Lívia Ellen comemora dez anos de carreira: “O rap salva e muda vidas”

entrevista de Danilo Souza

Dez anos de carreira sendo mulher e artista independente num cenário majoritariamente masculino. O mundo e a cena do rap poderiam, sim, ser desafios para a conquistense Lívia Ellen, mas a cantora se mantém na ativa com resiliência, a palavra escolhida por ela para definir a primeira década de caminhada. “Eu poderia ter desistido em vários momentos, mas amo tanto o que faço que não há essa opção”, assume a MC.

Vindo de uma família ligada à música, cantar se tornou algo natural e quase inevitável. Na adolescência, Lívia se apresentava com o seu pai, além de também aproveitar as oportunidades que apareciam na escola, como o Festival Anual da Canção Estudantil (FACE). Anos depois, a artista fez um show no mesmo colégio onde estudou e onde tudo começou. “Fico orgulhosa […] tem até um vídeo em que a gente está cantando lá no pátio e as meninas também cantam, essa representatividade está nas praças, nos ginásios, nas escolas… falo “a gente” porque eu nunca estou sozinha, é sempre um movimento”, ela conta.

Em 2026, Lívia é um dos nomes presentes na line-up do Festival Suíça Bahiana, o principal movimento de música independente e autoral no interior da Bahia. Após anos se inscrevendo e tentando, em outubro a MC fará sua estreia nos palcos do FSB, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. “Que missão! O line up está incrível e é mais incrível ainda ver meu nome lindo do lado de artistas nacionais e internacionais. Estou ansiosa!”, admite a cantora.

Leia abaixo a entrevista completa e conheça mais detalhes sobre a carreira de Lívia Ellen.

Como começou a sua carreira?
Eu canto desde criança, é algo que já vem de família. Tenho tios, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe, que já gravaram CD. Já eu cantava aos doze anos fazendo apresentações com meu pai e na escola também, na época tinha o Festival Anual de Canção Estudantil (FACE), e meio que comecei a cantar e compor ali. Mas o rap entrou na minha vida mesmo a partir da batalha [de rima] Chapahalls, que acontecia todas às quintas-feiras na Praça Nove de Novembro (em Vitória da Conquista). Foi quando conheci BitMacario [do grupo CIPA Rap] e fui chamada para gravar uma música, a faixa “O Breu”, que é uma composição deles que gravei o refrão. Em seguida, gravamos a minha primeira faixa autoral, “Enfrentando Dragões”, que saiu até com um clipe no estúdio e que ainda toca na Rádio UESB. A partir daí, nós fizemos um CD, que saiu em 2021, e foi toda uma caminhada ali dentro do CIPA. Saiu clipe, álbum… e no meio disso, tive minha segunda filha e os meninos do grupo passaram a morar em São Paulo. Com isso, comecei minha carreira solo e meti as caras fazendo feat, participando de outros projetos e com outros artistas e é isso.

E de que forma o hip-hop mudou a vida da Lívia, mas não a artista, e sim a mãe, dona de casa… o que se tornou diferente?
Parece clichê falar isso, até estou arrepiada, mas a real é que o rap salva e muda vidas! Para mim, o rap me tirou de um lugar e me salvou. A arte tem o poder e o potencial de tirar você de um caminho ruim e transformar tanto sua vida quanto a vida de todos que estão ao seu redor, te fazendo caminhar para um lugar mais bonito do que poderia ser se você não estivesse envolvido com a arte. Basicamente é isso. Nós sabemos que às vezes somos levados a estar em ambientes onde a arte não está presente e que acaba em um caminho que não é muito bonito de se ver…

Você é um dos expoentes do rap de Vitória da Conquista. Sua caminhada é uma das mais longas da cidade. Que visão você tem da cena daqui?
Sou muito fã da galera. Tem muita gente com muito talento. Mas vejo que o trabalho independente não é muito fácil de dar uma continuidade, então muita gente acaba desistindo. Tem muitos artistas do rap da cidade que meio que deram uma parada. Mas também acredito que ainda há uma cena crescente dentro do rap e estão vindo aí outras meninas… acho que ainda a cena tem muito a crescer. Muito já foi feito, mas acho que ainda há muito a ser explorado.

O cenário do rap tende a ser masculino. Mcs, empresários, os grandes nomes de gravadoras… como é isso pra você, sendo uma artista mulher e independente no interior da Bahia?
Eu me orgulho, porque sou mãe solo, portanto, tenho todo o corre que uma dona de casa tem com as minhas filhas e com a minha casa. No meu trabalho, tento trazer essa força feminina e vejo que muitas mulheres se identificam, porque é aquela força aguerrida mesmo, de não desistir, de continuar tentando… sempre trago essa reflexão sobre a maternidade, sobre a força feminina e resistência. Não somos muitas [mulheres dentro do cenário do rap], mas estamos tentando.

Você tem uma discografia respeitável, com disco, EP, vários singles e feats. O que move seu trabalho autoral? Como você se inspira para compor?
Depende muito do momento da minha vida. Tem alguns momentos em que estou mais melancólica, tem momentos que a gente quer botar mais pra frente… uso muito os momentos da minha vida para escrever, às vezes acontecem algumas coisas ruins e uso isso como uma forma de me dar força mesmo pra continuar.

Na cidade, você se movimenta em eventos, batalhas de rimas e até leva seu som em algumas escolas. Como se sente em ter seu trabalho sendo visto e usado de referência para as gerações mais jovens?
Eu fico orgulhosa. Tive algumas oportunidades ao longo da minha carreira de cantar em escolas, inclusive já cantei na escola que eu estudei, o Centro Integrado [de Educação Luiz Navarro de Brito, o CIENB, demolido e reconstruído com o nome Complexo Educacional de Vitória da Conquista]. Tem até um vídeo em que a gente está cantando lá no pátio e as meninas também cantam, essa representatividade está nas praças, nos ginásios, nas escolas… falo “a gente” porque eu nunca estou sozinha, é sempre um movimento, não é? Tem o DJ, tem o público, e é isso, a gente está se preocupando em ocupar esses espaços.

Lívia, já são dez anos de carreira. Em 2016, você se juntou ao grupo CIPA Rap. Como é olhar pra trás agora, depois de uma década? Com qual palavra você define sua trajetória?
Eu poderia ter desistido em vários momentos, mas amo tanto o que faço que não há essa opção. Sou muito grata aos meninos do CIPA por terem me feito esse convite de começar a compor e gravar com eles, e também tive oportunidades em outros espaços também, fiz barzinhos, covers… mas a música autoral é o meu caminho dentro do rap.

Interessante você trazer isso. Como aconteceu esse movimento de transição entre os barzinhos e os shows próprios, inclusive em festivais? Quanto tempo demorou?
Fui metendo a cara em tudo que era espaço. Fiz participações em saraus, como o Sarau Mambembe, o sarau do coletivo Multiverso Cultural, também tinham as batalhas de rima, então cantei muito de graça aqui na cidade. Muitas vezes, muitas mesmo, indo para lá e para cá sem ganhar nada ou às vezes ganhando o mínimo. Acho que fui conquistando o público com essa visibilidade, já que em toda oportunidade eu estava ali participando, jogando minhas músicas e fazendo divulgação, isso vai abrindo mais portas para poder receber um cachê e mais convites, que é a colheita desse fruto que eu vim plantando nesses dez anos, desde o meu começo com o cabelo raspado (risos).

E essa coragem e vontade de fazer acontecer foi o que te levou até o Festival Suíça Bahiana, o maior festival independente de música autoral da cidade e da região sudoeste. Você é uma das artistas que vai tocar na edição deste ano. O que você está sentindo e o que está preparando para esse show?
Que missão! O line up está incrível e é mais incrível ainda ver meu nome lindo do lado de artistas nacionais e internacionais. Já faz alguns anos que estava tentando, então, que bom saber que chegou o momento de poder fazer parte desse festival. Estou ansiosa! Sobre o repertório, será autoral e cheio de mistura de ritmos, digamos assim, além do rap vai ter reggae, rock, trap, funk… essa mistura bem louca que conquistense adora. Até outubro ainda tem um pouquinho de chão aí para organizar e pensar direitinho no show, tenho até pensado em participações, quem sabe, porque é uma grande oportunidade também para outros artistas.

E sobre trabalhos de estúdio? Pode contar o que vem por aí?
Tenho apenas quatro músicas solo lançadas, então preciso muito cada vez mais focar nisso, apesar de ter alguns feats ainda para sair. Quando se trata de cantar ao vivo, acaba faltando algumas faixas e sempre coloco as músicas que faço feat. Quero cada vez mais estar investindo nas minhas músicas solo pra eu poder estar cantando ao vivo e fazer um show totalmente autoral. Também estou de olho nos editais pra, quem sabe, lançar um EP logo mais, o meu primeiro de rap.

– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/

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