entrevista de Guilherme Lage
Quando falamos de underground, estamos falando de botar a mão na massa, equipamento nas costas e vai! Bandas que se dispõem a viver na estrada, mesmo tendo no bolso mais fiapos do que grana e um chão que serve de colchonete em casas de fãs e até estranhos, só têm uma motivação: a vontade de fazer!
Nos últimos anos o Brasil viu um ressurgimento de grupos que tiram do “Faça Você Mesmo” um modo de vida. Manger Cadavre?, Sangue de Bode, Vazio, são nomes que trazem a música extrema para um público cada vez mais faminto por este tipo de som em cada canto do país.
Dentre esses ótimos barulhentos está o DeafKids, uma banda que faz um tipo de música que mescla tudo que há de mais bonito quando o assunto é desgraça sonora: punk, grind, crust, noise. Tudo permeado por paredes de efeitos de pedais indomados e batuques que parecem tocados por alguma entidade sombria que paira por aí, em lugares que não conhecemos.
A música da banda ganhou fãs dos mais ilustres pelo mundo, como os membros do Neurosis (que lançaram o fantástico “An Undying Love For A Burning World” em 2026), que assinaram o Deafkids à Neurot, selo do grupo de Oakland. É pelo Neurot que o Deafkids lança “Cicatrizes do Futuro”. Neste disco, a banda lida, além do comentário social presente em todo trabalho, com as incertezas e como coisas que ainda nem aconteceram podem ser cortantes.
Em conversa com o Scream & Yell, o baterista Mariano de Melo falou sobre o novo disco, além da necessidade de bandas tocarem, não importa como! O músico também falou sobre as parcerias com os brothers de longa data do Test e Petbrick e como as colaborações fazem parte do DNA da banda.
Ouça o disco na integra abaixo
Mariano, ouvi os singles do disco novo e queria falar um pouco sobre o título do álbum “Cicatrizes do Amanhã”, porque me remete a uma coisa de vocês, que costumam trabalhar emoções que não têm nome. Essa questão das “Cicatrizes do Amanhã” é algo que vocês pensam de que o amanhã pode trazer consigo algo a se enfrentar?
É tanto cicatrizes causadas pelo futuro, se a gente pensar na nossa vida pós advento das redes sociais de massa, esse tipo de coisa, a ideia é justamente essa. São tanto cicatrizes que vêm, cicatrizes do futuro, das coisas que estão por vir, quanto as que são causadas pelo futuro. Eu acho que é muito doido, porque, de uma certa forma, o “Configuração do Lamento” (disco de 2016) tratava da herança colonial introjetada na gente, dessa coisa fraturada que é você ser colonizado, ser terceiro mundista, e o “Metaprogramação” (2019) é um pouco sobre isso também, mas mais voltado para as estruturas da mente.
O “Cicatrizes do Futuro” é mais essa coisa da contemporaneidade para a frente, que tem uma complicação causada pela quantidade de informação que a gente recebe à revelia, pela erosão do debate público, pela dependência que a gente tem desse tipo de plataforma pra poder se comunicar, a ponto de esquecer mecanismos que a gente sempre usou. Acho que o disco vai nesse sentido. Teve até o “Manifesto Tecnofascista”, da Palantir (Technologies), que saiu agora (em abril de 2026, com “22 pontos que ‘redefinem’ – ou querem tentar redefinir – o papel da tecnologia na governança global e na guerra”), então acho que o “Cicatrizes do Futuro” é mais nesse sentido mesmo.
Então cada disco vem sempre com um comentário social e humano muito contundente? Sempre analisa uma época, com um “zeitgeist” talvez?
É, acho que tem meio que um fio condutor, nem tanto de ser temático, mas há esse fio condutor que meio que costura as coisas e dá constância.
A música de vocês sempre me causou uma certa inquietude, até de não saber apontar que tipo de som vocês estavam fazendo. Ela vem de lugares muito diversos, é algo que sempre prezaram bastante, certo?
Acho que sim. De uma certa maneira, mesmo quando a banda era D-Beat, Crust assim, acho que a coisa sempre foi ter esse furor punk, mas, ainda mais hoje em dia, expressar essa latinidade furiosa, de ter algumas percussões, da maneira que a música é construída da batida pro resto. Geralmente a batida é o ponto inicial da coisa. Acho que é mais uma metodologia própria nossa do que algum gênero, algo do tipo. É uma coisa que interessa muito a gente, mais do que fazer algum tipo de música específica. É mais seguir um ethos de feitura inspirado nas coisas que a gente gosta, de música do Marrocos, de música latina, ter um furor, uma febrilidade, que acho que molda muito mais a coisa do que um gênero ou outro.
Como você citou, no início a banda era mais D-Beat, mais crust mesmo, muita gente acha o D-Beat até pouco musical, no sentido da forma que a bateria é usada. Isso era uma coisa de tentar trabalhar com essa bagagem vindo do crust punk, tentando deixar mais a cara de vocês?
Sim, porque acho que se trata mais de tratar o D-Beat como um groove. Por exemplo, “As Cicatrizes”, primeiro single que saiu, é um D-Beat eletrônico, com percussões. E tem músicas do “Metaprogramação” que é um D-Beat invertido, então é mais de tratá-lo como um template e aí inovar ou virar de ponta-cabeça. Existem muitas possibilidades aí.
E como é o processo de composição? Porque isso me leva a crer que vocês não tratam a música necessariamente como algo objetivo, ela parece um organismo vivo, que nasce de lugares que a gente não sabe explicar.
Já faz um tempo que virou essa coisa meio tecnorogânica, com beat, mas também com a parte humana tocada junto. Geralmente a gente parte do ritmo e do ritmo a gente vai tentar bolar riffs, esse tipo de coisa ou variações, mas geralmente é muito mais um apelo rítmico que inicia a coisa. Tanto eu quanto o Douglas tocamos percussão, ele toca vários instrumentos, eu também, então facilita porque a gente consegue complementar a ideia um do outro nesse sentido, alguém vem com uma batida e vamos quebrar a cabeça para bolar um baixo, depois alguma camada mais synth, mais decorativas, entre aspas. É assim que a gente se organiza.
Engraçado analisar uma música que parte geralmente de uma percussão, de uma batida, normalmente as músicas surgem da guitarra ou de uma linha vocal. Talvez então seja uma forma de desconstruir uma faixa também.
Tem uma coisa também que vem de música latina, de várias heranças musicais que têm essa coisa que não é tão composicional. A música não é algo tão intenção, tanto que várias dessas músicas nunca vão ser executadas do mesmo jeito. Justamente porque a linha que separa a composição de algo mais aberto é muito tênue, então acho que isso faz com que a gente se diferencie um pouco também.
Você falou sobre a questão de as faixas não serem reproduzidas exatamente como estão no disco e isso sempre me remete a alguma coisa mais lo-fi ou totalmente experimentais, um A Place To Bury Strangers da vida, que você nunca sabe como vai ser o show dos caras. Tem essa questão de explosão no palco também, de ser algo que vai acontecer ali na hora.
Como a gente toca em cima de beat hoje em dia, acaba virando uma coisa, de certa maneira, mais ao vivo ainda. Mesmo tocando em cima do beat eletrônico, parece que a coisa ganha um adicional de organicidade.
E vocês, por terem vindo desse universo punk, DIY, eu notei nesses discos colaborativos que vocês fizeram com o Test e o Petbrick, que vem de uma coisa bem punk de coletivo, essa herança até de tape trading. Ainda existe isso no trabalho de vocês?
Acredito que sim, porque, por exemplo, com o Test a gente já tem umas oito tours juntos, já deve ter feito mais de 100 shows juntos facilmente. Acredito que também tem uma coisa de se estruturar de uma outra maneira, de não aguardar tanto, ficar à disposição ou à mercê de festival ou de crescimento cibernético, esse tipo de coisa.
A gente é uma banda que é muito maior no mundo real do que num Instagram da vida, no sentido do quanto a gente já tocou na frente das pessoas, então acho que vem muito disso assim. Essas bandas começaram em 2010, então tem uma coisa de ser dum universo onde essa era a maneira de se estruturar, então tem essa coisa de ousar também, buscar. Não se conformar tanto, buscar ser visto, buscar estar na frente das pessoas tocando.
E vocês estão com a Neurot desde 2017 e assim, muita gente fala hoje em dia da dificuldade que é de trabalhar com um selo e sem um selo também. O que mudou desde a época que vocês assinaram com a Neurot? O que se tornou mais profissional?
Acredito que ajuda muito, principalmente, a estruturar, por exemplo, no caso de um álbum. Por exemplo, foi o Dave que entrou em contato com (Luiz) Mazetto (para agilizar essa entrevista). Tem um PR (Relações Públicas) mínimo ali (que ajuda muito!). Mas acho que o que mais mudou foi que a gente já tinha ido pra Europa algumas vezes, mas assim que a gente entrou pra Neurot o esquema das tours na Europa melhorou um pouco também, de ir a outros lugares, tocar no (festival) Roadburn, essas coisas. Azeitou um pouco mais.
Sinto que no Brasil a coisa não se alterou tanto porque a Neurot não tem essa capilaridade aqui, não é um selo com presença no Brasil, mas é muito louco estar no selo dos caras, principalmente porque é uma coisa que é totalmente punk DIY também, não tem nada que impeça a gente de fazer nada. Não tem nada do tipo de “um mínimo de x discos”, nada de adiantamento, nada assim. É uma galera que acredita e quer ver a coisa acontecer.
Acho que deu um gás, até porque quando rolou a gente tinha acabado de voltar da Europa. Rolou uma confluência do destino também, porque eles estavam vindo pra cá, aí a gente abriu o show e meio que culminou. Isso foi muito bom também, porque meio que já solidificou muita coisa, porque a gente fechou com os caras, depois fizemos cinco datas na Europa com eles, uma tour de 10 shows na América do Norte, Estados Unidos e Canadá.
E é muito louco, porque eles têm um rolê muito familiar de fazer as coisas, todo mundo é muito próximo, então acho que isso ajudou mais nesse sentido, tanto a estrutura deles de PR, quanto obviamente registrar tudo em vinil, ter o mínimo de distribuição na Europa e, principalmente, de grosso modo, dar esse salto na visibilidade da banda.
E como você enxerga o Brasil? Porque vejo que de uns anos pra cá se tornou mais a comum as bandas fazerem turnê, mas não necessariamente mudou a estrutura das turnês. Às vezes continua sendo uma coisa até artesanal. A banda continua lutando pra ir pra estrada. Como você enxerga isso pra vocês e as bandas com quem vocês excursionam? Melhorou? Tem muito o que melhorar?
Tem muito o que melhorar, porque eu acho que o lance do Brasil é justamente a falta desse rolê artesanal, no sentido que tem certas coisas que, por exemplo – claro que a questão de classe, divisão internacional do trabalho -, na Europa tem aquela coisa que o lugar vai ter, pelo menos, os PAs ali, o técnico de som, e a banda vai viajar com um equipamento. Isso dá uma azeitada pra que a coisa aconteça, entende?
E aqui sinto que muita gente não faz ideia de como estruturar uma tour, não tem coragem de meter o louco assim. Inclusive de meter o louco no sentido: “mano, vou fazer isso, no primeiro momento se a coisa empata, a gente toca pra pessoas, é visto, a coisa acontece”. É uma coisa importante de fazer, sabe? De conseguir vencer essa letargia, de não ficar dependente de grandes festivais, que acabam dominando a narrativa.
Por exemplo, o caso do Sesc. É sempre muito bom tocar num Sesc, mas são as estruturas que acabam meio que sustentando o rolê, de uma certa maneira. O João, do Test, eles têm uma coisa muito visionária de fazer tour, muitas vezes fazer tour em lugares diferentes. A gente colabora faz muito tempo e eu fui em uma tour tocando percussão e sintetizador com eles no interior de Minas. Muitas cidades ali nunca tinham rolado um show durante a semana e a galera ficou “pô, interessante!”. Entende? É uma coisa de você até fazer um esforço educacional muitas vezes, de as pessoas perceberem que, pô, ter duas bandas por mês passando ali na sua cidade é uma coisa boa, uma coisa interessante, você aquecer a prática ali, porque as pessoas vão querer montar suas bandas e eu acho que é disso que sinto falta no Brasil. Essa estrutura azeitada, sabe?
Muitas vezes essa estrutura depende de pessoas que estavam fazendo isso em um outro momento em que isso era mais forte, nos 2000, 2010 da vida. Daí sinto que muitas coisas (mudaram), também pela pandemia, de 2015, 2016 pra cá, em termos do que significa ter uma banda, presença digital. Mas, por exemplo, o João e o Test mesmo, várias bandas que agora estão, inclusive muito ativas, por exemplo, o Budang, foi uma banda que o João viu e notou que tinha uma coisa diferente no carisma, colocou eles pra fazer tour. Eles tomaram gosto pela coisa, começaram a fazer tour.
Então tem uma coisa de tentar embaratecer o máximo possível a tour pra que ela dê algum retorno, percebe? É mais ou menos isso que acho que é a noção. Se a gente está em um contexto que é de precariedade, então pra fazer um negócio desse a gente vai ter que dar nossos pulos, inclusive em termos de estruturação mesmo. Acho que é meio por aí.
E agora com o lançamento do disco, vocês estão com uma turnê planejada? Como vai ser? Europa e Brasil já engatilhados?
Tem alguns shows. A gente vai tocar no Rio uma semana antes do lançamento. Já está marcado na Europa no final do ano e também tem algumas outras possibilidades que prefiro não falar pra não agourar, sabe? (risos). Mas existem possibilidades aí de a gente ir pra lugares que a gente não foi ainda.
E vamos tentar fazer alguns rolês aqui, tocar mais. A gente está muito curioso pra ver como vai ser a repercussão, porque os discos do Deafkids geralmente são discos mais de experiência. Esse disco é nove músicas, músicas mesmo! Nove beats, e é o disco mais posado que a gente fez, de uma certa maneira. Posado para os padrões do Deafkids, porque sempre foi um bagulho de maluco. Tem umas três, quatro músicas ali, mais musicais e tem os seus momentos de tensão. Então estou muito curioso pra ver como as pessoas vão reagir.
E isso é realmente verdade! Me corrija se eu estiver errado, mas quando eu escutava os outros discos, sempre notei umas coisas um pouco levadas pro noise e percebi isso vindo do grindcore norte-americano e europeu, de uns 15 anos pra cá, que está rolando essa junção bem forte com o eletrônico. Então estou bem curioso pra ouvir, como você falou: nove músicas, músicas!
E está bem latino também, no sentindo de que a gente foi bem fundo em colocar padrões interessantes de percussão ali. Porque tem músicas que é um beat eletrônico, bateria, guitarra. Tem música que é beat eletrônico e eu estou tocando percussão, então tem um lado bom no Deafkids, que a gente chegou numa certa maturidade, que tem vários módulos. Anteriormente era uma banda clássica com baixo, guitarra e bateria. Hoje em dia é isso: tem vários momentos em que a música é o beat e é a gente tocando por cima. Isso nos dá várias possibilidades de várias formas, vários templates para trabalhar, e isso é bom.
Talvez seja algo que abra até uma boa porta de variação, porque há bandas que fazem isso: um set acústico, um set elétrico, dá pra variar em diversos modelos em uma turnê.
Sim, e ao mesmo tempo, dá pra tocar timbres eletrônicos, tocar uma chapa de metal, por exemplo. Dá pra acrescentar muito timbre, dá pra soar de uma maneira que nenhuma banda standart conseguiria soar, e isso me agrada muito, por isso estou muito curioso pra ver como as pessoas vão reagir (risos).
E como é a recepção de um público europeu ou norte-americano a uma banda que traz essa capilaridade tão grande de influências e que, principalmente, introduz tanta música latina?
Acho que a galera gosta muito. No Brasil há uma coisa atual, que é o seguinte: principalmente no rolê que a gente está, a galera não dá tanto valor pra essas formas de música. Música percussiva, esse tipo de coisa, mesmo que a galera eventualmente goste, a galera quer banda mesmo. Mas também tem o lance da proximidade, tipo assim, santo de casa não faz milagre.
Na gringa tem essa coisa tanto da galera estar procurando algo que seja autêntico, que carregue uma coisa que eles nunca vão ter, quanto essa combinação em específico. Na Europa e nos Estados Unidos também, várias dessas formas de música são vanguarda de música louca que existem aí há 30, 40 anos, e se misturaram com outras vanguardas de música louca, como música concreta, como música clássica do norte da Índia, entende?
Então é música de vanguarda. Então a galera vai ter uma bagagem, mesmo que não direta, pra reconhecer que aquilo ali é um tipo de música autêntica que vem formado por outras coisas. Aí eu sinto que, não à toa, inclusive, a carreira do Deafkids na Europa é algo bem longevo. A gente foi em 2014 pela primeira vez e de lá pra cá, acho que a gente foi nove vezes.
Inclusive fomos algumas vezes sem material novo, o que é muito raro lá, porque como está todo mundo circulando, chega uma hora que se você não tem nada de novo pra apresentar, mesmo que você faça outro show, as pessoas vão intuir que o show vai ser do material que você já tem, então você não vai conseguir marcar show e muita coisa.
E, nesse sentido, isso pra mim mostra até uma boa vontade, um interesse que a galera tem no que o Deafkids faz, mesmo que não tivesse nada novo do Deafkids, porque nesse ínterim saiu o (dsco com o) Deafbrick. O “Metaprogramação” é o último disco do Deafkids mesmo, e é de 2019, gravado em 2018.
Então estou curioso pra ver como as pessoas vão reagir, porque o Deafkids tem essas coisas que são muito loucas nas parcerias, mas que é uma sina também, porque muitas vezes a galera acaba vendo como glutamato monossódico (risos), como vinagrete, uma parada que não é foda por si só, é foda junto. E aí eu quero ver como as pessoas vão reagir ao material novo do Deafkids nesse momento.

– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!
