Crítica: “O Mandaloriano e Grogu” capta o divertido espírito da série de TV

texto de João Paulo Barreto

Já se completaram mais de dez anos desde a compra por parte da Disney dos direitos autorais sobre o universo de personagens criados por George Lucas em 1977 para um, então pequeno, filme chamado “Star Wars“. Desde sua estreia há quase cinquenta anos, o cânone da cultura pop no século XX, após já ter quebrado recordes de bilheteria e ajudado a moldar a proposta de cinema pipoca de ficção científica com a trilogia original, avançou para o século XXI provando ainda ser relevante. Isso se deu quando seu criador se debruçou novamente sobre seus personagens lhes dando uma origem com um excelente nova trilogia que teve início em 1999 e se encerrou em 2005 com o pulsante e trágico “Episódio III”.

Após esse investimento bilionário, os donos do Mickey e da porra toda da Marvel, claro, não tardaram a voltar, em 2015, a explorar esse mesmo universo com uma nova trilogia “Star Wars”, que apresentava novos personagens jedi, bem como, para deleite de fãs mais velhos, voltava a símbolos marcantes dessa história, trazendo versões marcadas pelo tempo de diversos rostos que ajudaram a consolidar esse citado cânone cultural. Curiosamente, foi com um personagem inicialmente sem rosto e em uma atração voltada para a televisão que a Disney conseguiu seu maior êxito narrativo e de apelo entre esses mesmos fãs de gerações diferentes. Com “The Mandalorian”, série que estreou em 2019 e conta, até o momento, com 24 episódios, Jon Fraveau, um dos diretores que moldaram o universo cinematográfico da Marvel, criou personagens que, também, viriam a se tornar cânones para uma nova geração de fãs dos jedi.

Um deles tinha uma atração especial por sua fofura e, obviamente, potencial de marketing para vender muitos bonecos. Mas o que poderia ser algo puramente mercadológico, acabou demonstrando um magnético desenvolvimento de personagens justamente por suas possibilidades narrativas dentro do conceito dos diversos símbolos que Guerra nas Estrelas possui. Baby Yoda, como foi inicialmente chamado na época, cativou olhares tenros de adultos e a devoção de crianças e adolescentes justamente por seu excesso de fofurice, acabou por se tornar um novo representante desse fenômeno cultural. E imaginar as possibilidades narrativas de um personagem que descende da mesma espécie poderosa do mestre Yoda, empolga. Juntamente com o carisma de Pedro Pascal, o ator que melhor soube gerenciar a própria carreira sob os holofotes tanto de projetos mais sérios quanto em filmes-pipoca, “The Mandalorian” se tornou um dos produtos “Star Wars’ de melhor apelo midiático e narrativo.

E com o citado desenvolvimento dramático de sua dupla de protagonistas em um caminho que, mesmo original na apresentação de novos personagens na série de TV, fazia valer algo para além do fan service em inserções de outras figuras clássicas (o momento em que certo mestre jedi aparece no final de uma das temporadas é algo deveras emocionante), demonstrava esse poder narrativo capaz de unir as duas linhas temporais, tanto as dos seis filmes das trilogias, quanto os acontecimentos que perpassam os 24 episódios da série.

Passando-se logo após os acontecimentos de “O Retorno de Jedi” (1983), a saga de Djin Djarin, o mandaloriano caçador de recompensas que tem no pequeno Grogu seu fiel escudeiro encontra, agora, seu exemplar em uma versão longa metragem que capta bem a proposta de uma aventura calcada quase em um faroeste espacial vista na série. Assim, é divertidíssimo ver o matador chegar em uma cidade no melhor estilo futurista e buscando informações com o dono de uma birosca local (dublado de forma hilária por Martin Scorsese). Do mesmo modo, na mesma cidade, a perseguição em veículos a referenciar “Operação França” (1971) é de te deixar com aquele riso de canto.

Nessa localização temporal dentro linha narrativa da trilogia clássica, o filme presenteia os fãs da série com alguns elementos narrativos e visuais que causam regozijo. Dentre estes, o espetáculo visual dos AT-AT (da sigla em inglês All Terrain Armored Transport), os notórios tanques de guerra com suas longas “pernas” que simbolizaram o melhor filme da primeira leva; ou quando um novo contrato do Mandaloriano o leva a se deparar com os parentes de Jabba, The Hutt; ou, ainda, quando Sigourney Weaver, notória por sua Ripley em outro contexto de galáxia muito, muito distante, surge inicialmente como uma nova general a comandar a Aliança Rebelde e, ao final, aparece uniformizada como uma piloto de uma frota de X-wings em seus trajes cor de laranja. Definitivamente, uma das melhores inserções de um novo personagem.

Mesmo soando repetitivo em uma estrutura que traz o matador vivido por Pedro Pascal passando por conflitos físicos com adversários quase como que galgando níveis em fases de um vídeo-game, o filme consegue aprofundar um desenvolvimento emocional entre seus dois protagonistas, mostrando, assim, que a relação paterna entre o mercenário e o filho jedi adotivo poderá render bem dentro do que a Disney planeja para a nova fase do universo cinematográfico Star Wars. “O Mandaloriano e Grogu” reflete bem a escolha de caminhos narrativos que o gigante conglomerado deve seguir para o que deverá vir pela frente no cinema com “Guerra nas Estrelas”.

A força e o dinheiro eles têm.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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