entrevista de Danilo Souza
Na segunda metade dos anos 2010, Raquel Dantas, uma apaixonada por música, decidiu se aprofundar nas histórias das bandas de rock de Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, para registrar tudo em um livro. Intitulado “A Conquista do Rock”, a obra foi publicada em 2017 e documentou o trabalho de mais de 40 grupos musicais de subgêneros como o grunge, punk e heavy metal, entre outros, além de trazer depoimentos e materiais raros.
Quase dez anos depois, em 2026, num contexto quase que totalmente diferente, com a internet e a velocidade em que conteúdos e informações circulam, Raquel apresenta ao público a segunda edição de “A Conquista do Rock”, que ressurge revisto, atualizado e ampliado, dando continuidade ao propósito de conhecer e divulgar o que acontece na cena local. Financiado pelo Plano Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), ela considera a publicação como uma conquista política e social: “Perceber que agora tenho um registro físico contando com esse apoio é entender também que estamos evoluindo”, comenta a autora.
Muita coisa mudou em quase 10 anos, como a amplificação dos registros de músicas nas plataformas de áudio e vídeo, o que facilitou a vida da escritora na descoberta de novos artistas… porém, algumas clássicas falhas de comunicação, como a falta de um release ou de informações básicas por parte das bandas, ainda permaneceram como um desafio. “Foi fácil e não foi ao mesmo tempo […]. Falo sobre isso na introdução do livro, porque eu não queria que a leitura se tornasse cansativa; não adianta escrever muito sobre uma banda e produzir só um parágrafo sobre outra”, conta Raquel.
Para a autora, a expectativa é que o livro possa ser usado como material de apoio por outros pesquisadores, jornalistas e fãs da música local. “Penso que esse trabalho de pesquisa será enriquecedor […] porque tem muita gente começando agora, muito trabalho para ser lançado e gente compondo, então, é uma cena com vários períodos de renovação”, ela argumenta.
Raquel afirma que a cena é construção coletiva e deve contar com a participação de bandas, público e agentes culturais para se desenvolver e funcionar. A autora acredita que o livro vem para mostrar que existe uma grande quantidade de projetos musicais na cidade esperando para serem conhecidos. “Espero que bandas, artistas, público, produtores e agentes culturais, juntos, criem mais oportunidades para o crescimento da cena musical em Vitória da Conquista. Que esse livro chegue a cada um deles e sensibilize, porque existe uma cena rica na cidade — não há uma valorização e um olhar atento merecido, mas existe”, completa. Leia abaixo a entrevista completa.

Você publicou o primeiro volume do livro “A Conquista do Rock” há quase dez anos, em 2017. De lá pra cá, muita coisa mudou na forma de registrar e documentar as memórias da cena por conta de ferramentas como as redes sociais instantâneas, blogs e sites na internet, por exemplo. O que te levou a querer fazer um segundo volume dessa obra, se dedicando a aprofundar nas histórias das bandas de rock de Vitória da Conquista?
Já era uma vontade dar continuidade à pesquisa por conta de novas bandas e projetos que estavam surgindo, porém, precisava pensar em formas de conseguir apoio para a segunda edição, visto que queria lançar de forma independente. Foi então que resolvi me inscrever para o edital “A Bahia Que Escreve”, da PNAB [Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura] do estado, e foi uma surpresa ter sido selecionada. Com isso, consegui montar uma equipe e ter um produtor, o Micael Aquillah, para viabilizar um projeto com qualidade melhor. Outro fator que contribuiu foi que eu não começaria do zero, apenas iria atualizar e acrescentar algumas coisas que estavam se destacando na cidade.
O que você acredita que mudou, no sentido artístico (quantidade/qualidade de bandas, festivais, etc…), na cena da cidade neste intervalo de tempo entre o vol.1 e o vol.2?
Percebi uma grande quantidade de projetos solos sendo lançados na internet, mas que não consegui registrar por conta do prazo de lançamento, e que são muito recentes, como o Lará, artista do Rio de Janeiro que mora em Vitória da Conquista e lançou o seu primeiro álbum; o Neto Fernandes, que também lançou um projeto com várias participações, incluindo o Teago Oliveira, da Maglore; tem a Lupuna, que nasceu com a representatividade da Lorena Marinho nos vocais e lançou o seu primeiro trabalho; tem a Joy, que está preparando o seu primeiro EP, o “Lado A”, e muitos outros. Felizmente, consegui registrar o trabalho da cajupitanga, da Pipa, da Outra Conduta e da Headless Queen, que são grandes representantes da cena atual. Em relação aos festivais, há de destacar que, ao mesmo tempo que alguns evoluíram, tais como o Festival Suíça Bahiana, o Point do Rock e a eclosão do Morfic Fest, produzido pelo Maurício Franco, da banda Mórficos, entre outros, houve uma diminuição drástica na quantidade de festivais realizados. Antes havia o Festival da Juventude, o Avuador e o Natal da Cidade, já hoje são pouquíssimos qe resistem com pouco apoio.
De que forma esses festivais ajudaram a renovar esse cenário e o público ao longo dos anos?
Os festivais contribuem para a resistência das antigas e novas bandas na cidade. Se uma banda nasce hoje, seja autoral ou cover, ela precisa de um lugar para tocar e formar o seu público. O artista precisa se apresentar para se manter e crescer, então, na medida que o produtor abre esse espaço, estimula a permanência dessas bandas e o surgimento de novas. Ninguém quer montar um projeto pra ficar só no quarto. E o público também necessita desses eventos para aumentar o seu repertório cultural e se divertir.
Falando nisso, existe alguma descoberta, seja de bandas que você não conhecia ou histórias dos bastidores, durante a pesquisa que tenha te surpreendido?
Muitas. Mas a que mais me impressionou foi o material sobre a cajupitanga, Descobri ela por meio de uma matéria no Conquista Repórter, sobre o lançamento do álbum “Próximo” (disco de 2025 lançado em parceria com o compositor e violonista carioca Arthus Fochi). Nunca tinha visto algo sobre a banda e descobri que era um projeto de integrantes que são de Vitória da Conquista, mas que hoje moram em outras cidades. Conforme fui aprofundando na pesquisa, o duo estava lançando mais e mais coisas na internet. Me surpreendi tanto pela quantidade de informações quanto pela qualidade do som. Não conhecia e curti muito.

Quais foram as maiores dificuldades para reunir memórias, documentos, relatos e histórias da cena independente?
Foi fácil e não foi ao mesmo tempo. Algumas bandas já tinham praticamente tudo na internet, desde release até entrevistas e matérias recentes, como a Cama de Jornal, Dona Iracema e Distintivo Blue. Já outras, eu troquei algumas palavras e descobri muita coisa, como a cajupitanga, a Pipa e Outra Conduta. A dificuldade maior foi por conta do prazo e também porque muitas bandas não tinham um release e nem entrevistas na internet. Seria muito difícil começar do zero com pouco material, então precisei selecionar as mais acessíveis. Até falo sobre isso na introdução do livro, porque não queria que a leitura se tornasse cansativa; não adianta escrever muito sobre uma banda e produzir só um parágrafo sobre outra.
Qual foi o momento mais simbólico da trajetória do rock conquistense para você, especificamente nesse recorte de nove anos (2017-2026) entre os dois volumes?
Depois que lancei a primeira edição muitas bandas acabaram… Krathera, Nobres Companions, Os Barcos, Time Flys, Recrucifixion, Dreadful Trace, Dost… então, penso que o momento do processo de escrita do primeiro volume, entre 2014 e 2015, foi bastante significativo para a construção de um registro sobre a cena local. Foi o momento certo para o processo de escrita do livro. Hoje, penso que daqui uns anos esse trabalho de pesquisa será mais enriquecedor para pesquisadores futuros, porque tem muita gente começando agora, muito trabalho para ser lançado e gente compondo, como Carol Ivo e Geisy Meireles, então, é uma cena com vários períodos de renovação.
No fim da década de 2010, ainda era possível achar uns CDs por aí. Hoje, as produções são praticamente 100% digitais. Como foi isso no cenário independente aqui da cidade? A internet ajudou com que mais bandas surgissem, ou, caso elas já existissem, facilitou para apresentar novas músicas para as pessoas?
Sim. Com certeza! Destaco isso no livro também, inclusive foi o que me motivou a continuar a pesquisa, pois, enquanto escrevia, a banda 1 Em Pé 2 Alados estava disponibilizando músicas no You Tube. Não precisamos ir para um show pra conhecer o trabalho autoral da maioria das bandas por conta das plataformas digitais. Porém, pela quantidade de informação, a maioria não pesquisa bandas e artistas novos. Isso é nítido quando você pergunta sobre o que elas acham da cena atualmente, vão dizer que não existe nada de bom ou que o rock morreu, e isso tem mais a ver com a resistência de quem ouve, porque Vitória da Conquista recebe bandas e artistas novos todo ano e tem representantes na cena que se destacam fora do estado, como a Dona Iracema, Cama de Jornal, Benjamin, etc. Falta disposição para a pesquisa.
Este é um livro feito a partir de políticas públicas. De certa forma, isso faz com que essa obra ganhe um significado de resistência política e cultural, né? Ainda mais dentro da cena rock, que costuma ser vista de fora como “música pra doido” ou para “estranhos”. Como você enxerga isso?
Ter um projeto de livro sobre o rock local selecionado por meio de um edital de fomento à cultura é saber que existe uma valorização para esses temas. Fiquei surpresa porque sei também que ainda existe um preconceito sobre o rock, já tive dificuldades em divulgar exposições de arte com o tema. Perceber que agora tenho um registro físico contando com esse apoio é entender também que estamos evoluindo.
Qual legado você espera que esse livro tenha? Pode se dizer que ele vai ser como um ponto de partida para quem decida seguir documentando a cena?
Sim. Espero que as bandas, artistas, público, produtores e agentes culturais, juntos, criem mais oportunidades para o crescimento da cena musical em Vitória da Conquista. Que esse livro chegue a cada um deles e sensibilize, porque existe uma cena rica na cidade — não há uma valorização e um olhar atento merecido, mas existe. Que outros pesquisadores e escritores também ampliem esse olhar e se sintam instigados a explorar o tema. O registro é um trabalho que nunca acaba, sempre vão existir festivais, bandas e públicos que movimentam a música local.
Saiba como adquirir o livro no instagram.com/livroaconquistadorock

– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/; As fotos presentes no texto são de Micael Aquiĺlah.
