entrevista de Francisco Carbone e Leandro Luz, do Tudo É Brasil
No top 1 da Tela Brasil, plataforma de streaming gratuita brasileira, desde que ela foi lançada no dia 30 de maio de 2026, o longa-metragem “A Hora da Estrela” segue encontrando o seu público 41 anos depois de sua estreia no Festival de Brasília, em 1985, do qual saiu totalmente premiado: recebeu o troféu candango de melhor filme, melhor direção para Suzana Amaral, melhor atriz para Marcélia Cartaxo, melhor ator para José Dumont, melhor fotografia para Edgar Moura e melhor montagem para Idê Lacreta. Além disso, a obra fez história no Festival de Berlim no ano seguinte, recebendo o Urso de Prata de melhor atriz para Cartaxo, paraibana que interpretou a inesquecível protagonista Macabéa.
O carinho pelo qual os brasileiros demonstram por “A Hora da Estrela” impressiona. A dura e triste história de vida da jovem nordestina que é datilógrafa, virgem e gosta de Coca-Cola, e tenta a vida na cidade grande – Rio de Janeiro, na novela original escrita por Clarice Lispector (1977), e São Paulo, na adaptação da diretora Suzana Amaral (1985) – é ovacionada há décadas, tanto na literatura quanto no cinema. A despeito das muitas diferenças entre o livro e o filme, é curioso observar como ambas as obras ainda possuem uma força tremenda, não à toa é a mais vendida de Lispector e, no cinema, sobretudo considerando obras dirigidas por mulheres, é sempre uma das mais lembradas em listas e retrospectivas. O sucesso do filme, na ocasião de seu relançamento em 4k nas salas de cinema, em 2024, pela Sessão Vitrine Petrobras, e a perpetuação da liderança do título na Tela Brasil são indicativos desse sucesso e dessa conexão com o público brasileiro.
Importante salientar que a Tela Brasil é a plataforma pública de difusão audiovisual do Ministério da Cultura (MinC). Com tantos streamings popularizados no país que pouco conferem atenção à produção nacional – algo que tem sido muito debatido pelo campo e que precisa urgentemente passar por uma dura regulação – se tornou imprescindível uma ação que viesse para mitigar essa lacuna. Desenvolvida para ampliar o acesso da população às produções brasileiras, a Tela Brasil “reúne filmes, séries, documentários e conteúdos educativos nacionais, valorizando a diversidade cultural e promovendo o fortalecimento do setor audiovisual no país”, de acordo com a própria plataforma.

Segundo o Ministério da Cultura, a plataforma, que conta com mais de 500 obras audiovisuais disponíveis em catálogo, já registrou mais de 4 milhões de visualizações e está com mais de 600 mil usuários ativos. No começo de julho foi lançado o aplicativo para dispositivos móveis com sistemas operacionais Android e iOS e as próximas atualizações incluem o lançamento de um aplicativo dedicado a smart TVs e a disponibilização de uma ferramenta para download, que permitirá aos usuários assistir aos conteúdos de forma offline.
Marcélia Cartaxo é uma peça-chave na história da adaptação de “A Hora da Estrela”. No início dos anos 1980, enquanto circulava pelo Brasil com a peça “Beiço de Estrada”, na qual interpretava uma jovem na esperança de firmar um bom casamento, a diretora Suzana Amaral, então em preparação de seu primeiro longa-metragem, enxergou essa personagem, essa atuação de Cartaxo como algo que se encaixava perfeitamente no que ela buscava para a sua Macabéa.
Suzana Amaral era uma mulher na casa de seus 30 e tantos anos quando, em 1968, decidiu prestar vestibular para Cinema e TV na USP. Uma carreira no cinema, desejada desde a infância e a adolescência, que começa quando Amaral já era mãe de 9 filhos. Trabalhou na TV Cultura como repórter de rua, fazendo programas especiais e, a partir de meados de 1970, colocou na cabeça que queria fazer ficção. Para além de curtas-metragens, de documentários realizados para a TV e de minisséries, Suzana Amaral dirigiu três longas-metragens de ficção até a sua morte, em junho de 2020: “A Hora da Estrela” (1985), “Uma Vida em Segredo” (2001, adaptado da obra de Autran Dourado) e “Hotel Atlântico” (2009, adaptado da obra de João Gilberto Noll). Era uma cineasta de muitas ambições e projetos – apesar da curta filmografia, ela dizia constantemente, em entrevistas, que tinha dezenas de projetos e roteiros escritos ao longo da vida, descontinuados por diversas razões, mas, sobretudo, pela dificuldade de encontrar financiamento em meio ao caos e à precarização das políticas públicas para a cultura no Brasil.
De volta à Marcélia Cartaxo, cujo longo relato nesta entrevista dá conta desses diversos obstáculos pelos quais passam boa parte dos artistas brasileiros, somos surpreendidos com uma mente inquieta, de memória poderosa, de uma mulher de 62 anos de idade com uma bela carreira ainda em construção, a julgar pelos inúmeros projetos como atriz, como roteirista e como diretora que ainda estão por vir e que ela nos relata, com muita vivacidade, na conversa a seguir.
Marcélia, é uma honra conversar com você.
Olha, eu que tenho essa honra de poder conversar com vocês e falar de um projeto tão lindo… 40 anos e a gente percebe que ele está bem atual, que as nossas lutas se mantêm, porque “A Hora da Estrela” diz muita coisa, a Macabéa também. E homenagear a Suzana Amaral, que não está aqui para poder falar lindamente do seu projeto, e a Clarice Lispector também.
Gostaríamos que você nos contasse sobre a sua formação em Cajazeiras. Como foi o seu encontro com a Suzana Amaral ainda no início dos anos 1980 e como essa tradição educacional da cidade impactou na sua vida e na sua carreira?
Eu nasci em Cajazeiras, na Paraíba. Sou filha de costureira e de agricultor. A gente morava numa rua chamada Higino Rolim, e foi a partir dessa rua, onde tinha muitas crianças ociosas, cheias de energia… e a cidade é muito bonita, ela tem um balde do açude, ela tem um pôr-do-sol que a gente assistia lá da minha rua, e naquela época tinha muitos parques de diversões que se armavam no final da rua. E foi assim que eu cresci, subindo e descendo essa rua, uma rua muito familiar, e aos poucos a gente foi embalado por uma geração nova, que também tinha muito essa… ânsia da arte, que a gente fazia arte popular, o Carnaval, o São João, a paixão de Cristo, e nesses tempos ociosos a gente brincava muito na rua. Muita bola, muita correria para lá e pra cá, muitas brincadeiras de roda, e muita apreciação naquele balde do açude, a gente tomava banho naquele açude, que era muito bom, muito gostoso. Um pouco mais na frente a gente começou a brincar de teatrinho na rua, brincava no reguinho da calçada, passava ali aquela pequena linha de esgoto no rego da calçada, a gente fazia muitas brincadeiras de barquinho e a criatividade não faltava. Quem lembra de todas aquelas brincadeiras de pião, de bola… e tudo isso a gente apreciou. Mas, quando o parque de diversão ia embora, ficava aquele buraco, que era uma alegria muito contagiante, porque, a princípio, tinha aquele som bem alto, aquelas luzes, aqueles brinquedos, aqueles jogos, e a criatividade da gente era imensa, porque naqueles jogos do parque, o dinheiro da gente era a carteira de cigarro. Quem tinha a carteira de cigarro mais cara era mais rico, né? Porque nessa rua a gente tinha de vendedor de picolé à prostituta. Mas tinha uma família que tinha lá a sua ótica, tinha lá os advogados, os médicos e também muitas gerações que cresceram ali junto com a gente e aos poucos a gente foi indo para o quintal. No quintal a gente fazia aquelas peças de teatro, de Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, os contos de fada… eram fases, que a gente ia amadurecendo. Nessa época, a universidade lá em Cajazeiras estava despontando, porque tinha áreas de humanas, Geografia, História, todas aquelas coisas da pasta humanista. E a partir dali eles começaram também a fazer uma semana universitária, na qual eles traziam todo tipo de arte, que era o teatro, o cinema, as artes plásticas, a feirinha na rua, o teatro na rua, e passava o dia todo a questão artística acesa na nossa cidade. Era uma semana, a gente passava um ano esperando por esse movimento. E a gente ia pro quintal se organizar para poder ter sempre uma peça em movimento. Tinha também umas coisas, assim, que era disputa de rua. As crianças também se manifestavam para vivenciar essas brincadeiras, e com essas disputas, a gente… o teatro, a dança, elas se expandiram mais no nosso grupo, que foi permanecendo. E numa semana universitária dessas, o Luiz Carlos Vasconcelos foi participar de um desses encontros universitários, e ele ia com Xuxu, que era o palhaço que ele tinha, levava muita bagagem, porque o Luiz Carlos tem uma formação muito grande na área de teatro, e ele trazia bagagem de Eugenio Barba, trazia bagagem de muitas viagens que ele fazia pro Rio de Janeiro, São Paulo, França, Brasília… e ele abriu uma escola em João Pessoa chamada Piollin. Lá, ele armou o circo dele, tinha o circo e vários artistas que vinham de vários lugares se hospedar nesse lugar que Luiz Carlos ocupou em João Pessoa, para poder ter esse espaço. E numa dessas viagens, em Cajazeiras, ele conheceu o grupo da gente, que a gente na época estava com uma peça chamada Seca, que era inspirada naquela música de Luiz Gonzaga, “Asa Branca”, e a partir daquela música a gente criou uma peça de teatro. E a gente tinha também no grupo um diretor chamado Eliezer Filho que era muito inteligente, e enquanto Eliezer, o irmão e a irmã ficavam na área, ali, lendo um livro dessa grossura, a gente ficava virando bicho na rua, brincando, criando, e quando a gente voltava para o quintal, Eliezer escrevia a mão as peças e depois emprestava esse caderno a cada um de nós para decorar os seus papéis e depois a gente ia pro quintal ensaiar. Era muita confusão na rua, porque a gente tinha que enfrentar os pais da gente, que interferiam. A gente pegava as coisas de casa e levava para a peça, e quando os pais da gente iam assistir, diziam: “ah, aquela toalha de mesa, de jeito nenhum, aquilo ali eu comprei e não é pra usar assim, não”. Aí os pais interferiam nessas brincadeiras, porque a gente trazia tudo de casa. A gente fazia jogo de luz com aquelas latas de leite, pintava, fazia os nossos cenários. Toda criatividade manual. E era o que a gente aprendia. E no grupo tinha o bilheteiro, tinha o porteiro. A gente se revezava entre fazer os personagens e fazer essas coisas também, o iluminador… e sempre tinha essas confusões. A gente também brincava com essas confusões, porque quando a gente fazia as viagens, aí um não queria levar o cenário, só queria levar a sua mala… aí quando pintava um dinheirinho, uma miariazinha, a gente fazia confusão por esse dinheiro que pintava. E aí o grupo foi se expandindo. Com essa entrada do Luiz Carlos, com a interferência do Luiz Carlos, a gente teve muitas orientações. Naquela época ele dizia: “vocês estão fazendo arte, vocês estão fazendo teatro… é muito profundo, porque são crianças, sabe… e isso é extremamente importante, porque é isso que vai… vocês vão dar um passo muito grande”. E ele às vezes ia lá, mexia na peça da gente, afinava uma coisa, afinava outra, até que um dia ele resolveu levar a gente para esse encontro na Escola Piollin, e lá a gente recebeu muitas orientações, porque ele levou vários grupos da Paraíba, que era de Cajazeiras, Pombal, Sousa, Guarabira, e com isso a gente teve essa preparação de voz, de corpo, de interpretação, de improvisação. E lá, quando a gente tava, também fazia o trabalho dele. Ele criava uma peça na qual ele englobava todos, todos os elementos melhores do grupo. Ele escolhia os melhores para participar, fazer aquele papel, fazer outro. Ele criou uma peça de teatro chamada “Os Pirralhos”, que as prostitutas ficavam à margem e os filhos das prostitutas… eles queriam fazer uma fábrica para poder pegar essas prostitutas para trabalhar na fábrica e botar os filhos também para trabalhar. E como os meninos eram crianças, na época a gente era tudo criança, e a gente tem uma descendência um pouco de judeu, que a gente é aquelas crianças muito cuidadas e avançadas, mas muito mirrada, tudo magro, tudo… a gente demorou também a ser adulto. E foi a partir daí, também, que a gente começou a sentir a necessidade de escrever os nossos próprios textos, começar a falar coisas mais sérias, como o misticismo religioso, a prostituição, o barraco, a miséria, que era o que a gente via na nossa cidade. E foi a partir daí que a gente escreveu… que Eliezer e o grupo… escrevemos muitas peças dessas questões sociais.

Quando você vai para João Pessoa, com o Luiz Carlos Vasconcelos, é a primeira vez que você vai para a capital?
É a primeira vez que o grupo vai. Essa primeira geração, que era da família dos Lira… os Lira já tinham os filhos mais velhos, é uma família que tem nove filhos. Os mais velhos já moravam lá, porque estudavam na universidade, andavam lá na escola Piollin, para também ensinar a gente. E os mais novos ficavam… que eram a Soia, Nanego, Paula, Salvinho, esses meninos ficavam, mas como a gente já estava na fase de amadurecimento e, por exemplo, quando eu saí para fazer “A Hora da Estrela”, eu já estava me preparando para fazer vestibular. Era a minha primeira prova de vestibular, e eu era a única que não tinha nenhuma possibilidade de sair de Cajazeiras, porque eu não tinha família, assim, que ia me (dar apoio financeiro)… para poder estudar lá. Eu ficava muito na aba da família dos Lira, achando que, como a família era grande, e eles moravam no Altiplano, que era um bairro que ainda estava começando, era um bairro que tinha casas populares, e eu via que não tinha possibilidade de entrar nessa família porque já era numerosa. Eu fui criada muito presa. A minha mãe, era muito difícil de deixar eu sair para qualquer lugar. Tinha que batalhar muito, tinha que fazer muita coisa escondida. Eu apanhei muito também por conta dessas coisas, de desobedecer, de querer ir para as casas, de querer brincar no quintal, porque minha mãe dizia: “não, você não vai ser prostituta, você é de família”. Ela tinha muito medo, os pais tinham muito medo, porque naquela época não era como os dias de hoje. Naquela época a comunicação era diferente, e os pais tinham que ficar muito atentos a essas coisas, porque qualquer coisa desandava a gente. Luiz Carlos batalhou muito, a gente teve que estudar bastante para poder dar conta da escola e não levar pau… e as coisas iam se complicando. Depois que a gente conheceu o Luiz Carlos, a gente passou um ano inteiro preparando uma peça para poder não perder essa oportunidade da viagem, de ir para João Pessoa, mas foi com a escola Piollin que eu tive a primeira oportunidade de conhecer, de fazer uma viagem dessa e de sair… e sair porque era com o grupo. Teve uma época que o teatro, eu acho que era 1980, na época, por aí, que o teatro era muito, muito… eu acho que era a maior ação cultural que a gente tinha, o teatro nessa época. A televisão era em preto e branco, eu acho que ela já estava mudando, mas assim, eu não tive… a gente não teve muito televisão, a gente não tinha televisão em casa. A televisão só entrou em casa quando aquela preto e branco já não era mais nada. A televisão colorida só entrou em casa quando já estava na liquidação total desses aparelhos. A gente não tinha muita oportunidade de… a gente assistia nas casas, ficava um tempo na janela das casas, assistindo televisão. Teve uma época que tinha um projeto muito bonito que nasceu, acho que no Rio de Janeiro, e se expandiu um pouco para as grandes capitais, um projeto que se chamava “Mambembão”. Os melhores espetáculos do Sul vinham para o Nordeste e os melhores espetáculos do Nordeste iam para o Sul. Nessa época a gente estava com a peça “Beiço de Estrada”, de Eliezer, e a gente já tinha passado também pela escola Piollin e aí a peça estava muito bem afinada, junto com o Eliezer, com o Luiz Carlos e todo grupo, e aí a gente apresentou… nessa época tinha até também um pouco a questão da censura. E foi aí que a gente foi representando a Paraíba nesse projeto. Porque tinha projetos de Recife, de Alagoas, de Sergipe, da Bahia, e lá no Rio de Janeiro eram grupos que vinham de Porto Alegre, de Curitiba, de Brasília, do Rio de Janeiro e São Paulo. E esse intercâmbio era muito bacana, sabe? Nessa época era um movimento artístico muito especial. Nessa época, Suzana estava procurando uma atriz para fazer um filme. E ela assistia todas as peças que vinham do Nordeste. E era também numa época que a Embrafilme estava acabando. E ela dizia: “eu estou procurando uma atriz para fazer um filme”. E o grupo todo se manifestou, ficou todo mundo feliz, todo mundo alegre: “a gente vai fazer um filme no Rio de Janeiro”. A gente apresentava três dias. Um dia ela veio só para ver a peça. No outro dia ela veio para trazer um livro, “A Hora da Estrela”. E no outro dia ela veio mesmo para me abordar. Para dizer que tinha gostado da peça, tinha gostado do meu personagem, e que me achava, assim, muito incrível. Porque eu era muito contida, não tinha gestos largos, que eu falava com os olhos, falava com muito sentimento. Foi muito incrível, porque eu não botava fé de que eu ia fazer um filme. Eu achava que era um movimento do grupo, que era um movimento pra todo mundo, né, que ia participar, fazer esse projeto, como era o desejo do grupo. Aí a gente viveu essas coisas, fizemos todas essas apresentações nesses lugares. Foi a primeira vez que a gente saiu para conhecer o Brasil. A gente passou por Brasília, Curitiba, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, e foi uma alegria imensa. E quando a gente chegou em São Paulo, a gente conheceu a Rosi Campos. A Rosi aconselhou a gente a ficar um tempo mais, para ter mais apresentações no sul, e levou a gente para o festival de São José do Rio Preto. E com isso a gente precisou ficar alojado, acho que uns três, quatro dias na casa dela. Ela botou essa meninada toda, eram mais ou menos umas quinze pessoas. Luiz Carlos estava junto, Buda Lira também estava junto para poder acompanhar a gente. Porque era uma negociação com os pais da gente, que tinha que ter gente responsável para poder viajar. E foi assim que o grupo foi se expandindo. A gente fez uma apresentação muito linda em São José do Rio Preto. Tanto que muitas outras vezes o grupo voltou a participar desse festival, mas já sem a minha presença, porque já estava… quando a gente voltou para a Cajazeiras, depois desse “boom” todo, de ter passado por esse Mambembão…

Como o método de trabalho com a Suzana Amaral influencia o seu trabalho ainda hoje?
Um mês depois, Suzana Amaral escreve a primeira carta. Eu peguei a carta, corri, fui lá mostrar para um amigo meu no grupo. Ele disse: “não, calma, porque só tem… essa carta só chegou para você. E aí eu fui aos poucos percebendo que ela queria que eu que fizesse a Macabéa, o personagem. E aos poucos ela foi me dirigindo, em outras cartas. Ela escreveu oito cartas. E foi me dirigindo. Eu tive problemas com a minha família para poder sair, porque a minha mãe não queria de jeito nenhum que eu fosse viajar, principalmente sozinha para São Paulo, né? Se fosse com o grupo, com a filha de Maria Lira, com a filha de Raul Mita e outras pessoas, aí tudo bem, mas sozinha, não. Foi uma confusão para poder sair de Cajazeiros. Depois o grupo ficou muito enciumado, porque eles achavam que era minha culpa, porque eu não queria levar ninguém, eu queria ir sozinha. E foi uma grande maturidade do grupo. E aos poucos eles foram me abandonando. Eles passaram cinco anos sem falar comigo. E aos poucos foi chegando os Lira, foi chegando o pessoal, mas foi assim… umas coisas vividas, apesar de ser muito intensa, mas foram um pouco dolorosas, pelo fato de… das consequências de tudo isso. E Suzana Amaral foi muito legal, falou com a minha mãe, que ela não se preocupasse porque ela que ia cuidar de mim. E embora a comunicação naquela época fosse muito difícil, porque na hora de falar com Suzana, tive que levar a minha mãe para as casas onde tinha telefone e às vezes tinha que levar pro orelhão, porque a gente não tinha essas coisas em casa. Mas foi muito incrível, porque todo esse processo me fez fazer um personagem que tudo que eu buscava estava ali, estava ali na minha história, estava ali na minha vida. Até mesmo a questão da solidão, do medo, da insegurança, estava tudo ali. E depois tinha uma aproximação muito grande do personagem que eu fazia na peça de Eliezer, que era Véu de Noiva, a última filha que morava na beira da estrada, e essa filha tinha que se casar e essa família era renegada pela sociedade, não podia entrar na cidade, não podia ir para a igreja, não podia participar da procissão. E aí a velha, com todo sacrifício, que Sônia Lira fazia muito bem, tinha uma mazela na perna, botava uma pedra na cabeça e ia para a procissão para poder a filha se casar e tirar toda a família do fogo do inferno, que era da prostituição. Era muito lindo ver essa criançada toda fazendo e a gente fazendo com muito amor, muita emoção e abraçando a arte. Suzana Amaral captou tudo isso. Na última carta, ela manda a passagem, que foi, assim, o ápice do negócio. Porque foi mais ou menos esse dia que eu estava contando à minha mãe, que a passagem ia chegar e que eu precisava ir, e que ela tinha que deixar porque era uma oportunidade que eu tinha, uma oportunidade única. Procurei muita gente na cidade para poder falar com ela, para poder ela baixar a guarda. Ela chorava muito, porque ela tinha muito medo. As notícias que vinham daquele lugar eram notícias muito pesadas, de coisas que a gente ouvia no rádio, os noticiários. Então, acaba que ela, com muito sentimento, acabou deixando ir, e fez um pijama para eu não passar frio, comprou uma malinha pequenininha, uma nécessairezinha para poder levar frango, farofa, coisas para comer na estrada, pão, bolacha, frutas. Eu saí dali arrasada. Eu me lembro como se fosse hoje, saí dali muito arrasada, com medo, mas enfrentando, né? Porque achava… a minha imaginação lá do outro lado era completamente diferente. Aí eu fiz a viagem. Suzana Amaral disse: “não, eu não vou mandar passagem de avião, vou mandar passagem de ônibus, que é para poder você sentir o personagem, você ver as Macabéas, você fazer essa viagem de três dias”. E foi assim que eu fui. Quando eu cheguei na rodoviária em São Paulo, Suzana Amaral não estava, demorou essa comunicação. E aos poucos… eu ficava nervosa, com a mala na mão, pra lá e pra cá, demorou quase uma meia hora… porque eu achava que ia descer do ônibus e já ia dar de cara com ela, né? E foi também aquela única vez que eu tinha visto ela. Foram aqueles dias que eu estava ali, aqueles três dias que ela chegou ali. De repente chega Cacá, filha dela, com uma plaquinha, o nome “Marcélia”, aí eu corri e abracei Cacá e disse (entusiasmada): “oi, sou eu, sou Marcélia!”. Aí ela me levou para casa de Suzana, fiquei um tempo, uma semana lá, e depois elas resolveram fazer um teste. Foi a minha maior decepção, porque eu não tinha ido para fazer o teste, já tinha ido para… porque quando essas cartas chegavam, eu me preparava em casa. Eu ia para o espelho, falava. Os diálogos que tinha no livro, né? Falava as coisas que Suzana Amaral me dirigia, no livro. Pedia para que eu fosse na rua, andar, conhecer as Macabéas. Pediu para eu fazer uma camisola, que é aquela camisola que eu visto, que uso lá no filme, para poder fazer as cenas. E ela botou uma coisa, assim, muito linda nas cartas, ela dizia: “olha, observa… muita concentração”. Porque, para ela dizer tudo isso, é porque o personagem era mais pra dentro do que pra fora, do que essa euforia da gente, tem os movimentos mais amplos, tem esse movimento mais dilatado, né? Ela ia falando do personagem e dizia assim: “olha… concentração, quando você for começar a ler o livro, você pare, respire, respire muito, fique ali uns cinco minutos… é para você se concentrar, ficar pensando na Macabéa, nas coisas dela, nas pessoas que ela vai encontrar, no Olímpico, na Glória, na cartomante, nas Marias, no seu Raimundo”; ela ficava dizendo isso nas cartas. “E depois você… observe, você depois vai dar uma volta na rua para observar as Macabéas, como é que elas andam, como é que elas falam, como é que elas respiram, como é que elas sentem… só observar, é só olhar… depois tem a questão da memória da emoção, aquelas coisas que você viveu na sua peça, quando estava naqueles momentos difíceis, por exemplo, que você sonhava, que aquele sonho todo se acabou, e aí você ficou muito sentida… ou alguma coisa que tocou muito você e que mexe com seus sentimentos”. Aí ela disse: “memória corpórea… é como é que você vai andar, como é que você vai vestir, como é que você vai se expressar, como é que você vai olhar para o Olímpico, para a Glória, como é que você vai se sentir botando aquele batom, tomando aquele remédio… e depois tem o ritmo, como é que vai ser esse ritmo, como é que você vai falar, como é que você vai conversar com o Olímpico, conversar com a Glória, falar da Coca-Cola, falar que você gosta de ser atriz, como é que você vai se comunicar com o rádio”. E tem a caracterização, que não é só vestir a roupa, não é só arrumar o cabelo, não é só a maquiagem, mas é todo esse sentimento que você está emprestando para esse personagem, a sua alma, o seu ser, a sua forma de respirar, a sua forma de sentir, de desejar, de amar, de querer o mundo. Essas coisas assim, como a Suzana falava, do jeito que ela me conduzia, me tocou muito. E depois ela dizia assim: “olha, esses elementos que estou te dando, que é a concentração, a observação, a memória da emoção, a memória corpórea, ritmo e caracterização, é para toda a vida, isso aqui, quando você for fazer um teste, só basta você ler uma cena e você se questionar dentro desse movimento aqui, dessas palavras, que você vai… vai ser luz, vai ser estrela, vai ser tudo na sua vida”. É a partir dessas coisas que eu parto para qualquer outro personagem que eu vou pegar na minha vida, sabe? É a partir desses elementos que, quando me convidam para fazer um personagem, até hoje, eu tenho que ir lá na rua Higino Rolim, lá no Grupo Terra, lá naquela família daquela rua, e lembrar daquelas coisas todas, daquelas pessoas, de Dona Liuzete, de Dona Júlia, de Dona Vicência. E dos amigos, daquela geração, daquela universidade, daquelas pessoas, daquela plateia, daquela… sabe? Eu tenho que ir ali para poder encher esses personagens de força, de coragem, de luta. Do que eles podem me dar, ainda hoje, com todo esse amadurecimento que eu tenho. Quando, por exemplo, eu peguei uma Laurita, que teve a preparação, que sempre tem um preparador que vai preencher a gente, que vai abrir muitas outras camadas que a gente nem imaginava, porque assim, quando a gente vai fazer um personagem, os personagens às vezes não vêm do interior, eles já estão na capital, já estão vivendo aquele “boom” daquele lugar. E quando vem um preparador, que já vem com essas bagagens todas, e soma com esse bocadinho que eu tenho, e soma com esse grande universo, com essa grande dilatação dos personagens, é que a gente começa a conscientizar que o mundo não é só aquilo ali, o mundo é bem maior. Quanto mais a gente mexe, mais dilatado ele fica. E é assim que eu vou construindo, porque o meu mundo é bem pequenininho, a minha mãe me prendeu muito, e às vezes quando eu caio num trabalho, eu fico apavorada, porque, gente, eu nunca fui nesse lugar, eu nunca vi isso, eu nunca li isso, eu nunca estudei isso, eu nunca… mas é sempre um aprendizado, um aprendizado imenso, que às vezes deixa a gente calado, entupido, não imaginava que o ser humano era assim, que o ser humano tinha essa possibilidade, que tinha essa força, que tinha essa força dentro da gente, que tinha essa… sabe? (risos).

Marcélia, é lindo te ouvir falar, muito bonito mesmo. Queríamos fazer uma ponte entre “A Hora da Estrela” e os dias de hoje. O filme está completando 40 anos, foi relançado com essa efeméride e, na revisão, mais uma vez me bateu como ele é violento, como tem violência dentro desse filme, como tudo é muito pesado. Você tinha consciência, naquela época, de que a Macabéa sofria tanta violência, inclusive vinda desse principal diálogo dela, com o Olímpico? E como você vê essas imagens hoje? Elas ainda te provocam, isso ainda é muito forte?
Na época que eu fiz o filme, eu não o via tão dilatado assim, sabe? Eu via o filme… que ela era ingênua… ingênua é uma palavra muito… sublime, assim, é uma coitadinha, ela é pequenininha, ela é… mas, para esses dias de hoje, e quanto mais eu vejo gente falando de “A Hora da Estrela”, mais dor as pessoas passam. Meu Deus, eu realmente era muito ingênua, porque quando eu vivi esse personagem, Suzana Amaral tinha essa dimensão, porque quando ela me botou para poder fazer esse personagem, na época das filmagens, ela não deixava ninguém chegar perto de mim, mas ninguém, nem a filha dela, ninguém. Ela me pegava, botava sentada. Ela que ia me pegar, ela que ia me buscar lá na produtora, porque ela não deixou eu ficar em hotel, não deixou eu pegar avião, nem pra ir nem pra voltar. Ela não deixava eu ir para lugar nenhum, para não macular essa personagem. Na época das filmagens ela pegava… tinha um banco que ela pegava…. pegava essa cadeira e me botava virada para a parede. O filme todo, o processo todo, do início ao fim, ninguém era para chegar perto de mim, não era para perguntar nada. E nos dias de folga, ai daquele que fosse me pegar pra levar pra algum lugar. Um dia a filha dela ficou tão chateada com ela, tão emocionada com a minha prisão, que um dia ela foi lá, me catou, me botou na moto e me levou pro mundo, pra São Paulo. Isso foi numa noite: “vamos passear”. Me botou na moto, me botou o capacete e me levou. Ela não queria que eu comesse pizza, ela não queria que eu fosse pra shopping, ela não queria que eu fosse pra bar, ela não queria que eu fosse pra lugar nenhum. Eu passei as quatro semanas do filme totalmente isolada. As únicas pessoas que eu falava era com quem eu contracenava, e era aquele momento ali, o momento da cena e pronto. Um dia eu chorei muito, chorei muito, fiquei muito, muito triste, muito abatida com isso, saudade de casa, saudade do grupo, saudade de tudo, do meu lugar, da minha casa. Aí ela chegou pra mim e disse: “olha, um dia você vai me agradecer”. E até hoje eu agradeço profundamente à Suzana Amaral, porque eu vejo que, quando a gente começa a dilatar a história, realmente, da Macabéa, foi muito sofrimento, foi muita rejeição daqueles personagens. Aquelas palavras batem profundamente. Quando você assiste ao filme, aquelas palavras batem, que ela não tinha nada, ela não tinha um mundo, ela não tinha nada. Ela realmente era uma Macabéazinha, sabe? E aí quando você lê o livro da Clarice Lispector, que ela diz que ela mesmo não tinha coragem de ser mulher, porque a mulher… ela iria ter pena, iria ter um sentimento profundo por aquele personagem, que chegaria um momento que ela nem conseguiria escrever aquele livro. Ela precisou ser homem, ela precisou ser um personagem bem duro para poder enfrentar essa miséria que não é só da Macabéa, é a nossa miséria. A nossa miséria é bem maior do que a gente imagina. É a dor dessas mulheres, a dor dessas mulheres invisibilizadas, a dor dessas mulheres exploradas, a dor dessas mulheres que apanham, a dor dessas mulheres que não têm valor, que não têm…. não têm nada, não têm nada, sabe? E são muitas, apesar de umas terem muito e outras não terem nada, mas o sofrimento é maior do que a gente imagina, porque é mulher… E Macabéa, eu acho que ela é uma coisa, assim… uma vez eu vi uma professora dizer assim: “olha, esse filme é importante para todas as adolescentes verem porque é um filme que vai dizer tudo o que você não é para ser… é para a mulher assistir a esse filme e dizer assim: ah, isso aqui eu não quero ser, eu não quero ser Macabéa”. Então eu achei uma coisa muito legal, dessa professora ter falado tudo às claras. Eu não me lembro o nome dela, foi uma vez na internet que eu vi e eu achei lindo de ver. Ela disse: “olha, todo mundo tem que ver, porque não é assim que a gente tem que ser tratada, a gente tem que ser tratada… a gente tem que se dar valor, a gente tem que ser feliz, tem que ser amiga uma das outras, porque quando a gente consegue ser forte, a gente consegue ter direitos, consegue ser tudo na vida. Então eu acho que “A Hora da Estrela”, cada vez mais, se comunica. Não só com as mulheres, mas também com os homens, para poder eles entenderem que o lugar da gente não é ali, não é aquele bocadinho, não é aquele pouquinho, não é só pra viver, não é só pra usar, não é só pra…. então é muito triste a história da Macabéa. Até hoje eu ainda represento todas elas, mas cada uma com um nome diferente, com uma profissão diferente, com muitos desejos, com muita vontade de ir e vir, mas todas podadas.
Marcélia, para terminar essa entrevista, uma última questão. Você foi a primeira atriz (ou ator) brasileira a ganhar um prêmio no Festival de Berlim. Depois de você, vieram a Ana Beatriz Nogueira pelo “Vera” do Sérgio Toledo, em 1987, e depois só a Fernanda Montenegro por “Central do Brasil”, em 1998. Nesse Festival de Berlim no qual você é premiada, a presidente do júri era a Gina Lollobrigida, que ganhou a alcunha de “a mulher mais bela do mundo” ali nos anos 1950. Você ganhou esse prêmio, aliás, de um júri composto basicamente por homens, com exceção da Gina e da crítica francesa Françoise Maupin. Tantos anos depois desse e dos inúmeros prêmios que o filme recebeu no Festival de Brasília, depois de uma trajetória tão bonita, com vários percalços de Governo, descontinuação de políticas públicas no Brasil, você além de atriz, começou a trilhar também uma carreira como diretora. Seja como atriz ou como diretora, o que você está buscando hoje?
Hoje, além da interpretação ser meu carro chefe, que é a minha sobrevivência, é a minha maior descoberta, é o que me move mais, eu tenho insistido bastante na questão de ainda ser… de ser diretora. Eu tenho um amigo, que é o Daniel Obeidi, ele é de Campinas e a gente tem uma parceria. A gente está aí com quatro filmes, quatro roteiros preparados pra gente poder deslanchar. Só algum edital aprovar os nossos projetos. Tenho batalhado muito nos editais, por exemplo, da Paraíba. E ele tem batalhado também nos editais mais nacionais. E tenho maior fé de que eu vou realmente entrar um pouco nesse caminho da direção, porque a gente está com roteiros muito legais, que têm sido cada vez mais amadurecidos. Tem um roteiro muito incrível, que é um dos últimos agora, que eu estou aqui nessa pegada, que é a… eu vivi uma peça chamada “Nossa Voz”, logo no início da minha carreira, que eu fazia no Laura Alvim, e que essa peça fala da época da ditadura, e eu estou com muito desejo de fazer esse filme. Ele já está sendo roteirizado, ele é de Luiz Lima, ele que escreveu na época, e foi uma peça muito, muito incrível, muito pesada. A gente fazia duas sessões e ela tem muito pano pras mangas. A gente tem aqui na Paraíba um… como eu posso dizer… um estudante que foi torturado, dessa época, e até hoje a família procura junto com a justiça os direitos, a justiça nesse caso. A gente está inserindo esse caso dentro do nosso roteiro e quer realizar esse filme, quer contar essa história. Na época da peça de teatro, ela foi muito importante. Luiz, o autor, ele recebeu uma encomenda do pessoal do Tortura Nunca Mais, que na época era um grupo que tinha no Rio de Janeiro, que fazia luta para conquistar e ter os direitos de saber como foi a história, o que aconteceu, e essas pessoas serem reconhecidas na justiça, o caso delas, e a gente está nessa batalha. Eu acho que a gente vai começar a dar o primeiro passo por aí. E depois temos outros filmes, roteiros bastante interessantes que eu gosto muito. Tem um roteiro que se chama “Desejo e sanidade”, que é a história de uma professora que se envolve com a aluna. Isso aí quem vai dirigir é o Bertrand Lira. Tem um outro que chama “Maria Caboré”, que é a história de uma negra muito linda, que a gente quer contar a história dela também. E tem também lá em Sousa, na Paraíba, tem um pessoal que são ciganos e eles estão lá naquele lugar, abandonados. Na época tinha um prefeito que chamava Marís e ele prometeu dar umas terras, dar um lugar melhor para esses ciganos. Esse cara morreu e os ciganos perderam tudo, eles estão lá como se fossem mendigos. A gente tem uma história para poder ver o que a gente pode fazer por eles e pode também contar essa história, porque eles estão assim… juntar as questões do passado com os momentos que estão acontecendo com eles agora. Eu acho uma pegada bastante interessante porque, de certa forma, são povos que têm uma história linda e que essas histórias estão se perdendo durante o tempo. E a gente pode adquirir um pouco esse resgate, também, até para contar o que realmente está acontecendo nos dias de hoje. Por que eles perderam a força? Por que eles perderam a arte? Eu falo isso lá na cidade do interior, que eles estão lá, e eles são muitos. É um desejo mesmo de dirigir, um desejo de conhecer mais o Brasil, um desejo de estar no cinema brasileiro, de contar, recontar e de viver também as coisas boas. E aprender com esses diretores, com esses preparadores, e é isso… é o amor pela arte, é a voz. A gente quer dizer alguma coisa, fica se coçando para poder… (risos) e torcendo muito para que os nossos produtos sejam reconhecidos. Essa plataforma, nossa senhora, é maravilhosa. Essa plataforma é uma oportunidade enorme dos brasileiros se encontrarem com o cinema brasileiro, se encontrarem com a nossa arte, e com as questões em tudo. Porque a gente tem que ter muito cuidado com a nossa cultura, com a nossa educação, com a saúde. Esse SUS tem que permanecer, porque ele é muito importante pra gente. A maioria dos brasileiros passam por ali. Aqueles que não têm seus planos de saúde… eu sou uma delas. Qualquer coisa eu tenho que cair ali, porque eu não tenho outro caminho, não. E a arte é assim… a arte tem que ser indústria, ela não pode ser mais: entra um presidente… sabe? Quando não gosta da arte, mata a gente tudinho, aí quando entra outro que gosta, quando a gente tá ascendendo, tá chegando no ápice, tá chegando nas pessoas, aí entra um e corta. Eu acho que isso tem que acabar. A gente tem que ter uma luta muito grande para o artista ter espaço. E eu acho que esse espaço é importantíssimo porque a gente tem voz, a gente vai saber falar, vai saber arrastar o povo para ter essa comunicação geral.
A gente sabe que você está embarcando em uma viagem nova com o Sérgio Machado. Desejamos boa sorte nessas filmagens novas, nesse próximo projeto, e que a gente possa se reencontrar muito rapidamente.
Muito rapidamente! Eu fiquei muito feliz com esse convite do Sérgio. Ele disse que escreveu para mim e para o Bruno Gagliasso, esse filme, e pra mim é uma honra muito grande, porque quando eu comecei a fazer os meus curtas-metragens, era pra escrever pra mim, porque ninguém escrevia pra mim. Eu não tinha oportunidade. Passei muito tempo fora do mercado, muito tempo sem fazer filme. De “Madame Satã” (2002) pra cá foi que as coisas começaram a se abrir um pouco. E aí quando o Sérgio fala isso, pronto, eu me derreto toda, eu digo: “meu Deus, que coisa boa, que apareçam mais Sérgios que me botem na roda, que me façam ser visível (risos). Pois tá, muito obrigada, eu que agradeço e até um breve… se Deus quiser.
Entrevista publicada originalmente no podcast Tudo É Brasil. Ouça aqui
– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.