Três shows do C6 Fest: Horsegirl, Wolf Alice, The xx

texto de Marcelo Costa
fotos de Fernando Yokota 

Horsegirl, sábado, 14h40, C6 Fest, Parque Ibirapuera

Escaladas para dar o pontapé no fim de semana do C6 Fest no Parque Ibirapuera, Nora Cheng (guitarra e voz), Penelope Lowenstein (voz e guitarra) e Gigi Reece (bateria) entraram em cena sorrindo timidamente, e foram se soltando conforme o show transcorria. As três jovens garotas de Chicago que querem salvar o rock’ n’ roll com um som doce e psicótico fizeram um show delicioso, indie até a médula, duas guitarras zunindo suavemente sob uma condução básica de bateria com resquícios de Velvet Underground e Yo La Tengo espalhados por todos os cantos. A dançante “Where’d You Go” abriu o set trazendo consigo “New Rocker”, uma boa faixa inédita, com Penelope conduzindo a canção nas cordas graves da guitarra enquanto Nora fazia a melodia no teclado. Em “Julie”, as duas guitarristas trocaram de lado no palco, e Penelope se declarou ao público dizendo que o Brasil “era o lugar mais incrível do mundo”. Vieram, então, o single “2468”, com alguns fãs na plateia repetindo alguns passos das garotas no clipe, a yolatengiana “Well I Know You’re Shy” e mais números inéditos, que devem estar presentes no vindouro terceiro álbum das garotas: o improviso “B Face” mais a noisesinha “Hen Hill” e, ainda, a estreia de “Again, Again”, testada pela primeira vez ao vivo num show. Nas duas últimas, Penelope trocou a guitarra pelo teclado, o que dá pistas de como pode soar o novo disco do trio. Para o final, as duas canções mais conhecidas do Horsegirl, “Anti-glory” (apresentada como uma “canção para dançar”) e “Switch Over”, foram festejadas pelo bom público, coroando uma bela apresentação indie que valorizou a estética lo-fi, desencanada e shoegaze das meninas, que voltariam ao palco na segunda-feira, se apresentando gratuitamente (e de surpresa) com o nome de Danger Boss no Mamãe Bar, no bairro da Barra Funda, em São Paulo, para alegria de seu fã-clube.


Wolf Alice, sábado, 18h10, C6 Fest, Parque Ibirapuera

Não deixa de ser irônico escrever de Horsegirl e Wolf Alice em sequência, pois (apesar de tocarem na mesma tenda com pouco mais de duas horas de diferença) são duas posturas de palco (e de carreira) completamente dispares. Se o Horsegirl é tímido e pop indie, o Wolf Alice é explosivo e pop mainstream. Mais: em um mundo dominado por artistas cujo ato de fazer sucesso soa como uma ofensa, o Wolf Alice descaradamente busca a fama abraçando apaixonadamente todos os clichês do gênero enquanto hiperboliza sensualidade, clona o som do Fleetwood Mac numa virada cara de pau na carreira e se entrega no palco como se esse fosse o último show do planeta. A estratégia, cumprida a risca por um quarteto afiado que estudou todos os manuais da música pop, surte efeito, e o Wolf Alice deixa a capital paulista como um dos shows mais celebrados pelos fãs no C6 2026, equiparando-se a histeria que transformou a apresentação do The Last Dinner Party em um dos grandes momentos do C6 2025. Pessoas passeando pelo parque poderiam se enganar achando que um jogo de futebol estava acontecendo na tenda, pois cada canção do Wolf Alice era recebida como se fosse um gol, e a empolgação do público era tanta que Ellie precisou sair do personagem de garota fatal do rock em ao menos três momentos da noite, sorrindo distraída por perceber o público brasileiro cantando trechos de canções que outras plateias ao redor do mundo não costumam cantar, como em “Leaning Against The Wall”, “Lipstick On The Glass” e, claro, o hit “Don’t Delete The Kisses”, de uma época em que eles eram um tiquinho mais indies, e menos soft rock. Foi um show bonito de se ver, permitindo imaginar que o Wolf Alice está fadado a ser headliner de grandes festivais no futuro. Eles vão conseguir o que buscam com tanto afinco. Anote.


The XX, sábado, 20h45, C6 Fest, Parque Ibirapuera

O XX sempre foi uma banda cuja sonoridade minimalista não permitia grandes avanços, afinal, qualquer excesso poderia soar exageradamente brusco diante de tantos espaços vazios. Por isso, os “avanços microscópicos” na discografia – “Coexist”, o segundo disco, “é o ‘velho’ XX correndo sedutoramente uma polegada, mas vão dizer que eles nem se mexeram”, descrevia uma resenha neste site em 2013. Em 2017 eles lançaram o terceiro disco, “I See You” e saíram numa pequena turnê que se encerrou em 2018, com cada um indo para o seu lado tocar seus projetos (Romy, inclusive, foi atração do C6 2024 apresentando “Mid Air”, seu disco solo; já Jamie xx trouxe a turnê de In Waves para o Brasil na Gop Tun; apenas Oliver Sim não pousou sozinho em nossas terras). Mesmo não tendo muito para onde ir como banda (ainda que venham prometendo um quarto disco), a reunião do XX em 2026 não deixa de ser emocionante, o que as lágrimas derramadas por Oliver Sim no meio do show no Parque Ibirapuera – celebrando a oportunidade de dividir o palco com seus dois amigos – apenas reforçam. “Crystalised” abriu o set que, praticamente, foi dividido em duas partes: na primeira, o bom e velho XX de sempre em canções delicadas e belas como “Islands”, “Angels” e “VCR” com imagens que ficaram pelas nas paredes do auditorio. Na segunda, números solo de cada um deles recriados pela banda: Jamie mostrou “Loud Places”, “Treat Each Other Right” e “Wanna” enquanto Romy fez uma festa com “Enjoy Your Life” e Oliver marcou presença com “GMT”. Diante de um público devoto, o trio seguiu com “On Hold” remixada por Jamie e, ainda, “I Dare You” e “Intro”, num show cuja previsão do tempo no dia anterior anotava tempestade, mas que depois de um dia de tempo firme (só Amaarae fo premiada pela chuva forte), não viu quase nada de chuva, mas, sim, fãs se debulharem em lágrimas. Bonito de ver e ouvir.

Leia mais textos sobre o C6 Fest

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *