entrevista de Danilo Souza
Quem nunca foi para a escola, mesmo desanimado, só porque sabia que a merenda seria boa, que atire a primeira pedra. Ou então que traga sua vasilha, porque o papo que você lerá hoje é com o trio punk Escravos da Merenda, de Vitória da Conquista, na Bahia. Mais especificamente com Ed Goma, vocalista e baixista da banda, e que também é o único dos membros originais da primeira formação da banda surgida há mais de dez anos. Atualmente, Joanderson Felix, na bateria, e Lázaro Amaral, na guitarra, completam o grupo. “Eles me salvaram! Estão pegando esse bonde andando, mas estão dando uma cara deles ali. De certa forma, dá uma roupagem nova”, admite Goma sobre os jovens garotos.
Apesar da ruptura, a formação original segue mantendo a amizade, característica que Ed classifica como o principal elo para manter a banda em atividade. “Banda de rock é isso aí, pelo menos o underground, eu acho: amizade e gostar do que faz”, conta Goma. Já são treze anos nos palcos e no cenário underground. Pensando por esse lado, até que o disco de estreia demorou, mas ele veio, em 2025, com um gosto especial: uma gravação no melhor estilo punk, totalmente ao vivo e com os membros da primeira versão do trio; Anderson Silva, no contrabaixo, e Luis Ludwik, na guitarra.
A banda surgiu “sem querer” – os caras estavam só ensaiando, sem pretensão, quando surgiu a oportunidade de substituir um grupo numa festa – e teve poucos dias para decidir tudo, inclusive o nome. “No ensaio, a gente tocou uma música que se chamava ‘Escravo da Merenda’ e acabou que isso se tornou o nosso nome. Foi daí que surgiu essa coisa toda”, assume Ed, de forma bem-humorada. Abaixo, você acompanha um papo sobre música autoral, festivais, a união da cena underground em Vitória da Conquista e um pequeno, mas válido, disclaimer sobre merendas favoritas na escola (risos).
Como surgiu a banda e esse conceito de ser um “escravo da merenda”?
A banda começou em 2013, especificamente no dia 21 de abril, formada por mim, Ed Goma, na bateria e vocal, Anderson Silva, baixista, e Luis Ludwik, que era o guitarrista. Nós já estávamos no cenário desde 2000, 2001, 2002, por ali. Anderson tinha ido pra São Paulo, mas acabou voltando e nós sempre nos encontrávamos no [bairro] Guarani e no [bairro] Ibirapuera, ali era o núcleo da coisa toda. Ia rolar um show em Poções [cidade vizinha de Vitória da Conquista] e a [banda punk] Cama de Jornal ia tocar, mas uma banda faltou e a gente tava ensaiando aleatoriamente, sem necessariamente ser uma banda ainda. Emanuel “Nem Tosco Todo” [vocalista da Cama de Jornal] falou: “vocês querem tocar no lugar dessa banda?” e nós topamos! A banda não tinha nem nome. No ensaio, a gente tocou uma música que se chamava “Escravo da Merenda” e acabou que isso se tornou o nosso nome. Foi daí que surgiu essa coisa toda.
A banda está em atividade na cena de Vitória da Conquista desde abril de 2013, o que faz com que vocês sejam um dos grupos mais longevos de punk da cidade. Fazendo uma brincadeira e uma alusão à merenda, qual é o “ingrediente” que sustenta a Escravos há tanto tempo?
Amizade. E também despretensão! Hoje, só eu que estou da formação que formou a banda, mas ainda mantive a amizade com o pessoal que saiu. A gente fazia porque gostava, isso era uma razão para se juntar também. Ter tempo, gostar do que faz e contar com pessoas que estejam afim, com o mesmo pensamento… banda de rock é isso aí, pelo menos o underground, eu acho. Amizade e gostar do que faz.
Treze anos não são treze dias, ainda mais sendo um trio punk. Quais memórias você tem ao pensar na história do Escravos da Merenda até aqui?
A Escravos da Merenda, para além das outras bandas que toco, das outras coisas que faço e que vivo, é uma das coisas que ultimamente mais me deu alegria. É algo que gosto muito de fazer, é onde descarrego a arte. É a banda a que estou mais me dedicando. A gente, desde a formação, faz parte desse underground de Vitória da Conquista, e tocamos em algumas coisas marcantes; a Casa do Rock, o Point do Rock, o Agosto de Rock e alguns shows em Poções e Itapetinga também. Demos um giro pela região e tocamos em praticamente quase todos os anos pelo menos uma vez.
As formações foram mudando e você permaneceu como o único membro original da banda. Apesar disso, no primeiro álbum da Escravos, lançado em 2025, Luis Ludwik e Anderson Silva, os dois outros membros da primeira formação, aparecem creditados como intérpretes e compositores. Como foi gravar o disco de estreia ao lado das pessoas que fizeram parte da história da banda desde o início?
As músicas do primeiro álbum são todas parcerias. A maioria é minha e do Luís, e tem algumas do Anderson também. Tinha que ser eles para registrar essa formação, eu acho que é fazer a justiça e ter mais aquela cara da banda mesmo, mostrar como era da forma original, tinha que ser eles, sempre bati nessa tecla. Fechei um ciclo com satisfação. [O disco] não é uma gravação no metrônomo, não é uma gravação músico por músico, foi todo mundo tocando ao vivo, uma gravação de ensaio, só que com qualidade, e foi isso, foi de forma underground e satisfatória.
Hoje, dando continuidade a trajetória da Escravos da Merenda, agora com novos membros – Joanderson Felix, na bateria, e Lázaro Amaral, na guitarra – aquela fome do início para fazer arte continua a mesma? Os meninos trouxeram um “tempero novo” para a merenda?
Sim, eles me salvaram! Joanderson eu conheci na universidade, nós fazíamos o curso de História e ele ia nos rock and roll da vida, me via e a gente falava, já Lázaro conheci em uma outra banda. Eles estão pegando esse bonde andando, mas estão dando uma cara deles, que acaba sendo a pegada de cada um. Ninguém tem a pegada igual, então, de certa forma, dá uma roupagem nova. Percebo também que nas composições já é uma outra pegada. Com a saída dos antigos componentes, você acaba vendo a diferença nas composições que vão surgindo.
Com essa formação, vocês têm aparecido cada vez mais em festivais da cidade, a exemplo do Conquista Punk Rock e o Conquista Alternativa. Qual a sensação de ter o trabalho reconhecido e lembrado para estar nesse circuito das apresentações ao vivo?
Eu nunca saí do palco e da cena. Talvez a novidade seja pros meninos, porque eu sempre estava tocando em mais de uma banda; quando uma não tocava, estava tocando com a outra, tanto nos shows de rock underground, festival ou em barzinhos mesmo. Mas é muito bom tocar. [Teve o] Agosto de Rock [festival independente da cidade, que voltou a realizar uma nova edição, em 2024, após vinte anos de hiato] e que já é a marca daqui da cidade, enfim… só fazendo parte da cena e contribuindo para ela para ser reconhecido pelo público e pelo pessoal do evento. É fazer o que tem que fazer, de coração e com vontade.
Ainda pensando nesse circuito de festivais locais, ao comparar as décadas anteriores, já que você estava lá, houve uma evolução na qualidade e na quantidade desses eventos?
Em quantidade, antigamente, tinha mais shows e mais festivais: o próprio Agosto de Rock, o Babilônia, Rock Vertente, Rock de Subúrbio, Rock In Concert, Noites Fora do Eixo, enfim… tinha muito espaço para fazer isso, podia fazer em estacionamento, no [teatro] Carlos Jehovah, no Centro de Cultura, nas escolas, nas praças e tudo. Hoje, já não se vê essa quantidade de lugares de espaços públicos para fazer shows de rock ou, quando tem, estão fechados, que é o caso do Carlos Jehovah [o teatro, que já foi um dos lugares mais importantes para a Cultura da cidade, está fechado – leia-se: praticamente abandonado pela gestão municipal atual – há pouco mais de cinco anos] e para fazer em outro lugar tem toda uma burocracia, como a questão dos vizinhos e o valor. Mas é isso, hoje tem qualidade, mas não tem quantidade. Antigamente tinha quantidade, mas não tinha tanta qualidade, falo do ponto de vista de instrumental mesmo, de som. Não que aquilo era ruim, mas em questão de qualidade, de tecnologia, de aquisição de um instrumento melhor, de um som melhor, de pessoas mais capacitadas para isso, tanto o músico quanto o produtor, essa é a grande diferença.
E de que modo você enxerga essa união da cena?
Hoje tem a gente, Simple Jeans, Signista, Outra Conduta, Cama de Jornal, Renegados, Mictian, Headless Queen, que tão lançando coisas autorais, e a Dona Iracema, que está mais em destaque e sempre está tocando fora. Pela quantidade, [comparado com] antigamente, hoje tem menos bandas, mas tem muita banda produzindo clipes, músicas, gravando CD e tocando.
Ao anunciar apresentações no Instagram da banda, você costuma dizer a frase “traga a vasilha” para os ouvintes e seguidores. Acredito que, para eles, a hora do show é como a hora da merenda na escola, o momento mais esperado. O que os fãs da Escravos podem esperar para o futuro da banda? Vocês continuam na estrada pro ao vivo ou estão compondo coisas novas?
O cara que colocou isso na cabeça [“traga a sua vasilha”] é o Vitor Quadros [também músico, baixista da banda Princípio Ativo], que sempre falou esse bordão. Não sei se é do carro do sorveteiro, que falava tipo “vai passar o sorveteiro, três bolas de sorvete por um real, traga a vasilha”, mas acho que vem dali e é um bordão que encaixa bem com a banda. Sobre a pergunta, um pessoal do curso de Cinema da Universidade Estadual da Bahia [UESB] entrou em contato com a gente para fazer um mini-documentário sobre a banda. Além desse documentário, vamos tentar gravar o segundo disco com essa formação, não sei quando, mas é o plano. Então é isso; segundo disco, documentário, e talvez um videoclipe, por enquanto.
Depois de falar de música, a pergunta que não podia faltar: qual era sua merenda favorita na escola?
Eu gostava do suco de cajá, do pão com carne moída e do achocolatado com bolacha [ou biscoito?]. A real é que eu gostava de tudo (risos).
Esse do pão com carne… eu sempre estudei em escola pública, e quando esse era o lanche do dia, era coisa de formar fila para pegar (risos)
É, e barrava de repetir, porque senão não dava pra todo mundo. E tem outras que o pessoal dispensava e acabava virando bagunça, começava a jogar a merenda um no outro, era complicado (risos).
– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/
