Crítica: “Zico, o Samurai de Quintino”, de João Wainer, é um tratado sobre honra e disciplina

texto de Leandro Luz

Não é nada comum um documentário brasileiro permanecer nas salas de cinema por tanto tempo como “Zico, o Samurai de Quintino” o fez. O longa-metragem dirigido por João Wainer sobre um dos maiores gênios do futebol que, mesmo ainda em cartaz, acaba de ser lançado em TVOD (vídeo sob demanda) em diversas operadoras do país, ultrapassou os 65 mil espectadores nos cinemas em cinco semanas de exibição. Não é comum, no entanto é absolutamente compreensível que um jogador de futebol da estatura de Arthur Antunes Coimbra, o nosso galinho, levaria flamenguistas e amantes do esporte lotar as salas, sobretudo porque a distribuidora do filme, a Downtown Filmes – responsável por grandes sucessos de bilheteria do cinema brasileiro tais como as franquias “Minha Mãe É uma Peça” e “De Pernas Pro Ar” -, investiu forte em seu lançamento programando-o em mais de 400 salas espalhadas por todo o Brasil.

Se, por um lado, ter um lançamento condizente com o seu tamanho e potencial de público é um privilégio para poucos no país, por outro é bom confirmar que os espectadores de fato compraram esse barulho e se deram o presente de assistir ao filme de Wainer na sala escura. Mais do que um filme de futebol ou do que uma biografia de um atleta adorado país afora, o documentário é um tratado sobre honra e disciplina, características basilares da imagem mítica dos samurai (classe de elite de guerreiros do Japão feudal), hoje incrustada em nosso imaginário pop muito em função do próprio cinema, das quais Zico notoriamente compartilha. No decorrer de suas quase duas horas de duração, o filme defende essa comparação nada leviana feita pelo próprio título por meio das reflexões e da postura do craque, auxiliadas por um árduo trabalho de pesquisa que resulta na presença elegante e correta do arquivo como parte inerente ao roteiro assinado por Thiago Iacocca e à montagem de Wainer com André Felipe Silva.

 

Outro elemento trazido já pelo título e que possui uma centralidade para o entendimento do personagem e de sua trajetória humana é Quintino. Ou, oficialmente, Quintino Bocaiuva, bairro da Zona Norte do município do Rio de Janeiro. Ao ler o primeiro parágrafo da Wikipédia sobre o bairro, qualquer pessoa aprende imediatamente duas coisas fundamentais: a primeira delas é que o nome do bairro foi dado em homenagem ao republicano homônimo (1836-1912), importante líder do movimento que resultou na criação da república brasileira, em 1889; a segunda é que Quintino é famoso por ter sido o local onde cresceu o jogador de futebol Zico. O diretor entende a importância do bairro para seu personagem e vice-versa, e traz para o seu filme não só imagens valiosas oriundas do arquivo pessoal do jogador como também abre espaço para que ele fale sobre as suas origens e como elas o influenciaram a ser o profissional e o homem que acabou se tornando.

A história da família Antunes Coimbra se confunde com parte da história do Brasil. Filho do imigrante português José Antunes Coimbra com a brasileira Matilde da Silva Coimbra, Zico era o caçula de seis irmãos que herdaram o fanatismo esportivo do pai, aliás, flamenguista roxo e goleiro amador que só não jogou no futebol profissional porque tinha um patrão vascaíno que ameaçou tirar o seu emprego caso ele aceitasse o convite para treinar no time rubro-negro. Mas como do destino ninguém foge – tirando Zezé, a única irmã de Zico, e Tunico, que não passou do esporte em nível universitário -, os demais irmãos acabaram se envolvendo mais ou menos intensamente com o futebol durante as suas vidas. Apesar de Seu José ter insistido para que os filhos não seguissem carreira no futebol, Edu, Nando, Antunes e Zico não deram bola. Ou melhor, deram até demais: Edu se tornou ídolo e artilheiro do América-RJ; Antunes se gabava pela técnica e por ter ensinado Zico a jogar bola; Nando, cuja história de vida é revoltante, viu a sua carreira ser prejudicada pela perseguição política durante a Ditadura Militar no Brasil, em função de sua atuação como professor no Programa Nacional de Alfabetização (PNA), criado por Paulo Freire.

Cada uma das histórias da família Antunes Coimbra daria um documentário por si só, mas João Wainer estava preocupado em contribuir para a grandiosidade do segundo maior camisa 10 da história do futebol brasileiro. Para muitos, apenas Pelé teria sido maior do que Zico. Pelé, alienígena completo, o maior jogador que o mundo já viu, encerrou a sua carreira como jogador profissional no dia 1º de outubro de 1977, em um amistoso de despedida entre o New York Cosmos e o Santos, no qual ele jogou um tempo por cada equipe e marcou o seu último gol, atuando pelo time estadunidense. No ano seguinte, em 1978, o Flamengo começa a viver o que os historiadores do futebol passaram a chamar de “Era Zico”. Apesar da humildade – nas entrevistas concedidas ao documentário, Zico nunca perde a oportunidade de valorizar grandes ídolos e de colocar o seu talento sempre abaixo deles -, é com a ascensão do jogador que o Flamengo, de agremiação poliesportiva relevante no estado do Rio de Janeiro, se torna um grande clube de relevância nacional.

João Wainer adota algumas estratégias que ajudam o filme a se destacar. Ao invés de povoar o documentário com entrevistas de jornalistas e historiadores, por exemplo, ele opta por deixar o próprio Zico contar a sua história, com o auxílio de pares e amigos escolhidos a dedo, como é o caso do técnico Carlos Alberto Parreira, do jogador Ronaldo e da esposa Sandra Carvalho de Sá. O jornalista Mauro Beting é a exceção, mas a sua participação no filme é bem resolvida porque, ao invés de ter a sua figura mobilizada como “especialista”, ele acaba ocupando mais um lugar de admirador e amigo do Zico, conversando livremente com o jogador sem a necessidade da mediação do “formatão” entrevista que estamos acostumados a ver nesse tipo de abordagem.

Essas interações acabam sendo importantes para levantar características marcantes que o jogador jamais abordaria por si só. Avesso ao autoelogio, ainda que consciente de sua importância para o mundo do futebol, Zico jamais levantaria por conta própria as suas qualidades principais que nortearam a sua vida como atleta e seguem condicionando o seu dia a dia. É por meio do olhar da esposa, por exemplo, que percebemos o quanto ele é metódico e organizado, e o filme se interessa tanto pelo caderninho que ele mantinha com as anotações de todos os jogos que participou e de todos os gols que fez em sua carreira, quanto pela maneira como ele organiza os arranjos de flores em uma recepção em sua casa. É pelos depoimentos dos irmãos e dos profissionais que passaram pela vida de Zico – como o japonês que trabalhou com ele no Kashima Antlers a partir dos anos 1990 – que nos inteiramos, ainda, de sua coragem de seguir em frente, sempre respeitando a história que impulsionou os diversos marcos de sua trajetória. Até a chegada de Zico em 1991 como jogador – e posteriormente em 1996 como diretor técnico, função esta desempenhada até hoje, apesar do hiato entre 2002 e 2018 -, o Kashima Antlers era um clube quase amador, composto majoritariamente por operários japoneses, que jogava a segunda divisão do campeonato nacional. O documentário revela como esse movimento de internacionalização, em uma época na qual o futebol brasileiro ainda engatinhava nesse sentido, foi arriscado para a carreira de um dos maiores jogadores de todos os tempos.

Montado com uma verve veloz – mas com respiros, fugindo do que poderia ser um arroubo publicitário imperdoável, ainda que ceda a esse repertório vez ou outra -, “Zico, o Samurai de Quintino” não se limita a contar a história do ídolo brasileiro em ordem cronológica. O diretor utiliza bem as imagens recuperadas da velha câmera VHS de Zico e dos registros de programas esportivos, valorizando tanto a sua atuação no Flamengo como na seleção brasileira, e concebe, sobretudo, um design de som fundamental para a imersão do espectador nos lances espetaculares (o icônico “gol de escorpião”, se lançando num peixinho e pegando a bola pelo calcanhar), generosos (o passe para o gol de Nunes contra o Grêmio em 1982) e traumáticos (o pênalti perdido na Copa de 1986) que o documentário orgulhosamente passeia.

“Pra mim nunca existiu o ‘eu’, sempre foi o ‘nós’”. O longa-metragem espelha a imagem de Zico como reflexo desse jogo coletivo, apaixonado e leal, característicos do futebol de uma época que provavelmente jamais voltará. Em última instância, revela um jogador que deu orgulho e representou a sua torcida em vários níveis – o Flamengo como religião – e que contribuiu para a construção da ideia de uma paixão nacional vislumbrada por gerações a fio.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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