Entrevista: Luana Dametto fala sobre seus projetos, novo disco e a nova formação da Crypta

entrevista de Fabio Machado

Luana Dametto tem tido um ano cheio pela frente: além de uma agenda cheia com a Crypta fazendo a tour derradeira do álbum “Shades of Sorrow”, um dos 50 discos mais votados no Melhores do Ano Scream & Yell – com direito a uma passagem pelo festival Bangers Open Air 2026, além de paradas por outros cantos do Brasil e da Europa -, a baterista gaúcha também já está pensando nos toques finais do novo trabalho de sua banda principal ao lado de Fernanda Lira (baixo, vocais), Tainá Bergamaschi (guitarras) e da nova integrante, a guitarrista estadunidense Victoria Villarreal – que já ganhou documentação brasileira dos fãs e tudo.

No meio dessa correria, também há espaço para os projetos paralelos, como o duo old school death metal Nephasto, que deve ter um registro lançado no Brasil em breve; e participações inesperadas como a que fez como baterista na turnê sul-americana do Tribulation, banda sueca que ela também tem admiração. Quem vê uma agenda cheia dessas e o domínio que Luana tem do seu instrumento não imaginaria que a bateria surgiu na sua vida sem grandes pretensões aos 12 anos, apenas para ter algo para fazer.

Se a música veio como hobby, a vontade de levar a bateria a sério veio com o rock mais pesado. Não demorou muito para descobrir o lado mais extremo do metal praticado por bandas de black metal, grindcore e finalmente death metal, onde encontrou seu estilo marcado pela técnica misturando blast beats, levadas de bumbo duplo e mudanças de andamento que impressionam pela naturalidade e desenvoltura.

Foi com esse background que Luana foi “descoberta” pela Nervosa, onde conheceu Fernanda Lira – sua futura companheira de Crypta – e onde teve sua primeira escola profissional na prática, gravando um disco (“Downfall of Mankind”, 2018) e fazendo turnês mundo afora. A influência do death metal já se fazia presente no thrash da Nervosa, e não demorou muito para que ela formasse a Crypta juntamente com Fernanda para dar vazão a uma proposta de som ainda mais pesada e extrema, mas que também fosse formada por mulheres.

O resto, como dizem, é história: dois álbuns completos (“Echoes of Soul” em 2021, além do já citado “Shades of Sorrow”), clipes, mais tours e mudanças de integrantes, sendo a mais recente a saída da guitarrista Jéssica Falchi, que está atualmente no Korzus. Houve um breve período como trio testando outras instrumentistas até a escolha definitiva por Victoria Villarreal, que pelo visto veio para ficar.

“A Victoria está participando das composições, tem música que já partiu dela”, revelou Luana durante o bate-papo via chamada de vídeo com o Scream & Yell. Portanto, o álbum novo da Crypta – que também será conceitual, segundo postagens da própria Fernanda Lira no Instagram – já virá reforçado com uma nova influência nos riffs e solos, mas com o peso e a pegada de sempre. Segundo Luana, “o principal que a gente estava procurando era alguém que já fosse da cena de death metal e que já fosse do underground”, deixando claro que a influência e a experiência dentro do metal extremo foram elementos determinantes para a escolha. Confira a seguir a entrevista completa.

 

O anúncio do show da Crypta no Bangers Open Air gerou muita expectativa por parte dos fãs, não só porque faz parte dessa última leva de apresentações do álbum “Shades of Sorrow” (lançado em 2023), mas também porque foi o primeiro em São Paulo, se não me engano, com a nova guitarrista Victoria Villarreal. Como foi o processo de preparação para esses últimos shows, já pensando na chegada de uma integrante nova e com essa responsabilidade de tocar no festival?
Eu nem tinha me tocado que era o primeiro show da Victoria em São Paulo, mas é verdade. A gente já tocou com a Victoria antes, mas ela foi oficializada agora como membro da banda. Mas já havíamos feito uma tour com ela na Europa, se não me engano. E, depois, ela fez alguns shows no México com a gente. Então, agora ensaiamos antes desses shows aqui do Brasil um pouco, porque tem bastante música nova que não tocamos com ela em outras tours.

Mas acho que estamos bem tranquilas por já ter tocado com ela. Já a conhecemos bem por já ter feito uma tour extensa antes. Estamos empolgadas para tocar no festival, porque é aqui no Brasil. E o Brasil é o nosso país, majoritariamente. E apresentar a Victoria para os fãs que já têm aqui, para as pessoas que já assistiram a Crypta várias vezes e já assistiram a banda na formação anterior também. Então, estamos empolgadas e tranquilas também.

Sei que vocês já tinham tocado com ela antes, como você mencionou, e sei que nesse período vocês tocaram com outras guitarristas durante as turnês e tudo mais. Mas queria saber como foi essa aproximação entre vocês. O que vocês tinham em mente para buscar uma nova integrante, além da parte técnica de tocar as músicas? O que vocês estavam buscando para somar na banda mesmo?
Eu acho que o principal que a gente estava procurando era alguém que já fosse da cena de death metal e que já fosse do underground, que já tivesse experienciado isso na vida antes. E eu já conhecia a Victoria de Instagram, ela fazia participação para um negócio que se chama Chaos Rising, que é um monte de mina que se junta aleatoriamente, às vezes, para formar bandas e fazer uma música e postar aquela música e já era. Eu já fiz também, mais por hobby.

Mas foi daí que conheci a Victoria, e sabia que ela já teve banda, já fazia show como guitarrista e vocalista. Então, acho que foi isso que pesou mais, porque tem muita guitarrista que é incrível tecnicamente, falando que a gente podia ter testado também, a gente nem testou tanta gente assim. Na verdade, a gente testou só a Victoria e a Helena Nagagata [nota do redator: Antes da oficialização de Victoria no line-up, Helena participou de turnês com a Crypta e também tocou em outros projetos como Shamangra]. A Helena, tecnicamente falando, é uma guitarrista perfeita, ela tirou as músicas super rápido e tirou tudo perfeito, foi muito impressionante tocar com a Helena.

Mas eu acho que a gente só procurava por isso mesmo, talvez alguém que já tivesse uma banda underground antes, que já está inserido na cena. Para nós, nesse momento, foi o (motivo) que mais somou. E queremos compor também com a nova integrante, então seria legal se já tivesse vindo de um background assim.

Luana, você também fez uma tour recente com o Tribulation, pelo Brasil e América Latina. Pode falar um pouco da experiência de fazer esses shows e o quão diferente é em relação à sua rotina principal com a Crypta?
Foi muito diferente de fazer. Sempre fui fã do Tribulation, faz uns 10 anos já que sou fã da banda. Então, quando veio o e-mail de “vamos fazer uma tour na América Latina e estamos procurando um baterista, quer fazer session pro Tribulation nessa tour”, eu quase enfartei (risos). Falei: “Meu Deus, vou tocar todas as músicas que eu já gosto, já conheço as letras de metade do setlist”. Como é que posso colocar isso?

Foi uma experiência como fã também, então?
Para mim, foi uma experiência como fã. Eu já conhecia o nome dos integrantes antes de tocar com as pessoas, então para mim foi bastante uma experiência como fã. Eu falei isso para eles: “Nossa, vocês nem tem ideia, já assisti vocês no (festival) Wacken aqui do lado do palco, já estive ao redor do Tribulation algumas vezes como fã”.

As músicas são muito mais… (pausa) não são fáceis no sentido de… para decorar, foi difícil, bastante música, 13 músicas para tirar em um mês, e outras técnicas que eu tive que tirar ali. Mas é um tipo de música que demanda menos do corpo, não tem blast beat, pedal duplo, não. Tem muito pouco disso, então para mim foi uma tour bem relax, que eu aproveitei bastante como fã. Adorei fazer uma coisa diferente, tocar um estilo diferente do que eu geralmente toco, e foi legal também para isso, para me colocar um pouco fora da caixa, para testar fazer outras coisas que nem eu sabia que eu ia ter curtido tanto fazer, que é tocar outros gêneros.

Fernanda Lira (baixo e voz), Tainá Bergamaschi (guitarra), Victoria Villarreal (guitarra) e Luana Dametto (bateria)

E agora com o encerramento desse ciclo do “Shades of Sorrow”, a expectativa é que vocês retornem ao estúdio para gravar um novo trabalho, certo? Você já tem músicas novas no gatilho? Nesse caso, a Victoria vai fazer parte dessas gravações, ou vocês vão manter o processo ainda como trio? O que você pode adiantar para as pessoas sobre o disco?
O disco já está majoritariamente pronto, faltam algumas músicas e uns detalhes, mas eu diria que majoritariamente, 80% do disco está pronto. Infelizmente, demora até que as músicas fiquem prontas, aí grava, e aí não sei o quê, até lançar demora, mas a composição está aí.

E a Victoria está participando das composições, tem música que já partiu dela, tipo: “Ó, taí a música que eu quero apresentar”, a gente achou foda e já falou: “Vamos incluir”. Inclusive, é uma coisa que pesou na decisão de escolher a Victoria, alguém que tivesse influências parecidas e que já conseguisse agregar para esse tipo de coisa, para também não ficar só nós três [nota do redator: Luana se refere a ela, Fernanda Lira e Tainá Bergamaschi, que por um bom tempo foram o núcleo principal do conjunto antes da entrada de Victoria] sempre fazendo esse tipo de coisa. É massa ter mais gente, quanto mais gente agregar, melhor, criativamente…. criativamente falando? Essa palavra existe? Não sei (risos). Enfim, pois, mas (as músicas) estão aí, está quase lá, mais um mês aí está pronto o disco, eu acho.

E vocês estão mirando o lançamento ainda esse ano ou mais para 2027?
Para 2027 mesmo, porque até gravar e fazer tudo o que precisa para o disco ficar pronto, eu acho que não tem nem como. Se, por exemplo, gravar esse ano, até o álbum ser printado, os CDs serem feitos e a gravadora colocar numa agenda de lançamentos, aí acho que é só ano que vem mesmo, logisticamente falando, não tem como esse ano.

Entendi. Bom, nosso tempo está quase no fim, mas antes de encerrar, eu queria saber o que os fãs podem esperar de você ainda nesse ano, seja com Crypta, Nephasto, seu outro projeto, ou se tiver mais alguma outra participação, alguma outra coisa em vista, pode falar para a gente também.
Temos uma turnê extensa pela Europa de junho a agosto, e, logo depois, vou finalmente lançar o Nephasto no Brasil, que é algo que eu não consegui fazer até agora. Mas logo mais terá os discos e os merchs do Nephasto por aqui, e eu diria que é isso.

Esse é um ano bem cheio da Crypta para mim por causa do (novo) disco, não só pelos shows, ainda tem que ficar compondo e ensaiando para a gravação entre as pausas nas turnês. Mas se surgir uma outra coisa aí, vamos aparecer, aí, de repente, com alguma coisa nova (risos). Estou aceitando tudo (risos).

Ainda sobre o Nephasto, é algo que vai ser mais um projeto de estúdio, ou você pretende tocar ao vivo também?
Pretendo tocar ao vivo também, mas eu acho que vai demorar bastante tempo para isso acontecer. Porque a gente tem que lançar um disco primeiro, para ter música suficiente para tocar com o Nephasto ao vivo, e tempo para gravar e compor esse disco está escasso. Então, acho que vai demorar, é um projeto bem quando dá tempo, meu e da guitarrista/vocalista Erika (Osterhout), que também tem outras coisas na vida dela, então é difícil achar tempo. Mas se tiver, a meta é tocar ao vivo.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos. 

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