texto de Alexandre Lopes
fotos de Regis Bezerra
Mesmo depois de mais de quatro décadas em ação, o Violeta de Outono continua ocupando um espaço bastante peculiar na música nacional. Enquanto boa parte das bandas surgidas nos anos 1980 no Brasil buscava referências no punk e pós-punk inglês da época, a formação liderada pelo vocalista e guitarrista Fabio Golfetti sempre preferiu mirar mais longe, aproximando Pink Floyd, Beatles e rock progressivo a letras em português. Foi essa identidade que o grupo levou à Casa Natura Musical em uma apresentação curta, mas suficiente para mostrar o por que segue cultuado – ainda que por um público relativamente restrito – ao longo de diferentes gerações.
No palco, Fabio Golfetti surgiu acompanhado por Angelo Pastorello (baixo) e Cláudio Souza (bateria), os dois integrantes da formação clássica que gravou os dois discos lançados pela major RCA em 1987 (“Violeta de Outono”) e 1989 (“Em Toda Parte”). A ausência dos teclados de Gabriel Golfetti alterava parte da textura das canções, mas deixava ainda mais evidente o entrosamento entre os músicos e a precisão instrumental construída ao longo dos anos.

Na plateia predominavam homens grisalhos que provavelmente acompanham a trajetória do Violeta desde os primeiros discos, mas também havia mulheres e ouvintes mais jovens curiosos para conferir de perto um dos nomes fundamentais do rock progressivo brasileiro. A atmosfera era contemplativa, com poucos celulares erguidos e atenção quase absoluta às passagens instrumentais, que seguem entre as maiores virtudes do conjunto.
O repertório privilegiou o álbum homônimo de 1987, ainda considerado por muitos fãs como seu trabalho definitivo. “Outono”, “Declínio de Maio”, “Luz”, “Sombras Flutuantes”, “Dia Eterno” e “Noturno Deserto” sintetizaram bem a estética desenvolvida pelo Violeta de Outono: guitarras carregadas de efeitos, baixo melódico, bateria precisa e composições que transitam naturalmente entre o psicodelismo e momentos mais próximos do space rock.

Ao vivo, chama atenção como Fabio Golfetti continua desenvolvendo solos longos sem recorrer ao exibicionismo. Sua guitarra permanece a serviço de sons que remetem a David Gilmour e Syd Barrett sem soar como mera reprodução. Mesmo quando as músicas ganham peso, há espaço para momentos conduzidos com calma e permitindo que cada tema se desenvolva sem pressa. O Violeta de Outono promove uma apresentação que exige atenção, mas recompensa quem aceita entrar nesse fluxo. A reta final abriu espaço para composições de outras fases da carreira, como “Reflexos da Noite”, de “Mulher na Montanha” (1999), e “Júpiter”, de “Ilhas” (2005).
O encerramento veio com a já clássica releitura de “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles. Fabio recriou ao vivo os timbres da gravação original utilizando um pequeno bastão metálico sobre as cordas da guitarra, aproximando a execução da lisergia concebida por Lennon, McCartney e companhia. A escolha resumiu bem a trajetória do Violeta de Outono: um conjunto que nunca escondeu suas influências, mas soube assimilá-las para construir uma identidade própria. A apresentação deixou a sensação de que havia espaço para um repertório mais extenso. Ainda assim, bastou esse tempo para confirmar que poucas bandas brasileiras transitam com tanta naturalidade e maestria entre a psicodelia e o rock progressivo.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.