entrevista de Leonardo Vinhas
E se o Azymuth trombasse o Khruangbin pra uma jam? Não foi exatamente esse o insight que os três integrantes da paranaense Urupê tiveram quando decidiram montar uma banda. Mas não estavam exatamente distantes disso.
Hugo Ubaldo (guitarra) e Luana Santana (bateria) já eram parceiros de vida e de outra banda (43duo), mas queriam explorar sonoridades e estéticas que não cabiam no seu projeto original. Chamaram a amiga baixista Natália Gimenes e se permitiram aventuras por caminhos menos óbvios, inspirados por heróis nacionais do passado (Azymuth, Hermeto, A Cor do Som) e referências gringas do presente (Khruangbin, Yin Yin, Kokoroko e, principalmente, Tommy Guerrero), e chegar a um caminho próprio, na clássica premissa ariana (de Ariano Suassuna, óbvio) de usar o regional para falar com alcance global.
E assim chegamos ao Urupê, uma banda de grooves psicodélicos fortemente abrasileirados que dispensa palavras para falar à mente e à cintura de quem quiser sujar os pés com o barro de Paranavaí enquanto masca uma microdose de cogumelos mágicos (ou só se deixar conduzir pela música). O primeiro álbum, que leva o nome da banda, foi lançado no começo de maio.
Apesar de nomes de inspiração mais jazzística entre as influências, a banda tem uma preocupação concreta em construir uma estrutura de canção para seus temas. Tem, também, uma perceptível influência roqueira (especialmente em “Conserto do Cais”), talvez o elo em comum a todos os três integrantes. Mas, via de regra, o Urupê é a soma de referências próprias em uma música coesa e entrosada, que rendeu um dos discos mais agradáveis desse 2026 até o momento.
Para entender a gênese disso, o Scream & Yell botou os três responsáveis por essa belezinha na mesma videoconferência, e o resultado você lê a seguir.
Hugo e Luana, da última vez que conversamos, vocês estavam bem focados em divulgar o 43duo, consolidar a banda com turnês, etc. Pelo que falamos, imagino que vão tentar fazer o mesmo com o Urupê. Como fica dividir esses dois projetos que, em tese, ocupam o mesmo espaço criativo e artístico? Como é sustentar isso em paralelo?
Luana: Na verdade, tem sido muito positivo. Começar o Urupê já com a bagagem do 43duo ajuda bastante. No 43, tudo foi muito na base de tentativa e erro, e agora a gente já chega mais preparado, mais assertivo. Acho que existe espaço na nossa vida para dividir esses dois projetos. E também é uma forma interessante de circular mais — tanto fora quanto dentro da nossa própria cena. A gente já tem uma dinâmica de troca com o 43duo, de tocar em lugares e trazer bandas para tocar com a gente. Agora conseguimos inserir também outro projeto nosso nesse circuito.
Hugo: Esse projeto também nasce de um interesse antigo. Eu já tinha várias composições instrumentais, coisas que não cabiam no 43, especialmente nos processos do segundo e terceiro discos. Eram ideias que surgiam a partir de exercícios de composição — criar a melodia primeiro e depois tentar encaixar uma letra. Só que algumas dessas músicas pediam outro caminho. A gente sempre teve apreço por música instrumental e comentava: “Quem sabe um dia a gente não faz um projeto assim?”. Além disso, a Lu já toca com a Natália há bastante tempo, a gente é amigo e fã do trabalho dela. Então, tudo acabou se encaixando naturalmente. O que passa a existir agora é um desafio prático: antes éramos só eu e a Lu, então era fácil sair e tocar. Agora são três pessoas, três agendas. Mas isso também é um aprendizado. E como a Nat também compõe, o processo ganhou um outro nível de troca.
E, Natália, no seu caso também é um projeto paralelo? Eu vi você como integrante da Little B and The Mojo Brothers…
Natália: Não. Eu saí da banda há mais de dois anos, mais ou menos na mesma época em que recebi o convite do Hugo e da Lu para o Urupê.
Então o show do Paraíso do Rock 2023 foi um dos últimos, imagino.
Natália: Foi. Acho que foi o penúltimo. Hoje, o Urupê é meu projeto principal — é onde eu componho, trabalho, me desenvolvo e me divirto. Paralelamente, participo de outros trabalhos: toco com a Leffs há quatro anos, faço parte da banda Amigas do Orkut (nota: banda cover com repertório pop dos anos 2000, da qual Luana também faz parte), e também trabalho em eventos como casamentos e aniversários. Mas meu projeto autoral mesmo é o Urupê. Nos outros, atuo como intérprete ou arranjadora.
Uma coisa que me chamou atenção no som de vocês — especialmente em faixas como “Conserto do Cais” e “Urupê” — é essa mistura entre linguagens. Eu senti algo entre referências mais consolidadas do jazz rock brasileiro dos anos 70 e uma produção bem contemporânea. Parece refletir o tipo de música que vocês ouvem, sem essa separação cronológica. Como isso entrou na composição? O quanto disso é consciente?
Hugo: Sua leitura é bem precisa. A gente realmente busca esse ponto de encontro entre tradição e contemporaneidade. Sempre ouvimos muita música instrumental — desde jazz clássico e fusion até artistas atuais. Referências como Azymuth, Hermeto Pascoal, música brasileira dos anos 70, mas também nomes contemporâneos que trabalham essa ideia de tornar a música instrumental mais acessível. A proposta sempre foi essa: fazer algo que seja fiel ao nosso gosto, mas também tenha uma comunicação mais ampla, mais popular. A gente não quer cair naquele lugar de virtuosismo pelo virtuosismo. A ideia é fazer música que funcione como canção, mesmo sendo instrumental.
Luana: Exato. O resultado do Urupê é muito reflexo do que a gente consome. Temos muitas referências em comum, e isso naturalmente aparece na música. E também tem a questão da simplicidade. Eu gosto muito de artistas que fazem coisas simples e bem feitas. Música instrumental acessível — que tanto um roqueiro quanto alguém que não tem familiaridade com o gênero possa ouvir e gostar. Eu não venho de uma formação de jazz mais acadêmica, então isso também influencia. O Urupê acaba sendo essa mistura: rock, elementos brasileiros, algo mais latino, tudo dentro de uma linguagem acessível.
Natália: Complementando, acho que nossas músicas giram muito em torno disso: simplicidade e acessibilidade. E também de sentimento. Não é sobre técnica ou exibição — não é sobre escalas ou complexidade. É sobre contar histórias. A gente compõe com muito carinho, e isso transborda. E o público percebe — temos recebido retornos muito positivos. Para mim, é um trabalho muito especial, justamente por essa troca verdadeira entre a gente.

E como funciona o processo coletivo? Como vocês sabem a hora de parar, de definir a forma da música?
Natália: A gente trabalha de forma muito horizontal. Todo mundo contribui. Uma ideia pode nascer de qualquer um — uma linha de baixo, um riff, uma sugestão — e a gente vai somando até chegar na versão final. É como construir um corpo: começa com o esqueleto e vai ganhando forma aos poucos. Até que a gente sente que está pronto. Esse processo tem sido muito fluido, mais do que em outros trabalhos que já fiz.
Luana: E tem também a questão do ao vivo. Como é instrumental, existe sempre o risco de a música se alongar demais, virar uma digressão. Então a gente aprende a equilibrar isso: ter momentos de improviso, mas também manter uma estrutura clara. E ao mesmo tempo, aceitar que algumas coisas só acontecem no palco — solos que surgem na hora, variações que não estão na gravação. A gente vai convivendo com isso. Nem tudo precisa estar registrado exatamente como foi pensado inicialmente.
E como vocês definiriam a identidade estética do Urupê? Existe uma brasilidade muito forte no som.
Luana: Acho que o ponto mais consciente foi o nome. A gente queria algo que já trouxesse essa referência brasileira. Mas, no geral, é uma mistura natural. Somos três pessoas com influências de rock e música brasileira, então isso aparece. Talvez a melhor definição seja algo como “música brasileira com sotaque roqueiro”.
Natália: E também tem algo intuitivo: a música “pede” certos caminhos. Às vezes você começa com uma ideia mais rock, mas ela pede outro ritmo, outra harmonia, outro timbre. Essa brasilidade vem muito da nossa bagagem e dessa escuta interna durante o processo.
Fazer música instrumental muda o tipo de público e de espaço onde vocês se apresentam, em comparação com os demais projetos?
Luana: Em parte, é o mesmo circuito do 43duo. As casas e as bandas são parecidas. Mas existe um “plus”: a possibilidade de entrar em festivais e eventos voltados para música instrumental. Ao mesmo tempo, a gente não se limita a isso. Tocamos com bandas de diversos estilos — hardcore, metal — e sempre fomos bem recebidos. A gente vê música instrumental como formato, não como nicho fechado.
Natália: E a relação com o público também muda. Sem letra, a interpretação fica mais subjetiva. A troca acontece de outra forma, mais sensorial. E tem sido uma experiência muito rica.
Para fechar: como vocês explicam esse crescimento recente da música instrumental?
Luana: Tenho uma teoria: a pandemia. Durante esse período, muita gente passou a consumir música de forma diferente — lo-fi, playlists para estudar, sons mais atmosféricos. Isso abriu espaço para uma escuta mais atenta à música em si, não só à letra. E também teve a explosão de músicos nas redes sociais, mostrando performance instrumental de forma mais direta.
Hugo: Isso aproximou o público de uma linguagem que antes parecia distante. Artistas contemporâneos ajudaram a criar essa ponte — com músicas mais acessíveis, mais estruturadas como canção.
– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“. A foto que abre o texto é de Giulliana Dias.
