Caleidoscópica
Entrevista Com Uma Vampira

por Dulce Quental
12/09/07


Essa semana eu fiquei mais velha. Como uma legítima arietina, resolvi comemorar o meu aniversário. Não porque um ano tenha se passado a mais, mas porque alguma coisa parecia estar mudando. Aconteceu de repente. Teria sido aquele rapaz e o seu pedido de entrevista? Eu não sabia que ele desconhecia totalmente a minha trajetória, conhecendo apenas “a escritora” de crônicas da internet; por isso aceitei o desafio de responder por e-mail as suas perguntas. “Interessante” - eu pensei - enquanto me sentia a verdadeira, e única, Senhora Lestad, herdeira do famoso vampiro dos romances de terror.

É, eu havia me transformado numa mulher de mil anos que estava se reinventando depois de ter vivido o melhor e o pior da festa. Assim como os personagens de Anne Rice, eu precisaria morrer mil vezes em vida; como uma Baudelaire de saias, para enterrar minha aristocracia fajuta, falir com meus recursos mixurucas e estar pronta para beber o sangue das novas eras.Sim, era exatamente o que eu iria fazer.

Segue abaixo a entrevista na integra.

Entrevista Com Uma Vampira

Rapaz - Dulce, como uma ex-integrante da banda Sempre Livre, precursora da música feminista no Brasil, como analisa este movimento cultural na contemporaneidade?
Vampira - Não houve intencionalmente um caráter feminista na formação do Sempre Livre.Também não acredito que existiu qualquer movimento feminista na música. Foram casos isolados e circunstanciais como as Frenéticas e as Mercenárias. Acho que veio tudo no mesmo pacote dos 80, uma década que sofreu muito a influencia dos movimentos da contra cultura. Nesse sentido o Sempre Livre se enquadraria muito mais no movimento das minorias gays do que no "womens lib".

Rapaz - Os anos 80 acabaram. Você já declarou que não vive do passado, mas de suas memória do início de sua carreira musical. Há algo daquela época que seria bem vinda novamente para você?
Vampira - Algo na ordem da espontaneidade, da alegria, da inocência; alguma coisa que não consigo encontrar no mundo conservador, careta e eficiente dos dias de hoje.

Rapaz - Aliás, você até escreveu uma letra sobre sua postura quanto aquela época, "Vanguarda Envelhecida". O cenário musical atual está sem criatividade?
Vampira - Não, eu acho que há muita eficiência, competência e também criatividade hoje em dia. Mas sinto falta de emoção. Alguma coisa maior que o mercado e o sucesso. As pessoas, incluindo aí os artistas, se comprometeram demais com o mercado e deixaram de correr riscos. E eu não acredito em arte sem riscos; em rock sem raiva. Onde está a raiva dessa garotada ? Onde está a raiva dos meus pares nos anos 80 ? O mundo encaretou e a música foi junto.

Rapaz - Você fez várias parcerias que resultaram em composições marcantes até os dias atuais. Qual foi o músico com que mais gostou de trabalhar?
Vampira - Eu não sei. Aprendi com cada um, uma coisa diferente. Com Frejat fiz os meus maiores sucessos e sempre dá muito certo. Com Celso Fonseca tive sempre muita afinidade no estilo. E Moska me desafia sempre. Então posso dizer que talvez esses três tenham sido os mais importantes. Sem falar em Herbert e Cazuza, que não foram meus parceiros, mas com quem tive um contato íntimo e uma troca também intensa.

Rapaz - Poderia brevemente descrever seus sentimentos perante os quatro álbuns da sua carreira solo?
Délica (1986) - "Délica" foi um álbum inaugural pra mim. Um disco com idéias, muito além do seu tempo. Foi em “Délica” que mostrei pela primeira vez a minha verve de compositora. É um álbum irregular, mas que contem bons momentos. As participações de Cazuza, Titãs, João Donato e Celso Fonseca deram um brilho a mais.

Voz Azul (1987) - Dos três discos gravados na EMI, "Voz Azul" foi o mais importante. Um disco autoral e 100% confessional. Um trabalho que me orgulho muito de ter realizado. A participação de Herbert na produção foi um dos pontos altos do álbum.

Dulce Quental (1988) - Meu namoro com a vanguarda paulista de Arrigo Barnabé, Itamar Assunção e Arnaldo Antunes. O primeiro flerte com a informática. Um disco com excelente repertório mas com problemas de produção; muito devido à maneira como usamos os recursos eletrônicos. Estávamos aprendendo a usar o computador.

Beleza Roubada (2004) - Primeira produção independente. Feito com pouquíssimo dinheiro. Boas idéias, boas letras mas melodias irregulares. Produção problemática; faltou alma de músico no álbum. Muito cerebral mas feito com uma tal raça e honestidade que acho que compensou todas as deficiências. As pessoas entenderam o recado. Foi um disco que deu um tapa no mercado. Um passo importante para fazer a ponte com o passado e o futuro.

Rapaz - Por que foram 16 anos de espaço entre o lançamento de Dulce Quental e Beleza Roubada? Seu tesão em compor só despertou em 2004?
Vampira - Cara, eu venho compondo há muitos anos pro Barão Vermelho, Frejat, Ana Carolina, Cidade Negra, Simone, Daúde, Celso Fonseca, George Israel, etc... As músicas estão espalhadas por aí. Muita gente não sabe que são minhas.

Rapaz - Em seu blog pessoal o último post fala sobre o mau uso de novas tecnologias, principalmente aquelas propostas pela Internet. Em sua opinião, por que tanta necessidade do ser humano em se legitimar na sociedade mesmo que seja através do ridículo?
Vampira - As pessoas estão perdidas. O tecido social que as mantinha seguras se rompeu. É cada um por si num narcisismo insuportável. Isso se deu com o fim das utopias e com o advento das novas mídias instantâneas. Viramos todos objetos uns dos outros. Há uma grande confusão entre liberdade e libertinagem. O mundo ficou irresponsável. É um bom momento para ser reler Sartre e lembrar que a liberdade só pode ser alcançada se levar em consideração a existência do outro.

Rapaz - É interessante te falar que conheci primeiro seu trabalho como escritora para depois saber mais sobre seu lado musical. Não vejo diferença entre a literatura e música, dois canais culturais que se entrelaçam constantemente. A Dulce Quental enquanto mãe também se encaixa no âmbito da cultura?
Vampira - A feminilidade é altamente potente. A mulher está na ordem daquilo que é falta; não tem a pretensão da auto-suficiência masculina do falo. Mesmo quando pro cria e se torna mãe, seus frutos retornam pro mundo; a criança é criada para o mundo. A mulher, os loucos, os velhos, o gays são os grandes agentes transformadores da sociedade. A grande esperança; porque estão inscritos no discurso da delicadeza; porque precisam dos outros e por isso estão abertos ao diálogo; a busca. O mundo está ruindo porque o modelo do paternalismo criado pela hegemonia masculina faliu.

Rapaz - Dulce, e o que significa ser uma "caleidoscópica"?
Vampira - Significa estar antenada para a diversidade de cores, formas e movimentos do mundo.

Rapaz - Não quero prolongar muito a entrevista, apesar de que teria muito a conversar contigo. Encerro a conversa com uma última questão: como uma mulher que parece ser deveras emotiva e intensa, como artista, encontra prazer na vida ?
Vampira - A intensidade pode ser uma arma perigosa; um veneno; uma droga. Tomo cuidado com ela pois para mim é mortal. Inteligência emocional é mais importante que inteligência. Minha relação com o prazer é difícil.Lembra uma música da Marina chamada Difícil. Eu diria que cada um descobre uma maneira de ter prazer, nem que ela esteja misturada com uma pontinha de dor. Eu não busco muito o prazer, busco mais o desejo. Eu diria que como artista a realização de um projeto artístico me dá muito prazer. Mas o prazer é provisório, já o desejo me mantêm viva. Então eu diria que agora e sempre o que me mantêm viva e me dá prazer é a criação.

Dulce Quental é cantora e letrista.

Email: caleidos@uninet.com.br
Blog: http://caleidoscopicas.blig.ig.com.br

Saiba mais sobre a cantora no www.dulcequental.com


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02 - O Pensador Independente
03 - Pra Falar de Cinema
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05 - Patrulhas da contra-cultura
06 - Por que gostamos de Woody Allen
07 - Cinema, morte, êxtase, provas de amor
08 - As Dores do Crescimento
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