Daniel Melingo: “No Brasil a música entrou no meu corpo”

entrevista de Diego Queijo

Daniel Melingo se foi. Uma das figuras mais singulares do rock argentino morreu dia 30 de junho de 2026. Ele tinha 68 anos. Foi seu filho quem o encontrou sem vida. A imprensa argentina noticiou que o músico sofria de uma doença respiratória que o levou a receber cuidados paliativos em casa.

Saxofonista, clarinetista, compositor, cantor e ator, integrou diferentes formações da banda de Charly García durante boa parte dos anos 1980 e participou de momentos decisivos da cena portenha, passando por grupos como Los Twist e Los Abuelos de la Nada. Ao longo das últimas décadas, consolidou uma carreira solo marcada pela fusão entre tango, rock e experimentação, tornando-se uma das vozes mais originais da música argentina contemporânea.

Coube ao destino que provavelmente uma das últimas entrevistas dele fosse para o livro “Pasajero en trance – uma história de Charly García no Brasil” (apoie aqui). E a principal motivação da entrevista tem a ver com uma história praticamente desconhecida de muitos argentinos (e brasileiros) envolvendo, claro, Charly e o Brasil: “Há milhares de páginas de biografias do Charly e isso nunca foi mencionado”, me disse o jornalista autor dos dois volumes do livro “Esa noche toca Charly”, Róque di Pietro. Trata-se da participação de Charly no disco do figurinista, ilustrador e ator Patricio Bisso, “Louca Pelo Saxofone (Uma Extravaganza Musical Em Dois Lados)”. “Eu produzi e gravamos no estúdio Eldorado, em São Paulo”, conta Billy Bond (apesar de o crédito no álbum apontar o estúdio SIGLA-SP).

O álbum foi lançado em 1987 pela RGE e Charly é creditado como músico convidado no LP ao lado de Rita Lee, Roberto de Carvalho, Tony Campello, Wanderléa e a dupla Pipo Cipolatti e Daniel Melingo, que na época eram conhecidos pelo grupo Los Twist. Charly toca os teclados na música “Picasso”, cantada pela atriz Lolita Rodrigues, e com a participação da dupla, e também piano eletro-acústico Yamaha em “Bela Festa” (uma versão de “It’s My Party”, canção de 1963 gravada por Lesley Gore (1946-2015) e composta por Herb Wiener, Wally Gold e John Gluck). Já Melingo toca violão (“Picasso”, “Cine Cittá” e “Pare, repare, espere e desespere”) e guitarra (“Mata Hari”).

Patricio Bisso foi um amigo de longa data de Charly. Tanto que participa com uma performance (a mesma dele em “O Beijo da Mulher Aranha”, filme de Hector Babenco) em “Caspa de estrellas”, um interlúdio instrumental ao vivo no show de “Como Conseguir Chicas” no Gran Rex gravado em 1989 e lançado em vídeo VHS em 1991, disponível no YouTube. E quem apresentou os dois foi a então companheira de Charly, Mariza Pederneiras, a Zoca. “Charly convidou o Patrício para gravar uma canção em seu disco ‘Yendo de la cama al Living’, onde ele cantou e tocou seu ukulele na faixa ‘All I Do the Whole Night Through’. Me lembro sim de ele ter então convidado o Charly a participar do seu disco. Mas o que me lembro muito bem é de quando Patrício esteve hospedado na casa dos meus pais em Belo Horizonte, ele se levantava de madrugada, ia até a geladeira e comia às escondidas o delicioso pudim feito por minha mãe, ele era realmente ‘um personagem’ engraçadíssimo!”, relembra Zoca.

Em 2018 o álbum de Bisso foi lançado em única tiragem em CD pelo selo Discobertas de Marcelo Fróes. “Fiz um grande projeto de reedições com a Som Livre e a ideia era relançar tudo o que não tinha saído em CD. O disco em si é maravilhoso, mas confesso que não fazia ideia de ser tão ‘cult’”, comenta Fróes. Em 2019, depois de anos longe da mídia, Bisso morreu na Argentina. Ele é considerado pioneiro da cena LGBTQIAPN+ no Brasil.

Mas Melingo e Bisso já se conheciam desde o projeto teatral Ring Club, no final de 1979, e Patricio admirava a sonoridade retrô que Melingo havia desenvolvido no primeiro disco dos Los Twist. Essa identidade comum foi determinante para que Melingo assumisse parte da direção artística do álbum e trouxesse o amigo de Twist, Pipo Cipolatti a São Paulo. “Não me lembro muito bem, mas me parece que o Melingo disse ao Patricio que me levassem para tocar guitarra na versão de “Cleopatra” (tema do Los Twist que, no disco do Patrício, se chamou “Mata Hari”)”, afirma Cipolatti.

Entretanto, mesmo atado ao tema do livro de Charly, ao entrevistar Melingo, ele compartilhou histórias que entram em outro capítulo do livro, sobre a música brasileira e o período dos anos de chumbo em que muitos músicos argentinos cruzaram a fronteira rumo ao Brasil. Antes mesmo de acompanhar Charly García, Melingo viveu no país entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980, estudou música em Belo Horizonte (MG), morou em Ouro Preto (MG), percorreu diversas cidades brasileiras e trabalhou ao lado de nomes como Milton Nascimento, sendo um apaixonado por Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. Para ele, a experiência brasileira foi muito mais do que uma etapa profissional, pois representou uma ruptura estética e humana com a Argentina da ditadura militar.

Ao recordar sua participação no álbum de Patricio Bisso, Melingo também revisita a efervescência cultural daquele período, comenta sua convivência com Charly García, reflete sobre os intercâmbios entre músicos brasileiros e argentinos e oferece uma perspectiva privilegiada sobre a admiração que existia pelo Brasil dentro da cena do rock argentino. Entre memórias de estúdio, festivais, universidades e noites em Búzios ao redor de uma fogueira, seu depoimento revela como a música brasileira ajudou a moldar não apenas sua obra, mas também sua maneira de compreender a criação artística.

“O depoimento de Daniel Melingo (nesta entrevista) ajudou a costurar bastante algumas histórias do livro ‘Pasajero en trance – uma história de Charly García no Brasil’” (apoie aqui), explica Diego Queijo. “O livro sobre o Charly não é um livro de entrevistas, e sim um livro-reportagem em que as entrevistas ajudam a contar uma história. Então essa entrevista não estará desse jeito no livro, e sim diluída e interpretada. Aqui você lê ela na integra, de maneira exclusiva”, conta o autor.  “Melingo foi tão gentil e bacana que a vontade de compartilhar a fala dele é inconvenientemente incontrolável”, completa Diego. Aproveite.

Com a palavra, Daniel Melingo:
Tenho muitas experiências em solo brasileiro. Inúmeras, eu diria. Minha formação acadêmica na Argentina durante os anos sombrios da ditadura cívico-militar arrasou muitos lugares-comuns. A música foi o que mais profundamente me tocou. Eu era estudante do Conservatório Nacional, do Conservatório Municipal e da Faculdade de Música privada, que era a única naquele momento onde se podia estudar Composição, Etnomusicologia etc. Estamos falando dos anos de 1973 a 1978, quando decidi ir embora para o Brasil.

Longe de me arrepender, conheci a verdadeira música entrando no meu corpo em seu país. Para trás haviam ficado as marchas militares. Dando boas-vindas a esse novo território musical, vivi durante anos experiências ali com enorme felicidade, de Belo Horizonte a Manaus, passando por Minas Gerais, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, São Luís do Maranhão e uma infinidade de caminhos que sempre me conduziram à infinita música brasileira. Sempre digo que o Brasil é um continente repleto de diferentes músicas, de todos os tipos e para todos os gostos.

Como surgiu o convite para participar do projeto com Patricio Bisso?
Foi um convite pessoal de Patricio para mim, para fazer os arranjos e a produção artística do disco. Naquela época eu havia lançado o primeiro álbum dos Los Twist, com ares retrô, que Patricio adorava. Penso que o convite dele se deveu à sonoridade semelhante que, como artista, cantor e compositor, ele queria alcançar. Compartilhávamos uma estética retrô desde o fim de 1979, quando participamos do projeto de teatro musical em Buenos Aires chamado Ring Club.

Como era trabalhar com ele?
Patricio era um verdadeiro profissional do universo musical e teatral. Seus diferentes personagens e seus conhecimentos técnicos o colocavam em um lugar muito sofisticado e preciso, distante da média artística e técnica da época. Isso se transformava, para mim, em um privilégio e um prazer por poder dividir palcos e gravações com ele.

O que você lembra da gravação com Charly naquele álbum?
Naquela época toquei durante oito anos em diferentes bandas do mestre García: saxofone, clarinete, teclados e guitarra. Não estive presente na gravação dessa música no estúdio. Posso te dizer que algumas dessas canções já eram interpretadas por Patricio no Ring Club. Então compartilhamos junto de Charly e Patricio outras faixas que estão no mesmo álbum.

Havia alguma expectativa particular em torno do disco naquele momento?
As expectativas dos artistas muitas vezes transcendem a questão comercial. Referem-se apenas à felicidade artística e à alegria de alcançar um êxito com o resultado produzido, neste caso, musical. E creio que alcançamos, para além das expectativas da indústria.

E como você via o Brasil e a cena musical brasileira naquela época?
Pessoalmente vivi muitos anos no Brasil, compartilhando a alegria da música brasileira com grandes talentos artísticos. Tive a sorte e a honra de acompanhar o senhor Milton Nascimento em gravações e shows com o Grupo Água, entre tantos outros talentos que a terra brasileira deu ao mundo. Conheci Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal, entre outros. Minha experiência com a música brasileira foi muito próxima. Sempre digo que, naquele país, um continente musical, aprendi e experimentei perceber as vibrações da música em todo o corpo, desde os pés.

Sobre a Buenos Aires do fim dos anos 1970 e a sensação de “descobrir” musicalmente o Brasil, o que exatamente você encontrou aqui que não encontrava na Argentina da ditadura? Ritmo? Mistura? O corpo, como você disse? A rua?
São inúmeras as diferenças que existiam naquela época, na segunda metade dos anos 1970 (1973/1979), entre Argentina e Brasil. Musicalmente, estávamos então nas antípodas. Se considerarmos que em nosso país praticamente haviam sido proibidos todos os tipos de música e, consequentemente, seus ritmos, vá se saber por quê, no Brasil a riqueza rítmica me fez sair definitivamente da eterna marchinha militar e entrar em contato com uma cultura profundamente enriquecida pela África, marca que o povo brasileiro carrega no sangue. Outro fator cultural importante no Brasil é a contribuição de suas populações nativas, de enorme diversidade. Eu era apenas um estudante de etnomusicologia.

Somado a tudo isso, o ritmo, a dança, o corpo, a mestiçagem racial, tudo isso aparecia visivelmente nas ruas, nas pessoas e em seus rituais cerimoniais, muito arraigados à cultura brasileira, tanto nos costumes quanto nas músicas, danças e instrumentos.

Como Hermeto, Milton, Egberto ou os ritmos brasileiros modificaram sua forma de compor ou tocar?
Desde estudante fui atraído por tudo relacionado à antropologia e às influências musicais extraídas das músicas autóctones e levadas a outro plano. Eu já observava isso desde muito pequeno na música de Béla Bartók e Igor Stravinsky, que, inspirados em padrões folclóricos, construíam suas obras com elementos nativos e regionais que ajudavam a moldar sua música de vanguarda.

Isso aconteceu imediatamente comigo quando ouvi esses três enormes compositores brasileiros. Tanto Hermeto Pascoal quanto Egberto Gismonti e, sobretudo, meu preferido, o grande Milton Nascimento. A partir daí, meu olhar passou a ser sempre, antes de tudo, voltado para dentro. Em busca dessa pulsão.

O que Belo Horizonte e Minas Gerais representaram naquele momento da sua vida? Como era circular por aquele ambiente musical? Que lembranças ficaram dessas experiências?
Muitas lembranças lindas. Ali pude conhecer grandes compositores mineiros, alguns não tão conhecidos pelo grande público, outros vindos de uma formação mais erudita. Pude realizar estudos de música contemporânea na Universidade de Belo Horizonte, onde experimentei diretamente a diferença daquela música em relação ao restante da música brasileira.

Sempre relacionei as montanhas ao impressionismo que habita a música de Minas Gerais. Vivi durante seis meses na cidade de Ouro Preto, primeira capital brasileira no auge do barroco mundial, no fim do século XV, e pude me estabelecer ali para meus estudos e experiências no teatro mais antigo da América do Sul, o Teatro Real de Ouro Preto, construído inteiramente em pedra e madeira por volta de 1700, com uma acústica formidável que nos permitia executar nossos instrumentos sem amplificação.

Essas foram apresentações do “Teatro Mágico”, do qual eu fazia parte como compositor musical das obras. Guardo lembranças lindas e substanciais daquela época, quando fomos do Rio de Janeiro participar da última edição do Festival de Inverno de Ouro Preto, em 1979. Depois disso decidimos permanecer naquela pequena-grande cidade durante seis meses.

Também entrevistei Zoca, que falou com muito carinho daquele período e das relações construídas entre brasileiros e argentinos naquela época. Na sua visão, qual foi o papel dela nessa aproximação entre esses mundos? E como você vê hoje essa rede de encontros, músicos, viagens e amizades que se formou em torno do Brasil?
Bom, Zoca é uma mulher adorável que conheci na casa do mestre García. Naquela época, todo vínculo entre argentinos e brasileiros era muito valioso. Sempre convivemos com uma admiração mútua. Todos nós tínhamos referências brasileiras à mão para qualquer função e comparação entre duas culturas tão enormes e tão diferentes. Sempre admiramos não apenas o “jogo bonito” no futebol, mas também o calor humano e a forma carinhosa de trato entre as pessoas, para além da religião, que para nós é a Música.

Você acredita que existia uma espécie de utopia latino-americana naquele trânsito musical entre Brasil e Argentina durante os anos 1980?
Sem dúvida. Basta observar os inúmeros trabalhos de enormes artistas como Milton Nascimento, Chico Buarque de Holanda, Mercedes Sosa, o próprio Charly García e muitos mais.

Como alguém que conviveu artisticamente com Charly durante aquele período dos anos 1980, você sentia nele alguma ambição especial em relação ao Brasil? Não me refiro apenas ao aspecto afetivo ou musical, mas também a um desejo de aproximação artística, cultural e até de mercado. Imagino que isso talvez não fosse muito conversado, uma vez que tudo me pareceu mais uma iniciativa de pessoas do que uma grande estratégia de conquista…
Participei durante oito anos tocando com o Maestro, em diferentes bandas. A primeira, em sua fase solo, foi Los Abuelos de la Nada, sem Miguel Abuelo e sem Polo Corbella, nosso baterista. A bateria nessa primeira banda foi Willy Iturri, com quem também convivi na banda seguinte, formada por ele e seus dois parceiros do GIT, Pablo Guyot e a lenda do nosso rock, Alfredo Toth, que foi baixista de uma das bandas pioneiras do rock e beat argentino, Los Gatos. Depois veio a banda formada por Fernando Samalea, Christian Basso, Richard Coleman, Andrés Calamaro, Pedro Aznar e eu, nos sopros, teclados e guitarra. Foram muitos anos acompanhando o “maestro”. Foi ali, de dentro, que entendi diretamente como se formava sua arquitetura musical e sua plasticidade incomparável ao compor toda a sua inspiradíssima música. Entendi que a música vem das entranhas do ser. Mas respondendo à sua pergunta, não acredito que ele alguma vez tenha especulado, em seu fluxo criativo, sobre a magnitude dos países e sua influência de mercado. Sim, havia muita admiração pelo Brasil e pelos Estados Unidos. Charly, na Argentina, é Gardel.

Qual foi a noite brasileira que nunca saiu da sua cabeça?
Foram muitas, e muito longas. Infinitas, eu diria. Uma noite em Búzios, tocando em roda ao redor do fogo e provando pela primeira vez o duende (NOTA DO AUTOR: “duende” é um termo metafórico muito presente na cultura espanhola e latino-americana, e significa algo como “a alma”, “o encanto”, “a força misteriosa” ou “o espírito”. Mas Federico Garcia Lorca explica melhor que eu no livro “Juego y teoría del duende”) da caipirinha — eu a subestimei. Era uma noite quente e as canções fluíam como pássaros. E aquela grande panela com gelo que havíamos preparado com muito limão, açúcar e cachaça nos convidou a voar e a nos refrescar com ela, sempre sentados ao redor do fogo, naquele ritual eterno. A parte complicada foi na hora de levantar…

Obrigado pela generosidade, mestre.

Diego Queijo é jornalista! É autor de “Pasajero en trance – uma história de Charly García no Brasil”.

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