Crítica: Chegando ao streaming, “Backrooms: Um Não-Lugar” é “Creepypasta para iniciantes” – no melhor sentido

texto de Davi Caro

O fenômeno creepypasta é talvez uma das mais infames relíquias que a história da internet já registrou. E talvez por isso mesmo seja tão difícil de explicar para uma geração mais nova: o termo, usado para identificar uma espécie de progressão natural das tradições de lendas urbanas que povoaram o imaginário popular durante os anos 90, é normalmente associado a conteúdo compartilhado online (em uma subcultura que se fortaleceu pesadamente em fóruns como 4chan, Something Awful, e, tempos mais tarde, nos primeiros dias do Reddit), comumente de caráter assustador e/ou perturbador. A favor, a estética de muito deste material – feito justamente de modo a enfatizar sua característica de “baseado em fatos reais” – que, por si só, já gerava certo mistério. A websérie “Backrooms”, criada por Kane Parsons (sob o codinome Kane Pixels) e publicada pela primeira vez em 2022, já é um produto posterior aquele no qual o conteúdo creepypasta se popularizou. E, mesmo assim, a narrativa (que deixava espaço suficiente para uma infinidade de teorias) acabou cativando espectadores do mundo todo, imersos em um enredo ambientado nos anos 90, e que abordava a descoberta, por uma grande corporação, de espaços aparentemente infinitos – apelidados “backrooms” – nos quais as leis da física e da realidade se distorcem e no qual, naturalmente, toda sorte de perigos ocultos habita.

Se tem uma coisa que não se pode dizer sobre “Backrooms: Um Não-Lugar” (“Backrooms”, 2026) é que o filme fugiu de ser fiel à série que o antecedeu. Dirigida pelo mesmo Kane Parsons, agora com a poderosa estrutura da A24 à seu lado, a produção se vale de um elenco mais do que capacitado para (re-)introduzir o conceito da produção original – em escala maior, e melhor. Com um orçamento de 10 milhões de dólares, o filme, que estreou em junho último e agora chega aos streamings, é uma das coisas mais interessantes que o cinema mainstream viu até agora em 2026. Não apenas por não se restringir em retratar com dedicação a ambientação da série, mas também por entender riscos e não se deixar levar por armadilhas do novo horror mainstream.

Clark (Chiwetel Ejiofor) é um arquiteto frustrado que ganha a vida, ainda que mal e porcamente, por meio da loja de móveis na qual desempenha as funções de proprietário e gerente – e na qual habita, inclusive, após um casamento fracassado, claramente, após seus problemas com o alcoolismo. Entre contas atrasadas e sessões de terapia com a psicóloga Mary (Renate Reinsve), Clark começa a perceber estranhas ocorrências em sua loja, como o comportamento estranho do sistema de iluminação e da eletricidade. É em uma de suas frustradas tentativas de resolver o problema, entretanto, que o homem se depara com uma espécie de portal oculto em uma parede, que, uma vez atravessada, o leva a um ambiente completamente novo: um sistema aparentemente infinito de paredes amareladas, luzes fluorescentes e móveis que interagem com o ambiente desafiando as leis da física.

Após algumas incursões no recém-descoberto lugar, Clark acaba se deparando com elementos que indicam uma natureza oculta por trás das paredes uniformes e repetitivas daquelas muitas salas. Primeiro, ao encontrar os pertences de um cientista à serviço de um instituto de pesquisa privado chamado Async – incluindo aí registros em vídeo feitos pelo próprio funcionário, que aparenta haver desaparecido após ser atacado por alguma misteriosa figura. E, segundo, ao se deparar com uma dessas criaturas diretamente, cujo comportamento se mostra violento e assustador. O susto, no entanto, não desencoraja o arquiteto, que vê na ideia de explorar o máximo possível o potencial de sua descoberta. Assim, recrutando dois de seus funcionários, Clark opta por se aventurar nas tais “backrooms” a fim de registrar sua própria evidência documental do que encontrou. Não demora muito para que a expedição chame a atenção das entidades que ali habitam, bem como da enigmática empresa que parece ter interesse direto naquela espécie de realidade alternativa, e em seus novos desbravadores. E, quando as vítimas começam a tombar e Mary se vê envolvida em uma busca por seu paciente que a leva às mesmas “backrooms”, várias perguntas acabam por ser respondidas – enquanto muitas outras charadas acabam suscitadas, tanto sobre realidades alternativas, quanto sobre as partes mais obscuras da natureza humana.

A escolha de ambientar o longa no início dos anos 1990 serve para remontar a mitologia estabelecida por meio da série original, mas o esmero ao construir uma atmosfera ao mesmo tempo estéril e perturbadora é de se aplaudir. Claro que o enredo se limita a acenos ao universo mais expandido que “Backrooms” já possui, mas existe um claro comprometimento em reter a estética noventista que já havia se provado certeira – algo realçado pela esperta utilização de efeitos práticos em algumas das cenas mais impactantes da produção. É impressionante que, do alto de seus 21 anos, Kane Parsons já tenha se provado capaz de criar uma identidade visual tão bem-pensada e executada – algo que, aqui, também se deve muito ao elenco.

Chiwetel Ejiofor faz um excelente trabalho como Clark, um protagonista cheio de defeitos insuportáveis com o qual é muito difícil simpatizar. Já Renate Reinsve traz profundidade a um papel que poderia ter resultado raso e estereotipado. Ao invés de trilhar o caminho do estereótipo, entretanto, a atriz usa do mesmo talento que esbanjou em “Valor Sentimental” (2025), culminando em uma performance instigante e versátil. O enxuto elenco de apoio, que inclui a excelente atriz Lukita Maxwell (mais conhecida pela série “Falando a Real”, da AppleTV+), por outro lado, carece um pouco de desenvolvimento, com a atenção totalmente dedicada aos protagonistas. Não se trata, porém, de algo que impacte “Backrooms” como uma experiência imersiva – algo que a trilha sonora, creditada ao próprio diretor juntamente do compositor canadense Edo Van Breemen, ajuda muito em tornar possível.

“Backrooms” não é um filme de terror como se costuma ver nas grandes (ou pequenas) telas. O trabalho de David Lynch, sobretudo a série “Twin Peaks” (1990-91, 2017), se mostram referências constantes quando o filme é discutido. E a comparação é válida; entretanto, pode ser redutiva em relação a um longa criado com coragem e seguindo uma identidade artística e visual refinada e com muitas possibilidades de expansão. Ainda pode ser cedo para alçar Kane Parsons ao panteão de grandes nomes do novo horror. O que é mais que certo, todavia, é que a tendência deve se espalhar: afinal, não são poucos os estúdios de cinema se desdobrando em vasculhar a internet, em busca de ideias hoje obscuras que possam eventualmente conquistar uma fatia da atenção conquistada por “Backrooms” (vale lembrar que outra propriedade intelectual semelhante já foi alvo de uma adaptação, no horroroso “Slender Man: Pesadelo Sem Rosto”, de 2018). Ainda é necessário esperar para ver se isso pode indicar um revival cinematográfico de conteúdo creepypasta. Até lá, os entusiastas do gênero podem ao menos se orgulhar de ter visto histórias outrora alheias ao mainstream finalmente chegarem ao grande público – mas, nem por isso, menos intrigante, misterioso, ou fascinante.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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