Entrevista: Merlô faz uma ode à nostalgia e marca cena do rock baiano com o seu novo álbum, “CINEMA”

entrevista de Duda Araújo

Na última semana de abril, “CINEMA” chegou ao mundo como o primeiro álbum da banda soteropolitana Merlô, sucessor do EP “Travessa Jaguaracy”, de 2023. As faixas perpassam por sonoridades que vão do post-indie à tropicália, de referências estrangeiras à latinidade. Além do som, o álbum é costurado por visuais que entrelaçam memórias de toda uma vida, vivências pessoais e experiências musicais projetadas em uma tela do aqui e agora.

A atmosfera nostálgica do disco não é motivada por faltas incontornáveis de tempos passados, mas por carinho e gratidão pela trajetória trilhada até aqui. Ariel Ricci, Faustino Menezes, Rugolo Dalaneza e Thiago Vinícius, embora tenham esse lançamento em 2026, colaboram musicalmente há mais de dez anos.

Cartel Strip Club, Teenage Buzz, Os Jonsóns e Bilic são alguns dos vários projetos que os membros acumulam na carreira, tanto de parcerias entre si, quanto externos. Para eles, o fazer musical é incessante, e a Merlô chega como uma nova fase mais sólida e madura, mas com a mesma paixão e vigor das bandas pelas quais os músicos passaram ao longo da juventude.

“CINEMA” é um álbum que, apesar do conceito, não se preocupa em cumprir expectativas específicas. Com um processo de criação intuitivo, leve e natural, o disco é uma jornada que começa no indie, passa por uma faixa cheia de latinidade (no meio do álbum) que antecede uma jam de rock fulminante, além de versos de rap inspirados em poemas e outros elementos que mostram que a banda veio com um forte potencial para ser um dos nomes mais comentados da cena independente este ano.

O primeiro álbum cheio da Merlô ainda conta com as participações de Rei Lacoste, Drigo, Aurata (Ramon Gonçalvez), Elis Felice, Ivan Motosserra, Zepeto e Jardim Soma, assinatura de Luca Bori, baixista e vocalista na Vivendo do Ócio. Nas percussões e instrumentos de sopro, que tornam a sonoridade do disco ainda mais interessante e inovadora, participam os músicos convidados José Elohim, Normando Mendes, Samara Baraúna e Yrlã Guedes.

Com toda a direção de arte do projeto feita por Ramon Gonçalvez, a banda lançou um filme de 40 minutos que acompanha as 13 faixas do projeto em uma narrativa visual única (que você assiste logo abaixo). Na entrevista a seguir, realizada na semana de lançamento do álbum, a banda conta sobre a trajetória da colaboração entre os membros, processos criativos, referência e as expectativas para esse momento tão importante e promissor na carreira dos músicos.

Vocês já colaboraram em vários outros projetos, inclusive a Bilic, que foi uma banda formada por três dos membros atuais da Merlô. Então, para começar, como começou essa colaboração que antecede a Merlô? Como vocês se conheceram e começaram a produzir juntos?
Ariel: A história começa com adolescentes tocando mesmo. Eu tive uma banda no ensino médio, mas anterior a essa banda eu já conhecia Rugolo por coincidência da vida. Um amigo meu tinha uma banda com ele e com Tiago. Então, a gente tem laços amarrados de alguma maneira há muito tempo. Uma vez, eu e esse amigo estávamos perto da casa de Rugolo e fomos beber água na casa dele. Ele estava na garagem tocando com Thiago. Esse foi meu primeiro contato com os dois juntos. Um tempo depois disso, eu tive uma banda, que era o embrião do que se tornou a Bilic, e uma vez eu encontrei Rugolo no mercado, mais uma vez dessas coincidências divinas, e precisando de um baterista convidei ele. Desde então a gente faz música junto. Nesse meio-tempo o outro integrante imigrou para o Canadá, e mais ou menos um ano depois que a Bilic que tinha começado, a gente encontrou Faustino na cena. Ele tocava em outras bandas, como a Teenage Buzz, que era uma banda que, na época, circulava muito. Ele era um movimentador, fazia também eventos e tudo mais. Por mais uma dessas coincidências maravilhosas que permeiam o papo, caímos na mesma faculdade, e convidei ele pra banda, daí começamos. Thiago e Rugolo tocavam na Cartel Strip Club, e depois do fim da banda, Thiago continuou tocando na cena. A vida continuou fazendo com que nos encontrássemos nessas coincidências, e assim nos conhecemos.

E com essa colaboração que começa ainda na adolescência, vocês diriam que essa nostalgia que vocês trazem no álbum, que é a base para o conceito, remete a esse tempo que vocês têm de amizade, produção e colaboração musical? De que forma as vivências influenciaram na construção dessa ideia de nostalgia que vocês se propõem a passar com “CINEMA”?
Faustino: Acho que tem um pouco disso mesmo, tem bastante na verdade. A gente já tinha uma bagagem musical de muito tempo e muitas referências. O que eu tocava e escutava na Teenage Buzz era uma coisa, o que Ariel e Rugolo escutavam e tocavam na Bilic era outra, o que Thiago escutava e tocava na Cartel, era outra. Apesar das diferenças, a gente fez e viveu tanta coisa, que quando começamos a escrever, tocar, gravar e tudo mais, a gente meio que foi colocando todo o tempero que a gente veio acumulando esse tempo todo, sabe? Minhas linhas de baixo, ao mesmo tempo que são muito modernas, continuam tendo uma raiz no que eu fazia há 10 anos. Assim como a bateria de Rugolo, guitarra e voz de Ariel e Thiago. Acho que a nostalgia vem de momentos que a gente realmente viveu e aproveitou bastante, mas ela tem um lugar guardado com muito carinho no coração. E a gente acaba revisitando alguns momentos para criar o que a gente quer criar para o dia de hoje. E tudo que está no disco é muito orgânico. A gente nunca fez nada pensando em algo como “isso aqui tem que soar nostálgico, isso aqui tem que soar brasileiro pra caramba, isso tem que soar latino, isso tem que soar indie”. A gente não se fechou a rótulos, nem fórmulas, nem nada. A gente simplesmente foi colocando o que realmente a gente é. Acho que é isso.

Capa de “CINEMA”, da Merlô

Sobre a parte da composição, foi uma construção em conjunto, foram letras, que cada um ia trazendo, ou tem aquele compositor principal?
Faustino: Não tem um compositor central, mas, basicamente, sei lá, 50% das músicas vieram de Ariel, só que ele sempre trouxe as letras pra gente finalizar e pra gente também contribuir, então sempre foi algo bem colaborativo. Mas, no geral, é totalmente dividido, sabe?

Ariel: O que eu trouxe, como Faustino falou, foram realmente esqueletos. Ideias soltas, com pedaços, coisas que só eram melodias, coisas que Thiago, também vocalista, vinha com uma ideia em cima. Então a gente pode dizer que nessa questão das composições veio um pedaço de cada um mesmo. Foi muito colaborativo nesse lugar, e todo mundo respeitando as ideias que iam surgindo.

Os seus projetos antigos tinham uma sonoridade bastante juvenil, evocavam bem aquela rebeldia da juventude, tanto que algumas coisas me remetem até a Vivendo do Ócio no início. Percebi, escutando “CINEMA” e fazendo essas comparações, que a sonoridade que vocês trazem agora é muito mais madura. E não só isso, mas todo todo o planejamento do álbum, toda a conceituação, o visualizer, o conceito visual, colaborações, as próprias letras e arranjos também, é tudo mais centrado agora. Então, me contem: o que marca essa nova fase da colaboração de vocês?
Faustino: Antes da gente oficializar o fim da Bilic, depois da pandemia a gente lançou uma música que estava gravada desde 2017, com Luca Bori (Vivendo do Ócio), mas não tínhamos conseguido soltar. E depois que a banda termina, nesse meio-tempo, a gente monta a Merlô com outro baterista, que também colabora nesse novo disco, Elohim. Quando a gente fala para os nossos amigos, Luca mesmo falou para a gente para continuarmos a Bilic e mudar radicalmente o som, mas queríamos começar um novo capítulo, estávamos em uma outra fase das nossas vidas. A gente não queria apenas mudar o som. A gente queria realmente recomeçar a escrever uma nova história.

Ariel: Eu acho importante ressaltar que o primeiro EP da Bilic foi lançado ali em 2014, eu tinha 16 anos. Éramos crianças, sabe? O jeito que a gente cantava é um retrato daquilo ali mesmo, daquela época. E essas coisas foram mudando, essa onda juvenil, os ânimos foram acalmando. A Merlô nasceu entre 2022 e 2023, com a concepção do “Travessa Jaguaracy” com Elohim, e foi algo muito relacionado àquele lugar, aquele espaço que a banda tava naquele momento mesmo. Hoje, 12 anos depois da Bilic e de tudo isso, nós enxergamos a vida, a música, o tempo de maneira diferente.

Thiago: Depois da pandemia, eu estava também com esse desejo de voltar a colaborar com pessoas com quem eu me identificava musicalmente, que estavam numa vibe mais madura da vida. Eu acho que chega um ponto que a gente não quer mais só fazer som no quarto, falar de qualquer bobagem e esperar que alguém entenda. Por isso acho que a gente realmente tentou fazer um trabalho bem cuidadoso, imersivo. E foi o que fez eu me apaixonar, porque o pessoal da banda abriu muito o espaço para eu trazer minhas músicas também. A gente conseguiu juntar esses dois universos, e aí a gente entra numa outra parte que também é Rugolo, que foi a cola que uniu tudo isso.

Nessa nova fase, consolidando essa formação da Merlô, vocês pretendem trazer projetos sucessores à “CINEMA”?
Thiago: Acredito que está todo mundo em êxtase porque é um trabalho de muitas mãos, é muito bonito como todo mundo participou. Além da gente, uma galera que realmente acredita no projeto, da forma que a gente acredita também no que a gente fez e em todo mundo que colaborou. Então, depois de quase um ano e meio gravando esse álbum de maneira independente, sem patrocínio, sem apoio, nem nada, ficamos muito empolgados para os próximos projetos, e tudo está convergindo para um futuro. Temos um show bem próximo.

Faustino: Acho que esse disco deu um gás que a gente estava precisando nesse momento, para acreditar mais no que a gente faz de verdade, entende? Foi um processo criativo de meses porque, querendo ou não, a gente não é uma banda que vive de música, então a gente não tem só essas demandas para lidar. Foi um desafio, mas esse disco foi para mim, pelo menos, um marco. O feedback tem sido incrível e nós estamos muito felizes com a recepção do público.

E para finalizar eu queria saber das referências, porque vocês falam do álbum e desse momento da banda como um momento mais voltado para o post-indie, passeando também pela Tropicália, o que me chamou muita atenção. Então, me contem um pouquinho como é que funcionou esse processo de referências e como vocês incorporaram esses elementos tropicalistas, de ritmos latinos, do rap, do indie, enfim, tudo que vocês trouxeram para essa produção.
Ariel: Isso volta um pouquinho naquele papo sobre pretensão, ou a falta dela, porque acho que essa falta de pretensão na linha artística é muito importante, porque a gente escuta o que as coisas pedem de alguma maneira, sabe? E as referências elas entram no sentido abstrato assim do que significa o post-indie ou do que significa a tropicália, do que está relacionado realmente ao gênero musical. A gente quer utilizar o post-indie nesse lugar de tipo, velho, superem a novidade e abracem a nostalgia, as referências. O cinema é feito de referências, a vida é feita de referências. A gente está sempre pautado nisso. A Tropicália é um movimento que subverte essa coisa também. A Tropicália não é rock, mas é extremamente rock and roll. Porque foi a fusão, foi a referência, foi a necessidade da novidade mais uma vez…
Faustino: A gente não tem amarras dentro de um gênero ou de outro. Então, acho que o post-indie ele meio que seria uma representação disso. E, não é que a gente rejeita, mas a gente não sente a necessidade de se encaixar em um rótulo específico. A gente quer aproveitar de tudo. A gente não quer apresentar um álbum de indie rock, rock college, não quer apresentar um álbum de rock alternativo. A gente quer apresentar um álbum. Com várias sonoridades, vários elementos, várias características que vão ser desse álbum. Talvez o próximo disco da Merlô seja algo totalmente diferente do que foi o “CINEMA”. Nem a gente sabe o que é que vai ser, o que é que vai vir. Mas é meio que nesse sentido, vamos superar isso, esses rótulos, e vamos fazer algo que seja realmente nosso, que tenha a gente ali.

– Duda Araújo é estudante de jornalismo. instagram.com/dudaaraujott

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