Festival Casarão 2026: Selvagens à Procura de Lei, MC Marechal, Samuel Béra Band e Nicles se destacam em Porto Velho

texto de Leonardo Vinhas
fotos de Fita Crepe Produções

Completando 26 anos de existência, o Festival Casarão, originado em Porto Velho (RO), é filho de uma outra época da produção cultural brasileira. E como todos os filhos que crescem, ele pode reter um pouco daquela criança que deu seus primeiros passos no Casarão da extinta cidade de Santo Antônio do Madeira, hoje desativado. As mudanças pelas quais o festival passa, bem como as adaptações necessárias para atravessá-las e seguir crescendo, são tanto uma resposta ao cenário externo quanto fruto de decisões pensadas por seu idealizador e organizador, Vinicius Lemos.

Originário de uma época em que “indie” ainda era sinônimo do som de guitarras, em que a MTV tinha força junto aos ouvintes de diferentes partes do Brasil, de cachês menos inflados e de custos logísticos (um pouco) menos desafiadores que os atuais, o Festival Casarão chega a um 2026 onde “indie” está mais ligado à psicodelia e releitura de brasilidades, onde os nichos cresceram e se intensificaram em grau de isolamento, e onde custos de qualquer natureza se tornaram mais proibitivos – e veja que nem falamos de música via plataformas, lógica algorítmica, politização acirrada das agendas culturais e outras questões inescapáveis do mundo atual.

Quais as respostas que o festival encontrou para navegar por esse mundo? Ser tão abrangente quanto possível, ao mesmo tempo que se mantém fiel à sua ideia de interligar a música autoral da Região Norte, independentemente da estética que ela traga. Assim, temos artistas não só de Rondônia, mas do Acre, do Amazonas e de Roraima, dividindo palco com artistas do Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Sul. E com uma curadoria que vai do pop autóctone aos experimentos com sonoridades locais, do rap ao metal extremo.

Para dar conta dessa complexidade, o festival tem uma programação extensa, dividido em um circuito de shows que começa em Porto Velho e se capilariza para Manaus (AM), Rio Branco (AC) e até Brasília (DF), estendendo o diálogo e o alcance, apesar das dificuldades financeiras que isso envolve.

Só por isso, o festival já mereceria maior atenção na mídia sudestina/sulista, mas em tempos de comunicação por bolhas, fica difícil para alguns prestarem atenção em iniciativas mais abrangentes. Felizmente, o Scream & Yell pôde, mais uma vez, acompanhar presencialmente as etapas porto-velhense e manaura do evento, e você encontra essa cobertura nas linhas a seguir.

Esteban / Foto de Italo Felipe

Porto Velho – Semana da Música

A Semana da Música Casarão, programação gratuita com shows, workshops, conversas e outras atividades, já havia começado na sexta, dia 29, com três apresentações intimistas, apenas voz e violão, do rondoniense Sandro Bacelar, da acreana Duda Modesto (uma habitué do Casarão, e um dos nomes mais interessantes da cena local) e do gaúcho Esteban, um nome há muito aguardado pelo público frequentador do festival. O sábado foi dedicado ao rap, com um grande número de MCs se revezando entre apresentações individuais e batalhas, e tendo o encerramento por conta do paulista Fábio Brazza. O domingo, especialmente interessante, foi dedicado às Mulheres da Beira, com artistas da cena local como Gabriê, Sandra Braids, Débora Feliciano, Kryssia, Andressa Silva, DJ Peste, Bloco Eu Te Avisei e As Pastoras do Asfalto. A segunda-feira, 1 de junho, teve três nomes da cena pop rock local (Amezma, Ultimato e Versalle). Todas as apresentações ocorreram na frente do Teatro Banzeiros – que, por sua vez, abrigou oficinas, coletivas de imprensa e bate-papos durante a tarde de cada um desses dias.

O Scream & Yell chegou a Porto Velho na terça, dia 2, com este que vos escreve se juntando aos jornalistas Orlando Lima Júnior e Dennis Weber para o bate-papo “Jornalismo e Arte: como a mídia influencia na identidade cultural?”, seguido por um breve e animado lançamento dos livros “Eu nem Queria Dar Entrevista – O Melhor do Scream & Yell vol. 1” e “O Evangelho segundo Odair”. Antes disso, o veterano carioca MC Marechal, o rapper e professor de comunicação Carlos Mossoró, e o grafiteiro e educador Gaspar Knyppel protagonizaram um ótimo debate sobre como a arte influencia na formação identitária das periferias brasileiras.

Versalle / Foto: Fita Crepe

Nos shows, mais uma vez no palco armado na rua José do Patrocínio, o peso metálico deu o tom. Da cena local, a Ecdise tempera o som gutural (que vai do hardcore ao thrash) com humor e crítica social, e o Da Ordem ao Caos veio estreando formação nova (com o guitarrista Junior há apenas duas semanas no posto) e vociferando palavras de ordem contra a apatia, a ignorância e o “genocídio animal” (ótima – e tristemente correta – expressão). O vocalista Mário Vicente é uma figura à parte: guitarrista de banda de forró e DJ, não se furta de berrar as letras com o timbre característico do estilo, mas também traz alguns momentos de voz mais límpida, que permitem entender melhor as letras.

O headliner da noite foi o Matanza Inc. O Matanza original participara de duas edições do festival, e já tinha construído uma relação de afeto e parceria com a organização. Depois da cisão, em que o vocalista Jimmy London montou o Matanza Ritual e três outros integrantes formaram o Matanza Inc., coube a esse último manter a proximidade, se apresentando sob essa alcunha em 2022, e agora retornando para a versão completa do circuito – se apresentariam também em todas as outras quatro sedes. Agora, apenas com o guitarrista Donida da formação original, a banda chegou com sua sonoridade feia, suja & malvada que faz a alegria dos fãs, mas não convence quem não entra na pilha do humor da banda. Não que isso fosse problema: quem saiu na rua numa noite de calor ameno (para os padrões locais) visivelmente era fã, e viu uma banda bem afiada em seu punk de vocação metaleira e festiva. Daniel Pacheco tem uma atuação vocal bem mais interessante e modulada que seu antecessor, Vital Cavalcante, e a cozinha formada pelo batera Marcos Williams e pelo baixista Marcelo Massa faz mais que não deixar a peteca cair, especialmente pelo timbre poderoso e pelas soluções pouco óbvias que Massa encontra para o seu instrumento. Uma festa suarenta, com uma roda de pogo formada majoritariamente por garotos (e garotas) que certamente não haviam nascido quando o Matanza estava em seu auge.

Matanza Inc. / Foto: Fita Crepe

O leitor mais atento pode ter visto as referências a humor nos três shows e talvez tenha acreditado que se tratou de uma noite de rock engraçadinho. Nada mais longe da verdade: humor, aqui, se refere ao fato de as três bandas claramente gostarem da sonoridade que escolheram, mas não levarem a sério os clichês que circundam o estilo. Mesmo o Matanza Inc. (aliás, principalmente eles) sabe que aquilo é um pretexto para a festa, uma estética de escapismo voluntário e divertido. E é importante notar que o Da Ordem ao Caos tem em suas fileiras uma baixista de grande destaque (Angela Gomes), enquanto Marcelo Massa ostentava uma braçadeira do arco-íris. Se ainda tem headbanger de cabeça fechada por aí, a culpa não é das bandas – pelo menos, não daquelas selecionadas pela curadoria do Festival Casarão e apreciadas pelo público porto-velhense.

Foto: Fita Crepe

Porto Velho – Zé Beer – Dia 1

O Zé Beer é uma casa ampla, com um agradável quintal para onde o espectador pode se refugiar quando quiser escapar do poderosíssimo ar-condicionado, fumar um cigarro ou comer um espetinho – ou até realizar uma batalha informal de rap, como a reportagem testemunhou no início da madrugada.

Mas bem antes disso, o rap já estava no palco Petrobrás, com MCs locais que sequer estavam anunciados no lineup se revezando antes do primeiro show “oficial” da noite. A rapper Juhka fez uma apresentação breve (cerca de 20 minutos), marcada especialmente pela homenagem à Dina Di, falecida em 2010. A versão de “Mente Engatilhada”, do Visão de Rua (grupo do qual Dina fazia parte), teve vocais divididos com a decana do rap local, Sandra Braids, e imagens da homenageada ao fundo. Bela e justa homenagem encerrando uma apresentação simples, mas cativante.

NóDaMassa / Foto: Fita Crepe

Na sequência, o NóDaMassa subiu ao palco secundário (no canto oposto ao principal) e veio trazendo seu skate rock direto, quase sem solos, e de vibe pacifista. O vocalista Mael KB compensava o alcance vocal limitado com uma performance enérgica, e a objetividade das canções rendeu uma primeira metade do show interessante, mas a participação da cantora Carol Moura cantando duas de suas composições mudou o tom para um pop pouco original e um tanto incipiente, e ao fim, restringida pelo tempo de apresentação, a banda não retomou o pique.

O primeiro momento de grande surpresa – e também um dos melhores show das duas etapas presenciadas pelo Scream & Yell – veio a seguir. A Samuel Béra Band veio trazendo caboclada, carimbó e outros gêneros amazônicos embaladas em peso, psicodelia, espiritualidade selvática e ótimos refrões. Era rock com a verdadeira identidade beradeira – ou, como dizia Raul Seixas, rock brasileiro, não rock feito no Brasil. Também integrante da (boa) banda Quilomboclada, Béra se mostra ainda mais à vontade no projeto que leva seu nome, e acompanhado por um power trio poderoso, chegou aludindo às queimadas na floresta, invocando o curupira e botando todo mundo pra dançar – tudo isso nos três minutos iniciais. O restante da apresentação manteve o tom, incluiu algumas canções da Quilomboclada, e entregou pelo menos um refrão que merecia ser cantado pelo país inteiro: “Na boca de quem presta eu não valho nada”. Se você puder ver, não perca. E se você é produtor de shows, leve para sua cidade.

Samuel Béra Band / Foto: NÓS

O rap local voltou ao palco secundário, com Carlos Mossoró e Sandra Braids fazendo a sua primeira apresentação conjunta oficial. O primeiro é potiguar e mora na cidade há quatro anos, mas já vem construindo o seu “RAPente” há anos; enquanto Sandra, como já se disse, é uma figura de referência para as manas de Porto Velho. Problemas no som prejudicaram o início da apresentação, que se anunciava poderosa, e foram resolvidos apenas parcialmente, com a voz de Sandra muito baixa e interferências constantes no microfone de Mossoró. Mesmo assim, a dupla conseguiu manter a atenção do público – já bastante numeroso a essa altura – trouxe Juhka e outros rappers para o palco, e mostrou um rap que usa a identidade regional para falar de questões globais. Suspeito que Chico Science aprovaria.

Pisando na cidade pela primeira vez, o MC Marechal se mostrou praticamente um segundo headliner – isso com metade da programação ainda por vir. O apelido “Marechal” vem da adolescência, oriundo do jogo de tabuleiro “Combate”, mas se fosse para dar um título ao niteróiense Rodrigo Vieira, o mais justo seria “professor”. Não porque ele se proponha a palestrar: Marechal ensina pela modulação aparentemente infinita do seu flow, que jamais se repete ou resvala na obviedade; nas ótimas referências musicais que compõem seus beats; na capacidade de contornar eventuais atropelos no som, e na maneira de comandar e cativar o público sem precisar recolher a palavras de ordem.

Samuel Béra Band / Foto: Fita Crepe

Como é possível que um artista cuja maior parte dos registros é informal (ele provavelmente tem mais músicas registradas em vídeos de Youtube do que em gravações de estúdio) tenha tantas canções memorizadas pelo público? Como alguém tão apto ao improviso consegue trazer a sensação de familiaridade nas melodias vocais? Como rolou de ele praticamente não ter ensaiado com o local DJ Dedei e ter estabelecido uma sincronia imediata com o mano? Essas são algumas perguntas que vão se apresentando ao longo de uma apresentação poderosa, há muito aguardada pela cena do rap local, e que cativou até quem não é apto ao estilo

Depois do Marechal,a tarefa de dar sequência parecia ingrata, mas os Os Últimos, de Ariquemes (RO), já gozavam de popularidade entre parte do público, que cantava alguns refrões ou arriscava umas danças aqui e ali. O som da banda é competente – em especial os riffs do baixista Rogério Madeira – e o guitarrista Thiago Maziero é um dos mais importantes agitadores da cena local, mas ainda falta alguma coisa ali para as bem-vindas aspirações pop da banda se concretizarem na prática. Não é excelência musical – como se disse, é inegável a habilidade do quarteto, bem como seu apreço por boas melodias. Talvez um pouco de ousadia? Um pouco mais de Lulu Santos e menos Jota Quest? Seja como for, segurou com dignidade a energia pós-Marechal.

Os Últimos / Foto: Fita Crepe

E há quem diga que a energia se manteve em alta com o Zimbra, que veio na sequência. Os santistas estão comemorando 10 anos do álbum “Azul” e eram há muito requisitados pelo público porto-velhense. Pedidos atendidos, e a gratidão era mostrada com a pista abarrotada (ingressos esgotados, e boa parte das 900 pessoas estava na pista naquele momento). Mas, por mais bem-intencionada que a banda seja, e por mais emocionados que estivessem seus fãs, a sonoridade do quarteto está em algum lugar entre os filhotes de Los Hermanos e o romantismo adolescente, com até mesmo alguns momentos que remetem ao pop evangélico (ou vai dizer que aqueles pans e drones não lembram o worship?). Quando surge algum momento de maior intensidade ou personalidade, ele logo é substituído pela placidez pós-adolescente que dá o tom da banda. É uma pregação que atinge em cheio os convertidos, mas que não dialoga com quem não compactua do mesmo credo.

Zimbra / Foto: Fita Crepe

O ponteiro ameaçou subir pra valer com a última apresentação do palco secundário. O rapper F’Dois é talvez o artista dessa cena com a identidade artística mais rica e sólida da região. Para essa apresentação, veio com DJ e um ótimo power trio, e entregou três faixas pesadíssimas, groovadas e com flow muito pessoal. Porém, um problema técnico apagou completamente os microfones na que ele chamou Sandra Braids ao palco, e a produção não conseguiu solucionar o problema, restringindo a apresentação apenas àquelas três músicas. Uma pena; prometia ser um dos grandes momentos da noite.

Um dos nomes mais proeminentes do rap atual, FBC veio fechar uma noite rondoniense quase que inteiramente dedicada ao estilo. Embora esteja lançando álbum novo, o pesado e furioso “Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades”, o mineiro optou por uma espécie de greatest hits que ignorou completamente o disco mais recente. É compreensível: embora se apresente habitualmente com banda, veio à Porto Velho acompanhado apenas de DJ, e como era a primeira apresentação na cidade, provavelmente preferiu compensar a ausência (ou talvez jogar no seguro). O começo foi meio lento, mas Fabrício Teixeira sabe ir do trap ao Miami bass com muita naturalidade, e a segunda metade do show foi dedicada a esse lado mais dançante. Quem segurou a onda madrugada adentro – praticamente todo mundo – literalmente dançou. Mas que fez falta trazer um pouco da fúria hardcore do último álbum, isso fez.

FBC / Foto: Fita Crepe

Porto Velho – Zé Beer – Dia 2

A quinta-feira de feriado começou “quase” na hora – não foram nem 30 minutos de atraso, e a porto-velhense Amanda Hikague e sua sonoridade inspirada pelo pós-grunge e pelo pop de guitarras do começo dos anos 00. A moça tem uma boa voz e ideias melódicas interessantes, algumas em parceria com o guitarrista Alex Caldas, mas as letras majoritariamente em inglês e a timidez no palco seguram um pouco o potencial que se escuta em suas canções. Tudo bem: Amanda é jovem, e as chances dessas questões se resolverem conforme ela matura seu ofício são grandes.

Ao contrário de Amanda, que estreava no Casarão, a conterrânea Gabi Shima já havia participado de edições anteriores. Gabi segue a vocação para a tradição de cantautora à brasileira: é consciente de seu alcance vocal, e compõe canções adequadas para sua voz, que remetem tanto ao pop nacional de boa cepa quanto, em alguns momentos pontuais, ao folk rock. O que compromete são os excessos do guitarrista Felipe Macedo, esbanjando virtuosismo onde ele não é necessário e pesando a mão em solos e firulas que nada acrescentam às canções. Ainda assim, uma boa apresentação, que contou com breve (e apagada) canja de Bonfanti, que mais tarde subiria ao palco para uma apresentação própria.

Nicles / Foto: Fita Crepe

Também estreantes no Casarão, o quarteto Nicles mudou o tom e o volume da noite: com um peso que suas gravações de estúdio apenas sugerem, os acreanos fizeram um dos shows mais impressionantes do festival. O vocalista Quilrio se porta como alguém que recebeu um diagnóstico fatal e decide soltar tudo que reprimiu ao longo de toda a vida para compensar o tempo perdido. Os músicos – a baixista Isabel Darah, o guitarrista Marcos Casas e o baterista Dhonatan – ficam naquela vibe de quem está curtindo na deles, mas em sintonia com o companheiro, criando aquele carisma “gente como a gente – só que mais doida”. “A Voz” traz elementos beiradeiros, e junto com “Coito Interrompido”, formam dois pontos de destaque num repertório pra lá de digno. Bela e promissora surpresa!

“Promissor” também cabe aos manauaras Não Existe Saudade em Inglês. A base do som é o indie do início do século (Strokes, Arctic Monkeys… você conhece o esquema), mas devidamente atualizado pela perspectiva do tempo. Procuram registrar suas canções ao vivo em estúdio, e isso ajuda para que sejam uma das bandas nortistas que melhor transpõem para as plataformas de streaming o que acontece no palco. As letras soam como pequenos comentários entre o cotidiano e o existencial, numa linguagem simples e direta, e que orna com os riffs. Em algum momento, lembrei dos gaúchos da Supervão – “Dias Ruins” faria uma boa dobradinha com “Love e Vício em Sunshine”. Delicinha de show.

Não Existe Saudade em Inglês / Foto: Fita Crepe

Já o Benvindo ao Pacífico navela naquela escola Muse de buscar conciliar peso e grandiosidade, com um grunge aqui e um post rock de leve ali. É curioso que eles mesmo definam seu som como uma mistura de rock, MPB e ritmos regionais, porque o primeiro elemento é o protagonista disparado, enquanto os outros podem até entrar como inspiração, mas não se fazem notar no resultado final. É um power trio firme, e que trabalha muito bem o que seus instrumentos e pedais têm a oferecer (os timbres realmente merecem destaque), mas faltam bons refrões e uma identidade mais particular que os tire do espaço de mera competência.

Depois deles, o Selvagens à Procura de Lei veio como uma espécie de “segundo headliner”, embora fosse o antepenúltimo da noite. A cisão que separou a formação mais conhecida da banda machucou o vocalista e guitarrista Gabriel Aragão, como ele contou de peito aberto ao Scream & Yell, mas também lhe deu fôlego renovado, compartilhado com entusiasmo pelos novos parceiros – Matheus Brasil (bateria), Plínio Câmara (guitarra) e Jonas Rio (baixo). Abriram o show com “Brasileiro”, garantindo que os poucos que ainda estavam na área externa do Zé Beer fossem imediatamente para a pista, e seguraram a onda com a face mais pesada e/ou acelerada do seu repertório, muitas delas favoritas dos fãs. O Selvagens sempre foi uma banda que, “bem editada”, tinha mais força que em seus álbuns, bastante irregulares. O último, “Y” (2025), é certamente o trabalho mais consistente da banda, e suas canções entram no setlist ajudando a costurar uma identidade mais forte e assertiva ao repertório. Oxalá a banda siga explorando os caminhos abertos por essa trilha.

Mas para este repórter, o fim do show seria o fim da primeira noite. Ainda haveria Bonfanti e Cícero encerrando a data, mas eu tinha que seguir para o aeroporto para uma noite insone de conexões aeroportuárias que me levariam para a etapa Manaus do festival. Então bora que ainda tem mais duas noites intensas pela frente…

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.

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