Antropoceno apresenta “No Ritmo da Terra”, mesclando rock vanguardista com Ailton Krenak, faixa a faixa

texto de introdução de Renan Guerra
faixa a faixa de Antropoceno

Pensar a música brasileira é também pensar nos cruzamentos e nas encruzas geradas por trocas, ressignificações, bem como por apagamentos e apropriações. Por isso, para repensar o nosso lugar na terra e no Brasil precisamos também revisitar possibilidades artísticas e estéticas que reposicionam nossas noções de passado e futuro. Ailton Krenak nos faz proposições instigantes quando pensa em seu “Futuro Ancestral” (2022), quando nos diz “se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui”, pensando em um realinhamento ontológico com a natureza, através do resgate das tecnologias de resistência desenvolvidas pelos povos que permaneceram conectados ao planeta como tática de sobrevivência frente ao apagamento das subjetividades do processo colonial.

É a partir disso que se desenha o disco “No Ritmo da Terra”, de Antropoceno, projeto da artista Lua Viana. O trabalho articula o “Futuro Ancestral” de Ailton Krenak (lançado em livro pela Companhia das Letras) como um projeto estético, reinterpretando elementos tradicionais da música brasileira e gravações da Floresta Amazônica sob a linguagem de rock/metal experimental, criando um diálogo entre gêneros como afoxé, MPB, capoeira e samba com influências futurísticas de post-rock, post-metal, art rock e glitch.

Através de uma prática de apropriação material das ferramentas impostas pelo processo colonial, Lua defende a desconstrução e subversão das influências ocidentais em prol da valorização de tecnologias ancestrais que, por serem comprovadamente métodos eficazes de resistência, são capazes de iluminar nosso caminho para uma verdadeira emancipação, pautada na autonomia de visões de mundo que andam na contramão do capital.

Incorporando letras em português, tupi antigo e iorubá litúrgico, o álbum recontextualiza cantigas do candomblé e da capoeira através de um design de som idiossincrático que articula ancestralidade e futurismo. Gravações da Floresta Nacional de Carajás são sampleadas para inserir o ouvinte dentro da densa atmosfera amazônica, que ecoa cantos de pássaros musicalizados para fazer a floresta cantar junto das percussões e dos sintetizadores. Para isso, ela usa um universo percussivo com atabaques, agogôs, berimbaus, caxixis, pandeiros e tamborins, criando um diálogo com sonoridades e ritmos folclóricos, mas que aqui aparecem manipulados, distorcidos e reinterpretados por uma variedade de técnicas experimentais de música eletrônica, criando uma ponte entre os ritmos da música popular brasileira e a linguagem de gêneros como post-rock, art rock e metal vanguardista.

Lua Viana é uma musicista e produtora carioca que reside em São Paulo. Desde 2020, quando deu início a seu trabalho solo de shoegaze/ blackgaze como “sonhos tomam conta”, cria paisagens sonoras de forma independente, direto de seu quarto. Seu estilo é definido por um senso particular de textura e uma habilidade de evocar atmosferas oníricas.

Lua passou a cultivar certa notoriedade em círculos de música online a partir de 2021, quando lançou seu álbum debut “wierd” e assinou com a gravadora estadunidense Longinus Recordings. Sendo parte de uma cena de emo-shoegaze digital que emergiu de espaços como o site Rate Your Music, ela fez uma série de colaborações com artistas sul-coreanos que também estão assinados pela sua gravadora, como o álbum split “Downfall of the Neon Youth”, lançamento em conjunto com Parannoul e Asian Glow. Em 2025, fez uma mudança radical na sua carreira, aposentando seu trabalho como “sonhos tomam conta” para se dedicar a uma nova identidade artística: Antropoceno, um projeto experimental que chega agora ao seu disco “No Ritmo da Terra” – este trabalho é o segundo disco de uma trilogia em torno da obra e do pensamento de Ailton Krenak, iniciada em 2025 com o álbum “Natureza Morta”.

Para desdobrar todos os meandros desse trabalho, Lua destrinchou “No Ritmo da Terra”, seu disco assinado sob a alcunha de Antropoceno, em um faixa a faixa exclusivo e detalhado para o Scream & Yell. Confira agora:

01) Avamunha – A Avamunha é o nome dado ao toque dos atabaques que marca o início do xirê nos terreiros de candomblé. Sua dança conta a chegada dos orixás na Terra, e por isso o toque é utilizado para reunir e dispersar os filhos de santo. No contexto do álbum, essa Avamunha é dedicada para Exu, já que, na tradição do Candomblé, Exu sempre deve comer primeiro. Assim, já fica explícito a partir do primeiro momento o caráter espiritual dessas canções, elas são cultos aos orixás. O álbum busca fazer uma representação do Brasil através de sua cultura popular (de forma análoga a autores como Guimarães Rosa), encontrando na musicalidade da macumba uma representação metonímica das tradições populares.

02) Pe rembi’urama – Essa faixa dialoga diretamente com a arte de capa. O verso de abertura “Aju-ne ixé pe rembi’urama” foi uma frase proferida pelo colono alemão Hans Staden quando foi feito prisioneiro pelos Tupinambá, sabendo que tinham a intenção de devorá-lo. Ela é cantada da perspectiva de um fantasma: o empresário-pastor representado na arte de capa de Poty Galaco recupera a memória ancestral do missionário da pintura de Noé Leon (“Missionário sendo comido pela onça”, que inspirou a releitura de Galaco) e aceita seu destino: “A-î-potar îaguara syk-ûama xe iuká-rama resé” / “Eu quero que a onça chegue para me matar”. A representação gráfica desse contato entre a onça e o colonizador é uma alusão explícita ao caráter antropofágico do álbum. Essa imagem simboliza as reflexões defendidas no ensaio publicado como acompanhamento: “Um projeto de emancipação da produção cultural brasileira precisa passar pela desconstrução e, principalmente, pela subversão das influências ocidentais em prol da retomada de dispositivos ancestrais que são capazes de nos fornecer uma autonomia em construção de valores, princípios e subjetividades. Para isso, é necessário inverter as relações de conflito inerentes à prática sincrética, submetendo as tecnologias ocidentais e suas aspirações futurísticas aos interesses de nossa soberania.” Essa imagem dialoga com as gravações de pássaros, rios e outros animais da Floresta Amazônica para defender, de um lado, um realinhamento ontológico com a natureza: para que possamos desconstruir o excepcionalismo humano que enxerga os outros animais como seres inferiores, pensamento esse que permite a mentalidade extrativista que equivale o organismo abundante em vivacidade que é a floresta a um mero recurso a ser explorado. Por outro lado, as multinacionais e demais agentes imperialistas interessados em explorar os recursos naturais da Amazônia (a maior reserva de terras raras do mundo) precisam ter medo da floresta, entender que precisam deixá-la em paz, para seu próprio bem. Precisamos defender um projeto de soberania, para que os brasileiros possam ter autonomia sobre nossos próprios recursos – e possamos escolher não explorá-los. A floresta precisa ficar de pé, viva.

03) Ayaba Oxum – A música é dedicada para minha mãe Oxum, a orixá associada às águas doces, a beleza, o amor, as artes e o encantamento. Especificamente, Oxum Opara, a qualidade de Oxum que também está associada a Iansã, possuindo assim uma característica dupla de doçura e intensidade. Os orixás são forças da natureza, eles representam os mecanismos que constroem a sintaxe da vida. Oxum é o rio, e por isso ela é associada ao encantamento: é a força da criação que permite que a vida floresça ao seu redor. Nesta música, busquei sincretizá-la com o rio Amazonas, o que é refletido na estrutura do som: o rio nasce calmo, mas à medida que seus afluentes chegam, ele se torna mais poderoso. Na passagem instrumental, conforme o rio flui, mais e mais instrumentos de percussão entram na dança. Ao final da música, se torna esse som massivo que representa todo o poder do maior e mais volumoso rio do planeta. Os vocais não são meras palavras, são texturas que visam invocar a orixá. Enquanto repito essa cantiga de Oxum (muito provavelmente a mais popular, presente em diversos marcos da música brasileira que a homenagearam, como “O Canto de Oxum” de Vinícius de Moraes & Toquinho, “Man Ferimann”, do Metá Metá e “Canto de Oxum” de Maria Bethânia), a correnteza do rio fica mais forte, mais barulhenta e mais poderosa. Ao final da música, as vozes explodem em gritos, e o rio encontra o Oceano Atlântico: chegamos à Pororoca (do tupi: “explosão”), um fenômeno ensurdecedor que produz as ondas mais longas do planeta, devido ao seu enorme fluxo de águas.

04) Oyá Dewo – A música é dedicada para Iansã, a orixá associada aos ventos, raios e tempestades. Na primeira parte, é narrado o Itã (uma das histórias que justificam os fundamentos do Candomblé) onde Iansã cria o axexê, o rito funerário pelo qual os iniciados passam depois de morrer. A segunda parte da música, interpretada pela voz angelical de Gabi d’Oyá (nome quentíssimo da cena paulista de R&B e Neo-Soul), é uma cantiga tradicional para Iansã – do iorubá, “Marewo Oyá Dewo” significa que “Oyá chegou com o Marewo”, a folha sagrada do dendezeiro responsável por espantar as energias frias de espíritos perturbadores. Para proteger os vivos, Iansã afasta e conduz os mortos para o Orum.

05) Ìranti Odé – Essa canção foi formada pela união de algumas cantigas tradicionais do Candomblé para Oxóssi, o orixá da caça, da prosperidade e da busca por soluções na vida. Oxóssi foi muito importante para que o projeto de Antropoceno fosse possível, já que trouxe para perto de mim várias pessoas incríveis que deram contribuições essenciais. Uma delas foi Pai Viny, Ogan do terreiro que frequento (ou seja, uma liderança religiosa escolhida pelo orixá, responsável por tocar os instrumentos sagrados e performar as cantigas para os orixás durante os ritos do Candomblé). Essa música foi cantada por Pai Viny, tive a honra de receber sua participação especial nesse disco

06) Futuro Ancestral – A canção traz uma referência a duas cantigas para Oxum. Do iorubá, “Òsun e lóolá Ayaba imolè lóomi” se traduz para “Oxum, senhora que é tratada com todas as honras, senhora dos espíritos das águas”. “Ìyá dò sìn máa gbè ìyá wa oro” se traduz para “A mãe do rio a quem cultuamos nos protegerá. Mãe que nos guiará nas tradições e costumes.” O restante da letra é composto por trechos do livro “Futuro Ancestral” de Ailton Krenak e é através dessa música que sua filosofia se faz explícita. Ailton considera que a mentalidade extrativista que está sendo responsável pela destruição do planeta está intimamente associada a uma visão de mundo antropocêntrica que considera os humanos superiores aos outros animais e seres vivos do planeta. Para fazer uma defesa da floresta e dos demais recursos naturais que são indispensáveis para a manutenção da vida, é necessário um realinhamento ontológico com a natureza, ou seja, precisamos nos reaproximar das outras formas de vida e colocar nosso coração no ritmo da Terra. “O corpo de barro vai animar a maquinação do mundo A potência transcendente que suplanta a mediocridade, vamos experimentar a vida Vamos nos espraiar para outros organismos ao nosso redor Por confluências de narrativas, se há um futuro a ser vivido, ele é ancestral.”

07) Xe Anama (Coração no Ritmo da Terra) – Essa música é uma homenagem ao meu bisavô, um homem indígena que viveu 102 anos e teve a história das origens de sua família apagada, e à sua filha, minha querida avó. Sua letra é formada pela colagem de cinco textos que criam um diálogo entre si. O primeiro é uma entrevista que minha vó, Leontina Viana, concedeu para mim. Nessa entrevista, ela conta as lembranças que guarda de seu pai, sua família, e a vida rural que levava na sua infância, quando vivia na roça, refletindo com carinho sobre esse modo de vida em contato direto com a natureza. Em seguida, conta sobre uma viagem recente que fez para o município de Itaocara (RJ), onde cresceu. Ela conta sobre o estado de completo abandono que o lugar se encontra atualmente: os rios secaram, e aquele lugar que antes estava cheio de vida agora está morto. O segundo texto é um trecho de “Futuro Ancestral” onde Ailton descreve uma ideia do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: “A urbanização no Brasil é tardia. Ainda nas décadas de 1960 e 1970, havia campanhas para as pessoas saírem do campo e irem para os centros urbanos, o que acarretou um grande êxodo rural. Muita gente saiu da zona rural para liberar a área para o agronegócio e foi passar fome nas cidades. (…) o Brasil se especializou na produção de pobres. (…)” O terceiro texto é mais um trecho de Futuro Ancestral. “Não podemos nos render à narrativa de fim de mundo que tem nos assombrado, porque ela serve para nos fazer desistir de nossos sonhos, e dentro de nossos sonhos estão as memórias da Terra e de nossos ancestrais. (…)” O quarto texto é uma reinterpretação de “Se Anama”, uma cantiga tradicional do povo tupinambá cantada em Nheengatu, a língua geral amazônica – muito próxima ao tupi antigo, a língua geral paulista predominante na costa do Brasil durante os séculos XVII – XIX. Em tupi antigo, o pronome “se” (literalmente “eu” ou “meu”) é pronunciado como “xe”. Em ambas as línguas, a expressão significa “meu parente” ou “meu familiar”. O quinto e último texto é um poema que escrevi para meu bisavô. 102 anos de conexão com a terra, com esse solo Podem tentar te apagar, mas esse laço não vai se desatar Porque eu vou me lembrar, de ti recordar pra sempre Sua memória não vai se apagar, sua vida vai perdurar O rio pode até secar mas eu vou chorá-lo inteiro de volta O rio pode até secar mas eu vou chorá-lo inteiro de volta O rio pode até secar mas eu vou chorá-lo inteiro de volta O rio pode até secar mas eu vou chorá-lo inteiro de volta

08) A Terra e o Céu – O nome da canção faz referência à expressão “Abya Yala”, a forma que alguns povos indígenas da América do Sul se referem ao continente em que habitamos. O refrão da música reinterpreta um dos cantos mais famosos nas rodas de capoeira. Na letra da música, se fazem duas saudações (uma para a Terra, e outra para o Céu). Paraná auê, em tupi antigo, é uma saudação ao rio grande. Epa Babá, em iorubá, é uma saudação para Oxalá, o orixá pai associado ao ar e à criação da espécie humana e do mundo.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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