Entrevista: Gabi Farias num papo sobre Norte, Sudeste, música e territórios

entrevista de Leonardo Vinhas

Na surpreendente etapa manauara do Festival Casarão 2026, uma das melhores surpresas foi Gabi Farias. Com uma música cheia de elementos populares que podia agradar a indies, bregas, jovens fãs de pop ou tiozões saudosos de um bom cabaré, o show curto e certeiro bateu na veia de muita gente, acendendo a admiração ou inspirando desejos, e tudo isso sem que a artista e sua banda não fizessem nada além de apresentar sua arte.

Claro que há sempre mais que isso. Na ativa desde 2019, Gabi vem burilando sua música, e parece ter encontrado nos parceiros Bruno Matos (guitarra, synths e programações) e Abner Pires (bateria e percussão) companheiros ideias para forjar uma música indissociavelmente amazonense, ainda que totalmente cosmopolita.

A discografia inclui um EP (“Vazante”, de 2019), um álbum (“Enchente”, de 2022) e vários singles, e ainda tem música nova a caminho (“Sossega”, ainda sem registro em estúdio, já é um hit nos shows). Mas essa identidade não chegou logo de cara – a diferença de maturidade entre os primeiros registros e o que vem sendo exibido nos últimos anos é notável – e não vem por mero acaso: além da labuta criativa, existe uma busca consciente por sonoridades, parcerias, palcos e oportunidades de circular, e esses dois últimos itens não são tão simples de conseguir na Região Norte, fator que levou Gabi e Bruno a migrarem para a capital paulista.

No backstage do Almirante Hall, local que recebeu o Festival Casarão Manaus em 2025 e 2026, ainda sob o calor literal e figurativo de sua apresentação, Gabi, Bruno e Abner bateram um papo com o Scream & Yell e falaram sobre essa migração, sobre sua identidade sonora e sobre barreiras – geográficas e culturais – para a música da Região Norte.

Agora há pouco, no show [do Festival Casarão], você falou que sua concepção de som mudou a partir do momento em que você conheceu o Bruno Matos. Conta um pouco mais disso.
Gabi Farias: Meu trabalho é solo, mas a gente é uma banda. O Abner tocava comigo já há muito tempo. Quando fiz um EP ainda aqui em Manaus, ele gravou comigo e a gente fez vários shows pela cidade, teve um entrosamento legal, uma sinergia boa. Quando fui para São Paulo – que é onde moro atualmente – fui morar com o Bruno, que também é daqui de Manaus. [Lá em São Paulo) Eu não tinha mais esse entrosamento, me sentia ilhada, tipo “cadê a minha banda? Cadê a banda de Manaus?” Eu não tinha mais o Abner, não tinha a galera que tocava comigo, e rolou de pintar esse lugar de identificação com o Bruno. A gente começou a fazer shows em São Paulo também, e a partir daí começamos a escrever música e tentar criar coisas novas que tivessem um pouco do que eu fazia aqui, mas também do que eu estava vivendo em São Paulo.

Mesmo com esse lado paulistano, o que vocês fazem é muito amazônico, e isso é algo que eu, que não sou daqui, não consigo explicar, mas sei que está na música, na estética, nas letras. Então queria que vocês, que têm propriedade no assunto (risos), me explicassem que é esse “ser amazônico”.
Gabi: É um lance muito espiritual, né? Tipo: estou em qualquer lugar, mas eu sou o meu território também. Então, independentemente de estar aqui ou em São Paulo, eu vim daqui e eu sou esse lugar também, mesmo quando estou lá. A gente é como um corpo que é território e que fica navegando por todo lugar.

Abner Pires: Sobre essa coisa da identidade, eu estava lembrando de uma fala do Denzel Washington sobre representatividade, respondendo porque tinha que ser um diretor negro para falar sobre a cultura negra, aí ele dá um exemplo, acho que do Steven Spielberg, que é um diretor judeu que fala sobre o Holocausto. Para falar sobre a Amazônia, as pessoas podem escrever, podem cantar, mas só a gente sabe o que é o cheiro do jaraqui frito na hora do almoço (risos). Só a gente sabe o gosto do tucumã, do café, da tapioca daqui. É a vivência, a gente cresce e a gente acaba imprimindo isso na música.

Gabi: Isso! Por mais que isso tudo não esteja escrito, porque eu não falo sobre comida na música, mas existe um sotaque, não só no na fala, mas no jeito de tocar, no jeito de se apresentar.

Abner: Os ritmos, as células rítmicas assim, as acentuações, mesmo sem estudar isso na academia, a gente cresce ouvindo isso nos bregas, nos barzinhos, nos flutuantes da vida.

Interessante isso do brega, porque no Sudeste, isso tem outro significado, mas que é pejorativo também. Mas vejo aqui o brega como esse cabaré suado, mas com vontade (risos) – tipo, “o calor está me matando, mas eu estou com tesão, não vou parar agora (risos)”. O show de vocês me passou muito isso.
Gabi: Ai, que bom! (risos)

Abner: Cumprimos nosso objetivo! (risos)

E como é viver essa identidade em São Paulo, uma cidade tão propensa a atropelar e anular a identidade de qualquer um?
Bruno Matos: São Paulo, na verdade, por ser um lugar multicultural com pessoas de vários lugares, acaba gerando na gente mais uma vontade de se reafirmar: a gente se une com os nossos, chega lá e mostra o que a gente tem. A gente consegue perceber melhor o que é nosso, o que é daqui do Norte e o que não é. Pelo menos para mim, consigo reafirmar mais essa parada do som, de estar junto com as pessoas que fazem música – não necessariamente do Amazonas, porque às vezes rola também com quem é do Pará, do Amapá, de Roraima. São pessoas que estão ali com a gente, com quem a gente tem uma identificação cultural, então a gente se junta e faz.

Gabi: Isso fortalece um movimento como um todo, porque no Amazonas em si, ou aqui em Manaus, a gente muitas vezes fica isolado, não conhece tantos artistas. Inclusive, festivais como esse são importantíssimos, porque é onde a gente se cruza, conversa e conhece mais artistas. Mas essa identidade a gente leva sempre, às vezes causa essa surpresa para a galera que vai no show em São Paulo, porque eles também sacam que é algo da Amazônia, mesmo sem saber direito o que é.

E esses shows em São Paulo são sempre em duo?
Bruno: É no formato o que puder fazer (risos).

Gabi: A gente normalmente faz só nós dois, já fizemos algumas vezes, mas tem a galera de lá, que não necessariamente é nortista, mas que são interessados pela nossa música e aprendem a tocar e se somam à gente.

Me chamou muito o quanto vocês conseguem combinar o eletrônico e o orgânico de modo a borrar os limites entre os dois. Quem não estiver muito habituado a prestar atenção em detalhes técnicos nem consegue perceber as tracks pré-gravadas no show.
Gabi: Eu gosto da ideia de passar a organicidade para elementos eletrônicos, por isso que tem essa sensação. Eu não quero que uma coisa seja separada da outra, isso de que “ou a música é eletrônica ou é orgânica”. Quero que elas se fundam de um jeito que uma galera que nunca soube identificar o que é um boi bumbá ouça num beat a célula do boi bumbá do Amazonas, sabe? E isso dá essa esse molho que torna essa cama tão natural. Preciso que tenha um synth ali assim como preciso que tenha uma guitarra bem “guitarrada”, ao mesmo tempo que preciso de tambores para eu lembrar que tudo vem de um lugar muito firme.

Os arranjos são todos seus?
Gabi: São contribuições. Eu fico nessa direção musical, e aí tem o Abner, o Bruno e mais uma galera que contribui para os arranjos.

A Região Norte fica bem isolada, inclusive dentro dela mesma, pelo custo amazônico. Viajar para fora é difícil. Vocês já mostraram nessa conversa uma vontade de circular, de ir mais longe, mas como fazer isso diante de tantas dificuldades estruturais?
Bruno: Essa é a grande problemática mesmo, e a gente tenta passar por isso na raça, tentando construir espaços e conectar pessoas para conseguir “estar aqui estando lá” e “estar lá estando aqui”. Isso demanda da gente ter que arcar com as passagens, que é o mais caro dos custos. Essa logística é o que mais atrapalha interagir com artistas de outros estados, mas a gente tem que fazer, né?

Gabi: E nem sempre dá para fazer.

Bruno: Esse êxodo para São Paulo, inclusive, não vem de um desejo de morar lá. É uma necessidade de migração, porque a gente precisa de espaço. A gente é ambicioso, a gente está fazendo as coisas aqui e quer mais, e em São Paulo a gente consegue ter contatos do Brasil inteiro, conhecer pessoas que moram em Manaus, em Santarém, em Belém, mas que a gente não conhece porque está isolado aqui no Amazonas.

Pra encerrar: o Brasil ignora o Norte, o Brasil desconhece o Norte, ou o Brasil tem preconceito contra o Norte?
Gabi: As três coisas (risos). É uma construção histórica, e ela cria um padrão social que acaba gerando preconceito e negligência. Cria também estereótipos, e eles não revelam nada sobre a quantidade de diversidade que existe no Norte. Existe tanto esse lugar do desconhecido como inexiste o interesse. Então a gente fica nesse lugar de querer se mostrar, mas às vezes as pessoas esperam uma coisa e quando elas não recebem, elas não validam. Digo isso falando especialmente da galera do Sudeste. Se eu não chego lá cantando um carimbó…

Bruno: Se não estiver com um cocar…

Abner: Bem isso. “Cadê o cocar? Cadê o caprichoso?”

Gabi: E digo isso sem invalidar qualquer coisa, porque eu tenho muita orgulho das nossas expressões da música tradicional, mas ao mesmo tempo existe uma diversidade!

Seria como aceitar o carioca só se ele fizesse samba.
Abner: Exatamente. Sou muito defensor também de que a gente visibilize o Norte para além da perspectiva das capitais, porque o Norte existe, sim, mas não é somente Manaus, Belém. Cresci em uma cidade chamada Coari, que é a 370 km daqui [de Manaus]. Lá perto tem Tefé, Codajás, cada lugar desses tem uma identidade específica. Minha mãe é aqui do Careiro da Várzea, não existe uma identidade nortista única, “isso aqui é ser nortista”. São várias nuances, várias características de som, de roupa, de dialeto.

Bruno: Se a gente tivesse mais apoio com a logística, talvez as coisas mudassem. Mas acho que não existe muito interesse em investir na cultura e entender que existem vários artistas daqui que fazem esse êxodo [para o Sudeste] por necessidade, e que os governos deveriam investir nessas pessoas que estão tentando correr atrás, tentando criar essa identidade nortista que, se não for preservada, vai sendo apagada ano após ano, porque outras coisas vão entrando, o comercial vai tendo prioridade e a gente vai perdendo essa coisa mais natural, espontânea. É isso que a gente tá querendo trazer de volta: essa música que flerta com pop, flerta com rap, com eletrônico, mas que é chão, é Norte, é raiz.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.

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