Crítica: “Homem-Aranha: Um Novo Dia” se sobressai em meio a fadiga do cinema de super-heróis por… contar uma boa história

texto de Davi Caro

Há muitas considerações a serem feitas sobre “Homem-Aranha: Um Novo Dia” (“Spider-Man: Brand New Day”, 2026). O novo longa do universo cinematográfico Marvel, o quarto a contar com o personagem chave da Casa das Ideias desde 2017, e primeiro a ser dirigido por Dustin Daniel Cretton – que já havia sido o responsável por “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”, de 2021 – funciona como uma espécie de reboot para essa iteração do personagem, vivido por Tom Holland. Além dos cinco anos que separam o filme de seu antecessor imediato, “Sem Volta Para Casa” (também de 2021), muito mais parece ter mudado: a fadiga causada pelo excesso de produções focadas em super-heróis definitivamente parece ter chego a outro nível, e os últimos capítulos na narrativa interconectada do MCU, em grande parte, pouco ou nada ajudaram a contestar essa saturação generalizada. Assim, dado o nível descendente em qualidade mostrado em telas grandes ou pequenas pelo Marvel Studios, as expectativas para o novo filme poderiam facilmente fazer com que esta fosse apenas mais uma iniciativa repleta de expectativas a serem frustradas.

Ledo engano, caro leitor: a despeito de quaisquer previsões negativas (ou, talvez, por causa destas), “Um Novo Dia” parece ser finalmente o filme que os detratores das últimas representações live-action do herói aracnídeo sempre esperaram assistir. Mais: em que pese os ótimos momentos capturados pela primeira trilogia enfocada no protagonista e dirigida por Jon Watts, esta é, quiçá, a primeira vez em que a magia canalizada pelas primeiras adaptações do Homem-Aranha – em especial por “Homem-Aranha 2”, de Sam Raimi (2004), tida por muitos como a melhor apresentação do Amigão da Vizinhança – é trazida de volta à perfeição. Claro que existem pontos onde, como não poderia deixar de ser, a abordagem formulaica dos estúdios capitaneados por Kevin Feige dá as caras. Existe, no entanto, muito mais por trás do que se mostra simplesmente como outro enredo centrado nos dilemas super-heroicos de um indivíduo com habilidades especiais. Estes mesmos dilemas são, ao final das (imperceptíveis) quase duas horas e meia de duração, justamente a grande carta na manga de “Um Novo Dia”: a exemplo da saga dos quadrinhos do qual empresta seu nome, há muito tempo o Aranha não é visto de forma tão humana quanto aqui – e isso não poderia ser mais bem-vindo.

Quatro anos se passaram desde que Peter Parker (Tom Holland) foi apagado da memória de todas as pessoas do mundo através de um feitiço do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) a fim de salvar sua realidade de se despedaçar. Isso, claro, inclui seu melhor amigo, Ned Leeds (Jacob Batalon) e seu grande amor, MJ (Zendaya). Se, por um lado, isto permitiu que o jovem se concentrasse em seu trabalho como herói, a solidão do anonimato completo acabou por torná-lo isolado, melancólico e solitário. Embora siga acompanhando a vida daqueles que tinha como seus amigos mais próximos à distância, a pressão de uma vida dedicada inteiramente à proteger cidadãos comuns de Nova York acaba cobrando seu preço na vida do rapaz. Quando Peter começa a perceber estranhos acontecimentos relacionados a seus poderes (que incluem dores de cabeça constantes e, mais crucialmente, o desenvolvimento de teias orgânicas), a busca por controlar seus novos impulsos o leva a procurar a ajuda de alguém com extensa experiência em controlar habilidades desta natureza: o dr. Bruce Banner (Mark Ruffalo), que aprendeu a manter suas transformações no Hulk sob controle ao longo dos últimos anos.

Como se não fosse este turbilhão emocional, Parker também se vê convocado por Bill Metzger (Tramell Tillman), diretor da instituição governamental Departamento de Controle de Danos (DODC, no original) para auxiliar na busca por aquilo que pode ser visto como uma nova ameaça: uma jovem (Sadie Sink) com habilidades especiais que a fazem capaz de controlar indivíduos mentalmente, e que parece ter motivos pessoais para enfrentar e desmantelar a organização. Quando esta aparente vilã demonstra conhecer a identidade secreta do Aranha e ameaça ir atrás de MJ, Peter se vê forçado a correr contra o tempo para deter uma ameaça que escapa aos olhos, e a contar com o auxílio de Frank Castle, o Justiceiro (Jon Bernthal), para proteger sua amada e toda a população da cidade que jurou defender. Para tanto, porém, o herói deve primeiro aprender a lidar com as mudanças que ocorrem dentro de si, e que podem, com o tempo, levá-lo a perder o controle dos próprios poderes e torná-lo um risco maior do que se poderia imaginar.

No papel, parece uma trama até bastante protocolar. É na execução, entretanto, que “Um Novo Dia” se destaca: ao longo de seus 145 minutos, a jornada de Peter e sua transformação – interior e exterior – é, além de perceptível, recompensadora. As menções e acenos ao restante do MCU estão lá, como esperado; em contrapartida, o longa funciona a serviço de seu próprio enredo, mais preocupado em costurar um roteiro bem amarrado do que em integrar seu personagem a uma história mais extensa. Trata-se de um problema conhecido e apontado à exaustão desde o início deste universo cinematográfico, lá em 2008: filmes solo de personagens (salvo exceções) passam a sensação de serem apenas distrações momentâneas, ou “aperitivos”, antes do próximo grande evento a monopolizar as atenções da mídia mainstream e as salas de cinema. Que “Um Novo Dia” esteja chamando tanta atenção – e ressoando tanto com audiências ao redor do mundo – mostra que, sim, é possível fazer um bom filme, que se conecte com seu público, abordando temas sensíveis e universais sem parecer raso ou pouco ambicioso.

Um bom roteiro como este, é claro, não se concretiza sem boas atuações. E, em Tom Holland, a geração Z pode se orgulhar em dizer que tem um Homem-Aranha para chamar de seu. Longe de se escorar nas mesmas ferramentas que Tobey Maguire e Andrew Garfield usaram em suas próprias visões do Aracnídeo, o jovem ator sabe carregar com maestria tanto as passagens mais debochadas que seu alter-ego mascarado tem como marca registrada, quanto a carga dramática que Parker carrega consigo em sua vida “à paisana”. E muito desta mesma dramaticidade tem a ver com sua química com seu elenco de apoio – sobretudo, claro, com sua colega de cena (e esposa): a MJ de Zendaya pode não ter tanto tempo de tela quanto em filmes anteriores, mas suas passagens são providas do tipo de magnetismo que não se vê todo dia, trazendo todo o potencial de sua personagem à sua conclusão óbvia com perfeição.

Jacob Batalon é o melhor tipo de alívio cômico que se pode ver, embora seu Ned Leeds protagonize um ou dois momentos capazes de levar espectadores às lágrimas. Mark Ruffalo e Jon Bernthal são coadjuvantes de luxo, com o primeiro seguindo uma óbvia progressão de seu extenso trabalho no MCU e o segundo aparentando uma condução mais leve (e talvez um pouco descaracterizada) do brutal personagem que viveu em sua série como protagonista. A incrível Liza Colón-Zayas (conhecida por “O Urso”), é a grande surpresa em meio às novas adições ao elenco, na pele da detetive Jean DeWolff, e, se todo o mistério em torno da identidade da personagem vivida por Sadie Sink acaba preservando bem o elemento surpresa, também é um pouco questionável, tendo em vista os claros planos futuros para este universo cinematográfico.

Seja como for, é inegável que “Um Novo Dia” tenha alcançado, com louvor, seu objetivo como a exceção em meio à mesmice conhecida. Além da trilha sonora impecável (cortesia, como nos longas anteriores, de Michael Giacchino), há muito tempo não se via um filme deste tipo com cenas de ação tão bem coreografadas e elaboradas. Várias são as alusões aos quadrinhos nos quais o filme é inspirado, e o ritmo da direção de Destin Daniel Cretton se mostra certeiro para uma produção com muito mais nuances do que qualquer um poderia esperar. Não são poucos os momentos de profundidade emocional e surpreendente desenvolvimento de personagens, e, se a ambígua cena pós-créditos pode desapontar a alguns, ela também aponta caminhos bastante interessantes a serem seguidos com o Cabeça de Teia em mente. Ainda que não seja certo que o Aranha retornará ainda este ano, no vindouro “Vingadores: Doutor Destino”, já dá para cravar que o personagem que o público verá é muito mais complexo, bem-desenvolvido, e, por que não, humano do que há tempos se pôde ver. E isso, em grande parte, é possível graças a “Homem-Aranha: Um Novo Dia”: um filme que mostra que grandes poderes trazem, sim, grandes responsabilidades – mas também uma boa quantidade de risos, lágrimas, e momentos eletrizantes, vistos pelas lentes de um herói que se sobressai, justamente, por ser tão falho quanto qualquer um daqueles que jurou proteger.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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