texto de Davi Caro
Adam Scott pode, secretamente, ser o mais versátil ator de sua geração. Basta observar seu desempenho em “Hokum: O Pesadelo da Bruxa” (“Hokum”, 2026) para ver que o intérprete, que surgiu para o grande público por meio de comédias – como as séries “Party Down” e “Parks and Recreation” – e que se reinventou nas duas primeiras temporadas da magnífica “Ruptura” mostra, agora, uma outra faceta em uma surpreendente paleta de interpretações: a de protagonista de um filme de horror. O longa, que estreia agora em cinemas brasileiros depois de um não-explicado adiamento (a data original era prevista para 30 de Abril) é o terceiro crédito do diretor Damien McCarthy. Além de dar a Scott uma chance de explorar outros níveis de sutileza, o filme também se utiliza de muitos dos mesmos tipos de elementos que figuram nos dois outros, e promissores, trabalhos de seu principal idealizador (“O Alerta”, de 2020, e “Oddity: Objetos Obscuros”, de 2024). Trabalhando com elementos de folclore irlandês e com uma trama que subverte na medida certa a expectativa do espectador, o resultado é, no mínimo, uma adição digna do hall de melhores produções do ano até agora, em seu gênero.
Ohm Bauman (Scott) é um amargurado e bem-sucedido escritor às voltas com a conclusão do capítulo final de uma trilogia literária. Sofrendo com um trauma passado que acabou determinando a complexa relação com seus agora falecidos pais, ele decide viajar até o hotel Bilberry Woods, na região rural da Irlanda, para espalhar as cinzas dos dois no local onde passaram a própria Lua de Mel, muitos anos antes. Sua missão, ao mesmo tempo prosaica e melancólica, acaba trazendo consigo um sinistro mistério envolvendo o lugar onde está hospedado: a suíte de núpcias do estabelecimento, que permanece fechada o tempo todo, seria supostamente o cômodo onde uma bruxa teria sido aprisionada, anos antes.

Conforme Bauman toma contato com o staff do hotel, e sobretudo com a barista Fiona (Florence Ordesh) – bem como com o nômade maltrapilho Jerry (David Wilmot) – a curiosidade do escritor com o enigma do quarto nupcial só faz crescer. E, quando um membro da equipe misteriosamente desaparece, Ohm se vê forçado a confrontar seus próprios demônios, bem como a barreira que impôs entre si mesmo e aqueles ao seu redor. Tudo isso ao mesmo tempo em que precisa escapar a um mal muito maior do que qualquer lenda poderia representar.
A cinematografia de “Hokum” (cuja tradução, uma expressão informal equivalente à “crendice”, diz muito sobre as raízes estéticas do enredo) é um espetáculo à parte. Ao invés de seguir os padrões que muito do cinema aterrorizante atual costumam repetir, a direção opta por tomadas que valorizam o ambiente rural. E não de forma idílica, mas sim explorando uma abordagem suja e obscura – o que dialoga com o próprio roteiro, de autoria do mesmo Damien McCarthy. Ao contrário de “Oddity”, pensado como uma história mais insular no que diz respeito à abordagem dos mitos populares da Irlanda, muito do apelo do novo longa tem a ver com o ceticismo do protagonista, estupefato diante da sabedoria popular cheia de superstições, e seu choque ao ser confrontado com aparições que desafiam sua sanidade. Esse conflito cultural, ao final, termina por criar uma experiência cinematográfica mais imersiva e interessante.
O elenco, embora relativamente reduzido, faz bom uso de performances balanceadas, e o desenvolvimento de seus personagens no enredo contribui sobremaneira para isso. No papel do arredio concierge Mal, Peter Coonan instiga em uma atuação que contradiz arquétipos. Mas o grande destaque não poderia ser outro: ter química com colegas de elenco é uma coisa; desenvolver uma boa dinâmica atuando em um papel repleto de sarcasmo, tendências anti-sociais e atitudes totalmente detestáveis é um feito ainda maior. É isso que Adam Scott traz, segurando a bronca de estar à frente de um filme que demanda um tipo de interpretação muito, muito diferente do que se é acostumado a esperar do ator. Em suas interações com o tresloucado Jerry de David Wilmot, ou o simpático mensageiro Alby (Will O’Connell), o resultado do principal nome no elenco fica distante do esquisito Ben Wyatt de “Parks…”, embora pudesse ser, hipoteticamente, um parente distante do bucólico Mark S. (de “Ruptura”) – no melhor sentido.
Em alguns aspectos, “Hokum” pode até fazer lembrar de muito do que se viu de horror nas telonas nos últimos anos (a sensacional trilha sonora, de autoria do mesmo Joseph Bishara que compôs para a saga “Invocação do Mal”, é só um exemplo). Do mesmo modo, algumas resoluções no terceiro ato do filme podem parecer abruptas demais. Entretanto, não se trata de nada que seja um obstáculo no aproveitamento de um filme que, em seu caráter mais insular – quase rupestre, poderia se dizer – teria tudo para voar baixo no radar de tantos. O fenômeno do folk horror é, agora, mais inegável do que nunca: do êxito inesperado de “Midsommar” (de Ari Aster, 2019) até o mais obscuro “Mother Of Flies” (2025, de John e Zelda Adams), o que não falta são produções que explorem conceitos folclóricos tradicionais em prol de uma estrutura narrativa criativa e inovadora. “Hokum” pode não ser tão inovador, mas é inegavelmente criativo: por solidificar a reinvenção de um grande intérprete, e por jogar luz sobre o trabalho de um diretor e roteirista responsável por algumas das melhores obras de terror cinematográfico dos últimos tempos. “Hokum: O Pesadelo da Bruxa” tem muito em comum do que há de mais perturbador e instigante no novo horror (“pós-horror”, como alguns chamam) que, ao contrário do que dizem tantos por aí, segue revelando novos trabalhos – quase sempre com qualidade e propostas muito distantes de (e mais reais que) quaisquer crendices ou superstições.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
