texto de Davi Caro
Quando a segunda adaptação de “Entrevista Com O Vampiro” chegou às telas dos streamings, em 2022, o desafio era grande. Além de se propor, com certas modificações, a transpor para o audiovisual o livro de Anne Rice publicado originalmente em 1976, a produção da AMC, criada e supervisionada por Rolin Jones, também tinha a incumbência de fazer frente à primeira versão da jornada do vampiro do título, Louis de Pointe du Lac – o filme de 1994, protagonizado por Brad Pitt e dirigido por Neil Jordan. Triunfando tanto ao escalar o excelente Jacob Anderson como seu protagonista quanto na escolha certeira de Sam Reid como o igualmente importante Lestat de Lioncourt, a série chamou para si boa vontade o suficiente para angariar não apenas uma segunda temporada, como também para originar um universo expandido de spin-offs (“Mayfair Witches” e “Talamasca: The Secret Order”, esta última ainda inédita no Brasil), todos ambientados no mesmo enredo, baseado ou inspirado na mitologia criada por Rice.
É complicado qualificar a terceira temporada da série, que recentemente chegou à Netflix, como uma continuação. Tampouco é possível, entretanto, dizer que se trata de um spin-off: embora dê continuidade aos eventos que se sucederam à climática segunda entrevista de Louis para o jornalista Daniel Molloy (Eric Bogosian), o estilo narrativo adotado para a nova leva de episódios é claramente diferente. Algo que, aliás, mostra bastante comprometimento com o material original: afinal, desde o título – que, para esta temporada, passou a ser “O Vampiro Lestat” – o que se vê é um esforço notável em adaptar com respeito e admiração o livro de mesmo nome, lançado como uma sequência à “Entrevista Com o Vampiro” em 1985. Fazendo uso do mesmo elenco, adaptando o roteiro aos tempos atuais e dando espaço a um intérprete que, desde o início, se mostrava merecedor de protagonismo, o resultado é uma série que não se acanha em reafirmar seus méritos – ainda que não sem algumas ressalvas.

O roteiro se divide entre o momento presente da série (dando continuidade à história contada anteriormente) e flashbacks que recontam a traumática infância e adolescência de Lestat, estabelecendo suas relações repletas de toxicidade com os irmãos – que o desmoralizavam constantemente devido à sua gagueira – e com a mãe, Gabriella (Jennifer Ehle), que acaba sendo transformada pelo filho, após a conversão vampírica deste. Já na porção contemporânea do enredo, o espectador acompanha Lestat conforme este se depara com o que entende como mentiras e dissimulações publicadas a seu respeito no livro que Molloy escreveu, expondo o conteúdo de suas conversas com Louis.
Buscando significado para a própria existência e, em certa medida, com o objetivo de desafiar sua representação literária, de Lioncourt resolve sair de sua semi-reclusão no Canadá com um objetivo claro: se tornar um rockstar. Recrutando uma banda promissora, e capitalizando em torno da mística que uma criatura da noite como ele é capaz de difundir, Lestat embarca numa jornada pessoal e espiritual que o coloca em rota de colisão com a própria mãe, com quem vive uma relação bastante problemática, com o ex-amante Louis, e com toda uma população de vampiros, que enxerga com dubiedade a constante (e voluntária) exposição de seu semelhante. Tudo sob as lentes do próprio Daniel Molloy, contratado pelo vampiro para documentar sua turnê e os excessos da estrada.

“O Vampiro Lestat” se destaca pelo acelerado ritmo de sua execução, e, em contraste com as sombrias temporadas que a antecederam, a série se beneficia muito desta mudança. Não poderia ser de outra forma, especialmente considerando as incalculáveis diferenças de personalidade entre Louis e o novo protagonista. Mais seguro de si, egocêntrico como poucos e semeando uma imagem pública que fica entre o auto-destrutivo e o onipotente, o Lestat de Sam Reid é exatamente o que se esperaria de uma série onde o personagem estivesse sozinho sob os holofotes. Claro que o elenco de coadjuvantes é elementar para o potencial imersivo dos sete episódios (que poderiam ser mais, vale dizer): Jacob Anderson e Eric Bogosian retornam com o mesmo carisma que esbanjaram anteriormente, e o mesmo pode ser dito de Assad Zaman, que volta ao papel do cínico e perverso vampiro Armand com maestria.
Entre as novas adições ao time de intérpretes, a grande carta na manga não poderia ser outra senão a de Jennifer Ehle, que encarna Gabriella de Lioncourt (ou “Sofia”, como sua personagem passa a se chamar nos tempos atuais) com abandono e dedicação. Joseph Potter se aproveita muito bem das passagens nas quais aparece como Nicolas de Lenfent, primeiro grande amor de Lestat que acabou sendo transformado pelo mesmo. E não se pode esquecer de Bailey Bass, que brilhou na segunda temporada na pele da vampira Claudia, e que, apesar de seu trágico desfecho, ainda marca presença aqui de forma interessante, embora polêmica.
Igualmente polêmicas são muitas das decisões que acabaram tomando conta da segunda metade dos episódios lançados mais recentemente. Embora importantes para melhor conexão com o personagem principal aqui, os flashbacks ao passado de Lestat podem esbarrar no confuso e, muitas vezes (para o horror dos fãs de longa data dos livros), em conteúdo típico de fanfics genéricas. À medida que a série se encaminha para um apoteótico clímax e as sementes do futuro da história são lançadas, muitos pontos narrativos acabam sendo jogados à mesa, de modo que a trama principal pode, em momentos, acabar fora de foco. Trata-se do tipo de armadilha que se tornou lugar-comum quando o assunto são universos televisivos (ou cinematográficos) expandidos: não é como se o espectador médio realmente precisasse assistir a qualquer uma das outras produções desse tal “Immortal Universe” – cujo nome faz lembrar do malfadado e natimorto “Dark Universe” da Universal Pictures, de anos atrás – muito embora fique a impressão de que algumas nuances podem, sim, passar direto por cima da cabeça do público mais casual.
Simplesmente por evitar a zona de conforto e mostrar disposição em representar personagens assumindo riscos e priorizando autenticidade, “O Vampiro Lestat” já se mostra mais do que merecedor de toda sorte de elogios. Trata-se da junção de um elenco potente, ancorado por uma estrela de magnetismo inegável e capaz de gerar empatia mesmo nos momentos mais improváveis, adornado por um roteiro com deslizes, sim, mas também com méritos invejáveis, ambições, e (como não poderia deixar de ser), um norte claro: pouco após a conclusão do sétimo episódio, a AMC já oficializou “Rainha dos Condenados”, a próxima temporada da série, que, a julgar pelo nome, deve se dedicar a adaptar o terceiro volume das “Crônicas Vampirescas” de Anne Rice. Fica a expectativa para o que pode ser uma excelente nova visão da história – muito melhor, aliás, do que o filme homônimo de triste memória lançado em 2002 – levada a cabo por um time e um elenco dispostos, e mais do que escolados, quando o assunto é transpor para uma mídia tão saturada uma história repleta de romance, sangue, drama, gargalhadas (voluntárias ou não) e, por que não, muita personalidade.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.