entrevista de João Paulo Barreto
Em sua décima-quinta edição, o Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba exibe um amplo leque de produções oriundas de diversas partes do mundo. A seleção traz mais 70 filmes que serão exibidos em diversos locais da capital paranaense, dentre eles o notório Teatro Ópera de Arame, que, com capacidade para um público de 1500 pessoas, recebeu a estreia de “Yellow Cake”, filme do cineasta Tiago Melo.
Apresentando sua trama dramática com tons de sátira, “Yellow Cake” é protagonizado por Rejane Faria (“Marte Um”) no papel de uma física nuclear parte de uma equipe de cientistas que faz experimentos com urânio na tentativa de erradicar o mosquito aedes aegypti, transmissor da dengue. No elenco, Tânia Maria (“O Agente Secreto”) segue surpreendendo com seu carisma.
Com uma seleção competitiva focada em obras brasileiras e estrangeiras, o Olhar de Cinema apresenta nessa edição a estreia de oito filmes longas metragens, dentre eles o baiano “Reparação”, primeiro longa solo do diretor Marcus Curvelo (em seu longa de estreia, “Eu, Empresa”, de 2021, ele dividia a direção com Leon Sampaio). Experiente diretor de curtas que, em sua maioria, possuem um apelo cômico, além de uma mordaz crítica social, com “Reparação”, Curvelo volta sua lente para uma abordagem pessoal acerca da morte de seus pais.
Outra presença marcante no festival é a estreia nacional de “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, produção cearence que passou pelo festival de Belém em janeiro desse ano. Dirigido por Janaína Marques e protagonizado por Verônica Cavalcanti e Luciana Souza, o filme aborda um marcante reencontro mental entre mãe e filha em uma reconciliação dramática de traumas do passado que envolvem luta contra feminicídio e busca por saúde mental.
O Scream & Yell conversou com Antônio Gonçalves Jr., diretor-geral do Olhar de Cinema, sobre a celebração de chegar a quinze edições do evento, bem como sobre os desafios e dificuldades para tornar concreto o festival que acontece em Curitiba desde 2012. Confira!

Quinze edições do Olhar de Cinema. Um marco importante. Ao observar essa trajetória, dá para avaliar as dificuldades de produção como algo que foi ficando menos complicado no decorrer dos anos?
Infelizmente, é sempre o mesmo tipo de dificuldade, sabe? Quando começamos, em 2012, eu lembro até hoje. A gente tinha muito dessa uma ideia de que, após fazer o primeiro e fazermos umas quatro edições, começaríamos a ter uma coisa um pouco mais tranquila. Aí depois falávamos que quando chegássemos em dez edições, seria mais tranquilo. E até hoje temos a principal dificuldade que é, realmente, a questão de financiar um festival que vem crescendo de uma maneira muito natural e espontânea. E temos que atender essa expectativa do público. Até para não criar problemas de ter um festival minúsculo para um público gigante que cresce ano a ano. Estamos muito preocupados com isso. Do festival também crescer na mesma medida que o interesse no festival cresce. Por exemplo, a abertura no Opera de Arame, um local com capacidade para 1.600 pessoas. No começo, fazíamos a abertura em uma sala com capacidade para 200 pessoas. O festival cresceu e tivemos que crescer juntamente para poder acomodar um público cada vez maior dentro desses limites. Mas o desafio continua sempre o mesmo. Porque o público cresce, o interesse cresce, a relevância do festival cresce e o orçamento não acompanha nem um pouco esse crescimento. Então, infelizmente, a dificuldade do primeiro ano com relação a essa questão é a mesma que temos agora no 15º ano.
Com um foco curatorial tanto em clássicos, quando em produções contemporâneas, o festival apresenta uma seleção bem enxuta, apresentando curtas e longas. Como foi esse processo?
Você resumiu bem o que a gente quer e sempre quis com o festival, que é ter uma programação enxuta. Ou seja, não é um festival que vai exibir 200 a 300 filmes. Longe disso. Não temos interesse nenhum nessa quantidade de filmes. Gosto de ter poucos filmes, mas que a gente consiga dar uma atenção especial para cada um deles. Ou seja, todos eles, exceto o de abertura e de encerramento, são exibidos duas vezes. Todos eles têm um cuidado de ter uma de suas duas sessões em um horário nobre. Um cuidado de programar esses filmes de forma que as pessoas consigam assisti-los e que eles sejam acolhidos no festival da melhor maneira. Falo tanto dos filmes contemporâneos quanto dos filmes clássicos. Com todos eles, o público vai ter sempre uma sessão com um horário legal. Então, se a gente trabalhasse com uma quantidade de 200 e 300 filmes, jamais conseguiria dar essa atenção especial. Hoje, fazemos uma customização para cada um deles. E, ao mesmo tempo, colocamos o desafio de, mesmo com poucos filmes, representar com essa seleção um pouco da história. De respeitar os grandes clássicos. De trazer realizadores que admiramos. Realizadores que marcaram com seu olhar, com sua proposta cinematográfica, movimentos e momentos da história do cinema. Então, as mostras são divididas com esse intuito. De ter filmes que representam várias épocas. Claro, tem os filmes contemporâneos nas mostras competitivas. Temos a mostra local Mirada Paranaense. Temos a mostra Pequenos Olhares, que é voltada para as crianças, que tem muito um papel de formação, de levar as crianças para o cinema para elas verem, também, são feitos filmes fora de Hollywood, que tem outros tipos de cinemas que elas podem ver, se identificar e se divertir. Trazemos muitos filmes brasileiros para essa sessão, inclusive. Há, também, a sessão de clássicos com as retrospectivas, que esse ano será com filme do Andrzej Wajda. Então, tentamos nesses 80 filmes, é muito desafiador isso, dar conta de trazer um pouco de tudo. Temos muito esse respeito com a história do cinema, porque sabemos que estamos aqui graças a várias pessoas que fizeram esse cinema possível. E ao mesmo tempo temos as mostras contemporâneas valorizando o que está sendo feito hoje e jogando luz em cima de vários filmes que se não tivesse aqui no Olhar de Cinema, às vezes até acabariam passando meio despercebido dentro do cenário das estreias. Com tantas estreias, pode ficar disperso e é muito difícil conseguir salas de cinema para estrear. Então, tentamos jogar luz sobre cineastas nos quais acreditamos muito no trabalho que essas pessoas vêm desenvolvendo ou que começaram a desenvolver agora.
Sem contar o fato de que o Olhar de Cinema valoriza muito a produção de curtas, com exibição e mostras competitivas do formato.
Sim, verdade. A gente veio do curta. Eu sou produtor de filmes desde 2007. A produtora Graça Filmes, que produz o Olhar de Cinema desde 2012, foi fundada em 2007. Começamos com o curta, e jamais conseguiríamos deixar de lado essa nossa própria história. Se não houvessem curtas no Olhar de Cinema, não faria sentido, porque surgimos do curta e acreditamos muito na importância do formato dentro desse ecossistema do cinema. Ele exerce papel fundamental na entrada de muita gente no audiovisual. E a entrada da grande maioria das pessoas no cinema é através dos curtas-metragens. Acreditamos muito no curta-metragem como uma maior possibilidade de invenção de linguagem, de busca, de vanguarda, muito maior do que em um longa, que tem uma estrutura muito mais rígida. O curta-metragem pode ser uma coisa de apenas cinco minutos e genial. Não tem essas amarras um pouco mais comerciais e narrativas que o longa tem. Por isso, gostamos muito de trazer os curta-metragistas por conta disso. E também porque conhecemos muita gente, né? Muitos talentos são revelados a a partir de curtas. E nesses quinze anos, várias pessoas que passaram por aqui com curtas, hoje possuem longas metragens. Isso nos deixa muito felizes. É muito legal por fazer parte dessa possibilidade de podermos acompanhar alguns dessas pessoas que conhecemos ali no primeiro curta metragem e acabam chegando a longas metragens em suas carreiras
Inclusive, dessa leva de diretores que passaram com curtas pelo Olhar e agora chegam com longa, aqui da Bahia, temos a presença de Marcus Curvelo com Reparação, seu primeiro longa dirigido individualmente (Eu, Empresa, longa de 2021, tem co-direção de Leon Sampaio). Sim, Marcus é um desses casos que estava aqui com curta-metragem em anos anteriores e, agora, está vindo com um longa-metragem. Marcus é um cara que a gente acompanha já há um bom tempo, desde os curtas. Exibimos aqui o curta dele Garotos Ingleses (2022) em sua estreia. É um cineasta que admiramos muito pelas propostas que ele traz. É sempre tudo muito inventivo, tudo muito novo. E o longa-metragem que ele traz agora, também. Reparação segue o mesmo caminho. E também traz uma coisa muito pessoal. No Garotos Ingleses já tinha um pouco essa coisa mais pessoal, mas quase como uma caricatura. Agora, o Marcus Curvelo já vai para um lado mais pesado, porque é uma coisa muito pessoal dele com a relação dele com o pai e com a mãe. Mas tem uma abordagem que você ainda não tinha visto nada parecido com isso. E isso encanta bastante na nossa comissão de curadoria. Ver um filme e de ter esse impacto, esse frescor que traz uma ousadia. Reparação tem um grau de ousadia bem grande na sua concepção. Então, é um exemplo desse de realizadores que acompanhamos e admiramos, e acaba que eles estreiam os seus longa aqui.
E esse ano o Olhar apresenta a segunda edição do MECI – Mercado do Cinema Independente. Poderia falar um pouco sobre essa iniciativa?
Para nós, era até uma demanda natural que foi se criando dentro do festival para termos esses espaço. Porque trazemos uma programação e uma curadoria diferentes, e foi por isso que conseguimos nos consolidar de uma maneira até rápida dentro dessa quantidade de outros festivais super legais e que já possuem mais de cinquenta anos. Acabou que entendemos que havia uma demanda de conectar esses agentes que fazem esses filme. Que fazem parte desse ecossistema. Não só a feitura do filme, mas também de toda a questão de distribuição, exibição, plataformas, canais, financiadores e tudo isso. Começamos a entender que havia essa demanda latente. O MECI tem esse formato mais de conferência e todo mundo que tem interesse pode participar. Criamos o MECI com um foco em cinema, exclusivamente. E em cinema independente, que é o que a gente exibe. Então, não faria sentido fazer um evento de mercado que não dialogasse com o festival. O MECI só surge por conta do festival. Para tentar ajudar e contribuir na conexão entre os agentes que fazem parte desse ecossistema do cinema independente.
– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.
