Três discos: Joyce Moreno 1971, 1972, 1975 – por ela mesma

textos de Joyce Moreno

“EP”, Joyce (1971)

Era 1971, e eu tinha acabado de ser mãe pela primeira vez. Estava bastante exausta, como se vê na foto, pois não tinha ajuda nessa empreitada – fraldas, amamentação, noites insones e tudo o que envolve uma maternidade de primeira viagem – mães entenderão… Mas, mesmo assim, dei conta de gravar um compacto duplo (que hoje se chamaria EP) contendo quatro canções, com a formação instrumental de parte do recém terminado grupo A Tribo, do qual eu participara. No repertório, “Caqui”, de Danilo Caymmi, “The Man from the Avenue”, de Nelson Angelo, “Adeus, Maria Fulô”, de Sivuca e Humberto Teixeira, e a primeiríssima gravação de “Nada Será como Antes”, dos amigos Bituca e Ronaldo Bastos, que logo depois o autor também gravaria. (Nota do editor: em 2011, o selo Discobertas lançou a coletânea “Curriculum“, que reunia 20 canções extremamente raras de Joyce, lançadas em discos de festivais, trilhas sonoras, álbuns coletivos (com o Sambacana e também A Tribo) e compactos, incluindo esse de 1971, que empresta a capa para o relançamento. Das quatro faixas do compacto, porém, uma ficou inexplicavelmente de fora: “The Man from the Avenue”, de Nelson Angelo. Joyce a regravaria em formato vinheta com Nelson no disco dos dois de 1972 (abaixo), mas essa versão do compacto de 1971 permanece inédita nas plataformas – mas a própria Joyce subiu a canção em seu Youtube).


“Nelson Angelo e Joyce”, Nelson Angelo e Joyce (1972)

1972, e a Odeon me chama para uma reunião. O diretor artístico, Milton Miranda, simplesmente me oferecia a chance de gravar um álbum produzido por meu brother Bituca, que já sabia disso e tinha adorado a ideia. Mas eu tinha um bebê em casa e acabara de engravidar pela segunda vez. A vida estava complicada e eu não estava conseguindo compor naquele momento. Ia ficar tudo meio mais ou menos… e diversos outros problemas domésticos adviriam, caso este passo fosse dado. Agradeci, expliquei o momento e fiz uma defesa enfática das pessoas que eu achava que ele deveria contratar: Beto Guedes, Toninho Horta, Danilo Caymmi, Novelli e o pai das minhas filhas, Nelson Ângelo. Todos em plena efervescência criativa, e doidos pra gravar. Milton Miranda ouviu, agradeceu, e semanas depois surgiam na gravadora dois projetos: um juntando Beto, Toninho, Danilo e Novelli, e outro de um álbum meu em dupla com Nelson. Considero até hoje que este álbum, “Nelson Ângelo e Joyce”, não é de fato um álbum meu: estou ali como uma espécie de vocalista convidada, e com apenas uma música autoral (“Meus Vinte Anos”, parceria minha com Ronaldo Bastos, onde nem sequer toquei violão. Aliás, só fui ao estúdio para colocar as vozes…). A gravadora, na época, não percebeu – mas na verdade era um álbum do Nelson, as ideias e o repertório são dele. Minha voz está ali presente, como outra cantora talvez poderia estar. Mas de algum modo, ao longo do tempo, tornou-se um álbum cult, como outros também se tornariam mais tarde. Tem suas belezas e representa bastante aquele momento meio “psicodélico”, como as pessoas acham. E o elenco é praticamente o mesmo do álbum “Clube da Esquina”, com todos tocando tudo ao mesmo tempo ali. Ouça aqui.


“Passarinho Urbano”, Joyce (1975)
Em 1975, depois de uma longa parada em que tive duas filhas e fiquei inteiramente dedicada à maternidade, já era hora de voltar ao batente. Estava novamente solteira, e com duas crianças pequenas dependendo de mim. A retomada prometia ser difícil. Vinícius de Moraes, meu amigo querido e padrinho musical, veio me tirar deste impasse, com um convite salvador. Ele fazia um show chamado “Poeta, moça e violão”, onde o violão era seu parceiro Toquinho e a moça variava – diversas cantoras bacanas já haviam ocupado esse posto. Mas surgiu uma temporada no Uruguai e na Argentina, e Toquinho tinha outros compromissos, portanto o Poeta precisava de uma moça que pudesse ser o violão também. Era perfeito pra mim. Deu tão certo, que quando surgiu uma turnê na Europa, com Toquinho já de volta, os dois me convidaram para continuar. Os violões passaram a ser dois. Começamos pela Itália, onde o produtor Sérgio Bardotti, grande letrista e versionista oficial de Vinícius em italiano, tendo gostado do que ouviu, me convidou para gravar um álbum produzido por ele. Naquele momento eu não tinha repertório autoral para apresentar, então comecei a selecionar músicas de amigos que estavam sendo tremendamente censurados naquele momento pela ditadura militar brasileira. Nascia ali o álbum “Passarinho Urbano”, com canções de Caetano, João Bosco e Aldir Blanc, Chico Buarque (e seu alter ego, Julinho da Adelaide), Milton Nascimento e Ruy Guerra, Sidney Miller, Maurício Tapajós, Hermínio Bello de Carvalho, Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola, Carlos Lyra e Vinicius… e uma série de sambas antigos servindo de vinhetas entre as músicas, mais um poema de Mário Quintana musicado por mim. Um álbum que se tornaria cult ao longo dos anos, e que recentemente teve uma lindíssima reedição em vinil pela Três Selos. Foi minha retomada, minha volta – amo muito esse trabalho!

Os vídeos abaixo são do show “Passarinho Urbano” no Sesc Vila Mariana em 2024

 

 

 



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