entrevista de Leonardo Vinhas
Sabe aquelas resenhas ou indicações de loja que, para apresentar um artista, colocam um “para quem gosta de:”, seguido de outros artistas supostamente afins? Pois bem, se fôssemos usar esse recurso para falar do Carl Satan, teríamos que escrever “para quem gosta de: Hermeto Paschoal, The Cramps, Hurtmold, Dead Kennedys, Hamilton de Hollanda, Frank Zappa e a série ‘Além da Imaginação’”. Parece impossível, mas a música desse quarteto paulistano realmente encontra parentesco estético e espiritual com a obra de todos esses nomes.
Rodrigo Ferreirinha (bateria), Clayton Fernandes (baixo), Ronaldo Aguiar (guitarra) e Léo Sousa (guitarra, órgão, sintetizadores) montaram a banda em 2019 com os pés assumidamente fincados no horror punk, mas já tangenciando as praias da surf music, da música atonal e do pós-rock. Muitas águas (e uma pandemia) se passaram desde então, e o grupo chega ao seu segundo álbum, “Demasiado Humano” (2026), com essa receita muito ampliada, abrindo espaço para choro, psicodelia, trilhas sonoras de TV e cinema, tudo aquilo que você leu no parágrafo acima e mais um pouco.
Gravado em pouquíssimo tempo no Rocha, estúdio já lendário tanto pela quantidade e qualidade de equipamentos analógicos quanto pelo talento de seu produtor e fundador Fernando Sanches, “Demasiado Humano” expande a trilha já sugerida no single “Pós-Tsorume / 32 de Maio” (de 2024, que trazia em seu lado B uma recriação de “Watermelon Man”, de Herbie Hancock, malandramente rebatizada de “Carro da Pamonha”). É um disco pesado e arejado ao mesmo tempo, que alterna grooves diretos e ritmos quebrados, com alguns dos melhores timbres de guitarra e (especialmente) baixo que você vai ouvir nesse ano.
O esmero de Sanches e a precisão vinda da técnica e dos ensaios constantes dos músicos resultou em uma gravação com frescor de ao vivo, mas sem que isso sacrificasse os muitos detalhes – tanto os que já faziam parte como os que passaram a ser agregados ao som da banda, como os teclados de Léo Sousa ou a flauta do convidado Júlio Rocha, que abrilhanta “Espaços Liminares”, “Pra (Não) Falar de Amor” e a versão cantada desta, “Pra Falar de Amor”.
A trajetória da banda, o porquê do nome, traumas pandêmicos, trilhas de cinema, cenas e a sobrevivência do underground foram alguns dos temas que passaram pela conversa realizada por videoconferência com todos os integrantes. Literalmente “alguns” – o papo foi longe e renderia muitas entrevistas mais. Mas a longa discussão sobre a Twilight Zone original deixaria essa matéria muito extensa…
Os primeiros singles são de 2019, e mostravam uma banda mais diretamente punk, parente próxima do surf rock. Daí para o “Demasiado Humano” tem uma diferença enorme de sonoridade. O que aconteceu nesse longo período?
Ronaldo Aguiar: O que não mudou de 2019 para cá, né? O mundo inteiro mudou drasticamente, acho que é impossível você pensar em qualquer coisa na sociedade que não tenha sofrido um impacto grande de 2019 para cá. Teve pandemia, teve populismo de direita, teve inteligência artificial,, guerra – putz, teve tanta coisa que eu achei que nunca iria acontecer! E de repente, tudo aconteceu, e isso reflete na gente de todas as maneiras possíveis. Refletiu na banda. Antes era uma banda que tinha surgido como uma válvula de escape, uma coisa muito lúdica. Não estou falando que o mundo era perfeito em 2019 (risos), de jeito nenhum. Acho que a sociedade já tava vivendo um momento difícil, mas eu acho que a gente ainda usava a música de uma maneira meio lúdica, trazendo coisas de ficção científica. A gente gostava muito de “Twilight Zone”, e tentava dar um jeito de colocar isso na música. O punk rock era uma linguagem que a gente tinha em comum para trazer isso, até mais do que o surf, porque a gente nunca foi “especializado em surf”, e a gente via a combinação disso com a ficção científica como uma maneira de expressar essas coisas esquisitas que estavam acontecendo. Era uma trilha sonora da ciência sendo banalizada na sociedade, as pessoas não acreditando em vacina, e ao mesmo tempo, elas usarem todos os adventos da tecnologia – celular, GPS e todas essas coisas – sem dar o devido respeito à ciência. A gente traz o Carl Sagan como parte do nosso nome porque isso faz parte da essência, da ideia de trazer o cosmos ali, a divulgação da ciência como a nossa grande pauta. Só que… como foi a sua pergunta mesmo? (risos)
Sobre o som da banda ter mudado em relação aos primeiros EPs.
Ronaldo Aguiar: Ah, tá! (risos) Eu acho que, de 2019 pra cá, a gente começou a se interessar por um monte de outros assuntos.
Rodrigo Ferreirinha: O segundo disco já vai para pautas mais específicas, essas coisas que estão acontecendo no mundo, e o terceiro é o momento em que a gente vai para onde cada um quer ir, porque a gente é muito diferente.
Clayton Fernandes: Isso é uma parada que também tem muito a ver com o próprio lance de quando a gente começou a tocar, a gente tinha uma estética que foi sendo construída de uma maneira orgânica, com a gente se juntando com referências diferentes e tal, apesar de eu e o Ronaldo, por exemplo, termos um cenário em comum mais pra Zona Leste. A playlist de cada um vai transitar em direções muito diferentes, então tem um pouco essa mistura que, com o tempo, você vai tocando naturalmente e maturando para outros caminhos. O primeiro EP aconteceu de uma maneira muito natural, mas não era exatamente a proposta que a gente se ativesse naquele estilo específico de som, entendeu? A gente sempre teve a proposta de se permitir explorar outros caminhos também, às vezes trazer uma estética diferente, e no segundo EP (“O Mundo Assombrado por Idiotas”, 2021) isso foi mais acentuado. Eu não participei diretamente dele porque eu estava morando fora – fiquei quase três anos no Japão. Apesar disso, muita coisa foi feita à distância (nota: mas os baixos foram gravados por Carlos Freitas). Já nesse álbum que a gente acabou de lançar, foi talvez um salto até mais longe, no sentido de explorar outros caminhos: às vezes com umas referências que cada um trouxe de música brasileira que estava ouvindo, ou muita coisa do jazz também que a gente consome e tal, mas ainda com uma certa estética que está bem aliada com aquele primeiro EP, apesar de ser bastante diferente. O Nozis (nota: nome que Leo Sousa usa em seu projeto solo) fez um disco solo…
Ronaldo: Que está fantástico também, uma coisa muito, muito bonita.
Mas no “Demasiado Humano” vocês trouxeram gente de fora para tocar, e isso por si só já abre um leque que os anteriores não abriram.
Ronaldo: Primeiro, acho que é importante ressaltar que essas músicas foram compostas com ideias de cada um desde o começo, assim. Cada um compôs cada parte de uma maneira muito participativa. Teve uma música que o Clayton trouxe praticamente inteira e a gente criou novas camadas, teve três músicas que são praticamente inteiras do Ferreirinha, teve uma música do Nozis… Nesse sentido, eu participei muito pouco comparado aos outros discos, então foi um processo muito diferente de composição, e isso já ajuda muito a ser um disco tão diferente dos anteriores, nos quais eu meio que vinha com ideias um pouco mais formatadas.
Ferreirinha: Quem teve a iniciativa de juntar as pessoas foi o Ronaldo. Na verdade, eu cantava, e acho que ele me chamou para cantar (risos). Só que quando ele me chamou, eu não queria mais cantar. Aí eu falei: “beleza, mas eu vou tocar batera” (risos).
Léo Sousa: O baterista é um excelente vocalista (risos).
Ferreirinha: O Ronaldo começou a compor as músicas e ele tirou essa ideia de se unir no meio desse lance de surf music, que era algo que dialogava com tudo ali: com o punk rock, com as ideias do “Twilight Zone”, horror punk, de tudo que a gente tinha de referência. A gente chegou no segundo disco ainda nessa pegada, mas já queria quebrar um pouco esse padrão, sabe? Começamos a pensar que a gente conseguia fazer um disco com mais profundidade, com cada um trazendo suas ideias.
Léo: Teve um dia que foi muito interessante: a gente tinha terminado o primeiro disco e foi lá na [Cervejaria] Tarantino totalmente avulsos, e estava rolando um festival de surf music. Foi tão engraçado ver que a gente tinha terminado de fazer um disco de surf music e se ligar que a gente não ouviu uma única música do estilo no processo (risos). O máximo que a gente ouvia era Man… Or Astroman? Só ali naquele show que eu me liguei que existia uma cena disso, com todo mundo meio que fazendo a mesma coisa. A gente queria muito participar, mas ao mesmo tempo a gente meio que se comparou ali, e viu que aquele é um lugar que é muito tradicional, preserva os timbres, as referências. A gente não é tradicional: a gente estressa muito as músicas nos ensaios. Somos essencialmente uma banda de ensaio, que acontece religiosamente toda quinta-feira. E ali a gente se provoca, muda beat, põe um solo, tira um solo, faz isso, testa o outro, muda o instrumento…
Clayton: O “Demasiado Humano” trouxe isso. Em algum momento no ensaio a gente viu que podia rolar um outro instrumento, talvez um trombone, uma flauta… O Léo tinha um contato legal de um flautista (Julio Rocha), e a gente o chamou para compor junto. Foi legal, trouxe uma camada mais lírica, e foi também uma forma de ter uma ruptura de uma estética com a qual a gente já estava acostumado.
Léo: Conheci o Julio em Paraty, na frente do mar, em uma roda de choro no dia 2 de janeiro. Era meio que a pausa dos músicos que tocam na noite durante o verão, e ficamos todos até às 5 da manhã, uma galera que arregaça, que é muito massa de andar junto, e que tem outras referências. Pro Júlio entrar no estúdio e tocar rock com experimentação, era uma novidade gigante, uma loucura. Além de ser um cara gente boa pra caramba, ele está estudando música do Leste Europeu e misturou essas ideias da música cigana pra chegar nesse som que você ouve no disco.
É legal também experimentar sem cair nos caminhos que estão mais manjados atualmente. Depois da leva que todo mundo queria beber do afrobeat, agora parece que tem muita gente entrando no lance da microtonalidade…
Ronaldo: A gente tem uma preocupação em não ficar preso. Apesar da gente não ter feito nada específico ainda com microtonalidade, a gente já usou escalas meio diferentes, esquisitas. a gente usa às vezes algumas contagens ímpares, o que de certa forma é uma subversão.
Clayton: No primeiro play, por exemplo, podia ser mais surf music, mas o baixo era fretless.
Ferreirinha: A gente nunca se encaixa. Teve uma amiga minha que foi ver o show, ela me conheceu quando eu cantava. Quando chegou, ela perguntou que música a gente ia cantar, e eu respondi: “Não, não vou cantar”. “Como não vai cantar?” Falei que ia tocar bateria. Aí ela: “E quem vai cantar?” E lá fui eu: “Ninguém vai cantar, a gente é só instrumental”. Sabe o que ela disse? “Ah, então não tem música”. (risos)
Ronaldo: O que que a gente veio fazer aqui? (risos)
Ferreirinha: Mano, eu achei isso sensacional. A gente quase fez uma camiseta, “Karaokê de música instrumental”, algo assim (risos).
Deveriam fazer!
Léo: Talvez a gente ainda faça.
Ferreirinha: Em relação a circuito de shows e tal, a gente tem uma boa abertura com o pessoal do surf, mas a gente procura criar nossas próprias festas– com menos frequência do que a gente gostaria, mas criamos os nossos rolês, chamando bandas que a gente conhece, que a gente sabe que é legal e que poderia somar com a gente. Da mesma forma, somos convidados para tocar com outras pessoas. Com esse novo trabalho, a gente está mais ativo, não só nessa parte mas em todas, porque queremos viver da banda. E o que significa isso? Não significa ficar rico, ganhar dinheiro para caramba, e sim conseguir alguma forma de oferecer algo para as pessoas e elas devolverem algo pra gente que nos permita bancar ensaios, bancar alguma viagem, coisas assim. Agora começamos a botar isso mais em prática com as camisetas. Estamos fazendo um site, que ainda não está no ar, mas que é parte da banda e vai se chamar Sold Out Store, e vai ter umas estampas tipo “Carl Satan Live at Wembley ‘97” (risos) ou “Carl Satan – O Filme”.
Ronaldo: O lance é que, se chamarem a gente pra tocar, a gente vai. Onde for, vamos com o maior prazer. Nosso trabalho conversa com muitos públicos, fala uma língua muito franca, está numa maturidade interessante para tocar em qualquer lugar.
– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“. A foto que abre o texto é de Carolina Zaine