Três perguntas: A banda mineira Naturezautomatica fala de seu novo single / clipe, “VEM!”

entrevista de Diego Albuquerque

O projeto Naturezautomatica surgiu em 2025 reunindo membros de diversas bandas da cena independente de Belo Horizonte como 4Instrumental, Cães do Cerrado, Jota Quércia e RU NA. Diferente de seus trabalhos anteriores, agora os músicos mineiros buscam referências em estilos brasileiros, folk e rock para cantar sobre as angústias de viver nos limites do antropoceno tecnológico.

A aproximação do fim — que une (quase) todos os discursos antagônicos — é a imagem sobre a qual se assenta o universo lírico das canções do grupo formado por André “Pepo” Persechini (voz, violão), Leo Bryan (baixo), Raul Lanari (bateria, vocais) e Tiago Sales (guitarra, vocais). Se o embate central entre a escatologia do realismo capitalista e a recusa à abdicação do desejo pelo futuro dá o tom à dimensão das letras da banda, sua instrumentação incorpora sonoridades bastante diversas – desde o toque de triângulo do baião e a batida da viola caipira, às texturas atmosféricas de guitarras distorcidas que colorem, com seu sombreado, compassos estendidos.

VEM!”, novo single do projeto, surge como uma espécie de jingle que remete à recompensa vendida pelas provedoras de Internet nos tempos mais simples e diretos: acesso ilimitado e rápido em pulsos que eram comedidos pós meia-noite, já que era uma época em que se precisava discar pelo telefone para acessar o mundo. A faixa tem produção do músico Fernando Bones e é parte de um EP que contará com o lançamento de mais alguns singles que a banda mineira promete entregar em 2026. O registro chega amarrando essa identidade sonora e visual do grupo, que bebe em fontes intermináveis da música do mundo e que tem interesse em abraçar esse mesmo mundo de volta.

Para entender um pouco mais, André Persechini, compositor do som, que também fez o clipe e é vocalista da banda, responde a três perguntas do Scream & Yell.

“VEM!”, a música, já nasceu com essa ideia conceitual ou o clipe expandiu o significado dela?! Como funciona o processo de composição da banda?!
A música surgiu após nosso primeiro show no ano passado. Criei o riff com a intenção de dar uma energia maior para as apresentações, já que as outras músicas da banda estavam com um viés mais introspectivo. Naturalmente surgiu o riff junto do imperativo “VEM!” enquanto compunha e com ele a ideia do canto da sereia que é a internet. As músicas da banda saíram todas do processo de levar algumas composições minhas (umas antigas e outras, como VEM!, novas) para o estúdio e deixar cada um explorar a própria sonoridade dentro da música.

O clipe mistura humor, caos e certo desconforto. Qual sensação vocês queriam deixar no espectador ao final?! Ainda há esperança para a internet?!
A ideia do clipe é acompanhar visualmente algumas das eras da internet e fazer um resumo do histórico do meu sentimento em relação a ela. Somos todos na banda da última geração que viveu o suficiente para lembrar uma infância sem internet, cresceu com a expectativa criada pelas suas possibilidades e agora chega na meia idade já com a decepção de sua cooptação pelos tecnofascistas das bigtechs. A sensação que queria passar era dessa aceleração e do caos que vivemos nos últimos 30 anos condensados num espaço de 3 minutos. Difícil pensar em esperança para a internet quando ela se torna, cada dia mais, apenas 5 sites fortemente controlados por algumas poucas empresas americanas, mas ainda acredito na sua promessa de compartilhamento livre de ideias, sons e imagens, mesmo que cada dia mais nichadas e escondidas.

Até que ponto vocês se colocam dentro da crítica (já que também usam essas plataformas para divulgar o trabalho)?! E qual o objetivo do grupo enquanto a crítica e seu posicionamento?!
Para mim, o sentimento de fazer parte da máquina é quase paralisante. Já debatemos muito sobre colocar ou não as músicas no Spotify, por exemplo, uma plataforma que (como quase todas as outras) usa do lucro absurdo que recebem para financiar a máquina de guerra ocidental e seus genocídios. Como uma geração que cresceu na música independente em busca de espaços e ouvidos, é um pouco desanimador a sensação de estarmos presos na lógica das redes sociais e de conteúdo. É duro ver como é cada dia mais difícil se desvencilhar delas já que as alternativas offline praticamente inexistem para uma escuta casual de qualquer coisa. No fim das contas algo que sempre lembramos as pessoas é que o antídoto a isso tudo são as iniciativas, shows e eventos independentes. Tenho sempre dito que prefiro 100 pessoas num show do que 10 mil plays no Spotify já que essa relação direta, além de ser mais benéfica financeiramente, também é mais potente para todos os envolvidos. Como membro de banda e como público eu suplico a todos, frequentem espaços independentes, conheçam a cena autoral de sua cidade, façam bandas, exposições de arte, leituras de poesias. Criem com e para pessoas. Não para os algoritmos.

– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país. A foto que abre o texto é de Flavio Charchar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *