texto de Bruno Capelas
fotos de Lucca Mezza / TCA
Um dos conceitos mais populares da filosofia dialética são as ideias de tese e antítese. A tese é uma proposição, uma ideia, algo que está dado. A antítese, por sua vez, é o seu contra-argumento, sua contraposição. Há quem defenda que não se pode passar de um ao outro tão facilmente. Por outro lado, mudar de ideia pode ser um passo importante para evoluir, chegando à tão famosa síntese. Como diria Gilberto Gil, é como se ir fosse necessário para voltar. É justamente mais um passo nessa direção que a cantora Alice Caymmi deu na noite do último dia 7 de maio, no palco do Teatro Cultura Artística, em São Paulo, no show de lançamento do disco “Caymmi”, em que canta as músicas do avô Dorival.

Antes de avançar, recordar também é viver: filha de Danilo, nascida em 1990, Alice Caymmi entrou num estúdio pela primeira vez aos 12 anos, ao lado da tia Nana, para gravar “Seus Olhos”. A estreia solo em disco viria uma década depois, com um álbum autointitulado no qual gravava tanto o avô (“Sargaço Mar”) quanto Björk (“Unravel”). No trabalho seguinte, o celebrado “Rainha dos Raios”, de 2014, Alice expandiria as fronteiras: gravaria MC Marcinho e o sucesso oitentista “Sou Rebelde”, ao lado de faixas experimentais de Caetano Veloso (“Jasper”, parceria com Arto Lindsay e Peter Scherer) e Gilberto Gil (“Iansã”). Nos shows, tocava ainda Rolling Stones e Led Zeppelin, além de se posicionar politicamente à esquerda – uma soma de escolhas que lhe rendeu críticas, tanto artísticas quanto políticas, da conservadora tia, morta em 2025.
Não foi um movimento à toa: posta diante da força da tese Caymmi, Alice talvez tenha logo percebido que seu melhor caminho era ser antítese. Ao longo dos últimos anos, porém, tem sido interessante acompanhar sua trajetória no caminho contrário. Antes mesmo da pandemia, e ainda às rusgas com a tia, Alice fez um espetáculo chamado “Para Minha Tia Nana”. No ano passado, após a morte de Nana, a cantora voltou a rodar o País com o show, ao mesmo tempo em que também ensaiava um abraço no avô com o concerto “Roda Caymmi”. Era uma espécie de antessala ou de ensaio público para o que viria a ser o disco recém-lançado, no qual Alice coloca Dorival numa jangada rumo aos mares do Caribe.

No palco do teatro, Alice surgiu resplandecente, cheia de balangandãs, usando sapatos de salto alto e um belo vestido curto amarelo. “Eu tô muito feliz hoje, já disse isso para vocês?”, chegou a brincar a cantora entre uma e outra música, num espírito diametralmente oposto ao apresentado em “Para Minha Tia Nana”. No que o show revisitado no ano passado era noturno, este é solar. Se antes Alice era pura melancolia, este é só sorrisos. E até mesmo a presença dos músicos muda de figura: se para cantar Nana, Alice dependia apenas de um piano elétrico, agora ela trabalha ao lado dos companheiros Thiaguinho Silva (bateria e direção musical), Gustavo Benjão (baixo e vocais), Gustavo Levy de Andrade (guitarra) e Rodrigo Pacato (percussão).
O repertório também ajuda: por conta do luto pela tia, Alice escolheu se voltar para o lado mais solar da obra do avô, cheia de sambas e canções sincopadas. Em estúdio, o trabalho abraça a música latina, do reggae à salsa, sem deixar de lado um temperinho suave de reggaeton. No palco, o resultado é bem feliz, mas já mostra boas adições: ao vivo, a presença de Benjão e Levy faz com que algumas canções ganhem contornos ásperos, roqueiros – como é o caso do hino “Obá de Xangô”, canção de proteção escrita por Dorival para a família.

Mais do que apenas soar alternativa, a estética proposta por Alice e executada no palco ganha muitos pontos na comparação com a média dos tributos propostos por cantoras de MPB a grandes compositores. Muitas delas preferem se apoiar numa estética limpa que erroneamente coloca a voz em primeiro plano, deixando de lado a intenção artística de cada canção. Não que Alice não brilhe ao cantar. Pelo contrário: ao longo do show, ela mostra versatilidade e poder performático ao ir do balanço de “Maracangalha” à graciosidade de “O Que é Que a Baiana Tem”, numa performance para Carmen Miranda nenhuma botar defeito – e que faz muita gente dançar na cadeira. “Show dançante sentado é castigo do monstro”, brinca Alice ao ver a situação do público.
Outro destaque vocal é o tour de force de “Adeus”, que ganha interessantes contornos de trip-hop no tradicional palco paulistano. Não é a única concessão à música moderna: ao longo da noite, Alice também faz diversos acenos à antítese do início da carreira. Para quem já gravou Bjork, não soa estranho criar uma versão radioheadiana de “Morena do Mar” ou transformar “Eu Não Tenho Onde Morar” em um dub. Também não fica fora de lugar a conexão entre “Dora”, a rainha do frevo e do maracatu, e a “Roxanne” do The Police, numa versão que recupera tanto a veia reggae do original quanto abraça os grupos vocais que tanto cantaram as músicas de Dorival, como os Anjos do Inferno ou os Diabos do Céu.

É claro que nem tudo funciona de primeira, como é natural num show de lançamento. Após tocar o repertório do disco dedicado ao avô, que funciona numa progressão mais ou menos linear, Alice muda de estação várias vezes. Na segunda metade do show, ela vai do bolero “Tuyo”, de Rodrigo Amarante, à endiabrada versão de “Roxanne”. Na sequência, mescla Buena Vista Social Club (“Chan Chan”) com Bad Bunny (“Baile Inolvidable”), para depois resgatar “Iansã”, além de dois números solo (“A Estação” e “Tudo Que For Leve”), num bloco que parece mais greatest hits do que exatamente pensado para combinar com o que veio antes.
Ainda assim, é mais um deslize natural para uma noite de lançamento do que um tombo. Tombo, aliás, foi o que Alice sofreu no final de “Tudo Que For Leve”, assustando os presentes. Ela se levantou rapidamente, aos risos. “Tava ensaiado”, brincou ela. Outro ponto abaixo na média, mas que pode se resolver rapidamente, é o fato da cantora não ter deixado nem uma sobra da visita ao repertório do avô como guloseima para quem gostou do disco e decidiu ir ao show – algo que a repetição de “Maracangalha” no bis só tratou de evidenciar.
Noves fora, porém, o gosto de sal da visita à obra de Dorival Caymmi deixa quem sai do Cultura Artística sedento por mais. Mais do que apenas cumprir a missão de apresentar a obra do avô para uma nova geração, este é um espetáculo que aponta um caminho muito interessante para Alice. Por agora, claro, é hora de recolher as redes e aproveitar os frutos desse mar imenso. Mas, entre a tese e a antítese, lá adiante pinta no horizonte uma onda que pode fazer uma grande artista chegar a uma síntese muito interessante. Se a vida vem em ondas como o mar, como diria outro poeta, vale a pena esperar o que vem por aí.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
