Entrevista: Lúcio Maia abandona a “macholência” e amplia seu universo instrumental em novo disco

entrevista de Alexandre Lopes

Quando decidiu assinar seus discos com o próprio nome, Lúcio Maia percebeu que já não precisava provar mais nada como guitarrista. Depois de décadas ajudando a moldar a sonoridade da Nação Zumbi, passando por projetos como Maquinado e trilhas sonoras, o músico pernambucano chega ao segundo álbum solo, “Lúcio Maia” (2026), disposto a investigar menos a técnica e mais a capacidade da guitarra de contar histórias.

Lançado em abril deste ano, o disco instrumental reúne oito faixas que atravessam psicodelia, música cinematográfica, ritmos nordestinos, texturas eletrônicas e paisagens sonoras construídas ao lado do baixista Marco Gerez e do baterista Arquétipo Rafa. Mas o trabalho não é talhado em virtuose: ele nasce do entrosamento de um trio que toca junto há anos e que, segundo o guitarrista, atingiu um grau de comunicação semelhante ao que viveu nos tempos de Nação Zumbi.

“Comecei a perceber que a guitarra é um instrumento super vocal”, diz Lúcio. “As linhas melódicas são muito parecidas, como se fossem vozes contando uma história. Perdi a necessidade de compor letra. Passei a pensar na guitarra como uma forma de contar uma historinha.”

Parte desse processo criativo aconteceu de maneira pouco convencional: durante as gravações das guitarras em seu estúdio caseiro, Lúcio experimentou registrar ideias sob o efeito de cogumelos psilocibinos. Segundo ele, a experiência trouxe descobertas importantes, embora também tenha revelado seus próprios limites. “Achei perfeito para criação. Mas o estúdio é o reino dos detalhes. No ao vivo, se você faz 70% bem, você fez um puta show. Se você fizer 70% no estúdio, metade do disco sai ruim”, afirma.

Em entrevista ao Scream & Yell, Lúcio Maia fala sobre o novo disco, a construção de narrativas instrumentais, o desafio de sustentar um show sem vocalista, a influência dos alucinógenos em seu processo criativo, a abertura do público brasileiro para a música instrumental e as diferenças entre os projetos Maquinado, Jackson Bandeira e a fase atual assinada com seu próprio nome.

A conversa também passa por temas como a relação entre música instrumental e público, a rejeição ao virtuosismo excessivo e a própria ideia de “guitar hero”, rótulo que acompanha sua trajetória desde os anos 1990. Embora reconheça o elogio, Lúcio prefere se enxergar como um músico interessado em canções, atmosferas e comunicação. “A minha relação não é só com a guitarra. A minha relação é com a música. A guitarra é apenas a ferramenta pela qual eu me expresso.”

Primeiramente, parabéns pelo disco. Claro que as guitarras são o chamariz do álbum, mas acho que ele também tem uns arranjos e umas atmosferas bem diferentes. Você sente que hoje compõe mais como um guitarrista ou como compositor e produtor?
Depende para o que é, depende do assunto. Para meus discos, obviamente eu sou guitarrista. Tenho essa maneira de compor assim, porque ao longo dos anos comecei a perceber que a guitarra é um instrumento super vocal. As linhas melódicas são muito parecidas com vozes, com as pessoas contando uma história. E comecei a pensar desse jeito na maneira de compor, sabe? De contar uma historinha, como se tivesse uma letra ali. E não é que os outros instrumentos não sejam dessa forma, mas estou dizendo só da minha maneira de me expressar com o meu instrumento. Então perdi a necessidade de fazer música com letra. O disco anterior (de 2019) já tem esse comportamento, essa ideia, então para fazer isso agora foi mais tranquilo, bem suave. Fui compondo os temas, depois quando estavam prontos, a gente sentou, entrou no estúdio, começou a produzir a demo, depois entrou no estúdio e gravou esse material que a gente tem. Mas como trabalho bastante com trilha sonora, geralmente faço de outra forma. Você está fazendo uma música que é para agregar algo àquela cena ou ao personagem. Você não pode pensar de forma protagonista, você tem que ser um pano de fundo. Usar poucos elementos, a não ser quando é uma música de abertura, que aí você fica bem à vontade. O diretor deixa você ficar mais livre, mas quando está compondo pra cena, tem que ser bem econômico. Então o papel de guitarrista já vai pro saco (risos). Já vou pensando de outras formas, cara. Já vou compondo com outros equipamentos, usando outras ideias, outras coisas, sabe?

E como é que você faz essa diferenciação entre os materiais? Você pensa “isso aqui eu vou usar pra trilha um dia”, “isso aqui eu vou usar pro meu trabalho solo”? Você pensa esse tipo de coisa?
Eu não uso material antigo, material para tal coisa ou uma sobra daquela coisa. Às vezes dou uma revisitada, escuto ali, mas não tenho vontade de usar. É tipo café requentado, bolo velho, sabe? Não é para comer nem para beber mais. Aquilo ali já foi, foi bom naquela época. É como se preferisse uma coisa sempre do presente. A não ser que seja uma ideia muito maravilhosa, uma coisa muito incrível, um riff foda que nunca usei e queria ter usado, mas acho que aconteceu somente uma vez. Foi quando montei meu estúdio, logo que Chico [Science] tinha morrido, daí me mudei para um apartamento lá em Recife e fiz um estudiozinho dentro de casa, meu primeiro estudiozinho. E aí compus o riff de “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada”. Compus esse riff antes, mas só gravei ele em 2002. Foi a única vez que eu achei um riff num CD antigo e resolvi pegar. Mas nunca uso material antigo.

Entre o disco solo anterior de 2019 e esse novo álbum, o que você acha que mudou na tua forma de criar?
O jeito que a gente fez o disco foi diferente. No disco de 2019 eu já estava com essa banda [em formato de quinteto]. Então a gente montou aquela galera, ensaiou, fez uns quatro ou cinco shows e depois marquei uma sessão de estúdio, entrou e gravou o disco. Foi do caralho. Mas eu tinha composto todos os temas anteriormente. Hoje o Marcão e o Rafa estão comigo há 7 anos já. Eles estão desde 2019, porque logo que os meninos gravaram o disco, eu não consegui mais fazer nenhum show com aquela formação. Cada um foi para um lugar, o Carranca acabou falecendo, cada um foi fazer outra coisa. Daí fiz um outro quinteto com o Marcão e o Rafa. E esse quinteto depois eu não consegui tocar para a frente mais porque é muito difícil rodar com cinco pessoas. Reduzi para um trio, começamos a fazer um monte de show, tocando, tocando e tocando. Aí a gente formatou o show e fez uma conexão forte de banda, sabe? Um negócio que a gente toca e não precisa mais se olhar. É uma coisa que eu tinha com a Nação, por exemplo. Era uma coisa de entrosamento, de vários anos tocando. Depois de 7 anos, a gente criou isso. A gente toca um ensaio e faz show. E esse bonde que a gente criou, eu aproveitei para gravar esse disco. A gente não compôs junto; eu fiz o disco em casa, compus os temas, mas quando a gente chegou no estúdio, os meninos colocaram tanta energia artística deles que eles são parceiros da composição. Então o disco foi composto por nós três e eles estão como parceiros de composição em todas as faixas.

Soube que você fez uma experiência tomando cogumelos na hora da gravação. É de boa você falar abertamente sobre isso? Faria de novo?
Foi uma ótima experiência, mas acho que talvez não faria de novo, porque tem bônus e ônus dentro da história toda. Consegui aproveitar muita coisa, mas teve momentos ali em que fiquei muito disperso, não conseguia me concentrar muito. Então foi um lance que eu aproveitei os melhores momentos, mas foi fascinante o resultado para mim. Gravei todo o dia com as guitarras na minha casa, a guitarra e baixo a gente gravou tudo aqui em casa. Então vim para cá, gravava, vinha de manhã cedo, gravava, passava o dia até umas 5 ou 6 da tarde, depois eu ia embora pra casa da minha namorada e ficava lá, jantava, dormia e aí eu vinha no dia seguinte fazer a mesma coisa. Eu tinha a minha casa como estúdio, então aqui era o trabalho. Então, fazer essa experiência sozinho, dentro da minha casa, foi fantástico. Foi maravilhoso, mas nem toda hora eu conseguia focar. Teve hora que eu ficava muito disperso, via TV e parava para ler um pouco. Aí ia dar uma volta no quarteirão e voltava para casa, gravava mais um pouco. Eu tinha essa liberdade porque a gravadora sou eu, eu que estou me bancando, entendeu? Pensei em fazer um disco diferente. Depois que terminei a parte da construção dele, eu não ouvia as coisas que gravava, eu gravava e ia embora. Chegava no dia seguinte, escutava tudo que tinha gravado, fazia: “puta, isso aqui ficou legal”. Aí eu ia botando umas marcações tipo post it, dizendo “isso aqui eu gostei”, “isso aqui é legal”. Aí dropava mais um pouco de cogumelo, ficava esperando uns 45 minutos para bater, pegava a guitarra e fazia o mesmo processo, entendeu? Eu não sei se eu tivesse com alguém aqui dentro ia dar certo, sabe? Não sei se tivesse em banda dentro do estúdio, doidão de cogumelo, se ia conseguir produzir. Talvez fosse querer ficar conversando, mas como eu estava sozinho aqui, consegui fazer. Por isso que estou dizendo que não sei se vou fazer isso de novo algum dia. Acho que não, muito provavelmente. Prefiro tomar cogumelo agora para curtir.

Pela forma que você contou, entendo que pode ter sido de uma forma bem espontânea, mas você teve que editar muita coisa?
É, editava e regravava, né? Fazia, montava. Aí “putz, isso aqui ficou legal”. Aí eu já fazia uma inteira com aquilo ali, fica prático. Quando você grava vários takes, vai separando pedaços de vários takes, monta um take inteiro, depois você grava um daquele jeito ali. É uma maneira bacana de trabalhar e não é nova, é bem antiga. Eu fiz isso em muitos discos também, mas não foi o caso desse não. Eu acho que esse disco, por exemplo, tem muito solo de guitarra. Mas eu não tenho aquele jeito tradicional de solar. Para mim, o maior desafio não era fazer arranjo de riff, porque isso era o legal de fazer com cogumelo, mas para gravar os solos eu tinha que estar bem concentrado. Aí era sempre no primeiro horário da manhã, depois de ter tomado café da manhã, uma xícara de café. Tentava fazer desse jeito porque não dá para você ficar tomando qualquer tipo de droga. Não é só com cogumelo; se você quiser tomar ácido, ecstasy, MD, qualquer coisa, você tem que ter muita prática e controle daquilo que você vai fazer, porque sua cabeça vai para outro lugar. A sua mão não pode ficar dependendo que você comande ela, porque senão não vai rolar. Qualquer droga que tomar vai romper essa comunicação que você tem com a sua mão que está tocando. Já estou acostumado a fazer isso, porque no dia que você toma droga, você faz “uau, uau”. Mas faço isso já há muitos anos, então a minha mão continua. Me lembro a primeira vez que fumei maconha para fazer um show e foi um desastre. E entendi que precisava fumar unzinho no ensaio, sem ninguém me olhando, sem nenhuma cobrança de público. Aí me acostumei, cara. Não consigo hoje em dia tocar sem fumar unzinho antes. Para mim é fundamental para poder relaxar, para ficar mais criativo. Já liguei uma coisa com a outra. E tomar uma cervejinha, duas e fumar um baseadinho, é normal. Agora se você toma uma droga que vai realmente mexer com o teu psicológico, tem que estar acostumado, porque senão é desastre total.

E de onde veio essa ideia de gravar sob efeito de cogumelos? Você gravou um take primeiro assim e achou que ficou legal e quis repetir a experiência? Como foi?
Não, não foi para uma gravação específica, eu já vinha tomando antes. Acho que da pandemia para cá tomei um bocado, porque tinha tempo para isso, né? E no ano passado foi quando comecei a fazer uso disso para shows, comecei a gostar, achava legal. Tomava 0,40, que era uma dose que eu ficava bem, era divertido e aí achei que poderia funcionar [na gravação] porque no show estava funcionando. Mas ao vivo é uma coisa, estúdio é outra. No ao vivo, se você faz 70% bem, você fez um puta show. No estúdio, cara, se você fizer 70%, você só fez merda (risos). Quase metade do disco sai ruim, não pode. Alguém me falou isso uma vez, que o estúdio é o reino dos detalhes. Então não pode chegar e querer errar uma nota ou dar uma vacilada. No show tudo bem, passa em branco, tem um contexto. Mas realmente dentro do estúdio não funciona tão bem assim para muitas coisas, mas para criação eu achei perfeito.

Isso me lembrou um pouco aquela história do filme “Holy Mountain” do Alejandro Jodorowsky. Diz que antes dele começar as filmagens, ele e os atores foram morar juntos durante um mês numa casa e todos eles tomaram cogumelo como preparação. Você sabia dessa história?
Não, não sabia. Eu tenho interesse em smart drugs, droga de diversão. Mas não tenho essa relação de drogadito. Acho isso um saco, uma merda. Sou pai de família, tenho filho para criar, conta para pagar. Acho que para ser viciado em cocaína, essas coisas, você tem que ter um certo desprendimento, não ligar para ninguém. Então nunca foi a minha. E eu acho que não é você que encontra a droga; acho que a droga te encontra, cara, porque é um lance do encaixe, da pessoa usar o negócio e aquilo ali ser bom para você. Não vai fazer mal para ninguém em volta, sabe? Se faz só mal para você, velho, o problema é seu. Mas se você tem um controle e convivência com o negócio de forma sadia, madura… Velho, o álcool é uma merda, brother. O álcool é o que mais estraga todo mundo. Se você for ver as estatísticas de tudo, de violência doméstica, até acidente de trânsito, o álcool é o topo, muito distante, cara. E não é bom. Mas quem é que não gosta de tomar uma cervejinha, de provar bebida alcoólica? Já bebi muito e até hoje gosto, cara. Só que acho que é uma porra de hipocrisia você dizer que uma coisa pode, outra coisa não pode. Então a minha relação com droga é da vida toda, cara. Eu entrei, gravei meu primeiro disco com 22 anos. Eu já fumava maconha nessa época e o resto veio dentro desse universo. Até os caras mais caretões tinham isso. Não estou dizendo que todos eles cheiraram, mas eles tiveram contato de perto com isso, com alguém que usava. A primeira banda de reggae da história que não fumava maconha era o Skank. Mas eles tinham algum contato com isso porque, velho, é inevitável nesse mundo. Então eu tive uma relação com essas paradas, mas nada disso me afetou. A partir do momento que comecei a ter esse contato, por que não usar isso para alguma coisa, sabe? O pai de um amigo meu falava isso: “porra, vai fumar maconha para ficar de bobeira? Fuma maconha e vai fazer alguma coisa útil”! Falei “tem razão”. As drogas talvez tenham mais efeitos se você utilizar para alguma coisa boa.

Muita gente costuma te definir como um guitar hero. Você concorda com isso ou esse rótulo te incomoda?
Não, vê só. É um elogio e tanto. Dizer que eu não gosto de ouvir isso é foda, é mentira. Mas eu não me acho isso. Não me acho uma pessoa que tem essa logística de guitarrista, de que eu faço parte desse universo. Não faço, na verdade. Se a gente for ver, sempre que tem esses grandes encontros de guitarristas, eu nunca estou, cara. Ninguém nunca me chama! Não é que eu não vá não; se quiser me chamar, eu vou, bicho. Mas ninguém chama, cara. De qualquer forma, eu acho bom ser visto pelo público como um guitar hero ou guitarrista, como eu acho bom também não ser visto como um guitarrista pra galera da guitarra, entendeu? Eu acho legal porque no fundo a minha relação não é só com a guitarra. A minha relação é com a música. A guitarra é o meu instrumento, a ferramenta pela qual eu me expresso. A guitarra é de madeira cheia de ferro, cheio de arame e tal. As guitarras não têm vida. Aquela guitarra Black Strat do David Gilmour, por exemplo, ser vendida por 6 milhões de libras… Cara, isso é um absurdo. Tudo bem, ela tem uma história na mão de uma pessoa e é por isso que ela vale isso, a mão da pessoa que pegou nela a vida toda fez ela ser quem ela é, né? Mas a guitarra em si, se você botar na mão de uma pessoa que não toca nada, ela não vai fazer um puta som, entendeu? É só uma ferramenta, galera. É tipo um casaco do Paul McCartney: vai valer um dinheiro do caralho, mas é só um casaco, não é o Paul, entendeu? Mas voltando ao negócio do rótulo de guitar hero, quero me enxergar como um músico que foi influente dentro do meu âmbito, da minha proposta, sabe? Fiz o que quis e consegui ter uma fluência, uma sobrevivência dentro disso. Isso para mim já tá legal, cara. Fico bem satisfeito.

Acho que diferente daquela coisa do guitar hero que quer ficar se mostrando solando o tempo inteiro, né? Eu acho que o guitar hero humilde que sabe a hora de aparecer e dar espaço para outras coisas são os mais legais, na verdade.
Sem dúvida, cara! Primeiro que assim, eu não sou e nunca fui um músico daqueles escaleiros, né? Eu não sei escala de porra nenhuma. Eu vou de ouvido, no feeling. Esse obviamente não é meu approach, cara. Nunca foi. Não tenho nada contra, acho massa o universo e é uma bolha gigante. Tem uma excelência no negócio ali. Porque é foda, não é fácil fazer aquilo. São muitos anos de estudo. O cara tem uma dedicação do caralho para tocar daquele jeito. Mas acho que tem uma galera que gosta de música, que gosta de guitarra, que não absorve aquilo, sabe? Aquele excesso de nota, velocidade, não quer dizer muita coisa pra mim. Tocar rápido para mim não quer dizer nada, não significa uma virtude, sabe? Tocar rápido é tipo andar rápido de carro, sair correndo toda hora na rua em vez de andar normalmente. Não quer dizer que é um cara virtuoso. Por exemplo, o Kiko Loureiro é um cara que tem um trabalho foda, forte para caralho. Você vê as obras dele, tem baião, tem rock progressivo, tem metal, tem de tudo. O mano tem uma entrega musical forte, até porque o Kiko é maestro. O cara toca flauta, teclado, toca tudo. Eu fui duas vezes no show dele e realmente tem uma parada diferente. Ele não é só o cara que fica sentado na frente de uma câmera dentro do quarto mostrando que sabe tocar rápido. Ele tem outro rolê. Ele é o cara que produz os solos para os caras ficarem dentro do quarto gravando, filmando, tentando tocar igual a ele. Então ele está na frente. Eu o admiro muito. Inclusive fui no show ver ele e o Marty Friedman juntos. Foi animal ver os dois. Duas gerações do Megadeth juntas. Foi incrível, cara. Mas não é a minha praia [tocar assim], nunca foi e não vai ser, né?

Eu não sabia que você gostava de Megadeth.
Você está brincando, né, velho? Lógico, cara. Lógico! O “Rust in Peace” (1990) é uma obra de arte do metal. Para mim ele e o “Kill ‘Em All” (1983) do Metallica são discos que foram marcos.

O que você acha que ainda te desafia como guitarrista hoje em dia?
Ah, fazer um show inteiro sem precisar de voz. Tocar uma hora, 1 hora e 15, sem precisar de um vocalista. Acho isso um desafio maravilhoso. Mas isso já está rolando desde 2023, quando o trio começou. Acho que hoje a gente conseguiu montar um show que consegue dialogar com a plateia, quebrando os paradigmas de não ter um cantor. Até canto duas músicas no show, mas não sou cantor. Inclusive penso que é legal eu cantar no show, porque dá o respiro para a guitarra. Tem que ter algo dentro de um show para ser um respiro, é fundamental pra ser dinâmico. O Rafa tem um momento que ele toca sozinho e se expressa, sabe? Então, abro espaço pros músicos serem eles mesmos. Tudo isso para mim é uma maneira da gente tornar o show palatável, para um público que gosta de rock, de blues, de rock pop, enfim, a gente tenta entrar dentro dessa. E esse desafio para mim é foda, esse diálogo da guitarra com o público. Acho que a gente já tem isso. Só é preciso conseguir mais espaço para tocar, né?

Você acha que o público brasileiro tá mais aberto hoje à música instrumental do que há anos atrás?
Sim, cara. A música instrumental mudou demais, ela não era assim na época que eu era moleque na década de 1980, que era minha adolescência. Música instrumental era sinônimo de banda chata, aquelas bandas de fusion… Aquelas bandas que eram chatas para um caralho porque era música feita para músico, não era música para curtição. Não era música que você botava para correr, andar de bicicleta. Aho que quando foi virando os anos 1990, foi uma década que deu uma afunilada nesse universo, sabe? Assim, não tem mais espaço para essas bandas. Tanto que, as bandas que eram de fusion começaram a voltar pro jazz para ter um espaço para tocar, porque aquilo ali meio que deu uma desaparecida, o mercado ficou muito restrito. Eu não tinha interesse nenhum por essas bandas. Até meados de 2015, 2014, que começaram a surgir esses trios que tem hoje e que são mega bandas. Tipo Khruangbin, Arc De Soleil, Los Baltos, eh, Glass Beams, tem banda para caralho hoje em dia. E são sempre trio. E você vai ver a plateia, ela é bem mista. São muitos casais, tem muita mulher. Nesses shows que eu fui de metaleiro, só tem homem, cara. É 97% homem, sabe? É muito nichado esse universo da guitarra shred, mas dessas outras bandas não. É um negócio muito mais aberto. Tem muita mina que vai e eu acho importantíssimo esse negócio, porque música é para todo mundo, sabe? Eu acho que tem que ser bem aberto assim. E eu acho que esse meu disco novo está tendo um apelo bem feminino. As meninas estão gostando, minhas amigas ligando para mim dizendo: “Puta, adorei teu disco”. Eu achei foda que consegui isso. Porque fazer disco só para homem é o fim da picada, brother. É o fim da picada.

O disco tá mais dançante também. Eu enxergava um pouco disso no disco anterior também.
É. Eu entendo isso, ele fala mais com o corpo. Acho que desde 2014 ou até antes ainda, 2010 ali com Almaz, eu fui dando uma cancelada na “macholência”. Aquele lance de ficar fazendo música pesada, para gurizada. Eu fui largando isso, sabe? Fui deixando isso para trás e hoje em dia eu abandonei completamente. Cheguei ainda a gravar umas músicas com o Ferréz e o Boka e o Formigão, que é o Fugitivos da Fema, que foi uma banda que a gente montou em 1995, gravamos três músicas. Mas fora isso eu não tenho mais muita vontade de trabalhar metal, nem rock pesado, essas coisas.

E qual é a diferença que você enxerga entre o Lúcio Maia, o Maquinado e o Jackson Bandeira?
Cara, olha só, são três épocas diferentes da vida. Cada época, cada personagem desse aí tinha uma idade diferente. Então é parte da minha evolução, são alteregos. Nem chega a ser porque sou eu mesmo, né cara? Mas assim, o Maquinado já era um disco que eu produzi, fazendo todas as canções, cheio de convidados e etc. Aquilo ali eu já poderia ter chamado de Lúcio Maia, mas acho que eu tinha algumas questões. Talvez eu não tivesse a minha convicção como artista solo ainda totalmente fundamentada, porque eu fiz um disco com 18 pessoas. Como é que eu posso dizer que aquilo é Lúcio Maia, sabe? Eu não concordo. Por isso que chamei de Maquinado, que era um conglomerado, uma fábrica de gente trabalhando junta. E foi assim um tanto no segundo álbum também. O segundo não foram 18 pessoas, mas foram, sei lá, umas 10. Então deu a mesma coisa. Agora, quando chegou no disco de 2019, eu levei um montão de tempo para pensar no que ia fazer. Foi exatamente numa casa que eu morava lá no Alto da Lapa, que tinha um estúdio. Então, aluguei a casa basicamente por causa desse estúdio e lá dentro produzi muita coisa e aquele disco. E aí eu senti que era o momento de assinar com meu nome, porque era sobre isso, né? Eu ainda pensei em botar “Cinco” porque eram cinco pessoas. Mas quando foi ver tinha vários homônimos, várias bandas aqui na América Latina chamadas “Cinco”. Então, o cara do selo, o Dudu, ele virou para mim e fez: “Cara, por que você não bota seu nome? Daí acaba esse problema”. Aí, pronto, daí em diante eu já tenho convicção disso.

Foi meio por praticidade então. Eu achei que você ia vir com uma coisa mais existencial, mas tudo bem (risos)
Eu acho que tinha medo de assinar meu nome no primeiro disco. É uma coisa muito forte, né, cara? Muito pesado. E pessoalmente eu não gostaria de fazer um disco de produtor. Sabe, ser o cara que junta um monte de artistas e no final bota o nome dele? Não tenho o menor problema com quem faz isso, mas fico pensando que ali é todo mundo, não é só você, Esse disco que fiz agora, os caras estão lá comigo. Botei meu nome, óbvio que sou eu. Sou eu que compus, eu que estou botando. Mas os caras entraram nas composições, eles estão lá, entendeu? Somos uma banda que é Lúcio Maia Trio, com o Rafa e o Marcão. A gente criou uma unidade, gravamos um disco inteiro desse jeito, né? Fomos nós que fizemos, não tem fulaninho cantando música tal, ciclaninho… Isso aí para mim é um negócio que desvirtua muito para você no final botar seu nome, entendeu? Eu não tenho nada contra quem faz isso, mas para mim não funciona. Não tenho essa visão de lucro, sabe?

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.

 

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