Entrevista: Dandara Ferreira fala sobre o processo de criação de “Anatomia do Caos”, documentário que investiga a CPI da Covid

entrevista de João Paulo Barreto

“Anatomia do Caos” (2026), documentário dirigido pela cineasta Dandara Ferreira, tem como tema central a CPI da Covid-19, instaurada pelo Senado Federal no começo de 2021. Mas ao final dos breves 90 minutos de filme, tal temática se expande para algo que vai além de apenas uma análise do processo legal e político que investigou as omissões do genocida governo de Jair Bolsonaro durante a pandemia. E mesmo com a notória ausência de condenações e do arquivamento das investigações após o inquérito finalizado sendo elementos já conhecidos desde os créditos iniciais, o sentimento de angústia diante de tamanho descaso e desrespeito à vida humana atormenta os espectadores que viveram o período que se iniciou há seis anos.

Tendo como arma de denúncia o próprio cinema e suas possibilidades narrativas, a diretora, ao ver o aumento constante do número de mortos que o consorcio de veículos de imprensa divulgava, uma vez que os dados oficiais do governo eram omitidos a mando do então presidente da república, decidiu, quando o início da CPI foi anunciado em 2021, seguir para Brasília no intuito de captar, in loco, o máximo de imagens possíveis daquele momento crucial. “Durante a pandemia, havia um sentimento de revolta do que a gente estava vivendo no país naquele momento. Era uma coisa muito difícil a gente não saber até quando viveríamos naquela situação. Tudo era muito incerto”, relembra a cineasta em entrevista ao Scream & Yell. “Comecei a pensar em fazer algo ainda na época em que o número de mortes só crescia. Senti que o cinema poderia dar voz ao povo brasileiro. Estava todo mundo sendo violentado de uma maneira cruel. E acho que não podíamos aceitar a banalização e nem neutralizar a crueldade. Naquele momento, tentei pensar no que eu poderia fazer do meu lugar, nesse lugar de revolta. E o meu instrumento era uma câmera”, crava Dandara.

Utilizando um modo de narrativa que prefere um documentário com foco nos acontecimentos reais, sem a necessidade de inserções de cartelas de texto, entrevistas diretas, tampouco uma narração em voice over, Dandara, ao lado da montadora Lara Beck, condensaram centenas de horas gravadas, tanto da CPI quanto dos bastidores que a diretora teve acesso, em uma hora e trinta minutos de um documentário direto. “Esse filme deu bastante trabalho. Porque, como eu não tinha nenhum roteiro, nenhum guia, não sabia o que depois seria importante, eu meio que saía filmando loucamente tudo. Até porque durante esse período, eu não sabia o resultado que sairia dessa investigação. Não sabia quem ia ser indiciado, se alguém ia ser preso”, relembra Dandara.

Na narrativa e estruturação dos seus três atos, “Anatomia do Caos” acaba por criar para sua audiência um compêndio importante de um momento doloroso para os brasileiros. Em seu final, quando chegamos aos depoimentos dos familiares das vítimas e vemos Márcio Antônio, que perdeu o filho para a covid e lutou contra bolsonaristas que tentaram impedir um ato de protesto nas areias de Copacabana, um dos momentos mais simbólicos é quando ele afirma querer um pedido de desculpas da maior autoridade do país por conta de seu descaso, por conta de sua irresponsabilidade em não adquirir as vacinas com antecedência.

“Anatomia do Caos” se encerra com o sentimento de angústia e deixa uma mensagem clara de memória para que o mesmo erro não se repita na escolha de representantes inaptos. “Eu gostaria que o filme continuasse sendo visto daqui a dez, vinte, trinta anos. Porque acho que ele não fala apenas sobre uma eleição, sobre um momento. Acho que ele fala, também, sobre a relação entre estado, a relação com a democracia. Sobre o valor da vida humana. Porque o filme mostra que tem uma banalização da vida humana. A postura de Bolsonaro, esse tempo inteiro, foi sobre isso”, frisa Dandara.

No papo abaixo, a diretora explica como foi o processo de construção do filme. Confira!

Lembro-me que durante o processo de curadoria do Panorama Internacional Coisa de Cinema, nos anos de 2023 e 2024,a quantidade de filme que abordava o tema da pandemia era perceptivelmente alto. Isso me fez pensar na função do cinema como um retrato do seu tempo. E ao assistir ao seu filme, tanto essa percepção dessa função, quanto muitos dos sentimentos de angústia e de incerteza que vivemos em 2020 e nos dois anos seguintes vieram à tona. Em que momento durante aquele período e diante das notícias da CPI você percebeu o potencial para um documentário?
Durante a pandemia, havia um sentimento de revolta do que a gente estava vivendo no país naquele momento. Justamente isso que você falou. Era uma coisa muito difícil a gente não saber até quando viveríamos naquela situação. Tudo era muito incerto. Para mim, pessoalmente, foi um momento muito difícil. Sou de Salvador, moro em São Paulo já faz um tempo, mas nesse período eu estava em transição de casa em São Paulo. Eu estava meio que em  uma casa provisória quando começou a pandemia. Aí fui meio que vivendo nessa casa eternamente com todas as minhas coisas trancadas. Era meio vivendo de mala. Para mim, foi meio uma crise pessoal e também de referência: onde é minha casa? Onde é o meu espaço? Enfim, comecei a pensar em fazer algo ainda na época em que o número de mortes só crescia. Senti que o cinema poderia dar voz ao povo brasileiro. Estava todo mundo sendo violentado de uma maneira cruel. E acho que não podíamos aceitar a banalização e nem neutralizar a crueldade. Naquele momento, tentei pensar no que eu poderia fazer do meu lugar, nesse lugar de revolta que te falei. E o meu instrumento era uma câmera. Então, quando o congresso aprovou a CPI, senti que tinha que registrar. Sabia que ali ia passar muita informação. Tinha uma investigação em curso. Sentia que ali tinha alguma coisa que eu não sabia exatamente o que era, mas sentia que ali tinha alguma coisa importante. Comentei com uma amiga produtora. Falei pra ela: “Cara, a gente precisa filmar isso. A gente precisa registrar.” Lembro que pensei nela porque logo que começou a CPI, ficávamos em casa assistindo e comentando. Enfim, acompanhando tudo isso no Twitter. Ela achou a ideia maravilhosa, só que falou: “Dandara, eu, como produtora, não tenho coragem de colocar minha equipe em Brasília para filmar isso”. Até porque naquela época nem vacina tinha. Falei: “Eu vou, então. A gente combina assim. Você fica de casa acompanhando a CPI e eu vou lá registrar. A gente faz uma troca. Você fica produzindo daí, eu vou”. Para mim, era um pouquinho mais fácil porque meu pai mora em Brasília. Então, não ia precisar estar em hotel, essas coisas.  Tinha uma facilidade. Resolvi ir para Brasília meio com a câmera na mão e com uma ideia na cabeça (risos). Na verdade, nem ideia na cabeça, porque eu não sabia que filme seria. Fui descobrindo o filme muito depois. Fui com a câmera e eu não opero câmera. Sou diretora, mas não opero câmera. Mas fui com uma câmerazinha pequena, com o microfone acoplado. Era isso. Vamos lá! Vamos ver no que vai dar, mas muito sem saber, na verdade, se isso ia dar em alguma coisa. Porque, na verdade, eu não tinha o distanciamento. A história estava sendo contada ao mesmo tempo que eu estava ali filmando. Fui ficando cada vez mais instigada com a questão da CPI. Minha ideia, mesmo, era filmar mais os bastidores. Porque a CPI em si já era transmitida pela TV Senado. Então, na verdade, não era apenas reconstituir a questão da CPI em si. Ali, também, tinha um momento que a gente estava passando. Um momento em que a democracia foi chamada a responder diante da tragédia de mais de 700 mil brasileiros mortos. Acho que a CPI acabou se tornando espaço onde a memória, a ciência e, também, as próprias instituições confrontaram a negação dos fatos. E buscaram registrar responsabilidade. E aí você falou uma coisa que eu achei interessante sobre o papel do cinema. Ele tem esse papel, também. O cinema acaba participando dessa construção dessa questão. Ele tem o seu papel político. E é por isso que na hora que pensei no que eu poderia fazer, achei que, do  meu lugar com o cinema, poderia futuramente ter esse papel, mesmo ainda não sabendo se seria um papel investigativo. Mas acabou virando, na verdade, um filme mais de memória e justiça.

E como funcionou o processo de montagem ao lado da Lara Beck e Renato Sircilli? Como se deu esse diálogo para chegar à versão final do filme?
Esse filme deu bastante trabalho. Porque, como eu não tinha nenhum roteiro, nenhum guia, fui filmando. Como eu não sabia o que depois seria importante, eu meio que saía filmando loucamente tudo. Até porque durante esse período em que eu estava filmando, eu não sabia nem o resultado que sairia dessa investigação. Não sabia quem ia ser indiciado, se alguém ia ser preso.  Não sabia de nada. Não sabia quem era o personagem que seria importante ou qual o depoimento seria importante? Então, filmei muito excessivamente. E, depois, para uma montagem, isso dá muito trabalho. Ficamos pelo menos um ano para organizar o material. Porque como eu meio que filmava, alugava, fazia meio que tudo, foi meio caótico, também, a organização desse material. porque, como estava ali meio na loucura, eu pegava o material gravado e ia colocando no HD. Foi tudo muito caótico. Precisamos de um bom tempo para poder organizar. Lara (Beck, montadora) foi uma pessoa essencial. Uma pessoa chave. Inclusive, ela entra como participação no roteiro, também. Porque acontece muito isso em documentário, de um montador entrar no roteiro também. Porque acho que no filme tem três fases do roteiro. Tem a primeira fase, que é o guia, sua ideia inicial. Mas, no meu caso, eu nem tinha (guia). Aí, depois, vem a época da filmagem e, depois, a montagem, que é quando acaba mudando muito. Esse filme aconteceu, na verdade, muito na montagem. A gente demorou muito tempo para desvendar esse filme. Por mais que a gente tivesse o recorte de contar essa história da pandemia através da CPI, era muito material. Eram muitos personagens. A gente poderia ir por vários vieses. Mas o filme precisava ter um recorte. E a gente foi encontrando aos poucos. Houve muita troca entre nós. Muitas conversas. A primeira montagem em que  a Lara fez um esboço, acho que eram quase cinco horas para, depois, irmos tirando, lapidando. Foi aí que chegamos nos personagens. Foi quando começamos a entender já pensando nos três atos do filme. O primeiro ato seria a questão do gabinete paralelo. O segundo ato sobre corrupção e o terceiro ato sobre fake news e negacionismo. Mas chegamos a isso depois de muito tempo, quase dois anos. Mas ainda estava um filme longo. E ainda tinha uma coisa que faltava. Chegamos no esboço, mas ainda faltava uma montagem mais estética, mais cinema, mesmo. Estava uma montagem apenas com os temas, ainda. A gente precisava trabalhar no filme, precisava lapidar. Fomos tentando achar caminhos. Porque era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo naquele momento político do Brasil. Eram muito personagens, muitos acontecimentos. O espectador brasileiro, alguém com um pouco mais de familiaridade com a questão política, consegue assistir e entender. Mas pensando em uma  pessoa de fora, uma pessoa leiga, ou, também, para o futuro,  porque esse filme não é só para presente, é o filme para futuro, achávamos que tinha que trazer elementos narrativos que pudessem contar melhor essa história. Não dava só para as imagens em si contarem. Então, pensamos nessa questão do narrador. Eu nunca quis ser narradora do filme. Primeiro porque nunca me senti protagonista nessa história. Acho que é uma história nossa. Uma história coletiva. Não me sentia à vontade em dar voz, em ser a voz disso, parecendo que sou a mártir. Não queria isso. Chegamos a testar o momento de eu narrar isso e sempre era um incômodo quando eu via ali na montagem. Aí fizemos algumas experiências. Colocamos e tiramos cartelas (de texto). Esse foi muito da experiências. Estou sendo bem sincera. E aí, depois de muito tempo, chegamos no lugar em que achamos que quem deveria contar essa história deveria ser a imprensa. Então, na verdade, a história não é uma pessoa que conta. São várias vozes ali da imprensa que contam a história. Até porque, pensando nesse momento, eu acho que a imprensa teve um papel bem importante. O governo escondia vários dados, inclusive o número de mortos. E então teve aquele consórcio de veículos de imprensa que se juntaram para poder revelar os dados. Achou que seria importante destacar isso.

CPI da Covid

E em que momento o Renato Sircilli entra no processo?
Ele entrou no final de 2025. Eu fiquei trabalhando com Lara uns três anos. Não todos os dias, claro. Tivemos momentos de pausa. Mas 2025 foi mais intenso. Trabalhamos  quase o ano inteiro. E acho que, também, é um material que é pesado. Não é um filme que é gostoso, prazeroso. Ficar mexendo com isso sempre era algo que mexia com a gente de todas as formas. Então, a gente, às vezes, precisava de um tempo, também. De um respiro para poder trabalhar, para poder voltar no filme. E o Renato entra no momento em que eu tive uma conversa muito franca com Lara. Porque acho que tem uma hora que quando a gente fica trabalhando muito no material, e nosso olhar fica meio viciado. Já não conseguimos muito olhar além. E estou falando não somente dela, mas de mim mesma, que já estava com esse olhar viciado. Eu já não conseguia ver outras coisas, outros caminhos.  Então quando íamos fazer alguma mudança, era tudo muito pouco. Era: “tira uma coisa aqui, bota uma coisa ali”. E eu achava que tinha que entrar alguém com um olhar novo, um olhar fresco, para dar uma chacoalhada no filme. O Renato entra nesse momento, que acho que também foi muito importante, foi muito agregador. Porque era preciso um olhar fresco que foi trazendo coisas do material que a gente até não tinha visto, não tinha percebido, que seria importante. E isso foi importante para dar essa costura. Foi meio que lapidada. Ele chegou no final para dar uma lapidada para esse formato de filme ao qual chegamos aí.

A montagem constrói alguns momentos bem simbólicos em relação àquela fase em que a desinformação era uma arma de um governo negacionista. Um deles é aquele em que vemos um dos personagens ter sua fala interrompida por falhas na conexão on line. E isso muito simbólico dessa falta de comunicação que o período que você retratou e daquela série de erros que vinham acontecendo em dar voz a pessoas que espalhavam essa desinformação. O filme busca esses símbolos também?
Totalmente. Acho que o filme não é só sobre a CPI, também. Ele, inclusive, dialoga com o presente. Porque ele traz temáticas que são atuais sobre desinformação; sobre responsabilidade pública; sobre ataques à ciência; sobre  a fragilidade democrática. São todos assuntos atuais. E é, também, uma forma de que entender a pandemia. Entender o desafio que o nosso país enfrenta. Quando falei sobre memória, me referia a isso. Porque sem memória não existe aprendizado. A gente não evolui. E a pandemia não acabou simbolicamente no Brasil. Saímos da emergência sanitária, mas não elaboramos coletivamente esse trauma que vivemos. E aí, às vezes, as pessoas me perguntam: “Mas o filme é sobre Bolsonaro?” Também não é. O Bolsonaro é, ali, uma figura central porque ele ocupava a presidência durante a crise sanitária, mas o filme é sobre isso que eu te falei. É sobre estrutura de poder. É sobre vulnerabilidade coletiva. É sobre como a política atravessa os corpos. Acho que é por isso que, também, a CPI foi uma escolha. Porque acho que ali é um retrato não só do que a gente viveu, mas o retrato da nossa política em várias esferas. Tem a questão do machismo que está presente ali, também, por exemplo. Então, é uma forma de representar aquele momento de país que estávamos vivendo orientado por um governo negacionista.

Márcio Antônio na CPI da Covid

Você encontrou os personagens específicos do filme e um deles, obviamente, chama atenção pelo momento doloroso de seu depoimento, que é o Márcio Antônio. Como foi o diálogo com ele? Houve algum alguma conversa sobre o processo do filme ou a inserção dele no filme surgiu como uma ilustração?
Não, não foi ilustração. Eu estava lá nesse dia. Eu não estava em todas as sessões, mas em quase todas sessões da CPI. E, para mim, o dia mais tocante foi esse com os parentes das vítimas. Foi um dia muito difícil. Porque eu estava ali não somente como diretora. Eu estava ali como uma pessoa da sociedade civil. E me tocava muito porque tudo que estava sendo dito tinha um impacto direto na minha vida. Cada dia que acontecia ali me tocava muito tudo. E nesse dia em que os parentes das vítimas estiveram lá, foi um dia em que fiquei destruída. Não perdi nenhum parente na pandemia. Não tive covid. Só depois fui ter. Mas isso não significa que a gente não se solidarize com as pessoas. Eu já tinha visto as imagens do Márcio Antônio antes, quando teve aquela manifestação na praia. Eu já tinha visto isso na imprensa. No dia, na CPI, cheguei a pegar um depoimento dele, mesmo que esse não fosse o formato de filme que eu queria. Eu queria um filme estilo reality. Uma câmera viva acompanhando. Não queria uma entrevista guiada. Mas cheguei a pegar o depoimento dele porque, como te falei, eu não sabia que filme seria esse, o que eu usaria ou o que não usaria. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha muito cuidado em ser muito respeitosa com a dor dessas pessoas, também. Não queria me aproveitar da dor de ninguém. E achei que a melhor forma era usar o depoimento que ele dá na CPI. Porque o depoimento dele é muito forte. Em todos os sentidos. Não sei nem sonhar a dor disso. Primeiro que não sou mãe e não perdi um parente próximo na pandemia. Mas da dor dele ali, que perdeu o filho, e que estava ali naquele lugar… ele deixa isso muito claro quando diz: “Eu não estou aqui por partido A ou B”. Era um pai que estava ali pelo sentimento de justiça. E acho que depois quando fomos pensar nesse lugar do filme, ele leva a isso. Leva a um sentimento de justiça. Porque ninguém foi responsabilizado nem punido pelas coisas que aconteceram na pandemia. A CPI teve um relatório final que indiciou dezenas de pessoas, mas, no final, ninguém foi punido. Sei que a responsabilização jurídica depende de outras instituições, como Ministério Público e Judiciário, mas acho que a sociedade tem um desejo. Vejo isso porque muita gente, agora por causa do filme, me escreve falando sobre suas perdas. Tem um sentimento coletivo por uma  tentativa de justiça. Sei que a democracia não depende apenas das instituições. Ela depende, também, da capacidade de uma sociedade imaginar a si mesma. Então, é esse sentimento que o filme traz. Para mim, é muito forte a frase que o Márcio Antônio fala sobre ele esperar um pedido de desculpa da maior autoridade do país. Por causa disso, por causa dessa fala dele, eu cheguei a procurar o Bolsonaro. E isso eu não falei para ninguém. Estou falando isso para alguém pela primeira vez. Eu cheguei a procurá-lo. Não que eu super quisesse entrevistar Bolsonaro, mas eu queria que ele respondesse a esse pai. Se ele gostaria de pedir desculpa a esse pai pelo o que aconteceu durante a pandemia. Porque, justamente, esse pai me tocou muito pelo seu sofrimento. Ele simboliza muito da dor que a gente viveu durante esse período.

O filme chega ao cinema em um momento bem importante, faltando três meses para a eleição. E em uma das cenas, vemos um dos candidatos, o Flávio Bolsonaro, desdenhar da CPI com uma gargalhada que ele define como sendo a reação de seu pai. E isso simboliza muito quem ele é de verdade, mesmo que hoje ele queira se desvirtuar um pouco disso para tentar ganhar votos que ele não teria. Eu queria ter perguntar sobre seu filme como esse alerta, uma vez que o brasileiro tem memória curta e milhões ainda votam nessa família sem perceber a tragédia que eles representaram para o Brasil.
Essa cena que você está falando é muito tocante. É um símbolo do deboche deles. Porque foi isso que eles fizeram o tempo inteiro. E é bom pra gente relembrar, porque, realmente, nossa memória é muito curta. Esse é um ano muito importante. É um ano de uma eleição que impacta na vida de todo mundo. Não só agora, mas para os próximos anos. E o Flávio Bolsonaro, que é personagem do meu filme, também, estava ali justamente representando o bolsonarismo. Representando o pai. Ele gosta de ficar se colocando por aí como se fosse um bolsonarista que era a favor das vacinas. E acho que, quando você assiste ao filme, fica claro que não é exatamente isso. Aquela gargalhada é muito sarcástica. Se pensarmos na situação em que a gente estava vivendo, a quantidade de gente que estava morrendo. E, ao mesmo tempo, acho que o trabalho dos parlamentares da CPI foi um trabalho digno e honesto. E se você observar era um grupo heterogêneo que se organizou, ali, por um propósito de investigação  durante a pandemia. Gostaria muito que esse filme circulasse. Acho que o máximo de pessoas possíveis que pudessem assistir como reflexão. Que a gente possa refletir. Além das exibições em sala de cinema, estamos organizando sessões com algumas universidades. Exibições com debates. Porque acho que a universidade é o lugar justamente da conversa, do conhecimento. Minha ideia é podermos dialogar e refletir sobre o que aconteceu. Por isso temos feito esses debates, que são mais voltados com a turma da saúde. Então, quanto mais puder circular isso, quanto mais pessoas puderem ver, refletir e relembrar, melhor. Porque a gente esquece muito do que aconteceu. E não é um passado tão distante. É um passado bem recente. As eleições são importantes, mas acho que a memória democrática não pode depender só do calendário eleitoral. Gostaria que o filme continuasse sendo visto daqui a dez, vinte, trinta anos. Porque acho que ele não fala apenas sobre uma eleição, sobre um momento. Acho que ele fala, também, sobre a relação entre estado, a relação com a democracia. Sobre o valor da vida humana. Porque o filme mostra que tem uma banalização da vida humana. A postura de Bolsonaro, esse tempo inteiro, foi sobre isso. Acho que, também, tem essa questão da memória. Porque se não tivermos memória, não evoluímos. É importante termos memória para evoluir. Para que coisas que aconteceram não se repitam. Eu espero que o filme vá além. Que  também vire um registro histórico do momento que vivemos. Espero que isso nunca mais se repita.

Valas abertas para enterrar as vítimas da covid-19

É curioso observar como, politicamente, Bolsonaro é ignorante e como isso reflete seu eleitorado. Porque, se ele tivesse tido o mínimo de responsabilidade durante a pandemia, se ele tivesse dado a real atenção à emergência das vacinas, ele teria sido reeleito em 2022. E pensar nisso é assustador.
Mas você sabe que, nisso, a CPI também teve um papel muito importante. Porque era o tempo inteiro batendo no governo. A CPI teve uma audiência muito grande e não só na TV Senado. Porque as emissoras reproduziam o tempo inteiro. Era um assunto muito debatido no Twitter (nota: que era uma rede social muito lida na época). E isso foi muito importante na queda da popularidade de Bolsonaro. Claro que Bolsonaro, por si só, fez a queda dele. Até por conta de todas as ações dele durante a pandemia. Mas a CPI teve um papel importante também nisso. Ao mesmo tempo, ele não ganhou não ganhou por pouco, também. E isso, para mim, é o que mais me choca. Porque, mesmo já tendo sido um erro as pessoas falarem que lá em 2018 votaram nesse projeto de governo porque não sabiam ou que foram enganados é uma coisa. Mas depois de tudo isso, a pessoa votar novamente acreditando no bolsonarismo, isso eu não consigo entender. Não vejo explicação para isso. E inclusive, com o filho dele agora, que representa todo esse projeto político deles. Eu não consigo entender. E é isso que você falou. Se ele tivesse tido o mínimo de responsabilidade durante a pandemia, ele teria sido reeleito. Não precisava muito, não. Um pouco mais e ele, com certeza, teria sido reeleito. Ele foi o presidente que decretou e legitimou a morte de milhares de brasileiros. Isso é um fato! Ele zombou da morte. Não teve nenhum respeito pela dor dos parentes. Não conheço nenhum desrespeito mais grave à vida do que isso. Foi um tipo uma banalização do mal. Ele foi preso agora, mas o que ele fez durante a pandemia foi muito pior.

Eu não tenho medo para 2026, porque eu sei que o Flávio Bolsonaro não vai ser eleito contra Lula. Mas eu tenho medo de 2030.
Eu também.

Porque não vejo um nome forte na esquerda para disputar a eleição no lugar de Lula em 2030. Não vejo muita força política no Haddad, nacionalmente falando. E não vejo nenhum outro nome ainda na esquerda ou em uma direita menos radical para ir contra o bolsonarismo daqui a quatro anos.
Eu também não vejo. Particularmente, gosto muito do Haddad. Mas também não o vejo nesse lugar. Acho que ele ainda não tem esse alcance popular como um nome. Mas o que mais me preocupa, na verdade, também é agora. Porque o Lula vai ganhar, que bom, mas ele precisa do congresso para governar. E acho que vamos ter agora o pior congresso de todos os tempos. Eles vão fazer nome no Senado, eles vão ter nome no parlamento de muitos deles. E o perigo deles terem maioria do Senado é porque é o que eles querem, que é tirar ministro do STF e não deixar passar nada. O Lula se reelege presidente, mas ele vai governar como?

Seu filme, mesmo tendo um peso, claro, me faz olhar para esses cinco anos passados desde a pandemia e ver essa outra realidade nossa e com um futuro diferente daquele que a gente temia em 2020, me faz até pensar com certo otimismo para o futuro. Claro que há o luto, o registro histórico, mas eu ainda olho e vejo um futuro menos sombrio. Mas isso deve ser por conta de minha natureza otimista, mesmo.
Que bom que você uma pessoa otimista. Porque, às vezes, vou ser bem sincera, eu fico bem desestimulada. Lembro quando eu tinha, sei lá, uns vinte anos de idade, eu olhava para a América Latina e pensava: “Nossa, que máximo! Hoje em dia a América Latina é toda progressista.” Naquele momento, eu imaginava que era disso para frente, sabe? Que a gente tinha conquistado coisas ali que a gente estava vivendo e que não íamos mais voltar atrás. Lembro que o Lula era presidente e, no Chile, era a Michelle Bachelet. A gente estava naquele momento num quadro que, para mim, não íamos voltar para trás. Mas depois vieram todos os desmontes, não só do Brasil, mas da América Latina. E agora, de novo, se você pensar na Colômbia, Peru, enfim, que tudo isso tem voltado, isso me dá um desânimo. É como você falou. Lula vai ganhar, mas e os outros quatro anos? Como vai ser para gente? Por isso que acho que o papel de cada um é não se acomodar. Mas é cansativo. Até porque boa parte das pessoas estão desde do golpe na rua lutando. Sei que é cansativo. Tem uma hora que cansa, também. Quando você vê agora, por exemplo, o Lula sendo reeleito, você pensa: “Aí, ufa, agora vou relaxar um pouco”. Mas não dá para relaxar, infelizmente. Vivemos em um país ainda muito conservador. Aqui ainda tem coisas que a gente não consegue pensar muito que um país tão diverso como o Brasil, com tanta coisa em termos culturais, ainda tenha tanta gente conservadora e com o pensamento tão atrasado em relação ao resto do mundo.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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