Três perguntas: A artista manauara Cella fala sobre o “dark pop tropical” de “Efeito Borboleta”, seu disco de estreia

entrevista de Marco Antonio Barbosa

“O hype sobre o pop da região Norte esfriou”. Será? Por um breve momento, parecia que todo mundo queria ter (ou ao menos parecer ter) aquele borogodó muito particular emanado das bandas de Manaus e Belém. Mas, por isso mesmo, este é o momento ideal para distinguir quem tem estofo amazônico real dos demais wannabes. É o momento de apreciar a chegada de Cella, artista manauara de 24 anos que mudou-se sozinha para o Rio de Janeiro aos 16 para trabalhar no teatro musical. E para lançar, num 2026 pós-hype, o álbum de estreia “Efeito Borboleta”.

O disco, lançado pelo selo Urban Pop, apresenta uma sonoridade que a cantora define como “dark pop tropical”: uma junção de beats eletrônicos, sintetizadores e referências da Amazônia. São 10 faixas e uma narrativa de transformação, na qual floresta e concreto dialogam plasticamente. No projeto, ela também divide o espaço com novos nomes do cenário amazonense, trazendo parcerias com Ana Mady, Doral, Miss Tacacá e LOFIHOUSEBOY.

Em paralelo ao lançamento do álbum, Cella atua como protagonista da comédia musical “Fala Sério, Mãe! – Elas Só Mudam de Endereço”, dividindo o palco com Thalita Rebouças em temporadas no Rio e em São Paulo. Essa bagagem cênica aparece em seus videoclipes, filmados em locais como o Rio Negro e o Teatro Amazonas.

“Efeito Borboleta” foca na ideia de recomeço, autodescoberta e no impacto de nossas escolhas no mundo ao redor. “Falo do desejo de me libertar, de entender que cada escolha minha, por menor que pareça, é um ato de poder. O álbum fala sobre o feminino nesse lugar de transformação, de se reafirmar, de se reconstruir sem pedir permissão”, proclama Cella. Abaixo, Cella responde a três perguntas do Scream & Yell!

Seu álbum se inspira no “efeito borboleta” – pequenos acontecimentos que desencadeiam grandes mudanças. Considerando as muitas transformações que têm acontecido na sua vida e na sua carreira, qual foi o “efeito borboleta” original que iniciou sua fase atual?
Acho que o meu “efeito borboleta” começou quando eu tomei coragem de confiar mais em quem eu realmente sou. Mas também tem um momento muito simbólico nessa história, que foi sair de Manaus e me mudar para o RJ. Eu penso muito nesse voo, literalmente e metaforicamente. É como se uma decisão aparentemente pequena tivesse mudado completamente o rumo da minha vida. Cada escolha foi abrindo uma nova possibilidade, me colocando em contato com pessoas, experiências e desafios que me transformaram. Hoje eu consigo olhar para trás e perceber que tudo foi se conectando até chegar nesse momento.

Fale um pouco sobre o conceito artístico do “dark pop tropical”. Como você o definiria, tanto em termos de som quanto de impacto visual?
Esse conceito nasceu muito da mistura que existe dentro de mim. Sonoramente, eu gosto de criar músicas que tenham esse encontro entre o tropical e uma atmosfera mais densa, misteriosa e emocional. E acho que essa densidade vem muito da floresta também. A Amazônia tem sombra, silêncio, o rio turvo, as lendas, aquele sentimento de que existe alguma coisa escondida ali. Cresci cercada por esse imaginário e acho que ele faz parte da forma como eu enxergo a arte. Visualmente, isso aparece em uma estética mais lúdica, cinematográfica, com elementos da natureza, da moda e desse universo entre o real e o fantástico. E também inclui minha vertente teatral. A atuação influencia completamente a minha música. Eu sempre penso nas canções como pequenas cenas ou historias. Gosto de construir personagens, criar uma narrativa e imaginar como cada música ganha vida além do som. Por isso os videoclipes, os figurinos, a direção de arte e as apresentações fazem parte desse universo.

Os sons da Região Norte têm estado em evidência, ganhando espaço crescente no pop brasileiro. Fale um pouco também de suas referências e de como você combina suas origens manauaras com uma linguagem mais universal.
Ser de Manaus influencia tudo o que eu faço. Acho muito bonito ver os sons da Região Norte ganhando cada vez mais espaço, porque existe uma riqueza cultural enorme aqui. Nunca foi uma escolha “colocar” referências amazônicas no meu trabalho, elas simplesmente fazem parte de quem eu sou. Meu desafio sempre foi traduzir isso para uma linguagem pop, de uma forma minha, sem perder a essência. No fim, acredito que quanto mais específica e verdadeira é uma história, mais pessoas conseguem se identificar com ela.

– Marco Antonio Barbosa é jornalista (medium.com/telhado-de-vidro), músico (http://borealis.art.br) e escreve ótimas pensatas no Substack.

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