mesmo de tocarmos a primeira nota.
E mesmo com a influência de vocês no doom metal e stoner rock, vocês não se limitam a isso, há muito mais coisas e muito mais cores no som de vocês. Pode me falar um pouco sobre outras influências que não venham do metal e nem do rock n’ roll?
Acho que todos nós na banda temos backgrounds diferentes em termos de música e influências. Quando você tem cinco pessoas em uma banda que estão totalmente envolvidas no processo de composição, há muitos lugares para essas influências de composição virem e para você conseguir criar algo interessante com elas. Assim, não estamos reinventando a roda e nem nada disso, mas acho que se você tem derivações sonoras vindo de lugares muito diferentes, consegue pegar tudo isso e criar algo novo.
Todos nós crescemos ouvindo Black Sabbath, Led Zeppelin e tudo isso, mas cresci com meu pai organizando “folk clubs”. Meu pai é escocês e minha mãe é irlandesa, então sempre tivemos em casa uma cultura musical muito levada para a música folk tradicional. Eu não sei se essa música tem alguma influência no Pigs, mas talvez de forma subconsciente tenha.
Já o Ewan (Mackenzie, baterista) vem de um lado realmente bem mais voltado para o doom, e ele também sempre teve muito interesse em projetos de música eletrônica, então há esse lado eletrônico também. Mas sempre esteve em bandas super pesadas de doom. O Sam, talvez por ter vindo do lado de produção, gosta de coisas muito interessantes em termos de som, muita música ambiente, noise, esse tipo de coisa.
E o Johnny (Michael-Hedley, baixo) e o Matt (Baty, vocalista), passaram muito da adolescência deles ouvindo nu metal. Mas, na verdade, todos nós passamos, quando aquele tipo de música estourou estávamos todos na idade certa pra curtir (risos). Então eu diria que nós todos temos gostos musicais bastante variados e estamos todos pegando coisas de lugares muito diferentes, espero que isso apareça na nossa música.
Uma coisa interessante é que a música de vocês não é necessariamente “radio-friendly”, mas ela eventualmente encontrou espaço na rádio independente, não é? Como na BBC Radio 6 Music, por exemplo. Como essa exposição ajudou vocês a mostrar sua música para um público maior ao redor do mundo?
O 6 Music, principalmente, tem um papel integral em nos ajudar a fazer o que fazemos e tocar em lugares que nunca nem imaginamos que um dia íamos tocar, como o Brasil e a América do Sul. Nunca pensamos que um dia conseguiríamos ir até aí e acho que essa experiência nos ajudou muito a conseguir.
Somos muito sortudos aqui no Reino Unido de ter o 6 Music, porque eles tocam muitas coisas, há muitos DJs que têm liberdade total de tocar o que eles quiserem e lá há DJs que foram muito, muito legais com a gente.
Acho que por ali também eles sempre deram essa atenção a músicas que não são tão “acessíveis” assim, mas se nos tornarmos uma espécie de porta de entrada para pessoas que ainda não entraram tanto de cabeça no lado mais extremo das coisas, de ser uma escadinha para que elas comecem a ouvir esse tipo de som, isso vai me deixar muito feliz.
Esse é um ponto interessante, sobre ter essa exposição. Em 2024 o Blood Incantation lançou o álbum “Absolute Elsehwere”, a revista Time o apontou como um dos melhores discos do ano. Me deixa feliz de ver que há veículos no mainstream falando sobre bandas de metal.
Eu também, é incrível! Eu vi o Sunn O))) tocar no Primavera Sound em Barcelona, atingindo esse público mais mainstream. Fui ver o Blood Incantation recentemente em Glasgow e metade do público não era formado por metalheads, pelo menos não pareciam ser metalheads (risos) e isso é ótimo. Também adoro o Chat Pile, há muitas bandas incríveis. Então ver as pessoas serem atraídas pela música pesada só pode ser uma coisa boa!
Pode me falar um pouco sobre a cena musical de Newcastle? Claro, conheço o Venom, mas não muito mais que isso. Como anda o cenário musical por aí?
É ótimo, muito legal, acho que a cena por aqui acontece em ondas, sabe? Mas tem sempre gente legal fazendo coisas ótimas. Temos muita sorte de ter umas casas legais e uns produtores de shows incríveis que sempre trazem bandas ótimas pra cá. É interessante porque Newcastle está meio que localizada entre Glasgow e Manchester, que têm cenas maiores. Há bandas muito legais e umas bandas pesadas pra caramba.
Há uma cena de hardcore muito boa por aqui também. Há uma ótima casa de shows chamada Lubber Fiend, que sempre traz bandas incríveis pra cá. São bandas menores, sabe? Mas são aquele tipo de banda que você, normalmente, não teria outra oportunidade de ver. Nós adoramos morar aqui. Tem um motivo pra todos termos continuado por aqui e a cena musical é grande parte disso.
E como está a expectativa pra vir pro Brasil? Porque como artistas britânicos eu posso até apostar que vocês já ouviram muita coisa sobre o Brasil. E vocês fazem um show e tanto!
Olha, pra ser totalmente honesto com você, mal podemos esperar! Vocês têm uma reputação e tanto e mal podemos esperar pra ver isso com nossos próprios olhos. Nós nunca não apreciamos essas experiências. Nós tentamos não ficar com expectativas altas com as coisas, mas dessa vez é diferente, porque mal podemos esperar. Nós vamos pegar nosso voo um pouco mais cedo pra poder chegar aí com calma e ter alguns dias para aproveitar. Vai ser incrível.
Antes de cantar no Pigs, o Matt era baterista em outras bandas. Ter um vocalista que toca instrumentos ajuda bastante num processo de composição. Como funciona isso? Vocês são uma banda que ensaia bastante pra compor com todo mundo junto?
É muito colaborativo, todos damos uma opinião. Nós não geralmente criamos do nada, então quando alguém tem alguma ideia, isso geralmente se torna o esqueleto de alguma coisa. E a partir daí geralmente vamos para algum lugar longe daqui, pra não ter nenhum tipo de distração e nos sentamos juntos o dia inteiro e a noite inteira pra trabalhar em tudo, pegar todas as ideias.
Todo mundo dá ideias, todo mundo mete o bedelho, é bem colaborativo. Todo mundo confia em todo mundo, ficamos felizes quando alguém dá uma opinião sobre algo que precisa mudar. E essa é uma parte legal também de ter dois bateristas, porque o Matt às vezes também sugere coisas para o Ewan. Não há nenhum tipo de limite para a gente poder explorar e opinar sobre ideias de cada um. Eu já estive em bandas em que isso não acontecia e era mais difícil. Acho que do jeito que fazemos é ótimo.
Eu queria perguntar uma coisa sobre o “Land Of Sleeper”, que é um álbum construído sobre camadas de música bem oníricas. Como vocês decidiram colocar a “The Weatherman” como quarta faixa do disco? Porque ela soa como uma grande música de abertura.
Pergunta interessante! A ordem das músicas geralmente surge depois de muita conversa. Nós geralmente damos nomes às músicas juntos. Muitas vezes os nomes não têm necessariamente muita conexão com a letra, nós só nos sentamos e começamos a jogar nomes. Acontece bem rápido.
Uma das coisas que toma muito tempo, geralmente, é escolher a ordem das músicas no disco. Nós tentamos muitas coisas, todo mundo sugere coisas e ouvimos as músicas em ordens diferentes pra ver como vão funcionar no disco, fazemos isso umas 100 vezes, até cansar.
E aí, de repente, alguém diz “deveríamos usar essa música pra abrir o álbum” e todo mundo fala: porra, sim! Como não pensamos nisso antes, é perfeito! (risos). O problema é que geralmente temos umas três músicas que soam perfeitas pra abrir um disco, então temos que escolher e fica naquela: essa música é perfeita pra abrir o álbum, é mas aquela outra ali também é (risos).
Mas se você parar pra pensar, a “The Weatherman”, se você a ouve em um disco de vinil, pode ser considerada a faixa de abertura do lado B do álbum. Então ela, de algum jeito, continua sendo uma faixa de abertura, não é? (risos)
E tenho que perguntar: como foi se sentar e trocar uma ideia com Pauly Shore?
Caramba, o Pauly Shore é conhecido por aí?
Sim, ele é bem conhecido no Brasil.
Ah, eu perguntei porque ele não é tão conhecido assim no Reino Unido, pelo menos não tanto quanto nos Estados Unidos. Foi bem surreal, mas alguns caras da banda não sabiam quem ele era (risos). Mas ele é bom em manter o controle das coisas. Tipo, nós não somos as pessoas mais interessantes do mundo (risos), mas ele conseguiu tirar coisas da gente. Ele é gente boa.
E ele conhecia alguma coisa de música?
Não, ele não fazia a menor ideia de quem a gente era (risos).
E vocês curtem alguma banda brasileira? Talvez bandas que vão tocar com vocês nesse festival?
Eu ainda não olhei o lineup do festival, mas vou fazer isso o mais rápido possível. Mas tenho certeza que ouço música que é do Brasil sem saber que é daí, porque sou péssimo com essas coisas (risos). Tipo, às vezes eu recomendo música para os meus amigos e eles perguntam: nossa, de onde é isso? E eu não faço a menor ideia de onde seja (risos). Tenho certeza que quando chegar aí vou ouvir algo familiar. Tenho um amigo que me mostrou muita coisa brasileira em Glasgow, porque ele estava aprendendo mais sobre esse tipo de música na guitarra.
Mas sobre o nosso show, espero que as pessoas se divirtam bastante, vamos dar o nosso melhor, sem dúvida. A coisa que mais nos empolga nessa vida é ir a lugares novos, e nós sempre adoramos tocar shows, mas quando fazemos isso em locais que nunca fomos, é outro nível. Tomara que a gente consiga ter tanta energia quanto vocês. Pode ser difícil, mas vamos tentar! (risos).

– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!
