entrevista por Pedro Salgado, especial de Lisboa
Há um aspecto definidor na música de Beatriz Pessoa e nas suas canções, que chegam, instalam-se e grudam na primeira escuta. “Muito Mais” (2026), o seu terceiro álbum, editado pelo selo Cuca Monga, consolida a faceta da cantora e compositora lisboeta que assenta num pop direto e numa lírica pessoal onde a eficácia emocional marca igualmente presença. O novo disco, que é o principal motivo de uma conversa com a sua autora numa pastelaria artesanal, no coração de Lisboa, encontra Beatriz Pessoa num momento de felicidade, ao qual não é alheio o fato de ter sido mãe entre a edição de “Muito Mais” e o anterior álbum “Prazer Prazer” (2023). A maternidade, segundo a própria, “acrescentou-me firmeza e depois de ser mãe ganhei muita confiança em mim mesma e no que quero para a minha vida” e foi um dos fatores que influenciou a criação do novo disco, bem como referências que passaram por Rita Lee, Caroline Polachek, Nat King Cole, Doja Cat, Kate Bush e David Byrne, entre outros.
O maior traço distintivo de “Muito Mais” é a sua diversidade sonora e o fato de Beatriz Pessoa, em parceria com Guss (com quem co-produziu o disco), ter ampliado o espectro do seu pop incorporando diferentes gêneros musicais de várias épocas. Em faixas como “Pó de Palco” (um dos primeiros singles do disco), Beatriz expurga um momento de desânimo e desilusão que sentiu com o meio musical e a sua carreira (que antecedeu a criação de “Muito Mais”) com um pop otimista e um mote apropriado: “Cantar para não chorar”. Outros singles que se destacam incluem “9,99€”, uma música dançável com refrão apelativo, que aborda a tentação do consumo e um número aliciante que influencia os compradores, bem como o mais recente, “Ai Quem Me Dera” (com a participação de uma das convidadas do álbum, Femme Falafel), que resulta num interessante cruzamento sonoro de trap, música cubana, ópera e pop, no qual a lírica alude a um desabafo humorado e auto-crítico sobre o vício de ser os outros e também o tempo perdido em frustrações fúteis, desculpas descontroladas e culpas sobrenaturais.

Para além do lado pop, o trabalho inclui alguns momentos de contenção e intimismo que reforçam o papel de Beatriz enquanto compositora e cantora. Um desses exemplos é “Treme” que se distingue por ser insinuante e criar um ambiente carregado de sensualidade. A faixa começou por ser cantada em inglês e passou por várias fases antes de entrar no disco, mas Beatriz aponta vários motivos para a sua integração. “Senti que faltava ao trabalho uma canção sensual e ligada a referências como a cantora americana Caroline Polachek, de quem gosto muito. Tinha em mente um pop nesses moldes, mas ao mesmo tempo quente, e alguns acordes que fizessem lembrar a música brasileira e o estilo de Caetano Veloso ou Ney Matogrosso. Então voltei ao que acabou por ficar na “Treme”, mas regressei à faixa dando-lhe imensas voltas. Agora é uma das minhas músicas preferidas no conjunto do álbum”, conta.
É conhecida a ligação profunda da cantautora lisboeta à música brasileira e um dos momentos que lhe recordo foi a sua participação, no apoio vocal, durante o concerto de Rubel, no Coliseu de Lisboa, na apresentação do disco “As Palavras Vol. 1 & 2”, em setembro de 2023. A partir desse encontro, questiono-a sobre a possibilidade futura de fazer uma parceria com Rubel ou com músicos da sua geração como Zé Ibarra ou Ana Frango Elétrico. “Amaria fazer uma colaboração com um deles. Acho que desses três, não tirando mérito aos outros, como é óbvio, ultimamente ando mais entusiasmada com a Ana Frango Elétrico, da qual sou fã, e assisti, grávida, ao show dela na Musicbox (Lisboa), em novembro de 2023. Julgo que com o Rubel acaba por ser mais complicado porque ele faz ‘featurings’ com muita gente e está num nível em que o acesso é difícil. Mas, tanto o Zé Ibarra como a Ana Frango Elétrico fazem parte da geração a que pertenço. Eles têm uma ligação bastante forte com Portugal. O Zé está na minha agência e a Ana tem um vínculo sólido com os clubes mais indie de Portugal. Por isso, acho que vou chegar lá ou eles a mim”, conclui.
De Lisboa para o Brasil, Beatriz Pessoa conversou com o Scream & Yell. Confira:
O seu anterior trabalho, “Prazer Prazer” (2023), produzido por Marcelo Camelo, refletia as suas influências musicais brasileiras e em “Muito Mais” (2026) você abriu o leque e incluiu o pop dos anos 1980, disco sound, salsa, música barroca, entre outros. Gostaria de saber se a abertura se deve ao seu trabalho com o Guss (com quem co-produziu o disco) e os objetivos que tiveram em mente com esta expansão.
Quando iniciei este trabalho não havia propriamente um objetivo. Existia apenas a necessidade da minha parte de ser mais honesta e ampla com a música que eu fazia. Sinto que, sem querer, fiquei presa a muitos gêneros musicais. Na verdade, sempre escutei coisas variadas e, se calhar, esses estilos não me davam tanto espaço para me assumir na plenitude enquanto cantora e pessoa. Por isso, comecei a libertar-me dos preconceitos e, obviamente, trabalhar com alguém que gosta desses gêneros musicais e tem apreço pelo pop na totalidade foi uma ajuda enorme para chegar a um sítio cheio e coeso. O meu disco, inclusivamente, tem o título de “Muito Mais” porque senti claramente que o álbum representava muito mais de mim como pessoa e cantautora.
Li numa entrevista que foram vários os artistas que influenciaram o seu novo disco, mas Rita Lee foi uma referência decisiva na construção da primeira parte do álbum. Ela influenciou-a pelo seu apurado sentido pop, pela irreverência e espírito ‘in your face’ ou por todos esses aspetos?
Ela influenciou-me em tudo. Eu já conhecia muito bem a discografia da Rita Lee e os diversos projetos onde ela esteve envolvida. Mas, realmente, o grande ponto de inspiração para este disco, e para a minha decisão de avançar com o trabalho, foi ler a autobiografia dela. Eu adorei esse livro, comi literalmente o livro e tornou-se muito importante para mim voltar a ter imensa vontade de fazer música e a Rita ajudou-me bastante nessa decisão. Sempre fui muito fã da sua obra e isso facilitou o processo. O ‘input’ dela também foi decisivo para o fato do disco ser mais expansivo, porque ela é inclusivamente uma grande referência para vários artistas. A Rita Lee, o David Bowie e a Madonna são músicos que quebraram fronteiras e foram o que quiseram ser sem pensar nos rótulos em que tinham de se encaixar. São, igualmente, artistas que se envolviam a nível estético ou gráfico e os seus trabalhos funcionam como um todo. Isso é muito importante e era algo que eu queria imenso fazer com este álbum.
O seu single mais recente, “Ai Quem Me Dera” (com a participação de Femme Falafel) cruza o pop, o trap e alguns requintes operáticos e tem uma letra que alia a diversão ao sentido crítico. Como foi o seu encontro com a Femme Falefel e qual é a sua avaliação do contributo dela na faixa?
Dou uma nota máxima à Femme Falafel. É exatamente o que disse no show de apresentação do álbum na Casa do Capitão (Lisboa). Eu já sabia que iria trabalhar com ela. Na realidade, já colaboramos há muitos anos, mas queria ter uma música só nossa. Quando estava a finalizar a canção, achei que faria todo o sentido que fosse esta faixa. Faltava-me um momento diferente na música. O que a canção necessitava mesmo era a presença da Femme Falafel em jeito de rap/spoken word, que ela faz tão bem, e depois encaixou na perfeição. Foi mesmo direto e disse: “Ok! É isto que era pretendido”.
“Muito Mais”, que é o seu terceiro álbum, foi editado pela Cuca Monga. Como se processou a sua entrada no selo e como tem evoluído a vossa parceria?
Estou a gostar bastante de trabalhar com a Cuca Monga. Ainda é uma relação recente, mas tem sido muito feliz e cheia de coisas boas. Na verdade, começou por uma procura minha, ou seja, queria mudar de equipe, agência e management. Eu andava nessa busca e sabia que eles pretendiam reformular o cartaz e começar a crescer enquanto editora. Então, na altura, tive uma reunião com o Domingos Coimbra (um dos fundadores do selo e baixista do Capitão Fausto) e sentimos que os nossos caminhos se iam cruzar bem. Verificámos que tínhamos objetivos idênticos, não só para a minha carreira, mas partilhávamos também a mesma visão do meio artístico. Depois, conheci a equipa da Cuca Monga, demo-nos muito bem e, na realidade, tem sido um trabalho excelente. São todas pessoas da minha idade e revelam imenso entusiasmo a trabalhar e com o próprio meio, algo que é raro nos dias de hoje. Essa paixão é extremamente vital porque não deixa de ser um cenário bastante frustrante. Eles gostam do que fazem e demonstram o seu profissionalismo procurando coisas novas e parcerias. Portanto, para já, estou muito feliz e animada com esta colaboração.
Os seus clipes são sugestivos, animados e projetam muito a boa energia que há em si. Qual é o seu comentário?
Eu trabalho com uma equipa com quem me divirto muito e com a qual estou muito à vontade e calham ser a minha família. O Daniel Mota é o meu marido e a Maria Bicker é a madrinha da minha filha. Ela é quase como uma irmã e somos melhores amigas há imensos anos. O Daniel e a Maria realizam os clipes e a Maria também assina as fotografias, portanto é um trabalho em família. Por vezes, pode não ser bom. Mas, no nosso caso, corre sempre bem. Acho que somos bastante criativos, trabalhamos de forma eficaz juntos, eles percebem as minhas ideias e têm muita imaginação. Para além disso, temos uma grande facilidade em operar com orçamentos minúsculos ou não existentes e mesmo assim construímos coisas fixes (legais). Isso é uma valência que nem toda a gente tem. No meio indie acabamos por ter de o fazer imensas vezes. Acho que o Daniel e a Maria concretizam-no mantendo uma estética incrível e não dá aspeto de ser uma produção inferior a nível monetário, antes pelo contrário. Eles superam-se sempre e adoro trabalhar com este grupo e vou continuar a seguir esse caminho.
Tem alguma mensagem que gostasse de enviar aos leitores do Scream & Yell?
Gostava de dizer que continua a ser um grande sonho levar a minha música ao Brasil. A última vez que atuei lá foi em 2019/2020, antes da pandemia. Por isso, tenho imensas saudades e quero muito voltar. Espero que o regresso seja com este álbum, “Muito Mais”, porque é um disco que faz todo o sentido. É um trabalho bastante feliz e tem uma característica que vou sempre buscar às minhas influências da música brasileira que é a parte lírica das canções. É algo que eu adoro. Aprendi com a música do Brasil a forma de escrever sobre assuntos mais difíceis e frágeis de uma maneira leve e positiva. Portanto, seria um encontro oportuno e abençoado levar as canções e as letras ao público brasileiro. Quando lá estive senti-me muito bem e acredito que se regressa aos locais onde fomos felizes e irei certamente voltar.
– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui. A foto que abre o texto é de Maria Bicker.
