Rui Mendes é tema de documentário sobre rock no Brasil dos anos 1980

entrevistas e texto de Heloísa Lisboa

Rui Mendes, fotógrafo por trás de imagens icônicas da música brasileira, é tema do documentário “Retratos do Rock: Rui Mendes”, dirigido por Diogo Marques e Mariana Thomé. O projeto reconta anos da efervescência do rock em São Paulo por meio da memória de Rui e seus amigos próximos.

Nascido em Assis, interior de São Paulo, Rui estudou fotografia na Fort Vancouver Junior College, nos Estados Unidos, em 1978. Dois anos depois, retornou ao Brasil e ingressou na ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), onde dividiu salas de aulas com figuras como Paulo Ricardo (RPM) e William Bonner. Ele também escreveu na seção “Fotografe Sem Mistério”, do caderno de informática da Folha de S.Paulo.

Já para a Revista Bizz, o fotógrafo foi responsável por retratos icônicos de músicos e bandas como Raul Seixas, Renato Russo, Chico Science e Titãs além de clicar um encontro de Mike Patton (Faith no More) com Max Cavalera (Sepultura). Ele também fez fotos que foram usadas em discos de Kiko Zambianchi e Ira! (é dele a foto da capa do álbum “Mudança de Comportamento”, de 1985, aqui em outro take) tanto quanto registrou a cena punk paulistana do começo dos anos 80, em fotos de Inocentes, Ratos de Porão, Cólera, Lobotomia e Olho Seco, entre outros. No âmbito internacional, Nick Cave, James Brown, Seal, BB King e Franz Ferdinand também não escaparam de suas lentes.

Dois registros de Rui Mendes: Raul Seixas em 1987 e Nick Cave em 1992

Segundo Marques, a ideia do projeto nasceu enquanto filmava a série documental do Warner Channel “Cultura Pop Brasileira”, na qual Rui fala sobre o rock nos anos 1980 em um dos episódios. A partir desse contato, o diretor percebeu que o fotógrafo brasileiro “é o nosso Mick Rock”, fotógrafo britânico conhecido por retratar bandas de rock como Queen, David Bowie, Syd Barrett, Lou Reed, Iggy Pop, Sex Pistols, Ozzy Osbourne e Ramones, entre tantos.

Marques, então, juntou-se a Fernanda Stica e elaborou um argumento para ser apresentado à produtora PBA, que abraçou o projeto e viabilizou a filmagem do primeiro teaser de “Retratos do Rock: Rui Mendes”, ainda em 2019.

Negativos de uma sessão de fotos da banda Ira!

Os planos para o documentário, porém, foram atropelados pela pandemia de Covid-19 e a incompatibilidade com o que o mercado cinematográfico estava buscando à época. O diretor conta, por exemplo, que uma grande empresa de streaming manifestou interesse em embarcar na empreitada, mas não levou a parceria adiante porque o documentário não atende ao gênero true crime.

Neste ano, as produtoras Desterro Filmes e Driven Equation assumiram a dianteira. Nas duas primeiras diárias para filmagens, a equipe do longa-metragem recebeu Zé Carratu, Sandra Coutinho (As Mercenárias), Kiko Zambianchi, Clemente Nascimento (Inocentes / Plebe Rude), Marcelo Rubens Paiva e Artur Veríssimo no estúdio que Rui divide com o artista plástico Jey77, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo.

Sandra Coutinho revê negativos d’As Mercenárias em reencontro com Rui Mendes para o documnentário

Coutinho, que também frequentou a USP, conta que trocou um ensaio fotográfico por uma apresentação de sua banda, As Mercenárias, na chamada Festa do Gato Morto, em celebração à vitória da chapa Picaretas sobre a chapa Libelu do centro acadêmico da faculdade em 1982, quando o Brasil passava pelo processo de redemocratização. O nome do evento alude ao símbolo da Libelu, um gato, e à foto de um gato morto que Rui fez e usou para divulgar o evento.

Kiko Zambianchi, autor do sucesso “Primeiros Erros” — hit de seu álbum “Choque”, de 1985, que retornou às paradas nos anos 2000 ao ser regravada pelo Capital Inicial em seu “Acústico MTv” —, atribui a Rui sua introdução à cena roqueira dos anos 1980. “Eu era um caipirinha”, brinca o músico nascido em Ribeirão Preto. Em “Retratos do Rock”, Zambianchi também faz críticas à indústria musical, destacando que “não recebia o que merecia da gravadora”.

Rui Mendes exibe a arte do encarte do álbum “Quadro Vivo”, de Kiko Zambianchi, de 1986

Paiva completava um trio inseparável com Rui e Kiko. Ele conheceu o fotógrafo na USP, quando se recuperava do acidente que o deixou tetraplégico. Segundo o escritor, foi Rui quem “deu o tom” de como pessoas com deficiências deveriam ser tratadas. Ele lembra ainda que foi a partir dessa amizade que passou a frequentar clubes noturnos como o Madame Satã, Napalm e Carbono 14: “Não havia barreiras arquitetônicas”.

Entre as parcerias profissionais de Rui e Marcelo está a foto que estampa a capa de uma das edições de “Blecaute” (1986): um pôr do sol em Divinópolis, Minas Gerais, de cabeça para baixo. Além disso, o apartamento que o jornalista comprou com o dinheiro de “Feliz Ano Velho” (1982) serviu de casa para Rui e Kiko em diferentes fases de suas vidas. Já a casa do fotógrafo no Edifício Copan foi locação para diversas festas badaladas.

Capa de “Blecaute’ (1986), segundo livro de Marcelo Rubens Paiva, e João Gordo em um registro de 1992

Com Veríssimo, Rui viajou o mundo fotografando composições que ilustraram reportagens da Revista Trip. Os dois lembram com detalhes de aventuras que viveram em países como Papua-Nova Guiné, Índia, Filipinas e Tailândia. “Todo mundo era Debbie Harry e Iggy Pop”, diz o jornalista sobre as ondas alternativas que surgiram nos anos 1980. Para Veríssimo, Rui “é como um polvo: estava em todos os lugares”.

A quase onipresença de Rui foi um dos desafios que os diretores do documentário encontraram pelo caminho. “Organizar, selecionar e estruturar esse material de modo que faça sentido no filme é um trabalho minucioso, mas também super gostoso”, pondera Thomé, que assumiu a co-direção do projeto no lugar de Breno Castro após a pandemia.

Ela completa: “Produzir documentário no Brasil nunca é simples. A gente esbarra em burocracia, concorrência altíssima nos editais e na dificuldade de levantar recursos no tempo certo. Tivemos recusas, sim, mas também conquistas, como sermos aprovados na Lei Paulo Gustavo em Florianópolis e em algumas leis de incentivo”.

Clemente revendo negativos dos anos 80 ao lado de Rui Mendes

Apesar de sua carreira ser associada principalmente ao rock, Rui confessa que seu trabalho favorito é “Entrudo”, que registra o carnaval do Rio de Janeiro por meio de cenas pouco exploradas na Avenida Rio Branco e no túnel Santa Bárbara. A coleção de fotografias integrou exposições no Museu Nacional de Belas Artes e na Pinacoteca do Estado de São Paulo, entre 2003 e 2005.

“Existe uma urgência em registrar essas histórias agora, enquanto ainda podem ser contadas pelos próprios protagonistas. Muitas das pessoas que fizeram parte dessa cena já estão envelhecendo, algumas já se foram, e seria muito triste perder essa memória”, explica Thomé sobre a motivação para completar o documentário.

Para a co-diretora, “o filme é uma forma de lembrar e afirmar a importância dessa produção cultural no imaginário coletivo”. Rui, por sua vez, acredita que “toda parte do rock é muito importante”.

“Retratos do Rock: Rui Mendes” tem previsão de lançamento em festivais nacionais e internacionais entre o final de 2026 e o início de 2027. Além de Marques e Thomé, a equipe é formada por Beatriz Dubiella, Pedro Cruz, Rafael Thomaseto, Helena Sardinha, Mariana Cobra, Gabriel Forgerini, Fernanda Stica, Acauã Araújo, Leandro Vaz, Marcus Vianna e Tatiana Azevedo.

Heloísa Lisboa é jornalista com passagens pela Folha de S.Paulo e Rolling Stone Brasil

3 thoughts on “Rui Mendes é tema de documentário sobre rock no Brasil dos anos 1980

  1. Que maravilha de matéria. Lembro das fotos de rui na bizz. Sempre chamavam a atenção. E como cineasta sei exatamente o que são essas dificuldades pra se levar adiante esse tipo de produção.

  2. Documentário muito importante e fundamental num país que quase nunca sabe reconhecer os grandes talentos

  3. Não teve nenhum fotógrafo que trabalhou mais e ajudou na divulgação das bandas de rock brasileiras que Rui Mendes.

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