texto de Marcelo Costa
fotos do C6 Fest
Em seu segundo ano com programação separada da correria dos shows de arena e tenda ao ar livre no fim de semana (uma decisão acertada), as noites de jazz do C6 Fest voltaram a protagonizar momentos inesquecíveis, como já vem sendo uma rotina da curadoria que toma pra si o elegante Auditório Ibirapuera. Se nos dois primeiros anos, o festival acumulou grandes shows ( Nubya Garcia e The Comet is Coming, em 2023, ou de Dinner Party e Chief Adjuah em 2024) e no ano passado sentiu o adeus de seu principal curador da área, Zé Nogueira, o que resultou em uma programação mais morna, em 2026, o C6 (Jazz) Fest voltou a registrar momentos emocionantes.

Abrindo os trabalhos no auditório projetado por Oscar Niemeyer na quinta-feira, o músico tunisiano Anouar Brahem surgiu acompanhado por Dave Holland (double bass), Django Bates (piano) e Anja Lechner (cello) para protagonizar uma apresentação comovente. De posse de um oud, instrumento de cordas clássico do Oriente Médio, também chamado de alaúde oriental, que vez em quando remete a berimbau, Brahem fez um show delicado e de tons melancólicos, com o piano de Django e, principalmente, o double bass de Dave Holland se destacando, mas, sobretudo, ressaltando a influência de sua herança cultural. A base do show foi o emoicionante “After the Last Sky”, disco lançado em 2025, e na hora de apresentar a faixa título, Anouar fez questão de contar que o nome veio de um verso de um poeta palestino, inserindo mais uma camada de emoção em um concerto que poderia durar a noite toda, atravessar dias e desbravar anos. Inesquecível.
Na sequencia, o multi-instrumentista Julius Rodriguez com uma proposta mais… moderna. O pianista entrou só em cena, sentou na bateria, soltou uma programação e solou no melhor estilo “sou foda pra caralho, toco vários instrumentos, sou dono da banda e da porra toda”. E, definitivamente, ele é, mas sua apresentação, pautada no exibicionismo e numa competição por notas velozes, valoriza a técnica enquanto esvazia a música – na via contrária, aliás, do belo Tiny Desk que ele gravou em 2024. Ahhh, a música. Com ela em segundo plano, Julius passeou pelo funk, atravessou uns R&B e mostrou alguns jazz nervosos (no melhor momento do show, com seu baterista mão pesada mostrando mais personalidade que o dono da bola), mas, na maioria do tempo, a vontade era de estar em outro lugar.

Se foi um tiquinho torturante ver o show anterior, nada como uma apresentação do The Branford Marsalis Quartet para colocar ordem nas coisas, e o melhor recado veio numa entrevista de backstage postada no perfil do festival pouco antes do set começar: “Vamos tocar e vamos nos divertir tocando. Esperamos que a audiência se divirta”. A audiêcia não apenas se divertiu, como flutuou no Auditório. Na abertura, com “The Mighty Sword”, canção do pianista Joey Calderazzo registrada pelo quarteto pouco mais de uma década atrás, esse senso de diversão ficou nítido, com Marsalis batucando nas costas do baixo de Eric Revis e o baterista Justin Faulkner trafegando lindamente entre a pureza e a crueza – o número final, “Nilaste”, com uma condução insana de Faulkner, foi inesquecível. E o que dizer do bis com “Coração Vagabundo”, de Caetano Veloso? Inesquecível (parte 2)
Na sexta-feira, quem abriu a noite foi a harpista, compositora, bandleader e fofa Brandee Younger, que trouxe consigo o baterista Allan Mednard e o baixista Rashaan Carter. Juntos, o trio gravou em casa o álbum “Gadabout Season” (2025), que Brandee registrou utilizando a harpa de Alice Coltrane, e passará todo o show do C6 explicando cada canção: “Vamos tocar uma música chamada ‘New Pinnacle’, que fala sobre encontrar a alegria”, ela diz em certo momento para reforçar em português: “É buscar alegria”. O show é delicado e sutil, com a cozinha marcando a aproximação com o jazz enquanto Brandee dá todo o colorido de cada número com sua harpa. O show é quase um sonho, e a felicidade da artista em estar no Brasil é palpável: “Hoje é meu primeiro dia no Brasil, e já fui numa loja de discos”, confidencia, antes de tocar a faixa título do disco, cujo termo “Gadabout” significa “vagabundo”, descrevendo pessoas que vão de um lugar a outro buscando prazer e… alegria, o tema que norteia o disco. Ao final, ela convida a todos os presentes para irem ao saguão do auditório: “Temos discos e CDs, mas pode ir só me dar um oi. Vamos lá, venha me dar um oi”. A plateia, apaixonada pela fofura da artista e pela delicadeza do concerto esgotou tudo que ela tinha na lojinha em poucos minutos. Brandee merece essa alegria.

O próximo show foi uma grande surpresa: Hermeto Pascoal & Big Band. Sim, o bruxo nos deixou no ano passado, e essa Big Band de 20 músicos que tocavam com ele segue na estrada levando sua música – e o álbum com canções inéditas de Hermeto, “Natureza Universal”– para o mundo. Uma constatação: nos últimos anos, os shows de Hermeto pareciam reverenciar o artista, como se seus próprios músicos estivessem se despedindo dele em vida, declarando seu amor ao músico. Agora que Hermeto não está mais no palco, mas está em todo lugar porque ele é música, a sensação é de que a banda se soltou para ser Hermeto, o que transforma o set numa imensa algazarra musical repleta de amor e amizade, como também transpira o espirito anárquico de seu mestre. Dessa forma, o show que a Hermeto Pascoal & Big Band performou no C6 foi simplesmente avassalador, uma usina de sons impecáveis que merece toda a atenção do mundo. Foi tão exuberantemente delirante que dificultou a entrada da alma no show posterior, do duo (aqui em formato quinteto) de jazz-funk eletrônico Knower, que, assim como o Wilco, convidou todos os presentes para o gargarejo, mas a alma queria voar. Quem sabe na próxima, Louis Cole e Genevieve Artadi, quem sabe.
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– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
