Entrevista: Gregorio Gananian e Negro Leo falam sobre o filme “Aquele Que Viu o Abismo”, que chega ao circuito comercial

entrevista de Leandro Luz

“Sound and vision!”. As três palavras que fecham o meu texto sobre o filme de Gregorio Gananian e Negro Leo, escrito ainda sob o calor de sua première mundial em janeiro de 2024, durante a Mostra de Cinema de Tiradentes, continuam apropriadas para descrever a experiência com “Aquele Que Viu o Abismo”. Agora que a obra chega ao circuito comercial – estreia nesta quinta-feira, 30 de julho, com distribuição da Embaúba Filmes -, Negro Leo aconselha: “ele [o filme] tem que ser visto alto”. E, de preferência, na maior tela que você puder encontrar.

Vencedor do Troféu Carlos Reichenbach em Tiradentes, “Aquele Que Viu o Abismo” é uma mistura de noir com thriller político, é Godard e Humphrey Bogart ocupando o mesmo frame, é Sganzerla embebido de notas sobre Gilgamés. Uma viagem labiríntica pelos abismos da alma de X, personagem interpretado por Negro Leo que viaja e sofre e chora e se desespera sem sair do lugar, preso em sua própria cabeça-enigma.

A parceria entre Gregorio Gananian e Negro Leo remonta ao início da década de 2010, já tendo colaborado diversas vezes, seja em shows, curtas-metragens ou videoclipes. Dirigiram juntos “Nenhuma Fantasia”, em 2021, experimento importante que ensinou boas lições aos cineastas, sobretudo a respeito do trabalho minucioso, quase artesanal com a montagem e com a edição de som. Antes, ainda, Leo havia feito uma aparição marcante em “Inaudito” (2017), primeiro longa de Gananian, co-dirigido com Danielly O.M.M., numa interação mágica com Lanny Gordin enquanto ambos descem (cantarolando) as escadas que também desceram Adoniran Barbosa e Elis Regina, na Vila Itororó.

Empolgados pela significância de se conseguir emplacar uma estreia no circuito comercial, com as condições ideias garantidas para que o filme seja visto como se deve, na tela grande e em alto e bom som, os diretores conversaram com o Scream & Yell a respeito das ideias que nortearam a criação de “Aquele Que Viu o Abismo” e as colaborações artísticas com figuras como Ava Rocha, João Dumans, Danielly O.M.M. Kaufmann, Clara Choveaux, Henri Daio, Diogo Terra, entre outros.

Vocês fizeram uma pré-estreia em São Paulo, não é isso?
Gregorio Gananian: Foi, foi legal demais, cara. Depois, no final da pré-estreia, rolou um debate muito louco, parecia um circo (risos). Foi sensacional. A galera trocando ideia, discutindo animado, todo mundo empolgado, mil ideias. Até cambalhota rolou (risos)… é o Vaudeville.

Negro Leo: Tinha um amigo meu de infância lá, bicho.

Gregorio: Qual é o nome dele?

Negro Leo: Bruno.

Gregorio: Ah, o Bruno eu não conheci.

Negro Leo: Foi muito maneiro ontem, muito maneiro. Mas vamos aí, então.

Gregorio: Vocês já viram o filme “Parade”… [tentando achar a pronúncia] “Parade”… “Parade” (1974)… do Jacques Tati? É um filme meio desconhecido, que ele fez pra televisão. Que no meio do negócio chega um cara, solta fogos de artifício, outra pessoa sai com guarda-chuva, passa no meio um cara com um trompete. É o último filme dele, que ele fez pra televisão. Parecia uma parada, parecia um happening dos anos 1920, ontem.

Negro Leo: Eu fiquei com uma vontade muito grande de filmar essas loucuras, esses debates, essas situações. Alguém filmou alguma coisa? Pra depois a gente montar um material?

Gregorio: Eu acho que sim, Leo. Você falou isso: é aquele que viu o abismo, literalmente, cara. É só o contraplano do filme, é só contraplano, cara.

Eu estava na sessão do filme lá em Tiradentes e também no dia da premiação. E foi engraçado, porque vocês estavam na fileira atrás da minha e eu me lembro como vocês ficaram tão felizes com o prêmio, foi tão bonito. Estavam vocês, a Ava, a Uma. Enfim, bonito o filme estrear agora. Demorou um pouquinho, mas chegou.
Negro Leo: Porra, nem me fala, bicho. Porque, eu vou te falar, o filme feito sem grana… sem grana que eu digo, com muito amor, mas com o investimento da gente, das coisas que a gente podia investir. O Greg pegou um prêmio que ele tinha ganhado com o “Inaudito” pra fazer todas as sessões de laser em casa, de estúdio. Quer dizer, foi um negócio feito assim: todo mundo… me dá a mão que eu te dou a mão e vamos embora, entendeu? E aí você vê esse troço, essa… é muita vontade pra fazer um filme. O Greg que o diga, que já tá no terceiro longa metragem dele, “O Inspector Geral”. É muita vontade, porque é um negócio trabalhoso demais. E quando você tem a oportunidade de distribuir, de estrear o filme, assim em salas de cinema no Brasil, fora do circuito de festival, realmente dá um orgulho muito grande. Ontem eu quase até chorei, bicho. Mas eu estava muito… era tanta felicidade que não deu pra chorar, entendeu?

Gregorio: É muito forte, muito forte.

Cena de “Aquele que viu o abismo”

Aproveito a fala do Leo sobre o “Inaudito”, Gregorio, seu longa-metragem anterior feito com o gigante Lanny Gordin, e que conta, inclusive, com uma participação marcante do Leo também: curiosamente, é um filme que foi feito também entre o Brasil e a China. O que tem de tão fascinante, de tão misterioso na China? Como esse deslocamento, essa viagem se tornou tão importante pro filme que vocês fizeram juntos?
Gregorio: Ontem no debate o Ariel falou uma coisa fantástica: “a China é o inconsciente do Brasil”. Olha a frase que ele lançou nesse debate. Eu tenho uma ideia de cinema de que o sol é a lua e o projetor é a tela. Assim, como é quase um pensamento… é o yin-yang, Você entender a força ativa, passiva, sutil e forte, o I Ching. A questão da lua, o lado negro da lua, o lado luminoso. O desconhecido, o reconhecível. Aquela ideia de você cavar um buraco aqui onde a gente está no Brasil e sair no outro lugar do mapa, do mundo. O deslocamento, ao mesmo tempo, todo mundo terráqueo, né? Que a gente já está no tempo que daqui a pouco meu filho vai falar: “Estou saindo com uma pessoa marciana”. Então é uma comunhão dos terráqueos.

Negro Leo: Você falou isso e eu lembrei do Rela: “faz um sexo marciano, é o novo” (risos).

Gregorio: Exato! (risos) Olha só, Leo, o Aguilar tem um quadro dele que é “2050, casamento em Marte”, escrito. É essa a onda toda, cara. A China é fascinante, é um delírio nosso. E ela ensina muito, pra gente se reconhecer. Acho que é aquela história que ficou clássica: não me interessa como o comunismo seria no Brasil, mas o que o Brasil faria com o comunismo. Acho um aprendizado formidável entender o que a China fez com o comunismo, com o socialismo.

Negro Leo: Mas se eu puder dar um pouquinho de história pro Leandro, é o seguinte: em 2013, lembro que vim a São Paulo fazer um show e o Greg disse pra mim, assim: “Leo, estou indo pra China”. Ele e a Dani. “Estamos indo pra China fazer um documentário com o Lanny”. Acho que era no Puxadinho da Praça (antiga casa de shows independente no bairro Vila Madalena), se eu não me engano. Você lembra disso? O Greg lembra do Puxadinho. Leandro eu não sei se pegou isso, porque é mais jovem. Mas aí, bicho, na sequência eles foram pra China, não sei o quê. O Greg volta da China e fala: “pô, Leo, quero fazer uma cena contigo e com o Lanny”. A gente descendo as escadas que desceram Adoniran e Elis Regina, lá da Vila Itororó. Que agora está reformada e tal. E eu lembro de ver… é muito incrível, porque têm planos do “Inaudito”, que não foram usados no “Inaudito”, (mas sim) no “Abismo”. Então, olha só, veja, o filme é feito de camadas temporais. E camadas temporais, inclusive, que também podem, mesmo para o espectador desavisado, resultar já numa experiência mesmo de registro histórico. Por quê? Porra, ele filmou nessa China em 2017… 14, 15, com o Lanny.

Gregorio: 16, Leo. 15 e 16.

Negro Leo: A China que a gente filma, a Xangai que a gente filma, a gente filma 5 anos depois. E já é um pouco diferente mesmo. Então, acho que tem isso. Agora, tem também o fato da gente ter filmado em São Paulo. Alguns anos, logo depois que a gente voltou da China, a gente filmou em São Paulo. Então, quer dizer, eu acho que o filme tem essas camadas de tempo que estão ali, sacou? Tem que só pescar, bicho, mas está ali. É aquela história que o Hélio Oiticica dizia. Por isso que eu disse ontem numa entrevista, que esse é um filme, na verdade, é um neoconcreto, é um penetrável, é algo que você vê… flui pelos sentidos. O Greg falou “educação pelos sentidos” também ontem. Então, veja, você, o que você faz com um filme desse? Porra! É… que tem essa relação, né? Que tem essas coisas das camadas temporais e tal. Porra… calma que estou elaborando. Agora fiquei até confuso, que estou fumando junto e tudo, porque o cérebro vai, mas também ele se perde.

Gregorio: Mas tá formidável isso que você está falando.

Negro Leo: É, só queria dizer isso, só queria dizer que esse filme, ele… é isso, vamos continuar, mas era sobre…

Gregorio: Mas eu vou continuar na tua ideia, Leo. Essa coisa que você falou agora, pelo que estou entendendo, desse sentido quase palimpsesto desse filme…

Negro Leo: É um palimpsesto, exatamente.

Gregorio: Eu peguei a visão. E esse sentido penetrável, que você vai descobrindo essas camadas e você entra no filme, e você faz ele a partir do seu… a forma que você está assistindo, você recria esse filme. Ele muda muito. Leandro, (surpreso) ontem era outro filme.

Imagino. Eu assisti hoje de manhã o filme pela terceira vez. Eu vi a primeira vez em Tiradentes, depois vi no Ecrã, ano retrasado, eu acho, e agora vi pela terceira vez. É engraçado como às vezes a gente revê os filmes tentando… eles vão se desvelando na nossa frente. O “Aquele Que Viu o Abismo” é meio o contrário. Ele não se desvela muito, não, ele se transforma. E aí eu queria perguntar pra vocês, talvez mais até direcionado pro Leo, sobre esse personagem que você criou, esse tal de X, como ele é chamado nos créditos, essa espécie de andarilho. Fala um pouquinho sobre ele?
Negro Leo: Cara, o X a gente criou junto, na verdade. Porque a ideia do personagem, esse que vai viver essa epopeia, digamos assim, meio trágica, meio… essa ideia desse personagem que, na verdade… hoje eu li um texto super legal que dizia assim, que na verdade o X é uma pessoa comum, porque ele não tem nenhuma expectativa de que a vida dele vai redimir a vida dos outros, da humanidade. Ele não é um herói e também não é um anti-herói. Sabe o que ele é? Ele é quase um personagem bíblico. Porque se você prestar atenção, é o seguinte, na tradução do Novo Testamento, do Frederico Lourenço, o português, ele diz o seguinte, ele traduz “o filho do homem” por “o filho da humanidade”, e ele diz uma coisa que é muito importante, ele diz, assim: a literatura dos evangelhos é a primeira cujos personagens não são heróis, guerreiros, gente de glória. Não, são coxos, são doentes mentais, cegos, paralíticos. Porra, prostitutas… (enfático) você entende o que estou querendo dizer? Então, assim, é um lugar muito forte. Então o X é quase isso, é um personagem evangélico, se você… e ele é um cara normal. E ele tem certeza absoluta de que ele… entendeu? Um anti-Jesus, eu não sei. Um anti-Jesus fica forte, um slogan, vamos deixar um anti-Jesus pra lá. Mas… (risos) entende? Tem uma coisa, na verdade, tem uma coisa evangélica. De alguma forma, na vida, na natureza desse personagem. A gente construiu assim. Só que quando a gente chegou na China, como é que é esse cara? Aí eu comecei… ontem eu até falei sobre isso, o Greg lembra. Aí comecei a tremer, e comecei aquela coisa, e foi, porra (risos). Porque foi assim, natural, não é, Greg?

Gregorio: Realmente, ele nasceu. A gente viu o nascedouro dele. Ontem eu falei muito dessa coisa da mão dele. Era como se a mão dele fosse o nosso guia, o roteiro do filme. Sim, pra mim é uma coisa quase mística mesmo. Sinto que toda essa… energia, como se fosse um pandeiro, o ritmo do filme está ali naquela mão tremendo. E eu também senti muito esse lance que o Leo falou, bíblico, porque o filme tem a queda pra ascensão. Assim, ele tem essa ascese, ele tem essa transmutação. Ele tem que morrer pra germinar, sabe? E eu não estou falando isso só do personagem, psiquê, não. Estou falando do sentido formal mesmo. A partir do momento que os planos… perde-se a conexão entre o fundo e a frente, e aí você tem primeiro e terceiro plano, a gente ou está em queda ou está em ascensão. E o X vive essa montanha russa pra uma ascensão, assim. É muito forte. Aquele plano pré final, antes da Muralha da China, tem uma imagem de um santinho ali do lado do X, naquela foto final. E sabe como a gente pensou essas coisas, Leandro? Com as mãos, cara. Eu te juro. Ia lá e colocava, sabe? Colocava… a mão que fazia… não é nem no sentido de automatismo, mas era a mão que puxava a gente. Eu falei isso, a mão do X foi ensinando muito a um processo de coisa manual, de execução mesmo. E aí você vai vendo, hoje em dia, e você fala: “nossa, a mão fez isso, né?” Foi construindo. Não é à toa que teve um diretor que falou: “eu prefiro perder meus olhos do que minhas mãos pra dirigir um filme”.

Eu fico pensando nesse corpo nesse espaço. Como é um filme que tenta fazer com que vários espaços colidam, ou andem juntos. E eu estava assistindo hoje pela manhã os trabalhos de vocês, os curtas, os videoclipes que o Greg me mandou ontem. O que me chamou a atenção, pensando numa conexão mais atmosférica e até mesmo de imagem com o “Aquele Que Viu o Abismo”, foi, na verdade, um videoclipe que o Greg dirigiu pra música do Jards Macalé, o “Trevas”. Porque parte da estética laser que é usada no filme já estava lá. Queria que vocês comentassem sobre esse outro espaço que esse corpo do X habita, que é esse espaço criado com o trabalho do Diogo Terra.
Gregorio: O nascedouro do laser não é o “Trevas”. O laser… o Diogo Terra, ele já fazia as manifestações, ele já era um ativista do laser. E a gente era… essa turma, ele, o Paulinho [Fluxus]… o Leo e a Ava (Rocha) eram amigos por algum caminho e eu era amigo por outro caminho. Porque eles frequentavam o Parque Augusta. O Leo e a Ava estavam usando em shows. A primeira filmagem de laser, se eu não me engano, foi no clipe do “Action Lekking”, que é antes do “Trevas”.

É verdade, tem também.
Gregorio: Não, é… ali, a gente saiu pela cidade disparando o laser, escrevendo. Foi fenomenal. Você filma aquilo lá e você fala: “pô, parece que está filmando o Humphrey Bogart”. É uma delícia filmar laser, é muito cinematográfico, muito forte. E aí, disso, foi pro “Trevas”. Quando eu terminei o “Trevas”, o Leo falou: “Greg, é isso, cara”. O “Trevas” ajudou muito numa conexão nossa, pra entender caminhos pro “Abismo”, sabe? E o laser tem uma coisa fantástica, porque é um vetor, né? Ele é o mínimo múltiplo comum, são hieróglifos egípcios, aquilo. Quer dizer, você tem só a essência, você tem um contorno. E chapado. O que eu falo de fundo e da frente, ele chapa. Quando você chapa, você tem a bidimensionalidade, e na verdade você tem a essência da forma. E aí você complementa. Você complementa com o som, você permite que o vazio seja preenchido. Pra fazer um filme sem grana, onde você quer fazer um… digo, você múltiplo, né? Você quer executar aviões, bombas, tudo isso que é o cinema, o laser é fantástico. Você faz isso quase só com um contorno, com uma linha. A gente, com o Diogo Terra Vargas – se eu tiver falando muito vocês me avisam -, a gente selecionou antes pré imagens do laser. E aí era isso: “porra, essa imagem é boa, isso é uma mala, isso é não sei o quê”. Quase como se a gente estivesse selecionando cartelas do que pode ter um filme no futuro, sabe? E aí foi muito legal, porque daí a gente filmou, e aí, a partir desses lasers… como se fossem cartas do… não do tarô, mas cartelas. Aí eles foram ajudando a gente a desvendar qual era o roteiro do filme, a desempenhar esse caminho.

Negro Leo: Exatamente.

Nessa conversa sobre a geografia do filme, o espaço, tem uma ideia de continuidade, também, que não é exatamente convencional. Tem uma cena do “A Guerra de Michael” (2020), do Gregorio, que, entre outras coisas, retrata o momento da feitura do seu disco, Leo, o “Desejo de Lacrar” (2020), na qual você fala uma frase bem curiosa sobre a sua visão da música. Você fala sobre não se subjugar ao estatuto da canção. Trazendo isso pro cinema, agora, o seu interesse é de não se subjugar ao estatuto da narrativa, ou pelo menos da continuidade? Como você concilia a experimentação e esses códigos de gênero no seu trabalho? Ou seja, a canção versus a não-canção, no caso da música. Ou o narrativo versus o não-narrativo, no caso do cinema. Como é que você vê isso no “Aquele Que Viu o Abismo”?
Negro Leo: Cara, eu acho que as pessoas, pra começar, não se dão conta de que, na própria vida, a sucessão de eventos é completamente… se você estivesse vendo um filme do seu dia, se você filmasse o seu dia, um dia completo, e tentasse fazer ele fazer sentido, você ia ver o que estou dizendo. São sucessivas ações. Você vai, bebe água, toma, sobe, acende um cigarro, abre um livro, fuma, sai pra comer num lugar, encontra alguém que fala alguma coisa, ouve barulhos estranhos, pessoas falando. Junta isso numa coisa que faça… você entende o que estou (tentando dizer?)… narrativa, cara, é um negócio muito… olha, eu tenho a impressão… o Greg pode falar melhor sobre isso, sobre a jornada do herói, sobre a criação, a construção de formas de se contar uma história, de se narrar… vindo lá dos contos de fadas do texto lá daquele russo que foi para os Estados Unidos. Então, veja, isso é uma coisa. E daí até chegar no “Save the Cat”, que a gente usou para fazer o “Nenhuma Fantasia”, e outras técnicas de escrita de roteiro e construção de narrativa. Veja, isso é um mundo. Existe outro mundo fora desse mundo, tá? Que ele tem… que ele pode ter um certo ritmo completamente diferente. Acho que a proposta desse filme é construir um ritmo muito particular e se transformar em uma máquina. A montagem, com a edição de som, nesse filme, constrói um ritmo muito particular, onde a história, sim, está subjugada a esse ritmo, não o contrário. E não o filme tem que estar subjugado a um desses modos de escritura, e sim o contrário. A escritura surge do fato de que a montagem e o som têm um um próprio ritmo, porra. E assim, ontem, não sei o que a gente estava conversando, alguém falou, acho que foi o Henri Daio, que é o editor de som do filme junto com Greg. Acho que ele falou uma coisa sobre improviso e sobre o fato de que você… é isso, você conhece, estuda o improviso pra poder… você estuda… dentro dos períodos onde se improvisava, você tinha estudo sobre as coisas. Barroco, o improviso barroco, seguindo certas estruturas. Mas, assim, é isso, acho que esse filme… essa última parte que eu falei aí, pode ignorar, mas é isso, essa parte da improvisação faz todo sentido. Mas, assim, não sei. Greg, quer falar um pouco sobre? Acho que faz sentido isso aí?

Gregorio: Não, eu gostei muito. Me estimula muito, Leo, essa ideia de que não é da narrativa para o ritmo que a gente caminhou. E, sim, que a narrativa… não é que ela não exista, isso que é massa, mas é: o ritmo faz nascer a narrativa. É como se fosse assim: você não olha o mundo de você pro mundo, mas o mundo pra você, e dessa forma você fica um pouco mais generoso, sabe? Tipo assim, trate as pessoas do jeito que você gostaria de ser tratado? É uma forma de você olhar de fora pra dentro. E essas coisas que você falou agora, Leo, é pra mim uma conduta ética, entendeu? E, na verdade, faz a vida funcionar muito melhor, faz a gente estar mais próximo da natureza. Não esquecer esses movimentos que formam a gente, esses ritmos moleculares. Um ritmo, a coisa toda do ritmo. Eu achei muito legal, Leandro, você lembrou… eu gosto muito daquela fala do Leo, do jeito que ela dita lá no “A Guerra de Michael”. Eu acho que ela é importante de se escutar, com todo o prisma que ela tem…

Negro Leo: E eu vou dizer uma coisa: se a pessoa quiser se apegar à narrativa, ainda, se quiser segurar no tronco (risos)… a pessoa… ainda tem coisas ali, tem vários elementos, sabe? De fato, tem. A gente se preocupou, de certa forma, em contar uma história. Mas a história não podia ser algo que, porra, de certa forma suplantasse o ritmo. O ritmo foi a coisa mais determinante para a coisa acontecer. Porque, afinal, porra, cinema é imagem e som, bicho.

E nessa busca de vocês, como é que foi a entrada do João Dumans no projeto? Porque eu sei que o Gregorio gosta de estar envolvido na montagem dos projetos, mesmo que costumeiramente já traga colaboradores. Por que a decisão de entregar o material do “Aquele Que Viu o Abismo” a alguém como o João Dumans e como foi esse processo?
Gregorio: Não, não é entregar o material, Leandro. É outra coisa. Assim, o João, cara, ele é uma pessoa fantástica, é um ser humano incrível. Quando terminei de passar o “Inaudito” na Mostra de Tiradentes, a primeira pessoa que veio falar comigo foi o João. O João segurou meu braço e falou: “cara, estou abismado com esse filme”. Eu não conhecia ninguém do cinema. Eu fui lá meio cego, sabe? E ele começou a me falar do “Inaudito” e eu falei: “não, esse cara é gente fina pra caramba”. Aí a gente ficou muito amigo, tá? E o João é uma pessoa que você pode se aconselhar com ele… muitas coisas. É um cara muito massa. Eu sempre tive muitas dúvidas…

Negro Leo: Ele é um cara.. ele teve um papel muito importante na construção de uma estrutura, ele junto com o Greg, esses dois aí… isso foi foda, bicho… Porque, assim, mesmo por mais louco que qualquer filme seja, ele tem uma estrutura, porra, tem um equilíbrio, aquela coisa que o Francis Bacon falava: “o quadro tem que ter um equilíbrio”. O contraste, ele não é… se ele for arbitrário, se não tiver equilibrado, ele não existe, sabe? O contraste, ele é… então, o que estou querendo dizer é o seguinte, eles dois encontraram… (empolgado) tá! E o João foi muito importante nesse momento. O Greg pode falar melhor porque eles trabalharam muito juntos. Eu não estava nesse momento.

Gregorio: O João… eram sessões, né? O João vinha pra São Paulo ou a gente ia pra Belo Horizonte. O Leo falou uma coisa certa, o João tem uma noção de planta baixa do filme, uma noção do todo que é formidável, assim, é admirável. É o olhar de águia, sabe? De quando você olha por cima e você entende? E ele tem essa noção do ritmo macro, que é muito importante. Então ele também chegava nos… mas não era aquele cara do “de boa, deixa disso”. Não, ele botava a gente pra jogo, vamos lá. Só que ao mesmo tempo ele também falava: “cara, isso aqui já virou repetição vazia, isso não”. Não de censura, (mas) de criação mesmo. Então é o nosso… é a planta baixa do filme.

Cena de “Aquele que viu o abismo”

Tanto é que ele acaba sendo creditado também como roteirista, obviamente, porque é um filme muito construído também nessa mesa, nessa montagem.
Gregorio: É isso.

Negro Leo: Muito importante pro filme, entendeu? Pra estrutura do filme, sacou? E aí a parte, vamos dizer assim, mais microporosa do filme, esses pequenos ajustes, tanto a montagem como a edição de som, aí Greg e Henri já começam a trabalhar nessas fissuras…

Gregorio: É obsessão, Leo.

Negro Leo: É o momento da obsessão, exatamente.

Gregorio: Porque a gente também atravessou a pandemia na montagem. Aí você tinha que fazer, trabalhar. Junto veio o “Nenhuma Fantasia”. A gente monta o “Nenhuma Fantasia” nesse processo. Aí o “Nenhuma Fantasia” ensina a montar o “Aquele Que Viu o Abismo”.

Negro Leo: E, cara, tudo a gente trabalhou junto, de alguma forma. Você vê, mesmo os textos, que eu apareço lá creditado, é tudo junto, então é um bagulho meio Lennon-McCartney, entendeu? Só que com um grupo grande. Veja, é muito… é um lance muito de uma parceria, é uma simbiose muito perfeita, bicho, essa parceria, que resulta nesse filme. Com todas as pessoas que estão envolvidas mesmo.

Gregorio: E sabe o que é massa? Assim, fora de campo agora, falando só de passagem, é você passar o filme depois de algum tempo que você já fez o filme e a turma toda se abraça e se curte pra caralho. Isso é legal demais. Ontem a sessão foi muito mágica, nesse sentido.

Negro Leo: E eu vou falar… uma coisa legal de sair na crítica, Leandro, é que, pô, esse filme tem que ser visto… eu não sei qual é o parâmetro de medição de volume em sala de cinema, cara, mas assim, ele não pode ser visto em 4,5, 5, ele tem que ser visto alto, sacou? 8, a gente ontem botou 8. Cara, a sala vibrava nos graves, entendeu? (faz barulho de vibração) Minha filha uma hora botou a mão no ouvido. Fora que a tela, também, enfim… esse tipo de coisa, entendeu? É foda, você ver esse filme na tela grande. A sala do CineSesc ou a sala de ontem, do Petrobrás, é muita doideira, cara.

O volume faz uma diferença absurda, não é?
Gregorio: Leandro, sabe o que dá vontade? Dá vontade de botar na sinopse, pra pedir pra colocar o volume alto.

Negro Leo: É, porque quando a gente não tiver na sala, o volume é 4,5. Então, se a pessoa for lá assistir ao filme, que não foi ontem, ela vai botar no 4,5, então não vai experimentar o filme como tem que ser, entendeu? A verdade é só essa, entendeu?

Eu queria entrar num outro aspecto do filme. Num dado momento, Leo, o seu personagem diz o seguinte: “isso está ficando muito pessoal pra descrever”. A partir dessa frase, como você enxerga essa espécie de diário de viagem da sua família dentro do filme? Como vocês conseguiram se distanciar de uma lógica documental típica de um diário de viagem, partindo para uma aposta desenfreada, desestabilizante dessa ficção que vocês criam?
Negro Leo: Cara, olha só, todo esse texto da parte psiquiátrica é uma anamnese real, de um paciente real. Você veja aí, ó. Estou te dando mais uma coisa que você não sabia. Você veja. E a gente encontrou a interação perfeita que cabia dentro da estrutura de filme que a gente tinha. Então veja, o cara vai dar um tiro na boca, não dá, dá um tiro na perna e diz: “porra, não tem um hospital em 100 metros, era pra ser na boca”. Porra, mas caralho, mas não tem como, são… congelar o cérebro e transferir pra não sei o quê. “Não tem como ressuscitar animais da megafauna”. O cara está em desespero completo, ele está vendo essa coisa acontecer. “Não tem como, não tem como. Porra, era para ser na boca”. Caralho. Pum! De repente ele abre no hospital: pá! Caralho. Puta que pariu. E aí, a anamnese, a psiquiatra…porque depois você vai saber que ele está no hospital psiquiátrico, lá no meio, quando ele está girando, e ele começa a falar de como a ProLife age. Mas antes ele diz: “eu me voluntariei” e tal. E você tem alguma noção, porque ele fala do psiquiatra, você sabe que ele está no hospital já de cara, de alguma forma, que ele está nessa conversa, entendeu? A gente… porra, cara, dá até vontade de rir ou de chorar, o quanto tempo que a gente passou escrevendo isso, pra pensar esse lugar sem conseguir revelar. Porque você não filmou uma porra de uma ala de enfermaria. Você não filmou nada disso, cara. Porra, entende o que estou querendo te dizer? Então, assim… mas está ali, não tem como, está ali. E é por isso que eu te falo das camadas, tanto temporais, mas também de imagens, de coisas, às vezes de redundância. Você entende? Eu acho que é isso, cara, eu acho que o texto do… o texto, não, essa parte, por exemplo, da psiquiatria que você está dizendo, quando ele diz que está pessoal demais, veja, a força de verdade… a factual, vamos dizer assim, que essa frase carrega. Agora, você sabendo que é de fato uma anamnese, uma conversa de um paciente com um psiquiatria real, você vê… e a frase sai com uma carga emocional forte, entendeu? E aí, bom, aí ele vem e dá um tiro no cara, aí puta que o pariu, entendeu? Enfim, mas é um pouco isso (risos).

Cena de “Aquele que viu o abismo”

Eu fico pensando também nessa escolha, voltando para a ideia do diário de viagem, de encerrar o filme com aquela cena lindíssima da Ava. Como foi isso?
Gregorio: A gente sabia que o filme ia terminar na canção. Tinham algumas coisas que eram concordâncias naturais e fluidas nossas. A gente sabia que ia terminar com uma grande canção. E aí essas escolhas surgiram muito… A Muralha da China veio naquele momento, a personagem da Ava parecia que se aproximava cada vez mais disso. Não foi uma escolha racional, sabe, Leandro? “Vamos terminar com a sequência da Ava no final”. As imagens pediram isso. Sem exagero, sem mistificar a coisa. Não teve algo racionalizado nesse ponto. E aí foi vindo, a sequência ficou para o final e ele se aproxima disso. E aí você falou dos diários de viagem. Talvez uma forma de viajar seja fazer um filme de ficção, entendeu? A grande viagem. Isso é viajar.

Negro Leo: É verdade.

Gregorio: Acho que teve uma inteligência muito grande do nosso grupo na viagem. Uma solidariedade de todos, de transformar nossa viagem numa ficção. De personagens, de viver essa experiência. E aí você transforma. Você não está indo só pro ponto turístico. Você está indo para um plano de filmagem. Muda tudo, muda tudo. O comum, o que seria o comum? Leo e Ava estão indo pra China, a gente fica fazendo umas falas, eles contando como a música é legal, ali, como que não é. Aí bota os dois sentados, bota o artista chinês. E eles são muito perfeitos, são muito divertidos. O Leo e a Ava, sempre muito inteligentes. A gente está atrás deles, os documentaristas. “Olha, ai, como eles são legais, viva a cultura pop, galera”. Esse é um filme… que era o pedido, que era o padrão. Aí quando você está com o Leo, o Leo vira e fala: “Greg, vamos fazer uma ficção, irmão?” Eu olhei pra ele, e por isso que a gente é parceiro. Eu falei: é isso, eureka!” (risos).

Negro Leo: É isso aí, cara, é muito legal. Porque são muitas camadas, entendeu, Leandro? Aí quando a gente teve essa ideia, Greg já senta comigo, já mostra uma porrada de filme, uma porrada de referência, de ideias, de caminhos. E aí a gente começa… eu começo a escrever umas pequenas coisas. Aí, a princípio, a gente não tinha nem ideia do que a gente ia filmar na China. E aí pinta um livro do Gilgamesh pra gente, que um amigo nosso me manda. E aí a gente começa a ler e a gente fala: “puta, cara, isso é louco”. E o Greg estava lendo um livro sobre a China… que a gente estava indo para a China, lógico… do Henry Kissinger, e era uma loucura porque a gente misturou isso com… então foi tudo, cara. A gente começou a juntar muitas referências, e todas essas coisas a gente foi embarcando na viagem. Eu, porra, eu disfruto muito de literatura… de literatura, não, de divulgação científica na área da tecnologia etc.

Gregorio: E a Dani, né, Leo?

Negro Leo: E a Dani, também, que era uma pessoa… que é até hoje… a Dani até hoje me manda coisas ligadas a esse universo, porque é um universo que a gente compartilha também.

Gregorio: Ela está trabalhando com isso, com inteligência artificial hoje em dia, em Luxemburgo.

Negro Leo: E aí a gente começa a fermentar esse caldo, entendeu? Até que, porra, finalmente é o filme que vê-se hoje.

Gregorio: E borbulhou. O filme que borbulhou.

Cena de “Aquele que viu o abismo”

Leo, você comentou dessa cena que abre o filme, que é muito marcante já, do homem com a arma na mão apontando para o próprio rosto e que acaba dando um tiro na perna. Eu parto mais uma vez de uma frase do filme para levantar uma pergunta. A frase é: “não tem como estancar esse sangue”. X é um personagem que sofre e se desespera muito ao longo do filme. Gostaria que vocês comentassem de que sangue é esse que a gente está falando, que não pode ser estancado.
Negro Leo: Isso aí é a dívida impagável. Esse sangue que não pode ser estancado. A gente tem que falar muito, e falou muito sobre isso já, cara. Sobre o fato de que o capitalismo promove a degradação. A degradação geral. E, naturalmente, com ele os desenvolvimentos tecnológicos e a escassez. Então, veja, acho que esse filme é um pouco sobre isso.

Gregorio: Totalmente. Como é que chama, Leo? Como é que é chamado? É o capitalismo mercantil que fala, né?

Negro Leo: Exatamente… como assim?

Gregorio: O nome, o nome sociológico que é chamado…

Negro Leo: Desde a passagem do capitalismo mercantil, escravista, até o capitalismo hoje, o capitalismo que a gente tem…

Gregorio: Essa dívida impagável vem desse…

Negro Leo: Essa dívida impagável vem desde o processo, entendeu, do surgimento do sistema econômico. Então, veja, a gente tem um sangue que, porra, como que se estanca esse sangue? Veja, é o problema da paz perpétua. Não tem como. Quando ele diz: “não tem como estancar esse sangue”… ele viu do futuro? Sei lá de onde ele viu. (enfático) Ele viu de agora! Não tem como estancar esse sangue. “Não tem como ressuscitar animais da megafauna”. Não tem como isso ser sustentável. Vocês estão viajando, sacou? Clones etc. Tudo bem. De alguma forma, também, o que acontece? Não é um papo de apocalíptico integrado. É um papo de, assim, qual é a dele… o que que esse cara está dizendo? Aí que eu te falo, o que ele diz do lugar da pessoa normal vivendo o mundo sendo afetada, sem ter condição, talvez, de mexer, mas também, de alguma forma… por isso ele não é esse herói, ele é um personagem evangélico, porque o meu reino não é desse mundo, de algum lugar. Quando ele… a ascese no final, aquela coisa, o “homem livre”, ele vive a vida dele, entendeu? Esse papo, entendeu? A coisa da família, que no final, quando tem aquele enigma, que diz que se você afirmar… só se eu souber se é verdadeiro ou falso… se eu não souber se é verdadeiro ou falso… só assim você vai poder voltar pra sua família. E ele faz a afirmação, que a cabeça não sabe dizer se é verdadeiro ou falso, ou seja, ele volta pra família. Eu vinha conversando isso no carro com a minha filha ontem, ela perguntando: “mas ele voltou pra família dele?” Eu falei, ele voltou porque ele acertou o enigma, mas ninguém se liga no enigma. Foda-se, entendeu? (risos) Mas ele acertou o enigma, cara, então ele voltou pra família. E logo depois daquele sofrimento final, vem a ascese que o Greg estava dizendo. Então, veja, como é que esse sangue é estancado? É no outro mundo, porra? Meu reino não é desse mundo? “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”? Eu não sei, mas esse filme coloca isso em alguma das camadas dele também. Você entende o que eu estou te falando? O sangue que não vai estancar, mas de qualquer maneira eu vou, eu vou me redimir. A mim mesmo. Eu vou encontrar. Saca? Tem isso, cara, tem isso também. Tem muita coisa aí, entendeu? O mundo… no filme tem isso, tem esse sofrimento, o sofrimento é real, cara. Ele é real. Aquela cena, minha filha até chorou. O Greg lembra disso. Fazendo aquela cena do choro, no espelho, no laser. Aquilo ali foi forte. E ontem na sala deu pra ouvir perfeitamente os gritos.

É meio compulsivo, né?
Negro Leo: É forte, cara, aquilo ali é forte. Ou ele querer tocar… pô, tem uma coisa tão bonita. Ele diz no início: “eu só quero tocar piano pras pessoas”, e tem um momento que ele está tocando. Tem beleza, sabe? Também tem uns lugares de uma beleza, também, da vida. Até quase…

Gregorio: O prazer dos sentidos, né, Leo?

Negro Leo: É, o prazer dos sentidos.

Gregorio: Exatamente. De tocar, de andar, de viver, conhecer as pessoas, de viver a jornada dele, a existência. Eu acho que o X tem uma intensidade muito forte, pô. A pele dele é carne viva, né? Ele é muito sensível. É a lógica das sensações que ele carrega. E isso sempre tem um grande prazer, que é o prazer dos sentidos, que vocês podem… eu nem estou falando do X agora, não, mas às vezes você vai arrancar alguma coisa de uma vida, mas os sentidos continuam, de todas as vidas.

O que a gente pode esperar de futuras colaborações?
Gregorio: A gente está terminando agora “O Inspetor Geral”, que está pra ser lançado logo, logo. Estou feliz demais na montagem, o Leo está fazendo trilha sonora, atuação. A gente está escrevendo um roteiro junto. Parceria total. Louco pra sentar com ele e a gente começar a escrever um próximo roteiro, só digo isso. A gente já está… as coisas estão pedindo, né, Leo?

Negro Leo: Tem coisa vindo aí.

As colaborações são muitas, eu sei, mas vocês têm que voltar a dirigir junto.
Negro Leo: Não, depois do “Inspetor”, que o Greg está dirigindo, e pô, esse filme está muito lindo e tal, a gente ainda tem um caminho ainda, uma jornada com trilha e tal. Bom, a gente com certeza vai fazer alguma coisa. A gente já está bolando, já está pensando e tal. Já tem conversado. Mas tem que ser um passo de cada vez, né, cara? Primeiro terminar as coisas que estão urgindo e depois caminhar para as coisas novas, entendeu?

Gregorio: Está começando a borbulhar, né, Leo?

Negro Leo: É isso, está começando a borbulhar.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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