Entrevista: Adem Tepedelen fala sobre Mudhoney, Seattle e o livro que escreveu com (e sobre) Kim Thayil (Soundgarden)

entrevista de Bruno Lisboa

Adem Tepedelen têm mais de três décadas dedicadas ao jornalismo musical tendo se iniciado nos fanzines dos anos 1980 e posteriormente atuado em publicações como Decibel, Revolver e Rolling Stone. Autor de “The Brewtal Truth Guide to Extreme Beers” (2013), Tepedelen expandiu sua atuação para o universo dos livros de memórias musicais com “Mud Ride: A Messy Trip Through the Grunge Explosion” (2023), escrito com Steve Turner, do Mudhoney, e “A Fabulous Disaster: From the Garage to Madison Square Garden, the Hard Way” (2025), autobiografia de Gary Holt, do Exodus e Slayer.

Seu trabalho mais recente, “A Screaming Life: Into the Superunknown with Soundgarden and Beyond” (2026), escrito em parceria com Kim Thayil, transcende os limites de uma simples autobiografia de músico ou de um relato centrado exclusivamente no Soundgarden. A obra utiliza a trajetória de Thayil como ponto de partida para construir um retrato íntimo e abrangente da cena underground de Seattle que, anos depois, daria origem ao fenômeno global conhecido como grunge.

A partir das memórias do guitarrista fundador do Soundgarden (ao lado de Chris Cornell e Hiro Yamamoto em 1984), o livro explora as conexões entre bandas, artistas, fanzines, casas de shows, selos independentes e personagens que ajudaram a moldar um dos movimentos culturais mais influentes das últimas décadas. Ao mesmo tempo, apresenta novas perspectivas sobre episódios fundamentais da história da banda, incluindo os bastidores de sua formação, a dinâmica entre seus integrantes, o impacto da fama e as circunstâncias que levaram à separação em 1997.

Nesta entrevista, Tepedelen revela que seu objetivo nunca foi escrever um livro sobre o Soundgarden, mas sim sobre Kim Thayil como indivíduo — suas ideias, influências, relações pessoais, interesses culturais e visão de mundo. O autor discute o processo de construção da obra a partir de centenas de horas de conversas e explica por que optou por privilegiar as lembranças e reflexões atuais de Thayil em vez de simplesmente reproduzir versões já conhecidas dos acontecimentos. O resultado, segundo ele, é um relato mais humano e emocional.

A conversa também amplia algumas das reflexões centrais presentes no livro ao analisar os fatores que permitiram o florescimento daquela comunidade artística singular, marcada por um forte senso de pertencimento, colaboração e independência criativa. Em suas palavras, os músicos e artistas locais compartilhavam a sensação de que “todos pareciam fazer parte do mesmo time”, em um ambiente relativamente isolado das pressões da indústria musical. Confira!

Antes de entrarmos no novo livro, gostaria de começar falando sobre o seu trabalho como escritor. O que o atraiu inicialmente para o jornalismo musical? E o que despertou seu interesse em documentar artistas e cenas musicais em formatos mais extensos?
Como acontece com a maioria das pessoas que acabam escrevendo sobre música, tudo começou porque eu era um grande fã de música. Quando somos jovens, queremos participar desse universo de alguma forma. No meu caso, cresci ouvindo bandas como Beatles e Kiss. Algumas pessoas sonham em se tornar músicos e formar bandas; outras preferem escrever sobre música. Fiz um pouco das duas coisas.

Uma das descobertas mais importantes da minha adolescência foi o universo dos fanzines. Nos anos 1980, quando eu estava crescendo, aquilo era algo relativamente novo para mim: a ideia de que qualquer pessoa podia criar sua própria publicação independente. Gostei imediatamente desse conceito. Assim, quando tinha cerca de 16 ou 17 anos, comecei a produzir meus próprios fanzines porque estava entusiasmado com a música e queria escrever sobre ela. Já havia lido outros fanzines e aquilo me inspirou.

Foi assim que tudo começou. Eu gostava do processo e sentia que tinha alguma aptidão para a escrita. Trabalhei no jornal da escola e continuei produzindo fanzines durante a universidade. Depois de me formar, mudei-me para Seattle, em 1990, e comecei a trabalhar na revista The Rocket, escrevendo reportagens e resenhas. A partir daí, minha trajetória profissional seguiu naturalmente esse caminho. Embora eu não tenha escrito exclusivamente sobre música ao longo de toda a carreira, ela ocupou um papel central durante grande parte da minha vida profissional.

Depois de muitos anos trabalhando para revistas musicais, passei a desejar escrever livros. Em 2013, surgiu a oportunidade de publicar um livro sobre cervejas artesanais chamado “The Brutal Truth Guide to Extreme Beers”. Mesmo esse projeto tinha alguma ligação com a música, já que eu escrevia para a revista Decibel. Com o tempo, o trabalho em revistas tornou-se financeiramente menos viável, e eu decidi me concentrar nos livros.

Em 2019, a primeira pessoa que procurei para escrever uma autobiografia foi Kim Thayil. Naquele momento, porém, ele ainda não estava pronto para esse tipo de projeto. Por diferentes razões, acabei realizando meu primeiro livro do gênero com Steve Turner, do Mudhoney: “Mud Ride”. Foi a primeira vez que escrevi uma obra desse tipo, então todo o processo serviu como aprendizado. Eu não tinha mentores nem alguém que me orientasse sobre como fazer aquilo; fui aprendendo na prática e encontrando meu próprio método. Foi esse caminho que acabou me levando à escrita de livros.

Meu primeiro contato com o seu trabalho foi através de “Mud Ride” mesmo. Achei o livro notavelmente bem escrito e perspicaz, equilibrando pesquisa histórica, contexto cultural e narrativa. Olhando para trás, o que a escrita desse livro lhe ensinou como autor?
Como eu disse, foi a minha primeira experiência escrevendo um livro desse tipo, então aprendi muito. Uma das principais lições foi perceber que nem sempre é a melhor ideia contar uma história de forma totalmente cronológica, começando no nascimento da pessoa e avançando linearmente até o presente. É possível estruturar a narrativa de maneira mais dinâmica, alternando períodos e temas, o que costuma tornar a leitura mais interessante. Não é necessário ser excessivamente linear.

Outra coisa que aprendi foi a importância de construir uma conexão emocional mais forte dentro da narrativa. Talvez o livro do Steve não tenha alcançado esse aspecto com toda a intensidade que poderia. Estou satisfeito com o resultado e considero que foi um bom primeiro esforço. A recepção foi bastante positiva, mas acredito que faltou um pouco mais de envolvimento emocional com os leitores.

Por outro lado, considero que o livro funciona muito bem como documento histórico. Steve pôde revelar aspectos importantes sobre as origens do grunge, algo que eu julgava essencial registrar. Até então, essa história havia sido contada principalmente por meio de histórias orais, reunindo diversas vozes e perspectivas diferentes.

Eu gostei da ideia de Steve atuar como uma espécie de testemunha principal desse processo. Afinal, ele cresceu em Seattle e esteve presente desde o início. Outras figuras importantes da cena, como Jeff Ament, mudaram-se para a cidade em algum momento de suas vidas. Jeff veio de Montana, por exemplo. Stone Gossard também nasceu e cresceu em Seattle, e sua trajetória está profundamente ligada à de Steve no surgimento da cena musical local.

Meu interesse — e também o interesse da editora — era registrar a visão de Steve sobre como o grunge surgiu, quais eram suas origens musicais e como funcionava a cena de Seattle antes mesmo de o termo “grunge” existir. Steve participou intensamente daquele período, que estava muito ligado ao hardcore.

Esse ângulo específico ainda não havia sido explorado dessa maneira. Steve possuía um conhecimento detalhado dos acontecimentos, algo que considerei fascinante. Ainda assim, acredito que eu poderia ter desenvolvido melhor a dimensão emocional da narrativa para aproximar mais os leitores da experiência humana por trás da história.

Então a experiência adquirida ao escrever “Mud Ride” influenciou sua abordagem em “Screaming Life”?
Aprendi várias lições sobre o que funciona e o que não funciona em uma narrativa desse tipo. Além disso, entre os dois livros escrevi outro projeto: a autobiografia de Gary Holt, guitarrista do Slayer e do Exodus. Trabalhar nesse livro e com outro editor também me ensinou muito. Quando cheguei ao projeto com Kim Thayil, já havia aprimorado significativamente minha abordagem geral, minha escrita e minha forma de construir histórias.

Também tive a sorte de trabalhar com um excelente editor na HarperCollins. Para ser sincero, tive algumas dificuldades no início da escrita de “Screaming Life”. Houve algumas tentativas frustradas. Escrevi quatro ou cinco capítulos, e o editor me disse que aquilo não correspondia exatamente ao que estavam procurando. Ele fez observações muito úteis e me apresentou boas sugestões.

Continuei trabalhando no material até encontrar o caminho certo. Quando finalmente consegui definir a abordagem adequada, o restante do processo transcorreu de maneira bastante tranquila.

Ambos os livros tratam de histórias ligadas principalmente aos anos 1980 e 1990, e grande parte do seu trabalho gira em torno da música alternativa e da cultura desse período. O que continua fascinando você nos anos 1980 e 1990 como momento criativo e cultural?
Há várias razões para isso. Em certo sentido, os anos 1990 foram o último grande período do rock, por assim dizer. Cresci ouvindo bandas como Beatles e Kiss, então possuo uma formação musical profundamente ligada ao rock. Esse sempre foi o gênero que mais me atraiu. Mais tarde, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, passei a ouvir a New Wave of British Heavy Metal e o heavy metal em geral, que tiveram enorme influência sobre meu gosto musical.

Na metade dos anos 1980, meus interesses começaram a se expandir. Fui apresentado ao punk e à filosofia do “faça você mesmo”. Eu já tinha alguma familiaridade com essa ideia por causa dos fanzines, mas passei a apreciá-la também aplicada à música. Esse contato com o punk — tanto musical quanto estética e ideologicamente — me fez compreender que o rock podia ser interpretado de inúmeras formas. Não era algo rígido ou limitado a categorias como punk ou metal.

Foi justamente nessa época que surgiram bandas difíceis de classificar. Onde encaixar Jane’s Addiction? No metal? No punk? No funk? O mesmo acontecia com os Red Hot Chili Peppers, que misturavam diversas influências.

Quando ouvi as primeiras bandas de Seattle, em meados dos anos 1980, tive uma experiência semelhante. A primeira delas foi Green River, através do EP “Come On Down” (1985). Curiosamente, descobri o grupo por meio de uma revista de metal chamada Metal Forces. A partir daquele momento, Green River se tornou minha porta de entrada para toda a cena. Conheci a coletânea “Deep Six” (1986), e foi como se um novo universo se abrisse diante de mim. Foi nesse momento que conheci bandas como Melvins, Malfunkshun, Soundgarden, U-Men, Green River e outros grupos fundamentais daquela cena. A partir daí, fui completamente conquistado, porque aquelas bandas dialogavam diretamente com os meus interesses musicais.

Havia uma escuridão sonora que podia remeter tanto ao metal quanto ao pós-punk, a grupos como Bauhaus. Ao mesmo tempo, havia influências claras do hardcore punk. Skin Yard também estava presente naquela coletânea. Existiam ainda elementos psicodélicos. Era uma verdadeira fusão de estilos. O mais interessante é que eu gostava de todos aqueles gêneros individualmente, mas nunca havia imaginado que eles pudessem ser combinados daquela forma.

Acho que os anos 1980 e 1990 representaram um florescimento extraordinário do rock. O gênero passou a incorporar influências muito diversas e tornou-se muito mais aberto. O próprio metal passou por um processo semelhante.

Acredito que a maioria das pessoas desenvolve uma ligação especial com determinada época ou estilo musical. É como se aquele período deixasse uma marca permanente. Para o resto da vida, elas continuam retornando àquela música. No meu caso, esse período foi justamente o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990. É a música que mais me agrada, o contexto com o qual me sinto confortável para escrever e uma época que vivi de perto. Morei em Seattle entre 1990 e 2002, então testemunhei toda a agitação, a empolgação e o crescimento daquela cena. Foi um período extremamente estimulante.

Registro do primeiro encontro entre Kim e Adam, em 2019 / Foto de Sara Bennett

Sua resposta dialoga bastante com a próxima pergunta. Em “A Screaming Life”, Seattle aparece como uma verdadeira comunidade underground, onde músicos, fãs, promotores, selos independentes e casas de show pareciam profundamente conectados. Olhando para trás, que fatores permitiram que aquele ambiente florescesse?
Acho que houve uma combinação de fatores. Seattle sempre foi um lugar muito criativo. Havia muitas pessoas criativas e a cidade tinha uma mentalidade bastante aberta nesse sentido. Além disso, Seattle era um tipo diferente de cidade porque, de certa forma, era relativamente isolada do restante do país. Pode parecer estranho dizer isso, mas especialmente naquela época era uma cidade bastante distante dos grandes centros.

A cidade grande mais próxima era Portland, e lá ainda tinha um perfil bastante operário. Se pensarmos em grandes metrópoles, a mais próxima era San Francisco, que ficava muito longe. Em vários aspectos, Seattle funcionava como uma espécie de ilha. Estava livre da atenção constante das gravadoras e de muitas outras influências externas.

As pessoas se sentiam confortáveis para fazer suas próprias coisas. Não estavam necessariamente preocupadas com o que acontecia em San Francisco, Los Angeles ou Nova York. Simplesmente seguiam o seu próprio caminho.

Também parecia haver muitos músicos e artistas que compartilhavam uma visão semelhante. Havia ainda um sentimento de que todos estavam do mesmo lado. Não existia muita competição. Em parte porque não havia muito pelo que competir. Não havia dinheiro circulando. Ninguém estava enriquecendo. Não existiam grandes oportunidades financeiras em disputa.

Por isso, todos pareciam fazer parte do mesmo time. A cena também contava com boas revistas e fanzines apoiando os artistas locais, como a revista The Rocket e o fanzine Backlash. Era um ambiente muito amigável. Pelo que pude observar, as pessoas se davam bem e apoiavam umas às outras.

Do seu ponto de vista como pesquisador e escritor, você vê algo comparável ao ecossistema de Seattle daquela época no cenário musical atual?
Não, e acredito que dificilmente veremos algo parecido novamente. O mundo é diferente hoje. A forma como as pessoas descobrem música mudou completamente. Atualmente, um amigo pode mencionar uma banda e, imediatamente, você pode procurar a página dela no Bandcamp ou em outra plataforma e ouvi-la na mesma hora. Naquela época, era diferente. Você precisava comprar o CD ou o disco, pedir uma música na rádio, ouvi-la em uma rádio universitária ou pegar o álbum emprestado com um amigo. Era uma maneira completamente diferente de descobrir bandas e de consumir música. Por isso costumo dizer que, de certa forma, a cena do rock morreu nos anos 1990.

A internet começou a mudar tudo. Depois veio o MySpace, e o impacto foi semelhante. De repente, era possível ouvir instantaneamente praticamente qualquer banda que tivesse colocado músicas online. Isso mudou completamente as coisas. Não acredito que veremos novamente uma cena local como a de Seattle se desenvolver da mesma forma.

Seattle ainda possui uma cena musical muito vibrante. Continua sendo uma cidade com muita atividade musical. Mas hoje ela é muito mais ampla e diversificada. Já a cena da qual surgiu o grunge era extremamente pequena. Havia relativamente poucas pessoas envolvidas, tanto entre os músicos quanto entre os fãs.

Isso só começou a mudar quando bandas como Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam alcançaram reconhecimento nacional. Foi então que muitas pessoas dos subúrbios descobriram aquela cena e passaram a frequentar os clubes da cidade. Elas tomaram conhecimento de um estilo musical que existia praticamente ao lado delas, mas que só perceberam quando o viram na MTV ou em outros meios de comunicação.

Portanto, embora Seattle continue tendo uma boa cena musical, trata-se de algo muito diferente. Pessoalmente, não acredito que veremos uma cena semelhante à de Seattle surgir em outro lugar.

Vamos falar agora sobre “A Screaming Life”. Qual foi a centelha inicial para o projeto? Por que aquele parecia ser o momento certo para um livro relacionado ao universo do Soundgarden?
Na verdade, eu nunca enxerguei o projeto como um livro sobre o Soundgarden. Sempre o vi como um livro sobre Kim Thayil. Obviamente, o Soundgarden ocupa uma parte muito importante da história dele, mas meu interesse principal era contar a trajetória de Kim.

Achei que aquele seria um bom momento para isso por algumas razões. Em primeiro lugar, o Soundgarden já não existia mais como uma banda ativa. Quando procurei Kim pela primeira vez, em 2019, já haviam se passado alguns anos desde a morte de Chris Cornell e o grupo não estava realizando nenhuma atividade significativa.

Kim também é cerca de sete anos mais velho do que eu. Naquele momento, aproximava-se dos 60 anos de idade, e não me parecia alguém prestes a iniciar uma nova banda ou embarcar em um projeto semelhante. Por isso imaginei que talvez ele estivesse disposto a refletir sobre sua trajetória e sua carreira. Creio que o momento foi relativamente favorável, porque ele demonstrou certa receptividade à ideia. No entanto, a pandemia acabou interrompendo os planos.

Nós nos encontramos pela primeira vez em novembro de 2019 e havíamos combinado um novo encontro para março de 2020. Isso não aconteceu porque a fronteira foi fechada. Eu morava no Canadá e não podia viajar para Seattle. O projeto acabou sendo adiado, mas mantivemos contato. Kim continuou demonstrando interesse na proposta. Quando as restrições da pandemia começaram a diminuir, voltamos a nos encontrar pessoalmente.

Em algum momento, entre 2022 e 2023, ele decidiu seguir adiante com o projeto, e então iniciamos efetivamente o trabalho. É um processo longo. Mesmo depois que duas pessoas concordam em trabalhar juntas, ainda existe toda a etapa de conseguir um contrato editorial e organizar a publicação. Há outro ponto importante. No fim das contas, a decisão sempre foi de Kim. Não posso falar por ele nem afirmar exatamente quais foram suas motivações. O que posso dizer é que ele estava receptivo à ideia.

Em outras entrevistas, ele comentou um pouco sobre isso, mas minha impressão é que simplesmente sentiu que aquele era o momento certo para falar sobre determinadas questões. E não apenas sobre o Soundgarden. Ele queria abordar muitos outros aspectos da sua vida, interesses e experiências. Acredito que, de modo geral, ele sentiu que havia chegado a hora adequada para compartilhar essa história.

Falando sobre o processo, que tipo de pesquisa você realizou para o livro? Houve alguma fonte, arquivo ou entrevista que tenha sido particularmente valiosa para você?
Para ser sincero, como este é um livro de memórias e não uma biografia propriamente dita, ele trata das lembranças de Kim e da história que ele queria contar. Por isso, não dediquei muito tempo à pesquisa de entrevistas antigas ou materiais semelhantes, porque esse não era o meu interesse principal.

Quando você consulta esse tipo de material, está ouvindo a opinião que uma pessoa tinha naquele momento específico da vida. O livro deveria refletir a fase atual da vida dele, porque, ao olhar para trás, provavelmente possui pontos de vista, sentimentos e percepções diferentes sobre os acontecimentos. Era isso que eu queria registrar.

Fiz pesquisas, mas de forma contínua e pontual, principalmente para esclarecer detalhes específicos. Durante nossas conversas, às vezes não tínhamos certeza sobre uma data ou sobre a ordem em que determinados acontecimentos ocorreram. Nesses casos, eu verificava as informações.

Mas eu não estava tentando confrontá-lo constantemente com os fatos. Afinal, como acontece em qualquer livro de memórias, a narrativa deve ser construída a partir das lembranças da própria pessoa.

Além disso, Kim tem uma memória extraordinariamente boa. Posso afirmar isso sem hesitação. Na maioria das vezes, quando eu questionava algum detalhe e perguntava se ele tinha certeza sobre determinada informação, ele acabava estando correto.

Por isso, não diria que realizei uma pesquisa extensa nem que utilizei algum arquivo específico de forma sistemática. O que eu fazia era verificar determinados fatos ao longo do processo, porque queria que o livro refletisse as lembranças atuais de Kim e seus sentimentos presentes em relação aos acontecimentos do passado.

Posso dar um exemplo. Se alguém decide pesquisar por que o Soundgarden se separou e consulta as declarações da época, encontra a versão apresentada pela banda em 1997. A mensagem era algo como: “Chegou a hora de seguirmos caminhos diferentes”, uma explicação bastante amigável, sugerindo que todos estavam confortáveis com a decisão. Mas, como o livro mostra, essa não era exatamente a realidade.

É verdade que alguns integrantes estavam esgotados. Mas o que realmente aconteceu foi que Chris Cornell decidiu deixar a banda. Ele procurou cada integrante individualmente e disse que estava saindo. Foi isso. E, como relatado no livro, ninguém tentou impedi-lo. Ben Shepherd parece ter sido quem ficou mais incomodado com a situação, mas Matt Cameron e Kim simplesmente aceitaram a decisão.

Olhando para trás, Kim reconhece que talvez deixar Chris sair não tenha sido a melhor escolha. Talvez a banda devesse ter feito uma pausa em vez de encerrar suas atividades. O ponto é que determinadas questões precisam ser compreendidas a partir do contexto atual. Em vez de me concentrar na versão divulgada vinte e cinco ou trinta anos atrás, eu estava interessado em saber como Kim entende aqueles acontecimentos hoje.

Durante o processo de escrita, você se deparou com alguma história ou descoberta que realmente o surpreendeu?
Houve coisas que eu realmente não sabia. Toda a história sobre Chris ter deixado a banda quando ela se separou, por assim dizer. Eu não sabia disso. Na verdade, ninguém sabia, porque, como eu disse, essa não era a versão apresentada pela banda na época.

Acho que Kim se sentiu à vontade para contar o verdadeiro motivo. Em vez de eu relatar tudo e acabar estragando a experiência para os leitores, diria apenas que há algumas surpresas no livro que as pessoas provavelmente nunca ouviram ou leram antes.

É natural que, quando você conversa com alguém com esse nível de profundidade, acabe descobrindo coisas das quais não fazia ideia. Dito isso, eu não sou o tipo de fã que conhece cada pequeno detalhe da história de uma banda. Não sou alguém que leu todas as entrevistas já concedidas por um artista.

Eu conhecia bastante a trajetória do Soundgarden, obviamente. Conhecia a carreira da banda, todas as músicas e esse tipo de coisa. Mas não tinha lido todas as entrevistas que eles deram desde o final dos anos 1980. Portanto, eu não era a pessoa que estava tentando descobrir informações obscuras que nunca tinha ouvido antes.

O foco era permitir que Kim contasse suas histórias. Ao longo das nossas muitas conversas, surgiram relatos que eu sabia que jamais haviam sido divulgados publicamente ou pela imprensa. Isso foi muito interessante.

E, para ser sincero, parte desse material nem chegou ao livro por diferentes motivos. Mas certamente algumas dessas histórias estão lá quando faziam sentido dentro da narrativa que estávamos construindo. A história da separação da banda foi uma das que mais me chamou a atenção, porque eu realmente não conhecia a verdade sobre aquilo.

Para mim uma coisa que me chamou atenção foi descobrir que Chris Cornell era baterista no começo do Soundgarden…
Sim, eu já sabia disso. Definitivamente. Infelizmente, nunca tive a oportunidade de vê-los naquela fase da carreira. Pelo que Kim se recorda, eles fizeram talvez pucos shows com Chris na bateria. Mesmo nesses shows, eles trocavam de instrumentos em alguns momentos.

Não me lembro exatamente como funcionava. Acho que Hiro (primeiro baixista da banda) costumava cantar em algumas músicas. De qualquer forma, eles fizeram talvez meia dúzia de apresentações com Chris tocando bateria. Dito isso, eles compuseram muito material durante esse período e chegaram a gravar essas músicas. A banda registrava muitas das próprias gravações, então boa parte dessa fase ficou documentada.

Eles continuaram tocando algumas dessas músicas mesmo depois que Scott Sundquist entrou como baterista e Chris passou a assumir os vocais. Mas certamente houve músicas que acabaram sendo deixadas de lado porque Scott não se sentia confortável tocando-as. Esses primeiros anos da banda são muito interessantes. Por isso, fico feliz que o livro apresente histórias novas para as pessoas conhecerem.

Soundgarden em Londres

Como era a dinâmica entre vocês durante o processo de escrita?
Basicamente, por falta de uma expressão melhor, trabalhar com alguém em suas memórias é algo bastante íntimo. A pessoa inevitavelmente compartilha aspectos muito pessoais da própria vida. E eu diria que talvez seja por isso que os livros do Gary e do Kim tenham tido uma ressonância emocional maior do que o livro do Steve. Eles estavam dispostos a se abrir mais e falar sobre questões mais profundas e emocionais. Por isso, precisa existir confiança. Eles precisam confiar que você não vai compartilhar algo que não deveria ser compartilhado e que tratará com cuidado e respeito as informações que estão lhe confiando. Você acaba desenvolvendo uma amizade e uma relação de confiança com a pessoa com quem está trabalhando. No caso de Kim e eu, nos encontramos pessoalmente talvez umas seis vezes para nossas conversas. Mas, para ser sincero, a maior parte do trabalho foi feita por telefone. Nós conversávamos regularmente, tentando fazer pelo menos uma ligação por semana. Essas conversas duravam cerca de uma hora e meia ou duas horas, dependendo do dia.

Depois, elas eram transcritas e se tornavam a matéria-prima da qual eu retirava o material para escrever o livro e contar a história. O livro acabou tendo aproximadamente noventa mil palavras. Mas nós transcrevemos algo próximo de trezentas mil palavras.

Portanto, houve uma enorme quantidade de material que não foi utilizada. Isso não significa que as outras duzentas mil palavras fossem todas aproveitáveis. Muitas coisas se repetiam ou simplesmente não faziam sentido dentro do livro. Mas conversamos muito. Passamos muito tempo cobrindo inúmeros assuntos por meio dessas conversas telefônicas que depois eram transcritas. E eu procurei preservar ao máximo a voz de Kim no livro. Não queria pegar as palavras dele e reinterpretá-las. Queria manter suas próprias palavras da forma mais próxima possível de como foram ditas.

Nesse sentido houve momentos em que sua perspectiva e a de Kim divergiram? Mas imagino que isso não tenha sido um problema.
Meu trabalho era, em grande medida, respeitar a visão dele. Tivemos algumas discussões. Não diria discussões no sentido de brigas, mas conversas mais intensas. Às vezes ele dizia que não queria incluir determinado trecho da forma como estava.

E eu, em algumas ocasiões, defendia com bastante convicção que aquilo deveria permanecer. Tivemos debates sobre a maneira de formular certas passagens ou mesmo sobre a inclusão de determinados conteúdos Se eu achava que algo era importante ou que ele estava sendo excessivamente cauteloso, tentava argumentar a favor da inclusão.

Não porque eu tivesse algum interesse pessoal em ver aquilo publicado, mas porque acreditava que melhorava a história. Com o tempo, tivemos tantas conversas que passamos a falar com bastante franqueza um com o outro. Ele podia contestar minhas opiniões, e eu podia fazer o mesmo. Não chegamos a ter discussões propriamente ditas, mas houve situações em que precisávamos conversar bastante até chegar a uma solução.

Isso é normal! Depois de tanto tempo trabalhando juntos, o que você aprendeu sobre Kim que mais o surpreendeu?
Eu procurei não começar o projeto com ideias preconcebidas sobre quem ele era. Por isso, não diria que fiquei surpreso. Mas aprendi muitas coisas sobre ele. Ele é extremamente inteligente. Realmente muito inteligente. E incrivelmente talentoso como músico, algo que eu obviamente já sabia.

Só uma curiosidade: eu adorei a história sobre o roteiro de Superman que ele escreveu para a DC Comics, mas que acabou não sendo aprovada…
Ele era um enorme fã de histórias em quadrinhos quando era mais jovem. E acho que, em algum momento, imaginou a possibilidade de se tornar roteirista de quadrinhos. Mas, acima de tudo, ele é uma pessoa extremamente inteligente, muito gentil e muito generosa. É uma pessoa realmente interessante e única. Não existe ninguém como ele. Passei a apreciar profundamente quem ele é como indivíduo, e não apenas como músico ou artista. Ele é simplesmente uma pessoa boa, inteligente, interessante e atenciosa. E fico feliz por ter tido a oportunidade de trabalhar com ele.

Vamos falar sobre o Soundgarden. Por que você acha que a banda continua ressoando entre gerações mais jovens que não viveram a fase original da banda?
Bem, especialmente os dois últimos álbuns da primeira fase da banda, antes da primeira separação, “Superunknown” (1994) e “Down on the Upside” (1996), tiveram alguns sucessos realmente impressionantes. Acho que essas músicas continuam sendo tocadas e mantêm o Soundgarden presente na memória das pessoas. Você ouve essas canções e pensa: “Quero ouvir o álbum de onde elas vieram”. Depois, talvez você descubra que gosta muito daquele disco e passe a explorar mais profundamente a carreira da banda. Então você percebe que eles tiveram uma trajetória bastante interessante. Acho que a maioria dos álbuns do Soundgarden tem uma identidade própria. Cada um soa diferente dos demais de alguma maneira, e todos contêm material muito interessante.

De certa forma, comparo isso à minha própria descoberta do Led Zeppelin. Eu não ouvia Led Zeppelin quando era criança. Ouvia mais Beatles porque era o que minha mãe escutava. Mas, quando fiquei mais velho e comecei a formar meus próprios gostos musicais, conheci o Led Zeppelin. Então quis aprender tudo sobre a banda. Voltei aos diferentes álbuns e percebi quantos tipos de música eles eram capazes de fazer. E acho que, em muitos aspectos, acontece algo semelhante com o Soundgarden. Não estou dizendo que o Soundgarden seja o novo Led Zeppelin — não me entenda mal. Não acredito nisso. Eles são uma banda única e extraordinária por mérito próprio. Mas possuem uma variedade muito ampla de material, que atrai diferentes pessoas por diferentes motivos.

Parte desse material é pesada, rápida e agressiva. Outra parte é extremamente emocional e bela. Há muitos elementos distintos com os quais as pessoas podem se identificar e dos quais podem gostar. E, no fim das contas, eles simplesmente têm ótimas músicas. Músicas muito marcantes.

Concordo. Esses dois álbuns que você mencionou provavelmente são os meus favoritos.
São realmente muito bons!

Kim e Chris ao vivo com o Soundgarden

Depois de concluir “A Screaming Life”, o que você espera que os leitores levem consigo, não apenas sobre o Soundgarden, mas também sobre criatividade, comunidade e o contexto cultural que deu origem à banda?
Acho que o livro mostra com bastante clareza como tudo isso surgiu e se desenvolveu em uma época diferente. Não estou dizendo que as pessoas devam tentar reproduzir aquilo, ou que isso sequer seja possível. Mas, do ponto de vista histórico, é interessante olhar para trás e entender como tudo aconteceu e em quais circunstâncias.

Também é importante observar a dedicação que aqueles músicos tinham à música e uns aos outros. Um dos temas centrais do livro, e algo muito importante para Kim, são os relacionamentos. Ele valorizava — e continua valorizando — os relacionamentos que construiu com as pessoas que fizeram parte do Soundgarden.

E não me refiro apenas a Matt, Ben e Chris, que são os integrantes mais conhecidos. Ele ainda tem sentimentos muito fortes em relação a Hiro Yamamoto e também a Scott Sundquist, que permaneceu na banda por um período relativamente curto. Kim considera Scott uma parte muito importante da história do Soundgarden.

Portanto, os relacionamentos são um tema fundamental: a importância de preservá-los, cultivá-los e mantê-los. Kim também aponta que, quando se perde isso de vista, podem surgir alguns dos problemas que o Soundgarden enfrentou. Acho que, para os jovens de hoje, o livro oferece a oportunidade de olhar para os anos 1980 e 1990 e entender como as coisas eram naquela época.

Não estávamos todos olhando para celulares ou para telas de computador. Nós frequentávamos clubes, assistíamos a shows, escrevíamos nossas próprias músicas e produzíamos nossos próprios fanzines. Era uma cultura muito diferente daquela em que tudo isso se desenvolveu. Por isso, para algumas pessoas, o livro pode ser revelador simplesmente por mostrar como era aquele ambiente. Como era a cena que deu origem a essas bandas.

Para finalizar, existe algum novo projeto em andamento sobre o qual você possa falar?
Não há nada que eu possa anunciar neste momento. Estou sempre trabalhando em algo novo, mas isso é tudo o que posso dizer. Gostaria de ter algo oficial para anunciar, mas ainda não é o caso. Espero que haja alguma novidade em um futuro próximo.

Espero que o livro do Kim seja traduzido e publicado em algum momento em português. Não sei se isso vai acontecer, mas espero que sim.
Gostaria que ele fosse traduzido para muitos idiomas e pudesse estar disponível no mundo todo.

Um dos motivos dessa entrevista é, quem sabe, despertar o interesse de alguma editora brasileira. Espero que alguma veja o quão o livro é interessante e decida publicá-lo em português. Então estou torcendo por isso.
Eu também adoraria que isso acontecesse. Se esta entrevista puder ajudar de alguma forma, acho fantástico. Muito obrigado pelo interesse no livro e por ter conversado comigo.

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. 

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