Um disco de pop maduro e melancólico, “9 Luas”, dos Paralamas, completa 30 anos

texto de Heberton Barreira

“9 Luas” chegou em julho de 1996 como um disco de pop maduro e melancólico, numa época em que o rock brasileiro buscava reencontrar-se entre a neblina do grunge e a retomada energética do axé. Os Paralamas, que haviam construído a carreira na tensão entre rock, ska e reggae, entregavam sua declaração mais densa e serena. As guitarras de Herbert Vianna trocaram as distorções por arranjos mais limpos. O baixo de Bi Ribeiro e a bateria de João Barone mantinham a precisão, mas agora a serviço de um pop de sofisticação latina, com baladas aveludadas e pegajosas, nunca maçantes. O oitavo álbum de estúdio iluminou o Brasil e a América Latina. Os Estados Unidos descansavam na sombra – ocupados com “Macarena” e o R&B que dominavam as paradas, os vizinhos do Norte simplesmente não viram “Outra Beleza” vindo do sul.

A produção, assinada pela banda com Carlos Savalla, não se rende à estética digital que dominava o pop dos anos 90 – mesmo quando usa samplers, como em “Busca Vida”, o resultado soa orgânico. A abertura já anuncia a força latina: “Lourinha Bombril” (versão de “Párate y Mira”, do Los Pericos) e “Outra Beleza” (uma parceria de Herbert com Lulu Santos) trazem maracas, coro do grupo de samba As Gatas (formado em 1967) e, no desfecho, cuíca, tamborim e apitos. As duas faixas são as mais vibrantes e eufóricas do disco.

“La Bella Luna” invoca uma dança caribenha sobre o dedilhado de Herbert, o órgão e os teclados de João Fera, de charmosa simplicidade, e os metais calorosos de Monteiro Jr. (sax), Senô Bezerra (trombone) e Demétrio Bezerra (trompete). O baixo de Bi Ribeiro e a bateria de João Barone se entrelaçam com precisão; a flexibilidade do ritmo mantém o groove vivo.

A versão de “De Música Ligera”, do Soda Stereo, é um manifesto de amor à banda argentina – um gesto que reafirma que o “rock en tu idioma” nunca foi um monólogo, mas uma conversa de mão dupla.

A regravação de “Capitão de Indústria”, de Marcos e Paulo Sérgio Valle, lançada originalmente em 1972 como trilha sonora da novela global “Selva de Pedra”, ganha novos contornos: os metais inconfundíveis dos Paralamas vibram com uma energia que a versão original apenas sugeria, enquanto o violão dedilhado de Herbert tece, por baixo de tudo, uma camada macia e reverberante.

Em “O Caminho Pisado”, o peso da guitarra distorcida se dissolve na leveza do dedilhado de Herbert e das cordas agudas – que parecem soar como ecos de bandolim, enquanto os versos se repetem: “É tudo igual, igual, igual…”. O coro de vozes (“Pa pa paaaaa”) que introduz “Busca Vida”, a harmonia do violão sobreposta por uma camada de guitarra limpa e, especialmente, o dedilhado que encerra a faixa – tudo isso possui um poder quase terapêutico: seguir em frente e deixar “toda a dor para trás”.

Um drone hipnótico que remete ao som oscilante de uma cítara abre “O Caroço da Cabeça” – uma engrenagem psicodélica a rodar em câmera lenta –, parceria de Herbert com Marcelo Fromer e Nando Reis que os Titãs também registraram no álbum “Domingo” (1995). Já “Sempre Te Quis” é uma balada que pondera sobre amor e recomeço, elevada a um estado contemplativo pelos teclados atmosféricos de João Fera.

“Seja Você” talvez seja a faixa mais paralâmica do disco: o ska enraizado no baixo de Bi Ribeiro sobe um tom no meio da canção – um aviso de que a obsessão pela comparação pode cegar o que já se tem. Já “Na Nossa Casa” reforça o eixo melódico do álbum, com um arranjo de cordas melancólicas sobre batidas otimistas – um tema sobre o vazio, a escuridão numa casa vazia, o que sobra depois que um relacionamento termina.

“Um Pequeno Imprevisto”, parceria de Herbert com Thedy Corrêa (Nenhum de Nós), encerra o disco e completa a volta olímpica melancólica. A canção sentencia: não adianta “querer o que o vento não leva”, prever o futuro ou tentar consertar o passado – ainda que se calculem os riscos, de modo ponderado, “perfeitamente equilibrado”. Não temos controle do vento, muito menos do tempo. O amadurecimento vem com a percepção das mudanças: “Trocaram os nomes das ruas / E as pessoas tinham outras caras / No céu havia nove luas / E nunca mais eu encontrei minha casa.”

O título “9 Luas” pode sugerir também gestação – e o disco responde a isso com uma introspecção conquistada na estrada e no estúdio. As regravações escolhidas mostram uma banda consciente de sua linhagem, e Herbert Vianna compõe com inspiração prolífica, refletindo sobre o amor, relacionamentos desgastados, o trabalho, o abrigo, sonhos adiados e a persistência de quem ainda procura sentido.

Talvez a melhor forma de resumir o álbum esteja na conclusão implícita de “Busca Vida”: a rotina pode ofuscar, mas não apaga a busca. Após os 37 minutos de passeio pelas nove luas, para quem quiser prolongar a viagem, a décima lua pode ser encontrada em “Santorini Blues” – o segundo álbum solo de Herbert, gestado nos intervalos de gravação, um satélite discreto do mesmo sistema.

Assim como o disco de estúdio imediatamente anterior, “Severino” (1994), “9 Luas” também ganhou uma versão especial para o mercado latino. Se “Dos Margaritas” (a versão do álbum “Severino” em espanhol) trazia apenas três canções do álbum vertidas para o espanhol (“Dos Margaritas”, “Músico” e “El Amor Duerme”, que se somam a “Go Back”, “Casi un Segundo” e “El Vampiro Bajo El Sol”, gravadas em espanhol no álbum original, e, ainda “Coche Viejo” e “Será Diferente” mais cinco números iguais a edição brasileira), “9 Lunas” amplia o leque: das doze canções do álbum, sete foram regravadas em espanhol – sendo que os dois covers do rock argentino permaneceram em português. De bônus, “Una Brasileira”. Único vacilo: o desenho de Pedro Ribeiro usado na capa nacional foi trocado pelas fotos da contracapa, que estavam a versão para o mercado hispânico. Mas vale a busca. “9 Luas” foi lançado originalmente em CD e fita cassete em 1996, e ganhou uma festejada e hoje rara edição em vinil em 2018 pela Noize Record Club.

Mais sobre os Paralamas no Scream & Yell

– Heberton Barreira é estudante de jornalismo, bandolinista e animador stop-motion. Criador do @yayatedance. A foto que abre o texto é de Mauricio Valladares.

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