Penelope Lowenstein (Horsegirl): “A música de guitarra está vivendo uma pequena crise, mas continua sendo algo muito empolgante”

entrevista de Heloísa Lisboa

A banda Horsegirl, de Chicago, abriu o terceiro dia do C6 Fest, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. A tarde do sábado, 23, tinha o clima que costuma assombrar qualquer frequentador de festival — frio e chuva —, mas a Tenda MetLife deu conta do público que começava, aos poucos, a ocupar o espaço.

No palco, o trio formado por Penelope Lowenstein, Nora Cheng e Gigi Reece apresentou canções de seu álbum mais recente, “Phonetics On an On” (2025), e de seu disco de estreia, “Versions of Modern Performance” (2022), além de faixas inéditas. Ao longo do show de cerca de 1h, Gigi se divertiu na bateria, a plateia arrancou sorrisos discretos de Nora, enquanto Penelope se arriscou no português entre uma música e outra.

Ao fim da apresentação, Lowenstein recebeu o Scream & Yell nos bastidores. Antes de se sentar para iniciar a entrevista, ela brincou dizendo que ainda estava se acostumando ao modo como os brasileiros cumprimentam: “Nunca sei se devo dar um aperto de mão ou um beijo na bochecha”.

A guitarrista é a integrante mais nova do grupo e acabou de se formar na Universidade de Nova York, pouco depois de Cheng concluir seu curso na mesma instituição. Junto a Reece, elas passaram a morar na cidade que nunca dorme para estudar. Até 2025, planejavam retornar para Chicago, onde nasceram e iniciaram a carreira musical, “só que Nova York é uma cidade muito especial”, disse Lowenstein, ao revelar que a banda se mudou para um novo apartamento no Brooklyn.

Dois dias após a estreia no Brasil, o grupo fez uma apresentação gratuita no Mamãe Bar. “Agora que o show acabou, é hora das férias. Vamos só curtir com os nossos amigos e conhecer a cidade”, contou a artista. Ela demonstrou interesse em ir ao show do Manu Chao, durante a Virada Cultural, e ainda comparou São Paulo à sua casa: “Sinceramente, me lembra bastante Nova York”.

A guitarrista conversou também sobre o equilíbrio entre as dores da vida adulta e as delícias da vida na estrada, passando pela parceria com Cate Le Bon e o amadurecimento que levou o trio a assumir uma sonoridade mais minimalista. Confira a seguir a entrevista com Horsegirl na íntegra:

E aí, como foi o show?
Meu Deus, incrível! Sinto que ainda estou tentando absorver tudo até agora. Mas é tão louco… Eu estava lá em cima pensando: “Não acredito que estamos tocando no Brasil”. É a nossa primeira vez aqui na América do Sul, então é muito especial, sinceramente.

Você acha que a temperatura e a atmosfera estavam ideais para apresentar esse álbum ao vivo? Isso lembrou vocês da época em que estavam gravando em Chicago?
Acho que a chuva e a temperatura aqui estão bem diferentes do que eu esperava. Em Nova York, onde a gente mora, está fazendo uns 90 ºF [cerca de 32 ºC] agora, muito calor. Nós colocamos roupas de verão na bagagem para essa viagem, mas, quando chegamos aqui, percebi que podia até tocar usando meu cachecol. Na verdade, isso me fez sentir meio que em casa, porque normalmente é assim que a gente se veste. Além disso, a chuva, junto com toda essa vegetação daqui… É algo muito bonito. Então, sinceramente, eu não fiquei chateada com a chuva. Mas, é, foi diferente do que eu imaginava.

Essa é a primeira vez de vocês no Brasil. Vocês têm planos de explorar a região? E quais têm sido as impressões de vocês até agora?
Até agora, eu tenho amado tudo. Temos alguns amigos aqui de Nova York, que são de São Paulo e fizeram faculdade em Nova York. Então, a gente tem saído com pessoas que realmente moram aqui. E tem sido muito divertido. Sinceramente, me lembra bastante Nova York. A vida noturna, todo mundo na rua, as pessoas meio doidas. Tem sido muito legal. E, hoje à noite, vou tentar assistir ao Manu Chao. Ele vai fazer um show gratuito, e a gente pretende aproveitar várias outras coisas gratuitas por aqui.

Penelope Lowenstein / Foto de Fernando Yokota

Estamos no final de semana de um evento chamado Virada Cultural. Acontecem vários shows e atividades gratuitas pela cidade.
Uau! Parece que estamos aqui durante uma semana realmente especial para a cidade. Vamos ficar aqui por mais três dias. Agora que o show acabou, é hora das férias. Vamos só curtir com os nossos amigos e conhecer a cidade. Então, estou muito animada.

Tenho formação em jornalismo, mas agora estou estudando história. Às vezes, quando estou escrevendo um texto acadêmico, preciso tomar cuidado para não acabar escorregando para uma escrita mais jornalística, por exemplo. Então, você sente que a faculdade ajudou a expandir a forma como você escreve músicas, ou vê a composição como algo completamente diferente?
Acho que essa é uma ótima pergunta, porque tenho pensado muito sobre isso. Tipo, ler poesia e depois escrever letras de música. Eu amo poesia, mas também acho que letras são poesia. Só que, ao mesmo tempo, às vezes, uma música precisa ser mais direta do que um poema. Às vezes, uma canção é mais impactante quando a letra é simplesmente sincera e um pouco mais intuitiva do que talvez um poema seja.

Então, a forma como fui treinada para ler literatura é muito baseada na ideia de que cada palavra importa e que devo focar na forma, sabe? É uma perspectiva muito analítica. Mas acho que, quando você está fazendo arte, não quer ficar se analisando enquanto escreve. Você quer que aquilo seja mais sincero. Então, eu tento não analisar demais o que estou criando enquanto estou trabalhando, porque sinto que são estados mentais muito diferentes e, de certa forma, trabalhos diferentes também.

Por isso, sinto que sou mais inspirada pelo que leio do que alguém que realmente aplica aquilo que aprende diretamente no processo de fazer arte. Porque, senão, você acaba pensando demais sobre tudo, eu acho.

E quando a Nora se formar, vocês pretendem voltar para Chicago, certo?
Na verdade, eu sou a última a me formar. Sou a mais nova. E me formei na semana passada. Então, agora terminamos tudo.

Parabéns!
Obrigada! Foi tipo: formatura e logo depois a gente veio direto para cá.

É uma ótima forma de celebrar.
Eu sei, eu sei. É muito bom já ficar ocupada imediatamente depois, sabe? Mas não vamos voltar para Chicago. Nós acabamos de nos mudar para um apartamento novo no Brooklyn e queremos ficar lá pelo máximo de tempo que conseguirmos pagar.

Eu amo Chicago. Acho que vou voltar para casa mais para frente. Só que Nova York é uma cidade muito especial. E a gente se sente muito conectade com o lugar agora, depois de morar lá por uns quatro ou cinco anos.

Gigi Reece / Foto de Fernando Yokota

E como vocês lidam com o equilíbrio entre a carreira musical — um universo tão particular — e as responsabilidades da vida adulta que afetam todo mundo?
Acho que fazemos um bom trabalho equilibrando isso. A gente escolheu continuar estudando e ter uma vida além da música. Acho que muita gente que assina contrato muito jovem acaba dizendo “sim” para toda oportunidade, porque se sente muito sortuda por poder fazer aquilo. E aí, quando chega aos 25 anos, já está completamente exausto e meio que nunca construiu amizades com pessoas que não sejam músicos em turnê. Acho que pode ser muito isolador ser sugado pela rotina de shows tão cedo.

Mas sentimos que somos muito conectades à vida em Nova York, e acho que isso faz com que a gente sempre volte para casa e mantenha relações que não têm a ver apenas com música, turnês ou a indústria musical. Acho importante cercar-se de pessoas que fazem coisas completamente diferentes, não só música e não apenas o seu pequeno círculo.

Então, acho que isso nos manteve com os pés no chão. E também, sei lá, quando eu estiver de volta em Nova York, quero dar aulas para estudantes do ensino médio. Acho que nossos interesses são bem amplos, e eu não me vejo como alguém que vai viver na estrada para sempre — por mais incrível que isso seja.

Assim como eu, vocês fazem parte da geração Z, mas a música de vocês não está exatamente ligada ao tipo de pop mainstream que é extremamente popular entre pessoas da nossa idade. De onde vêm as influências de vocês? E como foi abrir shows para algumas das suas próprias referências, como Pavement e Wilco?
Acho que tivemos uma grande evolução em relação às nossas influências. Quando éramos mais jovens, absorvíamos música o tempo inteiro — éramos completamente obcecades por música — e estávamos processando tudo aquilo que amávamos. Especialmente naquela época, tivemos muitas oportunidades de tocar com bandas mais velhas. Isso ensinou muita coisa para a gente. Colocou a banda diante dos maiores públicos para os quais já tínhamos tocado, e foi muito gratificante — e ainda nos sentimos assim. Mas acho que hoje falamos menos sobre essas referências, porque agora estamos tentando olhar mais para nós e pensar: “O que queremos construir? Algo diferente de qualquer década do passado?”

Acho que a música de guitarra está vivendo uma pequena crise atualmente, porque é difícil fazer com que ela soe realmente nova. Mas, para mim, a guitarra continua sendo algo muito empolgante. Então, tento pensar menos nas minhas influências de forma tão específica, porque, senão… Acho que é difícil para a geração Z entender o que criar que pareça novo. A internet é uma influência enorme para a nossa geração, mas, ao mesmo tempo, eu não quero fazer música eletrônica — só que ainda quero que o som pareça contemporâneo. E isso é um desafio. Ainda estamos descobrindo esse caminho.

Como seus pais ajudaram a tornar esse sonho possível?
Cresci em uma cidade grande e, por causa disso, via muitas bandas o tempo inteiro. Existe muita música em Chicago. E isso simplesmente fez com que eu quisesse estar em uma banda. Crescer em um ambiente tão musical torna quase impossível não acabar montando uma banda em algum momento. Na verdade, São Paulo é um lugar bem parecido. É quase impossível não estar em uma banda quando todo mundo está em uma banda.

Além disso, meu irmão também toca em uma banda. Durante a pandemia, a gente passava o dia inteiro ensaiando. Tudo o que eu fazia era tocar música no porão da casa dos meus pais. Era muito barulhento. E meus pais precisavam trabalhar de casa por causa da pandemia, mas nunca reclamaram. Eles só ficavam felizes porque nós estávamos felizes e deixaram a gente construir nosso próprio espaço lá embaixo.

Muitos pais jamais permitiriam isso. E acho que meus pais também nunca julgaram o caminho que escolhi seguir. Eles sempre me deram bons conselhos, tipo: “Faça o que te faz feliz”. Mas nunca disseram algo como: “Você precisa ter sucesso na indústria musical”.

Então, eu nunca senti essa pressão. E acho que isso me permitiu seguir por esse caminho sem sentir que precisava virar uma estrela. Enquanto eu amar o que faço e estiver feliz, eles também ficam felizes. Eles não se metem muito, e eu gosto disso.

“Phonetics On and On” saiu pouco tempo depois do álbum de estreia de vocês, mas vocês já tinham passado por grandes mudanças pessoais. Nora e você foram para a faculdade, enquanto Gigi se assumiu como uma pessoa não binária. Como essas experiências moldaram o álbum?
Acho que crescemos muito. Tudo isso fazia parte do processo de amadurecer. Quando escrevemos muitas das músicas do “Versions of Modern Performance”, eu tinha 16, 17 anos. Eu nunca tinha me apaixonado, por exemplo. Essas experiências transformam completamente a forma como você enxerga tudo. Acho que as experiências pessoais pelas quais você passa entre os 17 e os 21, 22 anos acabam sendo literalmente tudo. Por isso, faz sentido para mim que tenhamos feito dois trabalhos tão diferentes. A gente simplesmente não conseguia mais fazer aquilo que fazia no ensino médio, porque já nos sentíamos pessoas completamente diferentes daquela época.

Nora Cheng / Foto de Fernando Yokota

Como surgiu a conexão de vocês com Cate Le Bon? E como foi ter uma perspectiva externa sobre o trabalho de vocês durante o processo de produção do álbum?
Acho que já tínhamos dito em uma entrevista, anos atrás, que, se pudéssemos trabalhar com qualquer pessoa, seria com a Cate. Fizemos essas demos gravadas em casa, e nossa equipe disse: “Acho que a Cate seria uma influência muito boa aqui. Tipo, vocês têm interesse em minimalismo e tudo mais…” Então, eles entraram em contato com ela. E, sinceramente, isso transformou completamente a forma como eu enxergo música.

Trabalhar com ela foi como a melhor aula que já tive. Acho que ela me mostrou muita coisa — ela tinha um papel criativo, mas, ao mesmo tempo, deixava a gente seguir nossa própria visão. E a postura dela no estúdio era muito aberta, de um jeito que fazia parecer que qualquer coisa era possível ali. Existia um grande senso de descoberta e exploração.

Normalmente, quando vou gravar, penso: “Ok, isso precisa soar exatamente como soa ao vivo”. Mas ela dizia: “Divirtam-se”. Ela realmente criou a atmosfera certa. E ter uma perspectiva externa em que você confia é, provavelmente, a coisa mais importante. Porque, se você não confia nessa pessoa, começa a duvidar dela e, depois, de si mesmo, tudo vira um caos. Mas também acho que o fato de ela ser uma artista por si só ajudou muito a construir essa confiança entre nós. Porque ela entende esse lugar também, entende o processo como artista.

Infelizmente, temos que encerrar. Tenho uma pergunta boba: vocês compartilham o nome com a DJ horsegiirL, cujo nome faz referência a algo bem óbvio. Mas e o nome da banda de vocês, de onde vem?
Estamos juntas desde muito novas. A Nora e eu começamos a tocar quando éramos crianças. Uma vez, nos inscrevemos para uma espécie de noite de microfone aberto, então precisávamos de um nome. Pensamos: “E se fosse Horsegirl?” Simplesmente escolhemos a partir de uma lista de coisas que eu tinha anotado e que tinham vindo à cabeça em algum momento. E, antes que você perceba, se passam oito anos e você ainda se chama Horsegirl.

Nunca paramos para pensar qual deveria ser o nome da nossa banda. Simplesmente aconteceu. E aí você fica preso a isso e pensa: “Eu escolhi esse nome quando tinha 16 anos”. Mas hoje o nome já significa algo para mim, tipo: “Esse é o nome da minha banda”. E eu gosto dele, mas nunca o escolhemos. E agora ainda existe uma DJ com uma cabeça de cavalo. Tipo, o que está acontecendo? Mas essa é a história.

– Heloísa Lisboa é jornalista com passagens pela Folha de S.Paulo e Rolling Stone. Leia outros textos de Heloisa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *