A estreia solo de James Dean Bradfield

por Marcelo Costa

O pai queria lhe dar o nome de Clint Eastwood, mas a mãe vetou. Fascinado por cinema, o pai fez outra tentativa, e dessa vez a mãe concordou: James Dean Bradfield. A história deste galês de Pontypool, uma cidade industrial de pouco mais de 40 mil habitantes, se confunde com a história de uma das bandas britânicas mais relevantes dos anos 90: os Manic Street Preachers.

Se o rock é pródigo em criar histórias absurdamente surreais, em seus 16 anos de atividades (interrompidos por uma pausa, em 2005), o Manics (como a banda é conhecida pelos fãs) criou um catálogo divertido de atos e fatos interessantes. A começar pelo direcionamento musical da banda, que ousou chocar a atitude de influência punk do Clash com a sonoridade hard do Guns’n Roses. Isso no começo, quando James (guitarra e voz) fazia as canções enquanto Nick Wire (baixo) politizava nas letras (completavam a banda o baterista Sean Moore e o guitarrista Richey James)

Com o tempo, James foi depurando o som da banda até chegar na primeira das obras primas do grupo: “Holy Bible” (1994). Deste ponto em diante, o Manics perdeu um membro oficial em circunstâncias até hoje desconhecidas (Richey deixou carteira, cartões de banco, passaporte e tudo mais no hotel. Seu carro foi encontrado ao lado da ponte Severen Bridge, em Bristol, local conhecido como palco de suicídios. O corpo nunca foi encontrado), colocou uma orquestra a serviço do rock (em “Everything Must Go”, de 1996) e virou mega com “This Is My Truth Tell Me Yours” (1998), disco que bateu na casa dos dois milhões de cópias vendidas ancorado no single que emprestava – para o título e refrão – o lema das Brigadas Internacionais que combateram os fascistas de Francisco Franco na Guerra Civil Espanhola: “Se você tolerar isso, seus filhos serão os próximos”.

James Dean Bradfield começou a bater suas próprias asas no disco posterior do Manics, “Know Your Enemy” (2001), antítese de “This Is My Truth Tell Me Yours” (movida por guitarradas a la Stooges e Jesus & Mary Chain) que abriu espaço para a primeira composição integralmente solo do vocalista: a bonita e triste “Ocean Spray”. O Manics ainda lançou um sétimo disco de inéditas (o certinho e mediano “Lifeblood”, de 2004) antes de o trio remanescente tirar férias da banda. Após praticamente um ano de silêncio, a voz emocional de James volta a ecoar pelos alto-falantes. A grande diferença é que James está sozinho.

“The Great Western”, primeiro trabalho solo de James Dean Bradfield, foi lançado em julho na gringa, e traz o guitarrista/vocalista do Manics tocando tudo, a exceção da bateria, que ficou a cargo do primo Sean Moore em quase todo o disco, e do Super Furry Animals Daf Ieuan, que assumiu as baquetas em “Run Romeo Run”. Via de regra, um trabalho solo de um artista devotado tanto tempo a uma banda tende a trazer pouquíssimas variações de sonoridade, quando não meros rascunhos de canções que poderiam ter soado muito melhor com a própria banda.

No caso deste James solo, a boa notícia é que “The Great Western” apresenta várias canções que fariam bonito nos melhores discos do Manic Street Preachers. “That’s No Way To Tell A Lie”, primeiro single, com bateria “palminhas” e tecladões no refrão (e temática que versa sobre como a Igreja fecha os olhos para a AIDS na África) e a deliciosa “Bad Boys And Painkillers” (com dedinho de Nick Wire na letra que o compara com Pete Doherty, o garoto problema número 1 das Ilhas) são puro Phil Spector.

Musicalmente, o disco é um sobrevôo por tudo aquilo que fez do Manics uma das bandas mais importantes do rock britânico na década de 90. Tem guitarradas hard rock, acelerações punk, orquestrações new progressive e batidas de violões, quase sempre tudo junto na mesma música (“On Saturday Morning We Will Rule The World”, “An English Gentleman” e “Emigre” são bons exemplos). Das onze músicas, dez levam assinatura de James, que incluiu um cover de Jacques Brel’s, a linda balada “To See A Friend In Tears”.

É praticamente certo que o Manic Street Preachers retorne em 2007, mesmo que a carreira solo de James (e a de Nick Wire, que lançou em julho o single “Secret Society”) alcance um sucesso maior do que o esperado. A liberdade artística que James conseguiu com seu disco solo deverá levar o Manics a alçar vôos mais altos. O que importa, agora, é que “The Great Western” surge como um dos grandes álbuns do rock mundial em 2006.

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“Radio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado”, livro do jornalista Matthew Collin, conta a história da rádio sérvia B92, formada por um corajoso grupo de jovens que travou uma batalha de dez anos pela liberdade e manteve viva a voz da dissidência ao regime de Slobodan Milosevic. É uma aula de História (com H maiúsculo mesmo), de ideais, de revolução. A orelha é assinada pelo jornalista Leão Serva, que foi meu editor por um curto tempo em minha primeira passagem pelo iG. “A rádio se chamou B92 e já de cara adotou uma programação musical inovadora para os padrões locais, totalmente ancorada no rock estrangeiro e nas mais recentes tendências da música internacional. Imediatamente virou a trilha sonora dos jovens não alinhados com o regime. Enquanto o governo convocava milhares de jovens para servir o exército, a rádio dava dica de como fugir dos mensageiros militares”, conta Leão.

Para uma coluna como a Revoluttion, é impossível não se arrepiar com algo como: “Formada por um corajoso grupo de jovens que cresceu na Sérvia oprimida por Slobodan Milosevic, a rádio B92 empreendeu uma campanha de dez anos pela liberdade, armada com um rádio-transmissor, alguns álbuns de rock, e o sonho de obter verdade, justiça e uma vida diferente”. Como apêndice, o livro traz a trilha sonora da resistência, com os dez melhores álbuns de cada ano, de 1991 a 2000. Um dos discos do Manic Street Preachers, “Everything Must Go” (1996), integra a listagem da rádio. “Radio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado” ganha edição nacional pela Editora Barracuda, que já colocou nas livrarias “Confissões De Uma Groupie”, de Pámela Dês Barres (que desfilou com Jim Morrison, foi namorada de Jimmy Page e, depois de resistir a muitas cantadas, acabou cedendo ao ardente desejo de Mick Jagger); a biografia “Um Punhado de Gitanes”, de Serge Gainsbourg; e o obrigatório “Disparos do Front da Cultura Pop”, de Tony Parsos. Literatura Pop de altíssima qualidade.

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Top Ten 1999 da Rádio B92

01) “Soft Bulletin”, Flaming Lips
02) “Things Falls Apart”, Roots
03) “Midnite Vultures”, Beck
04) “Remedy”, Basement Jaxx
05) “Guerilha”, Super Furry Animals
06) “Black On Both Sides”, Mos Def
07) “I See a Darkness”, Bonnie Prince Billy
08) “Juxtapose”, Tricky
09) “Terror Twilight”, Pavement
10) “São Paulo Confessions”, Suba

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Já que coloquei a lista acima, segue a lista das 10 melhores capas do rock por James Dean Bradfield, do Manic Stret Preachers:

01) “Word To The Wise Guy”, Mighty Wah
02. “Rattlesnake”, Lloyd Cole and The Commotions
03. “Pink Flag”, Wire
04. “Marquee Moon”, Television
05. “Empires & Dance”, Simple Minds
06. “Wildweed”, Jeffrey Lee Pierce
07. “Pacific Street”, The Pale Fountains
08. “Porcupine”, Echo & The Bunnymen
09. “Nebraska”, Bruce Springsteen
10. “Power Corruptions & Lies”, New Order

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Aproveitando o embalo das capas escolhidas pelo James, que tal me mandar um e-mail contando qual a sua capa de disco preferida? Vamos lá, escreve para mcosta@brti.com.br e aproveita para escolher um dos brindes desta semana:

– 05 exemplares da revista Bizz deste mês, com Skank na capa
– 01 livro “Radio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado”
– 01 CD “Rabbit Fur Coat”, de Jenny Lewis With The Watson Twins, (cortesia da loja Velvet CDs). Segundo Juliana Zambelo, na revista Rock Life nº 7, “Jenny surpreende com um disco primoroso de folk e baladas country entre a beleza clássica do estilo e os climas fantasmagóricos do Cowboy Junkies”. Tem até cover do Traveling Wilburys…

A minha capa de disco preferida é…

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“E a promo da semana passada?”, você deve estar se perguntando. Bem, segue a lista dos discos dos Beatles mais votados pelos leitores da Revoluttion:

01) Revolver
02) White Album
03) Rubber Soul
04) Abbey Road
05) Sgt. Peppers

Ganhadores da Promoção “Qual o seu disco preferido dos Beatles?”

1) Revista Rock Life 7 – Alfredo Dietrich, de Joinvile (Rubber Soul)
2) Edição Especial Terminal Guadalupe – Adriana Rangel, do Rio de Janeiro (White Album)
3) CD da banda Islands, Alex Lima, de Brasília (Abbey Road)

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E fim. Está bom demais, não?

Ps1 – Anda circulando pela Web uma versão mashup do disco vencedor da enquete Beatles. Você consegue imaginar Madonna cantando “Ray of Light” dentro de “Eleanor Rigby”? Ou a ótima versão de “For No One” sobre a base de “Close To Me”, do The Cure? Siga este link(também tem este aqui) e divirta-se. (Thanks Fábio e Júnior pelos links)

Ps2 – Atualizei a minha lista de melhores discos de 2006. Agora o meu Top 2006 tem… 85 discos. Dá uma olhada aqui.

Ps3 – O amigo Carlos Freitas avisa que o afrobeat não vem mais da África. Já conferiu a Impop desta semana?

Ps4 – James Dean Bradfield liberou seu single de estréia, “That’s No Way To Tell A Lie”, em seu endereço no My Space. Aproveita e ouve lá “Bad Boys And Painkillers” também. E eu nem contei a história recente mais hila´ria da música pop, que aconteceu com o Manics: A banda lançou o álbum “Know Your Enemy” com um show no Teatro Karl Marx, em Cuba, transformando o Manics na primeira banda ocidental a se apresentar na ilha socialista. Fidel Castro estava na platéia. Consta que James tentou avisar Fidel de que o show seria muito barulhento. “Não será mais barulhento que a guerra’, mandou o ditador cubano. :o)

Ps5 – Qual cantor ousaria misturar, em um mesmo show, Sex Pistols e Iggy Pop com Bruno & Marrone e Erasmo Carlos? Apenas um: Wander Wildner, que em sua encarnação solo está batendo ponto todas as terças de agosto no Café Camalehon, Rua Piauí, nº 103, exatamente atrás do Mackensie. Começa sempre às 22h, tem cerveja de garrafa, caipirinha de morango, Xico Sá e Nina Lemos na platéia, e muita diversão rock and roll.

Ps6 – A matéria de capa da revista Bizz desta mês, que traz o Skank parodiando uma capa proibida dos Beatles, é coisa do chapa Alex Antunes. Dá uma olhada/lida aqui.

Ps7 – Prometo que a primeira coluna de todo mês será um bate papo com os leitores, ok. Vou tentar responder alguns dos dez (mil) e-mails que recebo por mês (hehehe). Na segunda-feira, disco da semana. Aliás, você já foi no My Space do cara ai debaixo ouvir “The Man Who Doesn’t Know How To Smile”?

8 thoughts on “A estreia solo de James Dean Bradfield

  1. Acabei de ouvir o disco do JDB. Não gostei. Essa idéia de passar a limpo tudo o que os Manics já tinha feito, esse “tudo ao mesmo tempo agora” infelizmente parace ter azedado. Prefiro o “cada coisa seu tempo” da discografia da banda.

    Sobre as capas, eu realmente gosto do “Achtung Baby”, mas ultimamente me sinto bastante atraído pela arte do “What are you going to do with your life” do Echo. Outra escolha seria “Heaven Up Here”, também do Echo ou ainda “Loveless” do MBV.

    Ah, eu quero o cd da Jenny Lewis ou o Radio Guerrilha.

  2. Cara, o solo do JDB tá redondinho!! Excelente!! Minha preferida é Émigré. Aqueles U-la-la-lás roubados da fase Rubber Soul ficaram ótimos!! Quanto à capa é uma escolha difícil, muito difícil. O conceito do In Útero é bastante interessante. Mas meu voto vai para Doolittle dos Pixies.

    Abraços

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