entrevista de Bruno Lisboa
João K. é guitarrista, produtor e uma das mentes inquietas por trás da banda Test e, também, do projeto solo Kombi, pelo qual ele lançou o primeiro álbum, “Alimento a Dor”, em julho. Trata-se de uma investigação sonora extrema centrada na experimentação com drones, ruídos, guitarras processadas e sintetizadores que criam paisagens sonoras densas, hipnóticas e imprevisíveis cuja proposta é explorar os limites da percepção sonora, utilizando o espaço como extensão da performance.
Gravado de forma lo-fi, com equipamentos limitados e sem preocupações técnicas, “Alimento a Dor” é fruto de um período de isolamento e fragilidade emocional. Com guitarras saturadas, batidas disformes, texturas industriais e vozes soterradas, o disco mergulha no noise, no rock industrial e na ambiência soturna buscando criar uma obra inquietante. Como o título entrega, “Alimento a Dor” soa como um grito contido, feito de ruído, camadas e saturação. Há uma busca evidente por desconforto e não por beleza.
Nesta entrevista, feita por e-mail, João Kombi fala sobre sua relação com o ruído e o lo-fi, ignora questões filosóficas sobre o som que trabalha (“É um estilo musical normal, assim como jazz, metal, samba” / “Eu gostaria que fosse algo tão profundo, mas não é. São apenas ideias musicais”) e avisa que até gostaria, mas não sabe “fazer música feliz”: Ele ainda aproveita para dizer que é ridículo e patético ver “bandas e artistas reclamando de como as coisas são e fazendo exatamente as mesmas coisas que todo mundo faz”.
Ouça o disco “Alimento a Dor” no Bandcamp e confira a conversa completa abaixo.

Que papel você enxerga para esse incômodo estético na escuta hoje, num mundo anestesiado por algoritmos e fórmulas prontas?
Na verdade não penso muito nisso, tudo que crio e faço não é pensando sobre alcance ou como atingir as pessoas. O que aconteceu nesse momento é que esse estilo de música tem estado cada vez mais presente na minha vida
Ando lendo “Semiótica do Fim”, de Alessandro Sbordoni, e ele fala sobre a arte contemporânea como sintoma da falência de sentido no capitalismo tardio. O ruído, nesse cenário, vira símbolo do excesso e da falência da linguagem. Você enxerga o noise e a saturação que domina o disco como uma recusa consciente da comunicabilidade tradicional?
Eu enxergo, na verdade, como um estilo musical normal, assim como jazz, metal, samba e dentro disso também existe o tradicional. São muitos anos e muitos artistas dentro desse segmento.
A gravação lo-fi, os recursos limitados, a não preocupação técnica — tudo isso parece reafirmar uma posição de enfrentamento ao “polimento” das produções musicais contemporâneas. Foi um gesto político ou uma consequência natural do momento em que o disco foi feito?
Não foi proposital, mas é um caminho que venho seguindo desde sempre. A falta de recurso faz a gente seguir um caminho e fazer um som pasteurizado, definitivamente, não está nos meus planos.
O título do álbum carrega um caráter existencial — “Alimento a Dor”. Em que medida esse trabalho dialoga com sua própria fragilidade emocional e subjetiva, e como isso se traduz na construção das texturas e ambiências do disco?
Eu não sei fazer música feliz, até gostaria, mas quando estou compondo é isso que sai, a relação com as palavras vem depois, nunca foi o principal pra mim.
Assisti sua performance no escritório da Quente em BH. A solidão em cena, com guitarra, voz e pedais, parece amplificar esse estado limítrofe entre o corpo e a máquina. Como você enxerga essa relação na sua música: o humano e o mecânico se fundindo, se opondo?
São ferramentas, mas tento não ser escravo delas pra realizar esse trabalho, se depender 100% de determinado equipamento é quase impossível levar um projeto adiante, tem que ser bem flexível nesse ponto pra fazer a parada rolar.
Há uma tensão clara entre introspecção e brutalidade sonora no disco. Você sente que há uma busca por tornar o íntimo algo coletivo — como se o ruído fosse uma forma de partilha da dor?
Eu gostaria que fosse algo tão profundo, mas não é. São apenas ideias musicais, pra mim o que eu estou fazendo é simplesmente música.
A Test sempre foi um projeto de embate direto — guerrilha urbana sonora. O trabalho solo aponta para um outro tipo de enfrentamento, talvez mais subjetivo e existencial. O que esse novo percurso te revelou como artista?
Acho que é só uma maneira que encontrei pra fazer algo extremo e sozinho, não quer dizer que esse projeto vai continuar existindo com essa mesma sonoridade no futuro. Por enquanto a ideia é fazer algo que soe extremo e melódico.
Creio que arte, para ter algum impacto real hoje, precisa resistir ao “regime do espetáculo” e ao consumo rápido. Como você lida com essa contradição: criar uma obra ruidosa, dissonante e reflexiva num tempo em que tudo pede atenção instantânea e descartável?
Isso de seguir determinadas regras impostas pelo mercado eu nunca acreditei. É ridículo, patético ver bandas e artistas reclamando de como as coisas são e fazendo exatamente as mesmas coisas que todo mundo faz.
A escolha pelo Bandcamp como única plataforma para o disco carrega uma recusa às grandes plataformas de streaming? Há também aí uma ética do fazer — uma crítica ao modelo de escoamento musical vigente?
Nem Bandcamp é perfeito, mas comparado com o que temos por ai, é a menos pior. Não sinto vontade de ver minhas coisas em plataformas como Spotify, não só porque exploram os artistas, mas porque dão a letra de como todos tem que se comportar. É muito comum ver artistas com discurso político com músicas nessas plataformas e fazendo de tudo pra seguir as tendências.
Por fim, sua inquietação como artista sempre foi evidente — seja na Test ou agora solo. “Alimento a Dor” parece ecoar uma necessidade de reconstrução pessoal através da destruição sonora. O que vem depois desse processo?
A vontade é parar com tudo.

– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014. A foto que abre o texto é de Victória Dorillêo / Divulgação
