texto de Heloísa Lisboa
“Alpha”, terceiro longa-metragem de Julia Ducournau, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 4, antecedido por uma ovação de 11 minutos em Cannes – local em que a diretora já colheu uma Palma de Ouro, com “Titane”, em 2021.
Este novo filme se desenrola a partir de uma festa em que Alpha (Mélissa Boros), uma menina de 13 anos, ganha uma tatuagem da letra “A” em seu braço feita com uma agulha não esterilizada. Ao chegar em casa, a mãe (Golshifteh Farahani), cujo nome não é mencionado em momento algum, exibe um certo distanciamento, mas demonstra preocupação com a possibilidade de que a filha tenha contraído uma doença durante a noite de descuido com outros adolescentes. Não demora para Ducournau revelar que a protagonista enfrenta problemas comuns para alguém da sua idade, como o bullying e as descobertas sexuais, sugerindo que a trama se aproxima de um coming-of-age.
É quando Amin (Tahar Rahim), tio de Alpha, surge em cena que uma nova questão central se apresenta. Viciado em heroína, ele possui uma doença que, conforme avança sobre o organismo, transforma seus portadores em estátuas de uma matéria muito semelhante ao mármore. Eles ainda demonstram um enfraquecimento do corpo e emitem uma poeira branca ao tossir. Flashbacks mostram que a mãe esteve na linha de frente, como médica, durante o primeiro surto do vírus misterioso. Ao contrário de outros colegas, uma enfermeira (Emma Mackey) e ela permanecem sem medo e sem EPIs ao lado dos pacientes contaminados — o que é justificado pela sua trajetória pesquisando a doença de forma autônoma para encontrar tratamentos para o irmão e, consequentemente, descobrir formas de transmissão.

“Alpha” faz — mostrando como o abuso de drogas levou Amin à contaminação e ao dar uma atenção especial ao caso do namorado de um professor homossexual da adolescente — uma alusão ao HIV e a todo o preconceito enfrentado pelos seus portadores, principalmente durante os anos 1980 e 1990. As escolhas de Ducournau, porém, não deixam claro se ela mesma foi capaz de eliminar os estigmas sobre o tema em seu próprio pensamento. Outros fatores questionáveis pipocam aqui e ali, como a decisão de dar à mãe um cabelo cacheado no passado — como uma textura que saiu de moda — e o aspecto de mármore preto para pessoas de pele negra.
No terço final do filme, a rebeldia de Alpha e a de Amin se confundem, enquanto uma nova questão, dessa vez familiar, dá as caras como um dos únicos plot twists convincentes do roteiro. A mãe percorre uma jornada exaustiva tentando cuidar de um irmão que, mesmo sendo claro ao dizer que escolhe a morte, é constantemente ressuscitado; e de uma filha que, paradoxalmente, parece negligenciada.
“Alpha” é, portanto, um coming-of-age, um olhar inédito sobre o HIV, mais uma narrativa sobre as complexidades de uma família, sobre o medo epidêmico, ou seria sobre feminismo? Vale mencionar ainda que a personagem-título tem origem árabe e, em certos momentos, sua avó se refere ao vírus como Vento Rubro, fazendo referência ao siroco, um vento avermelhado e quente que atravessa países do norte da África. Mas, dando um passo para trás, como isso dialoga com esse apanhado de informações que Ducournau reúne e amarra com uma trilha sonora com faixas de Tame Impala e Nick Cave, por exemplo?
A diretora já tem uma assinatura associada ao body horror e sua habilidade de chocar os espectadores por meio de alegorias. No entanto, em “Alpha”, ela parece ter combinado ao menos três roteiros diferentes, como quem precisa executar suas ideias com pressa. As atuações de Boros, Farahani e Rahim — que perdeu cerca de 20 kg para interpretar Amin — tentam, ao máximo, salvar o drama, mas não o sustentam. Obra-prima incompreendida para uns e trabalho confuso para outros, o filme poderia ter se saído melhor se Ducournau simplesmente aceitasse que não é preciso usar o absurdo pelo absurdo para mostrar que é nos sentimentos mais banais que moram boas histórias e críticas profundas.
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– Heloísa Lisboa é jornalista com passagens pela Folha de S.Paulo e Rolling Stone Brasil. Leia outros textos de Heloisa aqui.
