
Baxter Dury, sábado, 16h40, C6 Fest, Parque Ibirapuera
texto de Fernando Yokota
A francofonia, a alegoria do cachorro sofredor, a palavra falada: engavetar Baxter Dury no rótulo de “Gainsburg de ultramar” é correto e simplista em medidas iguais, e nos 60 minutos de palco ao qual teve direito, Dury serviu o público com a acidez do sarcasmo inglês e uma banda matadora. Assim como o Dry Cleaning em 2024, o C6 Fest mais uma vez reservou um espaço em seu lineup para um expoente britânico que une o spoken word com a música. Dury, tal qual sua conterrânea Florence Shaw dois anos antes, ministrou uma aula magna de deadpan digna de Jim Jarmusch e Aki Kaurismäki em apresentação baseada em seu último lançamento, o aclamado “Allbarone” (2025), produzido por Paul Epworth (Adele) e gravado no mítico The Church (do não menos Dave Stewart). Acompanhado de uma banda afiadíssima e subwoofers ligados em níveis sísmicos, o ataque sensorial era complementado pela presença do frontman no palco: as danças, o gesto de rasgar o paletó e o sotaque cockney carregado beiram o risqué, mas são a versão cinética de seus versos. A mágica acontece quando o tom sardônico de Dury é adicionado aos arranjos irresistíveis das canções, em especial as de “Allbarone”. Ácido e contraditório, nosso flâneur retrata a Londres gentrificada que vê da janela de sua casa acompanhado de um riff de baixo mais contagioso que sarampo em “Return Of The Sharp Heads”. Ao final de “Baxter (these are my friends)”, colaboração com Fred Again e a derradeira da noite, era possível observar corpos possuídos como Christopher Walken em “Weapon Of Choice” de Fatboy Slim: até quem não sabia dançar já estava com o diabo nos pés.

Benjamin Clementine, domingo, 16h30, C6 Fest, Parque Ibirapuera
texto de Marcelo Costa
Há quem defenda que line-ups devem ser estudados antes de um festival: você precisa ouvir e ver vídeos daqueles nomes todos que você não conhece na programação tanto para saber se vale a pena se deslocar de um palco ao outro quanto para decorar as canções e posar de fã com carteirinha arrotando conhecimento. Porém, o prazer da descoberta é algo que pode ser comovente. Que tal, então, entrar em uma tenda no começo da tarde de um domingo cinza para ouvir um artista que você nunca nem viu a cara e encontrar algo que se assemelha ao palco do Kraftwerk se eles fossem a banda do Arcanjo Gabriel no paraíso: sobre um tablado alto ao fundo, quatro mesas estão cobertas por lençóis brancos, e atrás delas ficará a banda que acompanhará Clementine. Ele, um homem negro de quase dois metros de altura, fica na parte inferior do palco frente a um piano. Não há praticamente nenhuma luz em cena, só… música e poesia. Imagine um misto de Nick Cave com Tom Waits cantando soul music futurista com alfinetadas de eletrônica e música clássica (Debussy, Satie), e você poderá vislumbrar um pouco desse poeta e compositor inglês que saiu da condição de sem teto nas ruas de Paris para vencedor do Mercury Prize, o prêmio mais prestigioso da música britânica. Isso foi em 2015, quando lançou seu disco de estreia, “At Least for Now”. Em São Paulo, diante de uma plateia encantada, Benjamin apresentou uma canção inédita, “Nicholas Nepolitano”, seus dois singles mais recentes (“Toxicaliphobia” e “Tempus Fugit”) e, claro, números de seu álbum festejado como “Cornerstone”, “Nemesis”, “Adios” e “Condolence”, sendo que, nessa última, convocou seu guitarrista, brasileiro, para traduzir a letra e canta-la (“Me ajudem pois estou sem voz depois do show do BaianaSystem ontem”, disse o rapaz) em coro com toda uma tenda: “Envio minhas condolências ao medo / envio minhas condolências às inseguranças”, pregava o momento litúrgico num daqueles shows que, de tão lindos e surpreendentes, renovam a fé na boa música.

Oklou, domingo, 18h, C6 Fest, Parque Ibirapuera
texto de Victor de Almeida
Talvez um dos cortes geracionais mais perceptíveis do C6 Fest 2026 ocorreu durante o início da noite de domingo. Na Arena Heineken começava a apresentação do Beirut, atraindo muitos indies saudosos de uma banda “queridinha” do final da primeira década dos anos 2000, junto a um público mais velho que já se posicionava à espera de Robert Plant e de sua (nova) banda, a Saving Grace. Do outro lado do festival, na Arena MetLife, um público bem mais jovem esperava o show da cantora francesa Oklou, nome artístico de Marylou Mayniel. Em sua primeira passagem pelo Brasil, Mayniel entregou uma das melhores apresentações dessa edição do festival e ofereceu ao público brasileiro um setlist que tinha como espinha dorsal as canções de seu disco mais recente, o excelente “choke enough”, lançado no ano passado. Além disso, ainda contemplou faixas do álbum “Galore” (2020), disco com forte influência da música eletrônica experimental que foi um marco de um certo “pop nebuloso” dos tempos de pandemia. O show recria o minimalismo soturno do hyperpop (ou ambient pop) de Oklou, estética cuidadosamente construída desde os tempos de Soundcloud (a página dela ainda segue ativa aqui: soundcloud.com/oklou93). No palco se via uma plataforma colocada entre os músicos Casey MQ (sintetizador, guitarra e piano) e Gil Gharbi (sintetizador e percussão), onde Oklou ficava boa parte do tempo e ainda contava com projetores pendurados que traziam glitches de imagens e animações que somavam ao jogo de luz. A verdade é que a performance de Oklou é magnética. Foi impressionante ver como ela e sua banda recriavam ao vivo as múltiplas camadas de vozes, os potentes sintetizadores e os beats pesados que são marca registrada da cantora. Ver ao vivo a delicadeza de “blade bird”, a beleza caótica de “ict” e as harmonias vocais de “thank you for recording” foi um presente. Talvez, assim como eu, alguns fãs ainda estejam ouvindo o famoso sample “BRASIL SIL SIL” (executado algumas vezes ao longo do show) ao ouvir hits como “harvest sky”.
Leia mais textos sobre o C6 Fest
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br
– Victor de Almeida (@Victoranpires) é jornalista, Doutor em Comunicação pela UFPE e professor da Universidade Federal de Alagoas. Autor dos livros “Além do Pós-Rock” (2015) e “Circuitos Urbanos e Palcos Midiáticos” (2017).
