texto de Davi Caro
Filmes live-action baseados em videogames são, historicamente, quase sempre fadados ao fracasso. Não são poucos os exemplos que comprovam tal regra – do sofrível “Super Mario Bros.” (1993) ao horrendo “Alone in the Dark” (2005) – embora haja alguns capazes de desafiá-la – vide o recente sucesso de público e (surpreendentemente) de crítica alcançado por “Mortal Kombat II”, deste mesmo 2026; ou “Terror em Silent Hill” (2006). Essa aparente maldição da qual padecem todas as transposições de jogos eletrônicos para as telas grandes pode, em geral, ser atribuída a pelo menos dois fatores: primeiro, pela óbvia dificuldade em trazer o senso de imersão, e de controle, tão inerentes à experiência de protagonizar ativamente uma narrativa. Assim, boa parte do apelo de comandar um personagem e interagir com ambientes e elementos se perde, em favor de um resultado diferente e, naturalmente, mais passivo.
O segundo fator a contribuir com os repetidos fracassos do gênero no cinema tem a ver com uma necessidade mais “ocidentalizada”: a de explicar, meticulosamente, tudo que transcorre diante do espectador, como se esclarecer todo e qualquer evento projetado validasse mais o tempo e a atenção investidos em assistir a uma produção deste tipo. Embora compreensível, este parâmetro, teoricamente mais pragmático, é sintomático de um modo de pensamento que vem caducando há muito tempo. E o longa japonês “Exit 8” (2025) pode ser a pá de cal definitiva sobre uma mentalidade limítrofe e, em sua grande parte, bastante equivocada e improdutiva. Finalmente chegando aos cinemas após mais de um ano desde o lançamento em seu país de origem, o filme é baseado no jogo indie “The Exit 8”, desenvolvido pelo estúdio Kotake Create e lançado originalmente em 2023. Dirigido por Genki Kawamura com base em um roteiro original co-escrito pelo mesmo – em conjunção com Kentaro Hirase – a produção carrega consigo elementos de thriller e ficção científica distópica (temperados com elementos de horror) bastante característicos do material original. O filme sabe, no entanto, tratar sua própria trama com prioridade sem nunca perder o olhar respeitoso em relação ao jogo que adapta, e o resultado não poderia ser mais gratificante.
= 
Durante uma viagem de metrô corriqueira, um homem (Kazunari Ninomiya) se vê confrontado com uma situação bastante atípica. Logo após receber um chamado de sua ex-namorada (Nana Komatsu), que está grávida e não tem certeza do que fazer a respeito, o jovem se depara com uma espécie de loop em sua realidade: na tentativa de sair da estação de trem na qual se encontra, ele se vê atravessando repetidamente, e à exaustão, o mesmo corredor. E, embora esta repetição conte com a presença de outro ser humano (um outro homem, mais velho, interpretado por Yamato Kochi), o personagem principal é impossibilitado de interagir de qualquer forma significante com ele.
A possibilidade de escapar do loop se mostra, finalmente, quando o rapaz toma conhecimento das “regras”: ele só deve cruzar o corredor até o fim caso não observe nenhuma anomalia – nas paredes, nos cartazes pendurados, nas luzes, nas portas, ou até mesmo na repetida aparição do homem mais velho – em um processo que deve ser repetido por oito vezes. Caso se depare com uma anomalia, ele deve voltar atrás; do contrário, voltará à estaca zero (conforme notificado em um pôster na estação onde se encontra). Em sua jornada, além de ter que lidar com os inquietantes desafios que as tais anomalias representam, ele também se vê forçado a encarar suas próprias falhas de caráter. E, quando se depara com outro indivíduo, forçado a cruzar o mesmo corredor que ele – um menino, vivido por Naru Asanuma – passa a questionar sua própria vida até então, e o tipo de existência que deseja viver dali em diante. Isto é: se conseguir sair do inferno estéril onde se meteu.
A escolha de não nomear seus personagens pode parecer estranha de um ponto de vista mainstream; este é, entretanto, o primeiro grande acerto de “Exit 8”. Se equilibrando entre a impessoalidade característica do jogo no qual se inspirou (no qual o jogador encarna um personagem também sem nome) e os dilemas humanos que assolam o protagonista desde os primeiros instantes, a produção consegue engatar um enredo magnético e enervante, que faz uso comedido de efeitos visuais em prol de construir uma atmosfera claustrofóbica e naturalmente paranoica. Além disso, a conjunção de diferentes elementos gráficos e sonoros ajuda a criar um senso de ambientação surreal, no qual a disposição clean das estações de metrô japonesas dialogam com representações de M. C. Escher, tudo sonorizado pelo “Bolero” de Ravel – uma composição que tem um papel decisivo em acentuar o caráter cíclico da narrativa.
O elenco, tão reduzido quanto pode ser, é outra parte fundamental no encaminhar fluido da trama. Além de ter uma extensa carreira como cantor (tendo alcançado o estrelato como um dos vocalistas na boy band Arashi), Kazunari Ninomiya não é um novato no quesito “atuação”. Pelo contrário: embora seja mais conhecido ao público ocidental por seu papel em “Cartas de Iwo Jima”, de Clint Eastwood, o artista, que também é conhecido pelo monômio Nino, consolida aqui uma performance instigante e apaixonante, transitando com maestria da calma estoica à histeria do pânico com naturalidade. E suas interações com o restante do elenco passam muito, muito longe de serem forçadas. Sua dinâmica com o restante do elenco, e sobretudo com o personagem interpretado por Naru Asanuma, é recheada de sutilezas, ao mesmo tempo que algumas presenças (como a da moça vivida por Nana Komatsu) são mais etéreas. Entre o surreal e a mais crua das experiências humanas, o que fica é um conjunto de atuações dos mais memoráveis.
Há mais para “Exit 8” do que simplesmente ser a exceção que comprova a regra. O segredo que o longa de Genki Kawamura parece finalmente ter desvendado tem, ao fim, pouco a ver com o quão “ocidental” a abordagem da adaptação possa ser. Ao invés disso, “Exit 8” deve seu louvável resultado à compreensão de seu material original, não buscando superar o jogo que adapta, e sim criar uma obra que carregue o mesmo espírito com base em mérito próprio. Naturalmente, muito não é explicado no filme; a despeito disso (ou, talvez, por causa disso), a experiência de assistir a “Exit 8” seja tão gratificante. Em tempos onde muito do que se vê nas telas parece feito com o expresso propósito de chamar espectadores de idiotas, isso é, sem dúvida, um sopro de ar fresco. E, quem sabe, seja o que é preciso para que se possa sair do loop de mesmice onde o mundo se colocou. Anomalias ao redor não faltam; o importante é saber identificar aquelas que valem nossa atenção – como esta.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
