entrevista de Elsa Villon
Quem desce nas atuais calçadas quebradas próximas ao Metrô República, no centro de São Paulo, e entra na Praça Dom José Gaspar precisa olhar atentamente: o espaço é uma obra-viva, que respira arte e cultura, ainda que por aparelhos sem apoio financeiro oficial.
Entre vinis, livros, obras de artistas, cigarros soltos e outras peças, está a BankAtelier do Jamelo. De São Mateus, distrito localizado na zona leste da capital paulista, a aproximadamente 20 km da região central do município, mas que o músico Rodrigo Campos reitera não ser “um lugar assim tão longe”, Jamelo.c, influenciado pela efervescência cultural do começo dos anos 1990, dedica sua vida à música, literatura, poesia, artes plásticas e tantas outras manifestações, e isso pulsava tão forte a ponto de revigorar uma antiga banca de jornal que ocupava, mas não existia.
Restaurar um espaço que foi idealizado como ponto de venda de mídias impressas na Era Digital segue sendo um desafio, mas já trouxe alguns resultados em um ano e meio de existência, como a participação na Semana de Design de São Paulo!.
Criada em 15 de setembro de 2024, a BankAtelier do Jamelo reúne artistas e promove encontros de música ao Centenário do Surrealismo, das artes plásticas ao apoio à restauração da Mata Atlântica em São Paulo, do centro de São Paulo a Milão, Berlim, Paris, Nova York e assim por diante. Centenas de artistas já ocuparam e pertencem ao espaço. Justamente por ser um lugar de passagem, a entrevista contou com a instituição de pessoas parando para pedir informação, característica comum às bancas de jornal.
Entre interrupções, Jamelo se mobilizava em vendas e é notável o quanto é querido na região, além de respeitado, sempre com transeuntes comentando pequenos projetos em andamento ou em ideação. Sentar na mesa em frente à BankaAtelier e gravar presencialmente remete a tempos de coisas analógicas, sem IA, sem tantas tecnologias digitais e por quase duas horas, o tempo passou mais devagar, mesmo sem comprovação científica.
Jamelo conta sua trajetória e como surgiu a BankAtelier, da Zona Sul para Oeste, de São Paulo para o mundo, abaixo:

Como começou sua sua jornada nas artes?
Vale a pena dizer que eu sou autodidata, não tenho formação acadêmica. A minha formação se dá na prática, no dia a dia. Analisando, hoje vejo que começou quando eu comecei a pintar os meus peões, as minhas pipas, os balões, a fazer as cangalhas, bandeirinhas, lanterninha, sabe? Acho que ela se dá aí e na pichação que eu fazia com rolinho e tinta que eu encontrava por aí. Sei lá, eu tinha uns 11 anos.
Depois passo a ter outros contatos: com a poesia, com os meus 20 anos. Depois com cinema, produzo algumas coisas, também escrevo. A coisa foi só aumentando, A pintura, na verdade, eu coloco em prática mesmo a partir de 2015, e faço minha primeira exposição comercial em 2022, na galeria Metrópole. Minha minha vida na pintura. Vamos dizer que ela começou exatamente aqui onde eu estou hoje.
Conta um pouco sobre a sua trajetória, vida, trabalho, referências… como você chegou no ponto aqui, há quanto tempo você está aqui?
Ah, referências. São muitas, sabe? Vou começar por ordem cronológica, das coisas que fui descobrindo. Acho que em primeiro lugar é o futebol, o time do americano, que era o time lá da minha quebrada.
De onde você é?
Sou da zona leste. Nasci e vivi boa parte da minha infância em São Mateus.
Conheço, perto de Santo André.
De vez em quando eu ia até andar de skate lá (em Santo André), naquela pista enorme. A gente pegava um busão e descia pela frente mesmo. Nem pagava. Quem entrava por trás descia pela frente naquela época. A gente não tinha grana, mas queria rodar. Vinha para o centro nesse esquema, Não tínhamos dinheiro.
Que ano isso?
Ah, de 1989, 1990, 1991 e por aí vai. A gente vinha jogar fliperama no centro (de São Paulo), vinha na Galeria do Rock, ia nos encontros de b-boys no (metrô) São Bento. Era muito louco! Eu era bem criança, mas tinha um irmão mais velho, e esse meu irmão é black, então eu sempre estava envolvido, apesar de ser branco. Mas (no fundo) é só fachada, vai para o grupo quem quer.
E em relação ao trabalho?
Minhas referências na poesia: Dona Olinda (Beja), Carolina Ramos, Augusto dos Anjos. Depois descubro Roberto Piva, são muitos, sabe? Vou transitando e conheço Jorge Amado, Machado de Assis, Wesley Barbosa, Valerio Coelho Rodrigues. Já a música é uma coisa que sempre me pegou muito. Minha primeira referência foi Titãs, na verdade, o primeiro disco que eu ouvi na vida, “Cabeça Dinossauro” (1986).

Música é uma coisa que consumi muito e consumo até hoje. Sou muito fã da música brasileira, é a música mais incrível do mundo. Tenho ojeriza com esse lance do americano, da coisa europeia, porque tudo aqui é muito colonizado. Isso me irrita demais, sabe? Você pega um computador e está lá “ctrl”, sei lá, eu não gosto.
Então, descobri a pintura e começo a estudar essa coisa. Até 2019, 2020, quando passo a conhecer os grandes mestres: Van Gogh, o Kiefer, o Murano, o Volpi, enfim, são muitos os artistas. Gosto de citar aqueles que convivo também, ou já convivi, como o Rodrigo Andrade. Tem muita gente, mesmo.
Você sempre trabalhou dentro dessas questões artísticas ou não? Ou isso era um hobby que se tornou um negócio?
Então, na verdade não sei se era um hobby, porque na verdade também não era, mas também não era comercial. Não sei como chamar isso. Era uma coisa natural, eu precisava fazer, mas também não era terapia.
Defendo o seguinte: Gilberto Gil falou que a arte é como arroz e feijão, tem que estar no dia a dia. Então vejo como arroz e feijão, a minha pergunta é mais nesse sentido…
É, passei a comer arroz e feijão diariamente, mas, de repente, resolvi que queria comer um bife também, enfim, nessa seara. Então passo a comercializar esses trabalhos. Entendo que esses trabalhos devem e podem ser comercializados sem nenhum problema, sem culpa católica, sem nada. Passo a comercializar esses trabalhos e não tenho dificuldade nenhuma em praticar uma venda, sou vendedor, sempre fui articulador. Mas vender a arte não é matéria fácil. É mais fácil vender uma casa do que vender uma pintura, não é simples. E o mercado da arte é muito mais difícil do que o mercado imobiliário. Mas como todo mercado, se você se preparar e tiver afim, você vai entrar, vai penetrar. A profundidade em que você vai chegar depende de você e do tempo, vai da sorte e da sua competência, porque sorte todo mundo tem, mas nem sempre a gente tem a competência necessária para lidar com aquela sorte que teve. O mundo é isso aí. Todo dia abre e fecha milhares de portas.

Quando surgiu a ideia para montar aqui a BankAtelier?
Vou ser sincero: as coisas acontecem na minha vida porque eu me lanço, acredito. Se eu for parar para pensar como eu construí… não é um negócio, uma obra, não é um trabalho que eu arquitetei. Havia o desejo de ter um espaço onde eu pudesse estar. Já tive o desejo de ter uma banca no passado, em uma época em que eu vendia livro e disco na rua, na calçada, lá na esquina da Avenida São João com a Dom José de Barros. Depois eu crio a Galeria Vitória, e da calçada eu pulo para o prédio. Mesmo sem grana, sem nada, consigo uma situação inacreditável, que foi interrompida pela pandemia. A pandemia também me lança, me joga a muito mais coisas, porque passo a ter certeza de que ninguém é insubstituível, não sou o Highlander, estava todo mundo ali (em meio a pandemia) e você podia morrer a qualquer momento. A impermanência está aí. A pandemia me traz isso. Com uma certa dificuldade, encerro diversas atividades que eu havia realizado e volto para a rua. Esse projeto da Galeria Vitória acaba e eu volto pra rua. Nisso, passo a meio que querer encontrar um novo espaço. Eis que passo por aqui um dia e vejo que essa banca estava fechada.
Em que ano foi isso?
2024, é recente. A banca estava abandonada, toda arrebentada, toda quebrada. Ela era o banheiro público da praça. Aqui era um lugar que ninguém ficava. E o que acontece? Eu vou numa exposição de pinturas do Zé do Caixão, que também é uma referência para mim no cinema – Glauber Rocha é referência para mim, o Candeias, porque na minha vida sempre foi assim. Eu fui conhecendo pessoas muito incríveis, sem procurá-las e muito vezes sem saber quem era. De sentar num lugar e começar a conversar com (o arquiteto) Paulo Mendes da Rocha sobre Burle Marx. Até então eu era ignorante nesse sentido, mas eu o encontrava num boteco na Vila Buarque. Ele foi um mestre do patrimônio. Essas coisas sempre aconteceram comigo.
Encontros.
É, encontros. Sempre fui encontrando pessoas muito incríveis. Mas voltando: vou para uma exposição e tenho uma conversa inicial com o cara que é o dono da banca, desse ponto. Explico para ele minha situação, que não tinha dinheiro, mas que eu sabia trabalhar, tinha um bom material, tinha segurado os livros, os discos e tinha as minhas pinturas, minhas gravuras, meus desenhos, enfim, tinha o meu trabalho. O cara botou fé, me deu a chave e falou para mim: “Ó, Jamelo, vai lá, fica 15 dias. Se for isso mesmo que você quer, você vê que dá para você, a gente se encontra e aí a banca vai ser sua e nos acertamos”. Me acertei com ele e estou pagando a banca. Então foi isso, desejo e necessidade. A banca passa a se transformar, o projeto começa a se desenvolver e a banca hoje é uma entidade. Ela me fala o que ela quer, o que é necessário.
Como funciona: horários, dias, o comércio?
Estou aqui praticamente diariamente, apenas algumas segundas-feiras e alguns domingos não, mas de terça a sábado estou aqui com certeza, entre 11h e 19h, mas de sexta e sábado, um pouco mais. Já sai daqui três horas da manhã numa tranquilidade. Ano passado, por exemplo, eu trouxe o pessoal do MASP aqui. Vieram umas oito pessoas, mais ou menos, numa quarta-feira, em que esses comércios todos fecham. Ficamos até meia-noite, e ninguém entendia nada sobre como ficar no centro da cidade na paz que eles ficaram. Sem nada! Porque aqui não tem deselegância. Aqui estou protegido, inclusive por todas as forças.

Eu vi que você realiza uns eventos na Banka. Como é que é a dinâmica?
Desde o começo venho realizando coisas aqui, desde o segundo ou terceiro mês de BankAtelier, talvez. Aconteceu aqui o Festival Mario de Andrade, em comemoração aos 100 anos de Surrealismo no Brasil. Faço o festival Megafauna, trago a exposição “Apagamentos, Sonhos e Metamorfoses”, consigo um texto do curador do Paço das Artes, que é o Renato De Cara, e trago a história de “O Fauno“, uma obra de Brecheret, feita em 1944 e retirada em 1946. Ela foi encomendada pelo prefeito Prestes Maia, que à época encomendava obras para espaços públicos. E o Brecheret então o faz (para adornar a Praça Dom José Gaspar). A antiga sede da Cúria Metropolitana ficava no prédio que, nos anos 1940, deu lugar à Biblioteca Mário de Andrade. E a Igreja Católica pediu a remoção da obra (nota: devido às suas características pagãs, que representam o deus Pã, metade homem e metade bode, e de forte apetite sexual). “O Fauno”, então, foi retirado daqui e levado, descoberto dois meses depois no Parque Trianon (na região da Avenida Paulista). Flávio de Carvalho (um dos grandes nomes da geração modernista) chama isso de atentado, mas Brecheret não se manifesta verbalmente, mas participa de um ato. Acho que isso simboliza bastante (trazer a história de “O Fauno” pra cá), dá para entender. Imagina você enquanto artista, tem encomendado um trabalho ao qual se dá liberdade de produzir o que você quiser, você produz um trabalho específico para uma um local público e ocorre isso. O artista é um criador! Acredito muito que ele deva ter um porquê de ter feito esse trabalho. Enfim, não quero entrar no mérito do porquê. Fica uma questão de cada um querer entender. Ele não está vivo para nos dizer.
Volta um pouquinho. Esse foi o evento que aconteceu com os três meses?
Esse foi o primeiro evento que aconteceu. Essa exposição fica em cartaz durante uns três ou quatro meses. Começa em 2024 e passa para 2025. Acho que essa exposição vai se encerrar uns 5 meses depois, para ser sincero. Também faço encontros de pintura, com modelos vivos, desenho de retrato, confecção de máscaras. Vou fazendo coisas por aqui, recebendo diversos tipos de artistas, não só daqui, como do mundo todo: Estados Unidos, Alemanha, Hong Kong, Milão, França, Japão, de todos os lugares do mundo mesmo. Inclusive meu trabalho já está na maioria desses países que citei. Porque eles vão passando por aqui! E então o que acontece quando a banca completa um ano? Quanto é o aniversário da banca?O dia mesmo é 15 de setembro, mas como caía no meio da semana, acho que em uma quinta-feira, preferi transferir pro sábado.
É um dia mais livre.
E também fica aberto. Porque tem muito público aqui, a passagem é muito maior e muito mais diversa. As pessoas não estão trabalhando, então como é aberto, qualquer um pode chegar. A BankAtelier é assim: as pessoas têm confiança. Tudo elas vêm perguntar aqui. Por isso até me coloquei à disposição da própria Biblioteca Mario de Andrade, da Galeria Metrópoles. Todo mundo que tem alguma coisa no entorno pode deixar algum material impresso aqui, porque as pessoas vêm perguntar na banca,
A banca também participou da Semana DW (Semana de Design de São Paulo). Também faço diversas atividades aqui e abro o espaço para muitos grupos da cidade, de pintores, artistas, enfim, a ideia é sempre abrir espaço, porque estou em praça pública. E também a minha história, minha caminhada sempre foi coletiva. Em todos os lugares que estive sempre foi assim.
Tenho tido muitos feedbacks das pessoas que estão me vendo aqui de novo e vindo conversar. Elas vêm falar: “Pô, é impressionante como a praça mudou! Mudou e é diferente quando você não está, porque fiquei fechado aqui durante quase um mês mais ou menos. A prefeitura até chegou a me mandar umas multas porque a porta estava fechada. Mas esse feedback é incrível, me dá mais consciência e força para continuar mesmo. Não, não é fácil estar aqui, mas é natural para mim.

Você tem algum levantamento de eventos de artistas, de exposições, de ações?
Não fiz isso ainda, mas devo ter feito mais de 30 eventos, talvez (desde 2024). Houve eventos semanais, por exemplo, fora os eventos que acontecem aqui que não estão programados. Se você for analisar, isso aqui é um evento diário. Como é que você vai metrificar? Ainda tenho algumas dúvidas com relação a isso, mas (já passaram) centenas de artistas. Ernesto Neto, Rodrigo Andrade, Paulo Vamposer, Renata Lucas, Domênica, de Berlim, muita gente de Nova York…
Financeiramente você recebe apoio de algum edital, de algum financiamento público? Como é que é que se sustenta a BankAteliêr?
Não, não tenho nenhum dinheiro de edital, nem verba pública. Existem alguns apoiadores, como um mecenato, mas de forma muito tímida, pois acho que isso devia ser muito maior. Acho que as contas podiam ser pagas dessa forma, sem eu ter que me preocupar muito para ver se eu vou conseguir vender o suficiente para pagar os custos básicos. É porque ainda sobrevivo. Porque a sobrevivência é quando você tem dificuldade em fazer as três refeições diárias, né, pagar as contas básicas. Isso é sobrevivência. Você passa a viver quando você tem tranquilidade. Ainda não vivo, ainda sobrevivo. É um processo.
E as contribuições são voluntárias? Pessoa Paga quanto pode, quanto quer?.
Então, paga quem pode.
Há algum evento artista, alguma obra que te tocou de uma maneira especial, que te marcou?
Acho que o trabalho dos retratos em ação ( técnica de capturar a expressão, a essência e a emoção de uma pessoa enquanto ela está em movimento), junto com a Patrícia Basílio, é algo substancial criado aqui na banca que marcou. E os encontros musicais, o Jamelo Fest no Jardim das Delícias, foi um evento marcante em 2025. O Centenário do Surrealismo também foi muito marcante, porque a banca era a obra viva da comemoração na praça, inclusive a prefeitura era a bola de presente que simbolizava o festival. Eu pendurei ela lá em cima, transformei ela numa obra cosmogônica.
BanKAteilier em uma palavra?
Puxa, uma palavra? Uma só? “Desejo”. Ou então, ˜acesso”.
Algo que gostaria de acrescentar que eu não perguntei? Momento freestyle.
Aqui acontecem os encontros de pintura sempre nos penúltimos domingos do mês, a partir das 10 da manhã até a hora que Deus permitir. Mas deixa eu aproveitar e te falar uma coisa, porque o Paziam é um parceiro daqui da região e se tornou um amigo. Ele tem um projeto da mais alta importância aqui no centro da cidade, criou um jardim de chuva na Avenida Ipiranga e a partir disso ele foi ampliando esse trabalho e vem inspirando muita gente na cidade inteira, não só na cidade, no Brasil, no mundo, porque o mundo inteiro está vendo isso. Ele passou a compor comigo, com a BankAtelier, o Jardim das Delícias. E todas essas árvores que você está vendo na praça, 19 árvores já foram doadas e plantadas por nós, frutíferas da Mata Atlântica, com o Projeto Pazipê.

– Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas.