Em “Eles não podem nos matar até que nos matam”, Hanif Abdurraqib fala de Fall Out Boy, Weeknd, luto, racismo e misoginia

texto de Jorge Wagner

O luto não é exatamente uma questão pra mim. Nunca precisei ser um grande frequentador de velórios. Lembro quando um colega do colégio morreu num acidente de carro durante as férias, mas a gente não era exatamente amigo. Depois teve o Deived, escrito assim mesmo, que morreu com 17 anos, encontrado caído dentro do box do banheiro depois de ter entrado pra tomar banho (cogitaram inalação de gás, uso de drogas e essas coisas, mas, até onde falaram depois, foi só coração mesmo). Caiu e morreu, 17 anos.

Nos últimos anos morreram uns tios. Minha mãe foi fruto da velhice da minha avó, chegou já no limite do jogo, então todos os tios e tias são, na verdade eram porque agora só sobrou minha mãe e uma tia, um tanto mais velhos. Um demenciou, passou uns anos naquele limbo do esquecimento e se foi já em idade avançada. Outra teve câncer. Um terceiro teve um aneurisma ou alguma coisa do tipo. E foi isso.

E teve meu pai. Não posso falar sobre quando perdi meu pai porque não o perdi, eu sei exatamente onde ele ficou depois daquele fim de tarde de quarta-feira. Ou onde ficou o que havia sobrado dele depois de anos se esfarelando. Mas sei onde ele está.

Não é como se a morte em algum momento tivesse me acertado em cheio e me levado a nocaute. Faz parte. Vem e virá pra todos, mas talvez eu só fale assim porque ela nunca foi de fato particularmente traumática por aqui.

Quem não pode falar da mesma forma é Hanif Abdurraqib, poeta, crítico cultural e ensaísta norte-americano, autor de “Eles não podem nos matar até que nos matam” (“They Can’t Kill Us Until They Kill Us”), lançado originalmente em 2019 nos Estados Unidos, e que ganhou edição nacional via Editora Barbante no final de 2025 com tradução de Rogério W. Galindo e Rosiane Correia de Freitas.

A indicação do livro de Hanif chegou até mim justamente quando eu revisava um texto sobre a morte a conta-gotas do Jorge pai, contrastando com a morte repentina de John Gregory Dunne, relatada por sua fiel companheira Joan Didion em “O Ano do Pensamento Mágico“.

Então você quer escrever sobre o luto, Jorge Wagner? Olha aqui alguém que fala disso, e não só, e bem. Toma aí alguém escrevendo sobre fragilidade masculina, vulnerabilidade e sobrevivência em contextos realmente complexos, e não no conforto do sofá da casa que você vive depois de crescer sem luxo, mas também sem nenhuma dificuldade real e marcante!

Aí é covardia, bicho! Se os primeiros textos foram lidos com a concentração de um beagle (e que meu cachorro me desculpe por essa comparação), o cara finalmente me alcançou em “The Weeknd e o futuro do sexo sem amor”. Não enquanto fala do cantor, porque, né, dane-se o Abel, mas quando falou de si mesmo.

“(…) A quilômetros de distância daqui, no meu apartamento em Ohio, meu travesseiro ainda tem fios de cabelo de uma mulher que não dorme na minha cama há duas semanas e que provavelmente não voltará a dormir lá, depois de um ano fazendo isso. Antes de embarcar no voo para cá, puxei um de seus longos cabelos escuros de uma blusa e segurei brevemente contra a luz. Quando cheguei em Seattle, havia um pequeno frasco de esmalte, de uma viagem que fizemos juntos meses atrás. Poucas pessoas encaram o lado de dentro da separação dessa forma. O que é encontrar pedaços de uma pessoa que você sabe que não vai experimentar como um todo novamente. A sensação, quase sempre, é a de montar um mapa que te leva diretamente para o meio do nada”.

E mais pra frente:

“Estou aqui porque uma mulher que amei me disse que eu deveria vir, meses antes de ela deixar um fio de cabelo no meu travesseiro pela última vez, e enquanto corro os olhos pela multidão procurando pela mulher com quem fiz um rápido contato visual, penso no quanto de mim deixei pra trás, para que outras pessoas, com suas próprias desilusões amorosas, encontrassem aos poucos, ao longo de vários meses.”

Com um triste relato tão pessoal sobre uma experiência tão universal, Hanif transforma o que seria uma crítica ok sobre um artista ok em outra coisa, mais profunda, densa como a obra de Abel nunca passou perto de ser.

E melhor fica quanto mais fundo ele se permite ir.

Frases como a que fala do luto como um “grande cabo de guerra” cuja bandeira às vezes vai para o lado que você não gostaria, mas que manter as mãos na corda, mesmo sem puxá-la, eventualmente já se configura como uma vitória, dentre outras, vão se acumulando ao longo das páginas.

Respiros? Não temos. Entre ensaios sobre o luto e a depressão, outros sobre apropriação cultural, racismo, misoginia.

Num momento particularmente emocionante, Hanif transforma relatos de uma série de shows do Fall Out Boy ao longo dos anos em uma bonita despedida para um amigo que já está mais por ali, jogando um patch que pertenceu a esse amigo no meio de um mosh no final de uma apresentação da banda:

“Ninguém decide quando as pessoas que amamos realmente irão embora. Que todos sejamos enterrados do modo que desejamos”.

Você não forja algo assim. Nem o mais dramático dos homens conseguiria transformar pequenas dores em algo dessa magnitude. E eu não tentaria fazer isso nem se estivesse disposto a vestir a fantasia do sujeito devastado que não sou.

Há quem escreva sobre livros como desculpa para falar de si mesmo – eu sou a prova. Há quem escreva sobre música como quem enumera repertórios, lugares e pequenas observações. Hanif, por outro lado, escreve sobre o que sobra do escritor enquanto a música toca ao fundo.

– Jorge Wagner é jornalista, produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell. Lançou em 2023 o álbum “Toda Forma de Adeus“. 

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