texto e vídeos de Bruno Capelas
fotos do C6 Fest
Ao contrário do que muitos gostam de imaginar, nem sempre música é só sobre música. Muitas vezes, as pessoas apreciam um artista por diferentes razões: sua postura política, suas roupas, seu corte de cabelo ou até mesmo sua habilidade em utilizar as redes sociais. Em alguns casos, é difícil até mesmo racionalizar por que se gosta de uma determinada banda. Em tempos contemporâneos, isso se torna ainda mais difuso: será que o gosto pode ser determinado pelos algoritmos e por planos “malignos” de marketing? Ou a despeito de toda a parafernália, ele continua sendo uma manifestação do livre-arbítrio?
Pensamentos como esses corriam emaranhados pela cabeça na noite do domingo, 24 de maio, enquanto muita gente aguardava pela hora de subir a rampa em caracol de Niemeyer e tomar seu lugar num lotado Auditório Ibirapuera. A missão? Assistir ao homem que, do alto de seus 24 anos, tem sido chamado de novo salvador do rock: Cameron Winter. Nascido no Brooklyn, Winter é há quase uma década vocalista da banda Geese, que colecionou bons discos no underground americano – lançado em 2023, “3D Country” começou a gerar atenção em torno do grupo, destaque especialmente por suas canções multifacetadas e cheias de mudanças de andamento.

O trabalho, porém, pouco teria feito para trazer Winter ao Brasil, que dirá lotar o Auditório Ibirapuera. A responsabilidade cai sobre “Getting Killed”, álbum da banda lançado em 2025 que, graças a uma combinação de marketing de guerrilha e boca-a-boca nem tão espontâneo assim, transformou a banda numa sensação mundial. Do dia para a noite, o Geese foi alçado das letras miúdas ao destaque de festivais mundo afora – e Cameron Winter passou a ser seguido como celebridade, especialmente ao dar um rolê com gente como a cantora Olivia Rodrigo (o que virou nota no site TMZ, só para dar uma ideia do nível da coisa toda).
Toda vez que um barulho desses acontece, uma batalha de extremos se cria entre fãs e detratores. Não raro, a música acaba ficando em segundo plano. Talvez por tudo isso, ao subir no palco em São Paulo, Winter tenha apostado numa abordagem minimalista. No Ibirapuera, ele apresentou apenas o produto de sua voz, um piano de cauda, dois microfones e nada mais, como alguém que pede apenas um julgamento imparcial de quem o assiste.
Não que isso pudesse ser exatamente possível: desde o anúncio de sua vinda, os ingressos voaram rapidamente – Winter, vale dizer, foi a primeira atração a esgotar entradas de todo o C6 Fest. Dias antes do show, muita gente rodava grupos de WhatsApp ainda tentando conseguir um bilhete. Claro, pode se dizer que há quem estivesse no Auditório disposto apenas a entender o que justificava tanto alvoroço. Mas, em meio a tanta confusão, Winter deixou a música que sabe fazer falar por si.

Ou melhor, apenas um pedaço dela: ao longo de uma hora de pouquíssimas frases e onze canções, o cantor tocou apenas números de sua carreira solo – entre os dois álbuns do Geese, o produtivo Winter encontrou tempo ainda para lançar “Heavy Metal”, em 2024, espinha dorsal do setlist de São Paulo. Foi uma apresentação tão focada na música que o nível de minimalismo cênico tangia o absurdo: por vezes, a luz era tão exígua que parecia que o show acontecia em preto-e-branco diante da platéia.
Em compensação, Winter fez um uso colorido do piano, usando instrumento não apenas como apoio para sua voz marcante, mas também para construir camadas singulares de som. Por vezes, ele ecoava a perseguição sonora de Keith Jarrett, ou os momentos mais virtuoses de nomes como Elton John ou Rufus Wainwright – e para os brasileiros, foi ainda inescapável certa lembrança dos últimos recitais de Arnaldo Baptista frente ao piano.
A menção a Wainwright não se faz à toa. Ainda que o timbre de Cameron Winter faça ecoar lembranças de Bob Dylan (pelo caráter anasalado) ou Thom Yorke (nos tons mais agudos), é com o bardo americano, criado no Canadá, que ele mais se parece. Ao longo da noite, temas como a inédita “She’s Just Been Born” ou “Love Takes Miles” remeteram bastante ao o que Rufus fez em discos como a dupla “Want One” e “Want Two”. Não se trata, todavia, de papel carbono: o que Winter almeja fazer é o expediente que tantos outros grandes artistas já executaram uma porção de vezes: reunir referências, abraçá-las ao peito e produzir algo que parece muito fincado no passado, mas que também é muito seu.
Assim, não soa estranho que até mesmo uma música chamada “The Rolling Stones” pareça extremamente pessoal. E é inevitável não soltar um sorriso de canto de boca quando, num tour de force ao piano, Cameron canta sobre uma tal Nina – personagem que aparece tanto na canção que leva seu nome, “Nina + Field of Cops”, quanto na seguinte “$0”, que recebe floreios finais ao piano capazes de fazer a ribalta alçar voo por alguns instantes. É um momento menos frequente do que parece, contudo: ao longo dos 60 minutos, Winter por vezes costura ideias num grande vai-e-volta que, ao apagar das luzes de um final de semana intenso de festival, pode soar mais monótono do que o desejado para alguns espectadores.
A sensação não é de que falte inspiração, porém, mas sim de que o espetáculo de São Paulo é mais um passo numa jornada que demanda tempo, vivência e experimentação – e para a qual qualquer hype mais atrapalha do que ajuda. Por outro lado, é justo dizer que o burburinho foi o que fez tanta gente prestar atenção em Winter. Sem ele, talvez um artista no seu momento não teria vindo ao Brasil agora.
Mais do que o julgamento apressado entre genialidade e superestima, melhor é ficar com a espera – até pela percepção de que os momentos mais interessantes do show vieram justamente das canções inéditas apresentadas em São Paulo, como “She’s Just Been Born” e “Emperor XII in Shades”, ou do lado-B “Take It With You”, que encerrou a apresentação.
Quando o relógio batia meia noite e a carruagem prometia virar abóbora, Winter disse obrigado, saiu do palco e não mais voltou, a despeito dos longos minutos de pedidos de bis. Sabiamente, talvez ele tenha consciência de que deixar o público com apetite para mais seja sua melhor saída por agora, enquanto o tempo não passa e poderemos descobrir se esta ave cantora é de fato um belo ganso ou um patinho feio. Por agora, os sinais são muito bons.
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– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010. Igor Müller é locutor de rádio e um dos responsáveis pelo Programa de Indie.
