texto e fotos de Fernando Yokota
Em 2025, estudo da Organização Mundial de Saúde estimou que um bilhão de pessoas teriam problemas de saúde mental no mundo com a ansiedade e seus distúrbios associados integrando considerável parte dessa estatística.

Contemporânea da endemia mental, Courtney Barnett é o arquétipo millenial de quem perdeu o bonde da bonança boomer e bebe, come e respira a ansiedade em todas as suas modalidades. “Creature Of Habit” (2026), seu quarto álbum de estúdio (desconsiderando “Lotta Sea Lice”, lançado com Kurt Vile em 2017, e “End Of The Day”, trilha sonora para o filme “Anonymous Club” de 2023), não deixa de lado a angústia, mas traz, desta vez, um tom menos existencialmente caótico.
Longe de ser um voo de cruzeiro, o álbum não é o desfile em caminhão de bombeiro de quem venceu na vida e os temas recorrentes continuam em circulação: sentir que está regredindo (“Stay In Your Lane”), o turbilhão de pensamentos invasivos (“One Thing At A Time”), o charlatanismo das platitudes da auto-ajuda posmoderna (“Great Advice”) aparecem com a sagacidade de sempre, mas com as arestas um pouco mais aparadas, longe da sensação de “será que está tudo bem com ela?” dos tempos de “Tell Me How You Really Feel”.
Musicalmente, “Creature Of Habit” é uma recapitulação da carreira, com elementos que remetem a momentos anteriores da discografia da australiana. “Great Advice” tem os versos falados/resmungados tão característicos dos tempos de “Sometimes I Sit And Think, And Sometime I Just Sit” (2015); em “Another Beautiful Day” e seu solo de 16 compassos recolocam a guitarra em primeiro plano bem como em “Stay In Your Lane”, primeiro single do álbum, com baixo e guitarra copiosamente carregados de fuzz.
Flea (aquele) toca baixo em “One Thing At A Time” e consegue imprimir sua marca jogando para o time: seu timbre acrílico está lá, mas não destoa do conjunto, dando o brilho extra especialmente ao solo de guitarra nos compassos finais da canção. Para “Site Unseen”, Barnett recrutou Katie Crutchfield (Waxahatchee) e a doçura da harmonização das vozes se encontra com a característica bateria sincopada de Mozgawa.
Menos experimental que “Things Take Time, Take Time”, de 2021, “Creatures Of Habit” é o segundo álbum que conta com Stella Mozgawa (Warpaint) tocando e coproduzindo e ao contrário do ensimesmado álbum anterior, no geral tem canções que se projetam para fora se comparado ao seu pandêmico antecessor, mais para trilha sonora de estrada do que música de escutar no quarto. Refrões e melodias grudentas (“Sugar Plum”) e arranjos animados (o irresistível baixo em “Same”) deixam transparecer que, depois de uma longa e interminável pandemia, o sol da Califórnia (sua residência atual) enfim paga os dividendos da vitamina D nas composições de Barnett.
Qualquer um que tenha lidado com tratamento de ansiedade sabe que o processo por vezes é a mais inexata das ciências: o tratamento que serve para um não funciona para outro e o paciente pula de um medicamento para outro como o Homem-Aranha troca de teia até que um dia o barulho diminui e o mundo parece parar de girar alucinadamente. Ainda cismada com o mundo, o único nirvana na vida de Courtney Barnett é aquele com o n maiúsculo mas o ansiolítico, enfim, parece fazer o efeito esperado.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

